domingo, dezembro 31, 2006

um punhado de coragem e as bençãos de Deus



É do que preciso em 2007.
Coragem porque percebi neste ano que hoje finda ter muito mais coragem do que pensava - e gostei disso. Tomei decisões, livrei-me do que há muito me incomodava, ousei. Renovei, na prática, minha idéia de não fazer concessões ao que repudio, como deselegância e falta de ética, por exemplo.
As bençãos porque sem elas não vivo. Nunca são demasiadas; quanto mais, melhor.
2006 foi um bom ano.
Que 2007 seja melhor ainda.
Feliz ano novo para todo mundo!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

lá em casa

aqueles pardais
a gralhar na janela,
a me acordar às cinco da manhã
e também as araras roucas
a ronronar como um gato
na outra janela, às duas da tarde
eu jurei ter visto um tucano
(tinha bico comprido de tucano)
pousado no fio de luz
defronte lá de casa
que fica no Jardim Botânico

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Cê!


para espantar este tempo grísio que se abateu sobre o Rio de Janeiro e sobre o País,
para ver um grande artista em cena, em ótima forma, com uma jovem e vibrante banda,
para ouvir seu novo recado para o mundo, sua dor, sua delícia,
enfim, para fechar o ano, abrir o verão e começar 2007 com o pé direito:

"Cê", de Caetano Veloso, no Circo Voador ontem!

segunda-feira, dezembro 18, 2006

duas ou três coisas que pensei para você

Querida, você se separou. Curioso, sempre achei que teria eu em minha biografia vários ex-maridos e vários filhos de vários ex-maridos. Suspeitava que esta seria minha vida. Suspeitava e temia, mas nada disso me aconteceu.
Aconteceu com você, mas nem tanto. Um par de ex-maridos não é demasiado, e já já acho que vou conhecer um marido seu, e um marido é sempre alguém potencialmente "ex". Infelizmente, não conheci nenhum deles. Nestes mais de vinte anos que não nos vimos aconteceram tantas coisas, dentre elas seus casamentos e o meu.
Você se diz meio aflita porque gosta da companhia masculina e não anda vendo muitas opções, o queixume das mulheres separadas que, dito por você, reconheço que ganha verossimilhança. Sim, nunca vi você estar em falta da companhia masculina, bem ao contrário.
É que o tempo caminhou, as exigências se avolumaram, não é qualquer currículo que pode ser apresentado a você com alguma chance. A vida às vezes se sofistica.
Então estive aqui matutando sobre este assunto, matutando, matutando... E me ocorreram alguns lugares, algumas situações em que você poderia encontrar candidatos a currículos. Como sempre, escrever organiza este caos que é a minha cabeça quando pensa vibrantemente.
Clubes de brigde, por exemplo. Duvido que alguma vez tenha ocorrido a você aprender este intrincado jogo de cartas que, a exemplo do golfe, não parece muito animador. Porém, como seus adeptos amam de paixão, deve ser muitíssimo interessante, e não se tem notícia de muitas jogadoras de brigde. Talvez uma lá que outra.
Aliás, o golf mesmo, com a vantagem de se caminhar naquela linda e verdejante relva, naturalmente debaixo de quilos de filtro solar. Suspeito que seja muito relaxante, sempre foi o esporte preferido de meu pai. Golfistas mulheres ainda são minoria.
Militância política. Nunca pensou, não é? Creia-me, é um universo eminentemente masculino. Há poucas mulheres neste ramo e são sempre muito bem-vindas. Outro dia estive num evento político-partidário e nunca havia visto tanto homem junto. Parecia a versão masculina do 'Shopping Vertical', lugar que me proporcionou a incrível visão de recorde de ajuntamento feminino por metro quadrado. Quanto ao partido, não sei, difícil escolher. A vantagem desta opção é ser baratinha: basta se inscrever e comparecer às reuniões, sobretudo às plenárias. Muitas, muitas chances.
Inscrever-se num curso de arbitragem de futebol. Acha apelativo? Não se você tiver verdadeiro interesse pelo esporte. Ontem ouvi uma prima minha argumentar com tanta desenvoltura sobre o desempenho de um jogador que fiquei pasma. Tem mulher que realmente gosta de futebol.
Coisas bizarras. "Real Gabinete Português de Leitura", piscinas de hotéis. Feiras de produtos orgânicos. Aeromodelismo. Trabalho voluntário. Observação de pássaros, coleção de relógios, clube de tiro. Viagens de navio. Namoros internacionais.
Começo a temer que este assunto vire uma obsessão minha. A última idéia por hoje, para não te cansar: reuniões de ex-colegas de escola, faculdade etc. Jovem também tem saudade e uma sessão flashback pode dar um caldo.
Honey, a gente se fala.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

esparrelas de fim de ano

- participar de todas as listas de Natal;
- freqüentar todos os bazares de Natal;
- gastar todo o 13º em inutilidades;
- não comprar sequer uma mísera inutilidade com o 13º;
- empanturrar-se com aquela comida mixórdia de Natal;
- tomar caipirinha na festa de fim de ano do trabalho e sorrir até os últimos molares;
- dançar na festa de fim de ano do trabalho após duas caipirinhas;
- fazer discurso de confraternização na festa de fim de ano do trabalho após três caipirinhas;
- comprar presente de última hora em shopping;
- saber que não vai haver festa de Natal após comprar todos os presentes;
- gratificar o lixeiro errado;
- fazer lista de resoluções;
- fazer lista de realizações;
- emocionar-se com jingle bells;
- esquecer o verdadeiro sentido do Natal.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

p.s.

quero verter o mundo pelos meus olhos
para que ele se liquefaça em lágrimas
às vezes é preciso lavar a alma
ao ensejo do nada e sem drama

quero que vc entenda, sou assim mesmo
choro um tanto, silencio um pouco
não sinta culpa por meu excesso de sensibilidade:
é aquilo que em mim tanto admiram
mas que em nada valoram

nos olhos dos outros, é refresco

quarta-feira, novembro 08, 2006

incerto

pelo sim, pelo não
deixo a chave na porta:
vai que você volta
e te dou meu perdão?

quarta-feira

a cidade gira
a britadeira irrompe a manhã
a vistoria do carro, o táxi perdido, o horário
o estresse-pão de cada dia
o trabalho
o almoço, o drinque na Lapa
um porrezinho
o excesso de velocidade, a desculpa esfarrapada, a gafe

e o celular esquecido
e a confissão do amigo
e o travesseiro
e amanhã...

a cidade gira

sábado, novembro 04, 2006

aquela tua foto

Foi naquele dia que dormi de olho aberto, quer dizer, desde aquele dia. Comecei a ver um buraquinho, depois cresceu, cresceu, e era o encosto de palhinha da cadeira de balanço. Desde aquele dia que eu respirava sôfrega fazendo inalação para conseguir colocar algum ar em meus brônquios alquebrados. Desde então que penso como vocês são bonitos naquele momento instantaneamente eternizado.
Aquela foto, é dela que falo. Ficou tão bonita que não quis colocar num porta-retrato, tão bonita que não quis dependurar no painel, tão linda que fiquei vagando com ela nas mãos pela casa até ficar tarde e eu ficar cansada porque já não respirava mais. Foi desde aquela noite em que a música tocou até de manhã na casa do vizinho de trás e eu me embalei com aquelas canções de que gostei tanto.
Daquela carta tua que encontrei dobrada no canto da gaveta, é dela que falo. Vocês me mandaram a foto, nós todos tão bonitos e tolos, e depois de ler a carta e olhá-la, e olhá-la, é que fiquei naquele estado siderado, fora de órbita, dormindo de olho aberto, sentindo um não-tempo, presa num vácuo tépido e gostando daquilo.
Desde aquele dia que dormi de olho aberto que parece que não acordei até agora, porque fico pensando na foto e em nós naquele momento.
Vou fechar os olhos para ver se acordo um pouco.

terça-feira, outubro 31, 2006

quando?

na praça em que há um chafariz incrível
na esquina em que se ergue uma palmeira inóspita
ao lado do Edifício Argentina
perto daquela igreja gótica
em frente ao sinal onde a louca esbraveja intrépida
ali, no lugar em que eu estacionava o carro

tudo isso só pra te perguntar
(se é que ainda não deu pra perceber):

quando é que a gente se vê?

sábado, outubro 28, 2006

... e o jornalista não quis me conhecer

Não houve jeito, bem que eu tentei. Acreditava em afinidades descobertas de formas inusitadas, e como não havia jamais trafegado neste universo bloguiano, pensei why not? Afinidades encontram-se por si próprias, não precisam, necessariamente, de seus donos para identificarem-se. Como seres farejadores, teriam elas, à sua própria conta e sorte, se identificado. A nós, apenas restaria render-se a esta realidade para lhe concedermos uma chance de encontro, se é que têm mesmo vida própria.
Mas ele não quis, ainda que eu tenha tentado. Antes disso era engraçado, porque não raro eu pensava em algo e ele escrevia; observava uma novidade interessante ou inóspita, ele apontava; de tal forma essas coincidências se manifestavam que um ser rastejante freqüentador de seu blog, alguém que depois soube ser meu detrator, insinou que éramos a mesma pessoa. Ali naquele estranho universo, onde as identidades parecem se misturar.
E o cara é de 70, geração com quem, por razão que não me ocorre, tenho muitas coisas em comum. Oscilo entre ter nascido um pouco antes da época ou estar um pouco atrasada em minha, digamos, evolução. Não sei, tampouco quero saber, mas o certo é que os nascidos em 70 têm em mim uma admiradora e alma afim. Aliás, isso de ser ele mais novo me parecia muito bom: nunca olhei para alguém mais novo do que eu como alguém factível para um romance comigo, e não era nem de longe romance o que eu queria com ele, porque, de resto, estou muito bem como estou e com quem estou. Não era nada disso e ele sabia.
Ah, é verdade, o e-mail. Mandei-lhe um em que o convidava para um café e no qual reiterava a afinidade nossa, algo a que talvez não tivesse atinado. De um jeito meio atravessado, porém direto, esclareci que não pensasse haver qualquer flerte meu. Dele tive como resposta a informação de que andava atarefadíssimo, escrevia uma sinopse e que em seguida entraria de férias. Disse de forma amigável e simpática que eu aguardasse.
Eu aguardei e nada, o que me conduziu a um “e aí?”, forma carioca de perguntar ao interlocutor se está se lembrando daquele compromisso que ficou para quando e se. E aí me disse ele, deslavadamente, que a última coisa que queria na vida era um blind date intelectual, verdadeira porta de entrada para uma sessão de constrangimento e tortura. Sugeriu que se encerrasse a história ali mesmo. Quer dizer, isso não disse assim, mas desta forma foi compreendido. “Pena”, pensei. "Pena".
Porém, a sorte retorceu um pouco as coisas e, ao ler sua última crônica, percebi algo que não antevira antes: é dado a feudos, a "sub-máfia" como alcunhou o que antes se chamava "panelinha", a turma, talvez... séquito. Um abismo entre nós, que sou mais afeita a uma diversidade.
Quer saber? Tant pis.

segunda-feira, outubro 23, 2006

vênus

Sobreveio a hora da estrela
quando nasce Vênus
quando parece mágico o lusco-fusco
pulsam alertas as primeiras luzes da cidade
logo escurece a montanha adiante.

Então lembrei que me chamaram “moça”
num anoitecer exatamente como este
entre tantos prédios e pessoas e carros
me virei assustada
e era você.

Você.

sábado, outubro 14, 2006

a utopia de um tio-avô


Ele me fala das coisas de sua fazenda, achando graça em minha pergunta sobre quantos quilos um pé de café é capaz de produzir, mostra-me o que foi recentemente roçado, o barranco que caiu adiante, a reforma que fez na casa, os bezerros recém nascidos e seu melhor touro. Circunda toda a sua propriedade em seu fusquinha-branco-expresso, subindo e descendo aquelas montanhas lindas de doer. Que saúde.
Acende a iluminação do terreiro do café à noite e para lá me despacha, dizendo, com ligeiro sarcasmo, que não devo temer os cachorros, basta pedir a São Roque, que de mim os afastará. Seria um pecado perder aquela noite estrelada; portanto, que vá ao terreiro dar umas voltas e digerir o jantar. Logo.
Ama sua mulher e sua família com vigor e doçura. Não é sempre que se vê isto quando, sendo hóspede, se irrompe a intimidade dos anfitriões. E o silêncio não lhe pesa, como tampouco à minha tia; significa, apenas, um certo cansaço do dia que começou com a aurora.
Ouvi-lo me chamar “ô, menina!” é música para meus ouvidos. Não que eu não me sinta uma, antes muito pelo contrário - é assim que me sinto amiúde e me admira ser constantemente tratada por “senhora” - mas aquele “menina” é tão sincero que um dia, ao lhe revelar minha satisfação por receber um tratamento que considero tanto verdadeiro (oh, imodéstia!) quanto incomum, recebi em resposta uma reação sua lapidar: “ora, mas se você nasceu ontem de quem nasceu anteontem...”
A verdade é que isto só poderia mesmo vir de um tio-avô, de um tio-avô muito querido, que compartilha comigo a idéia de ser uma diletante nesta vida (o somos todos), porque só um tio-avô tão dileto poderia me explicar coisas que ignoro achando que é suposto que as ignore. Porque depois dos quarenta parece que de tudo e de todos se deve saber.
Sua generosidade, porém, faz ser verdade a utopia de que carrego e carregarei vida afora a criança que temporalmente fui um dia.
Afinal, eu nasci ontem e meu pai, anteontem.
A benção, Tio Zezé!

quarta-feira, outubro 11, 2006

queria ser uma mulher de Almódovar



Elas são sempre lindas, ainda que não no sentido tradicional da coisa: narizes grandes, feições irregulares, bocas escancaradas. Às vezes, mulheres que sequer são mulheres. Um tanto fakes, meio detonadas, bem histéricas.
Mas são lindas. Emocionam, cheias do que se costuma dizer feminilidade; carregam um drama triste, uma densidade que se atribui apenas às mulheres.
Ele consegue deixá-las acima do bem e do mal.
E pensar que fazia fotonovelas antes de virar cineasta e que escreveu um livro (“Fogo nas Entranhas”) completamente sem pé nem cabeça, cujo ponto central da trama é uma fábrica de absorventes íntimos que deixa as mulheres no cio. Madri ferve numa certa noite de lua cheia, há orientais envolvidos, uma mixórdia. Li este livro, prefaciado por Regina Casé, enquanto esperava o início de uma audiência. No foro de Niterói, valha-me Deus.
Falam sobre as mulheres de Fellini, do mistério das musas da Nouvelle Vague, das estrelas de Hollywood, mas permito-me confessar mais esta tolice: uma mulher de Almodóvar é o que eu queria ser.
Quando crescer, quem sabe?

química

uma pílula, um comprimido,
uma drágea, umas gotas,
uma vacina, um emplastro
um ungüento:
algo que estanque
esta dor
aqui dentro

quinta-feira, outubro 05, 2006

O De-Tantra



Recebo um milhão de mensagens de auto-ajuda por e-mail. Não compreendo se me remetem porque acham que eu preciso de ajuda ou se é porque pensam que gosto de assuntos de auto-ajuda. Como quer que seja, é estranho, porque, perversamente movida pela curiosidade, eu tomo um tempo e leio essas mensagens. Quase todas.
São uma nova forma de oráculo. São oráculos pós-modernos, imediatistas e sem compromisso, como convêm aos oráculos. Nada de muito trabalho, de muita despesa, de muito tempo. Respostas rápidas para consultas cruéis e/ou banais (devo ou não trocar de emprego, marido, cidade, país, a cor do cabelo), com a vantagem de não precisarem do jogador do tarô ou do reprogramador cármico. Sem intermediários, você está sentado diante de seu computador, recebe a mensagem e a iluminação é imediata. Sem sofrimentos. Sem precisar exercer a autocrítica e perceber o que é desagradável a seu respeito.
Enfim, diante desta enxurrada de aconselhamentos (gratuitos), observei que tem conselho para todo o lado: ora você deve comer assim e assado, ora de nada deve se privar, ora deve entender o próximo, ora manifestar seu descontentamento com ele.
Recebi outro dia, pela enésima vez, um tal de "Tantra Totem", que não deveria permanecer em 'minha máquina' muito tempo. Porém, se eu o enviasse a "0 a 4 pessoas" minha vida melhoraria de alguma forma. Zero a quatro pessoas.
Pinçei alguns dos conselhos deste texto e escrevi o que acho que poderia ser outro Tantra. O De-Tantra, ou a Desconstrução do Tantra, que está em itálicos.
- Coma muito arroz integral
Não se prive de nada, mas tenha moderação em tudo. Se tiver que se privar, não o faça além de suas necessidades.
- Dê as pessoas mais do que esperam e faça-o com gosto.
Não dê as pessoas tudo o que elas esperam de você, mas apenas na medida de seu próprio amor e amizade. Você não é obrigado a atender as expectativas alheias o tempo todo.
- Não acredite em tudo o que escuta, não gaste tudo o que tens, nem durma o quanto quiseres.
Não despreze o que chega a seus ouvidos, o acaso é um instrumento divino. Desapegue-se de seus bens e acredite na Providência Divina. Lembre-se de dormir o quanto precisar, o sono é o melhor dos remédios.
- Jamais ignore os sonhos dos outros;
Não ignore seus próprios sonhos e anseios.
- Não julgue os demais pelos seus parentes;
Perceba a família de seu próximo, ela dirá muito sobre ele.
- Fale lentamente, mas pense com rapidez;
Pense com vagar, seus pensamentos serão mais claros e nítidos.
- Ligue para seu pai, para sua mãe. Se isto não é possível, ao menos pense neles;
Libere seus pais de suas demandas. Entenda que a vida é um ciclo e que eles querem se sentir recompensados por todo o trabalho que tiveram com você.
- Quando você perceber que errou, faça o que for necessário para consertar seu erro. Imediatamente.
Não sobrevalorize seus erros, os problemas tendem a se resolver por si só. Apenas peça desculpas se tiver ofendido alguém.
- Passe algum tempo em solidão.
Desfrute da companhia de quem vc gosta sempre que puder. Tente sempre estar cercado daqueles que você mais gosta.
- Viva uma boa e honesta vida. Assim, quando estiver velho e lembrar do passado, vai ver como o desfruta pela segunda vez.
Não pense no passado e tente forjar seus pensamentos para não viver das lembranças passadas. A vida é aqui e agora.
- Faça o possível para ter um lar tranqüilo e harmonioso.
Não se desespere perante as disputas domésticas. Dê lugar para o contraditório no seio de sua família. Conviva com as diferenças e ensina teu próximo a fazer o mesmo.
- Leia entre linhas.
Não tente compreender aquilo que não lhe foi comunicado diretamente. Saiba aguardar.
- Se ocupe de seus próprios assuntos.
Ocupe-se dos assuntos alheios e alguém se ocupará dos seus quando vc precisar de ajuda.
- Case-se com uma pessoa que goste de conversar, pois quando chegar à velhice, as habilidades de conversador vão ser mais importantes que qualquer outra.
Case-se com alguém que goste de conversar para estabelecer uma boa comunicação desde o início do casamento. A comunicação é algo que se constrói. Até lá, aproveite os prazeres da carne que apenas a juventude permite.
Espero que tenham todos tido uma imediata e profunda iluminação.

quarta-feira, outubro 04, 2006

domingo, outubro 01, 2006

Santa Teresinha


Hoje, 1° de outubro, é seu dia.

Viva Santa Teresinha do Menino Jesus, a santa da pequena via, padroeira dos missionários!
Burguesa e bonita, renunciou à sua vida de conforto e optou pela simplicidade da vida em reclusão.
Inteligente, dramaturga e poeta, formulou a doutrina da "Pequena Via", revolucionária, pela qual diz não ser preciso muito esforço para se estar próximo do Criador - Ele está em tudo, em toda criatura.
Moderna, percebeu que no Século XX a cada um competiria uma pequena parte para fazer esta grande máquina girar. Cada um que tomasse a sua, todas são necessárias.
Cômica, vivia rindo. Era pura alegria.
Ousada, foi a Roma pedir ao Papa para entrar no Carmelo com quinze anos. A permissão não lhe foi dada, mas ela entrou assim mesmo.
Santa Teresinha é muito próxima.
Viva Santa Teresinha!
p.s. já que falo de santos: gosto deles pela fé, pela santidade adquirida, pela capacidade de renúncia. Embora vez por outra eu seja alvo de algum sarcasmo por causa de minhas devoções ("você e seus santos"), ainda que muito raramente fale delas, estes mesmos sarcásticos vez por outra me pedem para orar por eles. Já observei que quem não tem fé gostaria de tê-la.

sexta-feira, setembro 29, 2006

São Miguel Arcanjo



Viva São Miguel, arcanjo de Deus!
Viva São Miguel, chefe da milícia celeste!
Livrai-nos de todo o mal e iluminai sempre os nossos caminhos.
Viva, viva, viva!

(29 de setembro, dia dos Arcanjos do Senhor)

terça-feira, setembro 26, 2006

abrigo

abrigue-me em teu silêncio
é nele que quero estar
e já não precisarei do mundo

guarda-me em tua calma
conforta-me em teu peito
aloja-me em teu repouso

o amor não precisa de muito

Síndrome do Concursado

Não é difícil deparar-se com alguém que enche a boca para dizer "sou concursado". Deve parecer-lhe que, em termos de colocação profissional, ostenta um plus em relação ao resto da torpe humanidade. Provavelmente se esquece que talvez este torpe resto da humanidade tenha feito esta opção deliberadamente. Que tenha preferido trabalhar na iniciativa privada. Que seja um empreendedor, um profissional liberal. Enfim, o certo é que o portador da síndrome certamente pensa que esta mesma humanidade é um bando de incompetentes que não passa no concurso em que, ele sim, conseguiu aprovação.
É claro que não são todos assim e é óbvio que não estou generalizando.
Recentemente, eu fui aprovada num concurso público com uma boa colocação. Não creio, porém, que vá ser chamada, mas isso não vem ao caso. Vem ao caso que, se não for convocada, não poderei, infelizmente, exibir a marra de dizer "sou concursada" e, assim, espalhar minha síndrome por aí, em expediente de humilhação à medíocre humanidade.
Mais recentemente ainda, soube de uma boa razão para fazer um concurso público cujas inscrições estão abertas: o salário inicial é de 21 mil reais. Já pensou? Poder dizer "sou concursada", ganhar bem, não ter horário...
Não admira tirem essa onda.

quinta-feira, setembro 21, 2006

o português, este destratado

ou " as pérolas atuais do vernáculo":

Na verdade...
(algumas pessoas iniciam 99% de suas frases com esta expressão);

Na verdade, o que que acontece...
(ligeiro acréscimo à expressão acima, empregado com a mesma intensidade da anterior);
O que que acontece...; e

A fulana, ela viajou...
(aqui eu me pergunto qual a razão desta sofisticação, já que separar o sujeito do predicado por vírgula, salvo em alguns casos, é errado. Nesta hipótese, ainda há a afetação do pronome após a vírgula. Agora me digam: para que serve a vírgula? e o pronome? seria "a fulana viajou" muito simplório?)

Não faz muito tempo vi uma atriz sendo entrevistada por uma pitonisa do jornalismo televisivo e, lamentavelmente, constatei que ela mal conseguia falar: seu vocabulário era de uma criança de 7 anos, no máximo.

E, vendo um programa popular da televisão norte-americana, observei que os entrevistados, pessoas comuns, não raro referidos como "povo ignorante" pelo resto da humanidade, manejam sua língua mil vezes melhor do que o faz a quintessência da elite brasileira.

Não me conformo. E não compreendo.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Rua do Acre

Nas raras vezes que eu não tenho nada para fazer na hora do almoço eu vou flanar na Rua do Acre. Não sei porque, mas eu adoro a Rua do Acre, embora ali tenha todo o caos que esta cidade oferece. Há sujeira, excesso de farmácias, bancos e restaurantes a quilo. Há uma Corte de Justiça e seus indefectíveis engravatados. Calçadas quase não existem. E há putas, putas velhas inclusive. Aliás, por lá transitam putas que levam seus filhos à uma escola pública nas imediações.
Estranhamente, na Rua do Acre existe uma farmácia aonde sempre há o shampoo que eu uso, meio difícil de achar. Aonde a máquina de cheque do banco nunca falha. E aonde eu consegui fazer uma cópia perfeita de uma chave que chaveiro nenhum no mundo conseguia fazer.
Na Rua do Acre eu vi a pessoa mais andrógina de toda a minha vida.
O mundo acontece na Rua do Acre, mas o mundo não sabe disso.

sexta-feira, setembro 08, 2006

está aberta...



... a temporada de ipês-rosas.

(outro dia li no jornal que, se o Brasil tivesse sido descoberto em setembro, teria se chamado Ipê.)

carta para uma tragédia

Sinto profundamente sua perda. A morte de um jovem é sempre algo trágico, fere a ordem natural das coisas, e faz com que se transpasse à categoria das pessoas que viveram uma desgraça. Porque só há duas categorias de pessoas nesta vasta humanidade: as que vivenciaram uma tragédia e as que não a vivenciaram, sendo que estas não fazem idéia do imenso esforço que é preciso para seguir vivendo com tanto pesar. Não é mesmo suposto que o saibam, não as culpo.
Tragédias não se comparam. Tragédias, não perdas naturais. E as nossas não são diferentes, são mesmo incomparáveis. Porém agora, com o coração forjado pela perda, pela perda trágica, talvez agora vc perceba a tristeza que nós vivemos quando a Bel partiu precocemente, depois de mais de ano de um tremendo sofrimento físico. Ela trabalhou contigo por um bom ano antes de adoecer, lembra-se? Por um ano vocês conviveram, ela colaborou com seu ganha-pão. Sua doença e morte, contudo, não ensejaram sequer uma manifestação de sua parte, foi como se nada se passasse.
Tenho muita compaixão da mãe deste rapaz, de seu pai, de seu padastro, de seus irmãos, de seus amigos e de vcs, familiares. Nunca mais a vida será a mesma. Mas Deus é grande, incomensurável a Sua bondade, e, certamente, receberão todos o afeto e o carinho de pessoas bondosas e compassivas.
Receba vc meus sinceros sentimentos. Eu realmente sinto muito.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Os Tristes-Vidas

Desde que a friaca se abateu (fora de época, como virou costume) sobre o Rio de Janeiro que tem sobre mim se abatido uma pena maior ainda daqueles tristes-vidas que ficam no meio da rua segurando um cartaz de propaganda política.
Não vou falar sobre política, há muito me abstraí deste tema.
Mas é que fico a pensar se os políticos imaginam que esta forma de exploração humana contribui para angariar-lhes votos. É muito atraso.
Ficam eles (os tristes-vidas) segurando aquelas cartazes, às vezes em pé, com uma cara de infelicidade mortal, índice zero de militância; outras vezes sentados, o olhar perdido, o tédio estampado.
Dia desses, na Av. Atlântica, me esbaldei: o cartaz de propaganda estava abandonado e, a dez metros dele, o triste-vida que deveria segurá-lo jogava cartas entusiasmadamente com outro triste-vida, o cartaz também no chão. Pensei: "bem feito!".
Afinal, um triste-vida tem direito a um momento de descontração.
Já esses candidatos... bem, deixa para lá.

segunda-feira, setembro 04, 2006

mania nacional

( se vc pensou numa certa parte do corpo feminino, enganou-se redondamente)


Ei-la!
Aí está a mania nacional!
Chova ou faça sol, a insuperável, a intangível, a imbatível: a sandália de plataforma!
Fashionistas, socorrei-me!
Valei-me, senhoras do estilo!
Polícia! Políticos! Mídia! Alguém!
Misericórdia!

Marina Lima



Diminuta e com uma voz tão singular, entrou em cena um pouco tímida, modulando seu tom com uma letra que falava de “sol primordial” e um punhado de poesia. Musa dos anos oitenta, não há ninguém da minha geração que não tenha sido embalado por sua música, não há pessoa que tenha nascido nos early 60’s que não tenha nela antevisto a mudança esperada dos baianos e mineiros que povoavam a MPB naquele tempo. Com todo o respeito aos baianos e mineiros, uma mudança se impunha.
E aí esteve ela sumida, shows só em São Paulo. Ignoro o porquê, já que pertence ao Rio. E o Rio lhe pertence, sempre lhe pertencerá. Foi o que a platéia carioca ontem lhe mostrou, e ela percebeu, e agradeceu, e deu bis. Houve um trecho do show (“Cícero”) que calou fundo. Nada como a poesia musicada, nada como a poesia de Antonio Cícero.
Enfim, era Marina Lima em cena. E, se já não fosse muito rever sua música (grande banda!), ela ainda me mostrou que é possível chegar aos 50 bacana, bacana.

segunda-feira, agosto 21, 2006

sobre o básico

É curioso como há pouco esclarecimento sobre coisas tão singelas, enquanto se desbordam conhecimentos sobre assuntos tão sofisticados.
Sobre ter alguma religião, por exemplo. Há os que pensam que, agregado ao fato de alguém ter religião, vem um passaporte para a virtuose, quando é exatamente o contrário: antes de mais nada, alguém religioso se sabe um ser falho.
Então é assim: vc tem uma tia velha, pentelha, que nunca te deu a mínima, e que, aliás, sempre te quis bem longe dela, mas, de um dia para o outro, ocorre de convir aos familiares que vc seja caridoso com la vecchia. “Mas vc não é tão católica?” parecem querer perguntar com todo o cinismo do mundo, quando se esquecem - e aí entra o desconhecimento do básico – que, sim, é fato que qualquer pessoa que tenha uma religião, católicos inclusive, deva praticar a caridade, mas que, porém, deverá fazê-lo de forma sincera, e, portanto, com o que lhe tocar o coração. Não é esta a regra do livre arbítrio, aliada à da solidariedade? Tão básicas.
Outra hipótese: alguém te desafora. Uma, várias vezes, e vc sempre deixa para lá, até que cansa. Cansa, apenas, não sente raiva nem ressentimentos, mas... cansa. “Como, vc não vai relevar?” alguém perguntará, ao que vai acrescer, verbal ou mentalmente, a máxima: “e depois vai à missa todo domingo”. Ora, direi, tenho que perdoar quem me pede perdão, mas não tenho que passar a mão na cabeça de ninguém. Como se nada tivesse acontecido. Para, depois, o desaforado, ele, "deixar para lá". Acho graça.
Quando eu era criança, minha mãe me disse, eu nunca esqueci, que se alguém te pede perdão e vc não dá, é problema seu, mas se alguém te ofende e não te pede perdão, então é problema de quem não pediu.
Que se instruam.
E que não me amolem.

segunda-feira, julho 31, 2006

Das Delicadezas e de suas Estranhezas

Não atino bem a razão de me haver ocorrido só hoje pensar numa frase de Blanche Du Bois, personagem de “Um Bonde Chamado Desejo” de Tennessee Williams, depois reproduzida por Pedro Almodóvar na personagem vivida por Marisa Paredes em “Tudo Sobre Minha Mãe”: “sempre dependi da gentileza de estranhos”. E me ocorreu também que, das duas vezes que ouvi esta singela frase, dita por estas duas personagens em momentos tão oportunos, tive o sentimento de estar diante da genialidade daqueles dramaturgos, um por tê-la concebido, outro por tê-la relembrado. E também por estar diante de um fato da vida.
Porque é fato que as delicadezas nem sempre vêm de quem se espera.
E talvez porque, ao contrário do que se pensa, nem sempre a delicadeza é compreendida.
O caso é que por duas vezes fui tanto objeto quanto sujeito de inusitadas, porque inesperadas, delicadezas.
Uma delas aconteceu no Aeroporto de Congonhas, numa sexta-feira em que estava exasperada para voltar para casa, cansada do trabalho pesado de um longo dia, adensado em aridez por ter exigido deslocar-me pelo caos daquele trânsito paulistano várias vezes, louca por alcançar o vôo cujo último assento conseguira por um golpe do destino. Bem na hora de entregar o cartão de embarque, já ali no portão, cadê? Sumira. Assim, do nada, ele não estava mais no compartimento externo de minha bolsa, onde deveria esperar-me incólume. Desaparecera.
Ao que, de imediato, dei meia-volta, o coração já na boca, e, um pouco adiante, uma figura diminuta, um nissei, dirige-se a mim resoluto e, com o braço estendido, me oferece aquele passaporte para a redenção. Eu só olhava para o cartão desde que o avistara na mão daquele homem. E este homem, ao me entregá-lo, o retém um pouco, o suficiente para que eu o olhasse com mais vagar. A entrega do cartão não foi sua única oferta: ele me comunicou, eu percebi perfeitamente, que eu estava precisando de paz. E também percebeu que eu agradeci imensamente o recado, pois recebi o cartão de forma algo solene.
A outra foi dia desses, quando ajudei uma pessoa a atravessar a rua. Do nada, percebi, como se o vento me houvesse dito, que aquela hostilidade urbana humilhava de tal forma aquela pessoa que ela não conseguia atravessar a rua. Dei-me conta, esperei o sinal de novo, atravessei e simplesmente perguntei se queria ajuda, e queria, e muita. Foi bastante simples, não carecia de perguntas, tampouco de respostas, nem uma nem outra foi feita ou dita. Um simples atravessar de rua.
E o que mais me impressionou foi de saber precisamente o que angustiava aquele coração. E talvez ninguém próximo a esta pessoa tenha se atentado que ela não poderia estar naquele lugar desacompanhada; mas estava, e claramente sofria por estar.
Senti um certo conforto em pensar que sim, é deliciosamente estranha a delicadeza quando vem de um estranho. E um tanto de desconforto ao pensar que não, nem sempre é familiar a delicadeza quando vem de um próximo.

domingo, julho 30, 2006

"uma imagem vale mais do que mil palavras...


... mas sem palavras isso não seria dito."

pérola de Millôr Fernandes, dentre as muitíssimas suas que se ouve em "Millôr Impossível", de Eduardo Wotzik, em cartaz no Teatro Café Pequeno
(charge do próprio, ele por ele mesmo)

chuva

a chuva lava e livra
do impuro a atmosfera
e a nuvem se adensa,
espera
torna a precipitar.

esta chuva que lava
me livra
de tolices, quimeras
quem dera
do resto poder me livrar.

domingo, julho 23, 2006

o caos da sexta-feira de toda semana

Eu não consigo entender porque a cidade do Rio de Janeiro dá um nó às sextas-feiras. Não compreendo não haver um único guarda para organizar o trânisto que neste dia costuma ser mais caótico do que nos demais. Escapa-me a razão de o trânisto, além de caótico, ser tão hostil. De haver animais ao volante de vans e afins. De os motoristas de ônibus (em tese profissionais) desrespeitarem com especial prazer as regras básicas da condução - um sinal vermelho na Avenida Presidente Vargas, por exemplo. Em todos os lugares do mundo a hora do hush é alvo da atenção das autoridades. Não aqui. Aqui fica-se à própria sorte.
E porque as pessoas se esbarram nas ruas e não pedem desculpas? E qual a razão de não se entender um pedido de licença? E porque se joga lixo no chão? Céus, porque há pessoas que cospem nas ruas?
É muito atraso.
Muito terceiro mundo.
Tem horas que eu odeio morar no Rio.

quinta-feira, julho 20, 2006

A Verdadeira História das Tetas Cabeludas

(a pedidos e bem atrasadinha, aí está a verdadeira história das tetas cabeludas, singela tentativa de reprodução do relato de seu protagonista, e a solução do caso).

Sinto uma mão me alcançar pela cintura e um bafejar no pescoço: “Bonequinha de Luxo”, o que me fez, de imediato, já tendo reconhecido a voz, girar e disparar “Abusado!”. Um amigo das antigas – a justificar, portanto, estes estranhos tratamentos - quanta saudade. Tantos anos sem nos ver, muita coisa para contar, não poderia imaginar que, entre as novidades, estivesse seu divórcio: para mim, seu casamento era daqueles vocacionados à eternidade, tamanha afinidade. Essas coisas, às vezes, me fazem perder um pouco da esperança.
Disse ele que não houve jeito e, a despeito de haver deixado para trás sua vida para acompanhá-la quando designada para servir no exterior, lhe foi impossível manter vivo o casamento. Foi-se, esvaiu-se, escorreu por entre os dedos. Chorou muito ao ler uma carta que havia escrito à sua mulher no dia do casamento chamada “compromisso dos dez respeitos”, porque o primeiro item, o mais importante segundo seu entendimento, já não existia mais, “o interesse pela vida do outro”. Ali percebera que o divórcio era inevitável, haviam se distanciado e não atinavam o porquê. Acontecera. Choraram muito ao resolverem se separar. E no dia da assinatura do divórcio resolveram que deveriam sair para dançar, e dançaram, e se embebedaram; bêbados, choraram de novo. Depois disso, nunca mais se viram. Aí seus olhos marejaram e os meus também.
Começou, então, a pensar na vida e percebeu, após algumas saídas com amigos, que não era de todo mau estar de novo solteiro e, principalmente, que era muito bom estar de volta ao Rio. Sentiu-se um pouco só no início, depois ciscou aqui e ali e acolá e logo percebeu que muita coisa havia mudado, não no mundo propriamente, porque o mundo não lhe tinha passado desapercebido naqueles últimos tempos em que estivera fora, mas nas mulheres, porque as hondurenhas não lhe despertaram muito interesse. E tinha convivido apenas com hondurenhas por bons seis anos.
Percebeu que as mulheres haviam se tomado de um “ar” e davam uma importância demasiada a si mesmas. Havia nelas também uma empáfia, além de estarem todas muito cabotinas. Percebeu também uma mudança física tremenda, muito magras, muito fake. Mutantes. Sim, mutantes e aí é que entram as “tetas cabeludas”.
Tudo começou com uma jovem senhora (ele diz jovem senhora) que conhecera no prédio em que trabalha. Vai daqui, vai dali, encontros casuais no elevador, tal e coisa, um convite para almoçar, outro para jantar, vai indo, quase evoluindo para um fim de semana juntos até que um dia, sentado defronte a ela num jantar, percebe que sua boca havia mudado. De um dia para o outro aquela boca de lábios finos e levemente nervosos cedera lugar a lábios carnudos, densos. Lentos. O quase-caso termina rápido ali mesmo: ela vai ao banheiro ao fim do jantar e, ao voltar, o encontra de cabeça baixa, o olhar fixo à mesa. Recebe um "não" à sua pergunta se estava tudo bem com ele e a informação de que ele precisava ir imediatamente embora, não se sentia bem. Partiu sozinho. “Nunca mais a procurou?” perguntei, “Não”, disse ele, “Por causa da boca nova?” indaguei, com estranhamento, “Sim”, afirmou, “Aquilo me afligiu, não poderia mais beijá-la. Fiquei desolado, gostava dela, mas não pude evitar”.
A este se seguiram casos similares. Uma outra jovem senhora que subitamente perdera parte de sua expressão (parece que em decorrência de algo que se injetara, uma toxina, não se lembrava bem do nome, algo que soube depois ser muito popular, mas não conseguira ouvir toda a explicação e quase desfalecera enquanto ela, com riqueza de detalhes, falava daquela maravilha da medicina moderna) também não foi mais procurada, assim como igualmente não o foi aquela que, num belo dia, apareceu com as maçãs do rosto salientes, fruto de algo também injetável, duas pirâmides perfeitas a apontar para o céu. O quarto caso da série fake aconteceu com a irmã de uma amiga sua com quem estava saindo, mas neste caso quem levou o fora foi ele. Perguntou se ela cortara o cabelo e ela havia colocado cabelo.
Ficou com medo das mulheres e, sobretudo, das coisas a que consensualmente se submetiam.
Quando já estava bem desanimado conheceu Bela, uma mulher fora do comum. Grisalha, com uma cabeleira hirsuta e uma leve imperfeição no lábio, bronzeada porque ainda se permitindo o vício do sol, perfumada, inteligente, divertida. Linda. Já separada e em vias de formalizar o divórcio, como ele também se readaptando ao Rio, pareceu-lhe simplesmente perfeita. Dizia coisas que nunca lhe ocorrera pensar, muito original. Reiteradas vezes afirmou que queria se livrar de tudo, tudo o que lhe incomodava, tendo este processo se iniciado dois meses antes com a decisão de se separar.
Era só conversa e cinema e chopp e jantar e teatro até que um dia a coisa pegou fogo na casa dela. Ora, normal. Ela hesitou um pouco, ele insistiu, ela cedeu. Beijos ardentes, uma maravilha, evoluíram para as preliminares. Etc. Etc. Ele interrompe seu relato e me olha com uma expressão marota. “E aí?”, pergunto eu, odiando o fato de ser geminiana e ter esta curiosidade incontrolável. Aí ele diz que, já na cama, sentiu uma coisa estranha nos lábios, como cócegas. Algo aflitivo. “É, é?”, falei, arquejando a sombrancelha. “Eu estava beijando seus seios”, disse ele, sabendo que matava minha curiosidade. “E o que você fez então?”, disparei. Contou que então se levantou e foi ao banheiro para depois ter um ensejo de acender a luz. E eis que ele se deparou com as tais tetas cabeludas. “Como cabeludas?” perguntei, já iniciando aquele inevitável frouxo de riso que se apodera de mim quando sinto constrangimento no lugar dos outros. “Totalmente cabeludas”, disse ele com ar contrito, “Você não faz idéia. Pelos imensos, finos, super longos, nos dois mamilos. Eram tantos que os cobriam totalmente. Pelos pretos em contraste com a pele branca dos seios. Nunca havia visto nada igual”. Falava com uma expressão de horror e como se buscasse em mim (logo em mim) alguma explicação para o tal fenômeno. Saí dizendo que nunca havia visto nada semelhante nos seios, mas que existiam métodos muito eficazes de depilação. Esta hora foi um horror, porque tive um frouxo de riso mortal, que o contaminou. Retomado o fôlego, disse ele: “Aí está o problema. Resolvi sugerir que ela buscasse alguma solução, uma porra de uma toxina, um injetável, um troço laser, e ela me respondeu que passou anos se mortificando com a pinça, pois bastava apontar um ponto preto nos mamilos para ter que imediatamente o retirar, seu ex-marido tinha horror daquilo. Aliás, não admira que tivesse... (aqui eu ri de novo, mas logo me controlei). E por tudo isso é que tinha se separado e que agora era uma grisalha feliz, que tomava sol à vontade, comia carne, falava merda, gargalhava e que queria se livrar do que a incomodava e do ranço opressor que a subjugara anos a fio e blá blá blá. Um discurso com o qual concordei inteiramente”. “Bem”, disse eu, “se é assim, você vai ter que se acostumar com as tais tetas”. “Jamais!”, exclamou. “Então, é um impasse, “Pois é, pois é...”, disse pesaroso, “é um impasse, porque ainda estamos juntos e eu gosto muito dela. Nunca uma mulher me divertiu tanto”.
Cinco dias depois, ele me liga meio na correria dizendo que agradecia imensamente meu presente e que sua vida estava ótima, pois havia resolvido o problema das tetas cabeludas que o tornara um insone há dias. Eu havia lhe mandado um super soutien gorge preto da Victoria's Secret para que ele a presenteasse, algo que me pareceu óbvio para o caso. Já na hora do quando a gente se vê de novo e tal ele me faz lembrar o porquê daquele apelido que lhe dei anos atrás: “herr, hã, vem cá, eu preciso te perguntar... você é 100% orgânica?”.
Se isso é pergunta.

A Terra Vista do Céu



Não deve haver nada mais lindo.

(à esquerda a Sicília e à direita a península italiana. Foto: Agência Espacial Européia)

domingo, julho 16, 2006

45º do Segundo Tempo

Nunca o tinha visto tão quieto por tanto tempo. Se antes esboçava algumas palavras e formava frases vagas, agora era raro até mesmo ouvir algum ruído seu. Sua expressão também estava absorta em algum lugar, perdido o pensamento em algum ponto que jamais se saberia qual. Havia o flagrado algumas vezes sentado em sua cadeira de rodas com o olhar levemente ascendente, como se procurasse alguma lembrança, como se tentasse fazer com que lhe viesse à tona algum fato que o ligasse ao homem que fora um dia.
Meu pai. Nem tão idoso assim, mas desde que acometido pela doença da abstração, como eu chamava aquele odioso mal de alzheimer, era como se estivesse morto. Sim, eu sepultara meu pai naquele preciso momento em que recebi, naquele tarde, naquele consultório médico, o diagnóstico de sua doença. Tudo o que veio depois foi outra pessoa e nunca mais tive sua presença na minha vida. Tive que aprender a amar outro homem, em muito distante daquele alegre e forte por que chamava de pai. E confesso que, para mim, foi difícil ter que amar diferente a mesma pessoa. Mais ainda porque meu pai virara meu filho.
Meu filho. Tão diferente de mim e de seu pai, que às vezes eu me perguntava se tinha mesmo saído de dentro de mim. Mas sim, aquele garoto comprido de cabelo black-power era meu e, até onde eu pudesse supor, filho de seu pai declarado - sempre tive boa memória e não me esqueceria de um homem com que me houvesse deitado. E ele, que sempre achara graça naquela distração do avô, naquela infância extemporânea, até ele andava meio alarmado com tanto silêncio. Junto com a avó às vezes cochichava pelos cantos, gentil tentativa de não me preocupar mais ainda.
Minha mãe. Sábia, ela. Sofreu um tempo, emagreceu, secou mesmo, depois se abstraiu do problema e foi cuidar da vida, o que incluía algumas viagens em excursão. Voltava alegre e contando as novidades, sabendo que de tudo eu me ocuparia e que, se houvesse algum problema mais sério, a mandaria buscar. Achava bom que ela cultivasse sua leveza, sempre nos foi um refrigério.
Naquele domingo, porém, notei que a expressão de meu pai mudara, e nada tinha daqueles esgares estranhos, tampouco daquela indiferença. Ele sorria. Esticando o pescoço em direção à janela, ele sorria. Ele se alegrava. Não tardou e percebi que ouvia o jogo transmitido pelo rádio de um vizinho. Um jogo de futebol entreouvido pelo rádio, ora veja. Falei com meu filho, que se informou sobre o campeonato e ali decidi que levaria meu pai à final no Maracanã. Ninguém se admirou e, como num pacto silencioso, a “operação maraca” foi minimamente planejada.
O barulho da turba em dia de final de campeonato estadual, num clássico Fla-Flu, não era brincadeira, era de se arrepiar até a alma. Empurrando uma cadeira de rodas, então, cercada de pessoas selecionadas para a empreitada – porteiros, vizinhos, acompanhante e folguista – foi inusitado. Nunca fomos convencionais mesmo.
Meu pai de início se assustou, depois começou a sorrir e enrubesceu algumas vezes com as tentativas de gol de ambos os times. Quando um deles marcou um gol, ele entendeu que se tratava do time adversário e fez uma expressão contrariada. Ele estava se dando conta. Em cinco anos, nunca o tinha visto assim. E quando, finalmente, seu time, o eterno Flamengo, virou o jogo, ele vibrou. Ele vibrou por duas vezes e, por duas vezes, gritou “gol!” com todo o seu vigor de outrora.
Ao final do jogo, antes um pouco de irmos embora, a trupe toda, ele me fez um sinal e abaixei para ouvi-lo dizer: “O seguinte: Garcia, Tomires, Pavão, Jadir, Dequinha, Jordan, Joel, Rubens, Índio, Esquerdinha ou Babá e... e... Evaristo? É Evaristo mesmo? Ando tão ruim da memória...”, ao que indaguei, sem entender nada: “O quê, pai?”, e ele me respondeu: “Esse time aí não está com nada. Esse é que era o time. Campeonato de 53. Você sabe, sou rubro-negro-roxo.”
Eu sempre soube que ele espantaria seu fastio. No 45º minuto do segundo tempo, ele finalmente conseguiu.

quarta-feira, junho 28, 2006

dúvida


veja, meu amor
chove e faz sol
e este arco-íris prova:
também a natureza
(às vezes)
é contraditória



(d'aprés o post do Frederico ontem, 27 de junho, porque arco-íris me intriga )

terça-feira, junho 27, 2006

errata

sorry, sweeties, mas ouso dizer que a frase está errada: "all you need is to love" no lugar de "all you need is love". Sim, porque se do amor se quer ser objeto, é preciso, antes, ser sujeito.

segunda-feira, junho 26, 2006

O Caso das Tetas Cabeludas

Uma das coisas mais hilárias das quais se teve notícia. Difícil de acreditar, mas o caso é loucamente verdadeiro, só para me contradizer da verdade universal que vivo professando como um mantra: "certo tipo de coisa só acontece comigo".
Conto amanhã, depois do jogo, ou depois. Conto uma dia. E, embora ache que não vai ter a mesma graça do que a história contada pelo próprio protagonista, como me fez ele hoje com muita verve e blague, quase me asfixiando de tanto rir ao final, juro que vou tentar ser fidedigna aos fatos - e apenas a eles.
Enfim, vou ten-tar.

tempo

"Tenho um acordo com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra no meio do caminho." (trecho da peça "Ai, que saudades do Lago", de Marcos França, em cartaz no Teatro Glória até 30 de julho)

quarta-feira, junho 21, 2006

terça-feira, junho 20, 2006

Complexo de Prima Donna


É o seguinte: é aquela que jamais contracena com alguém. Não divide o palco. Se fosse atriz, só faria monólogos, se fosse cantora, seria clássica - e soprano. Só dá ela, ela, ela. Importante não confundir prima donna (e seu complexo) com a prima da Madonna (e seu complexo, que explico depois).

segunda-feira, junho 19, 2006

um caso de literatura médica...



... é a memória da Roberta! Salve, garota!

O Reencontro

(é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração - V. de Moraes)

Havia uma lua absurda. Nem precisava, pois a magia se instalara um pouco antes, quando o FIG decretara que seria naquele exato dia, 14 de junho de 2006, às 20:00 horas, o reencontro da Turma do Isa de 1976. Mas o fato é que lá estava ela, imensa, linda, absurda e majestosa, cobrindo de prata o Arpoador, lugar escolhido por nós precisamente porque, tanto tempo antes, era o nosso lugar.
Trinta anos. Não é exatamente um hiato qualquer, um tempo ao qual se relegue pouca importância, algo que possa ficar quieto no desvão de algum esquecimento. Não. Trinta anos é uma vida, é tempo suficiente para se construir e se destruir e se reconstruir tantas vidas quantas se queiram.
Pois havia a lua e o tempo passado e a iniciativa de um, adensada por outros, encampada por muitos, de estarmos ali, naquele dia, naquele lugar, fosse com algum esforço, ou nenhum, com algum desvario, ou total lucidez, mas de estarmos juntos. E lá estávamos nós, devidamente reconciliados com nossas biografias, trazendo nas mãos e nos corações as lembranças e os esquecimentos que o tempo, mestre dos mestres, invariavelmente oferta.
Foi um presente. Foi alegre, foi puro carinho, foi o mais puro dos afetos, um desses momentos pelos quais a vida vale a pena, que lhe dão um contorno de arte, que nos projeta para a grandeza que sempre existe, embora tantas vezes acabe soterrada pelo turbilhão do cotidiano.
E foi revelador. Sim, revelador. É que, não tendo ido à nossa formatura, a diretora da escola acabou por nos deixar um legado que não existiria se tivesse comparecido àquela formalidade, como lhe convinha, aliás. Para quem não acredita em destino, aí está uma boa razão para se acreditar em ironia do destino.
Deixou-nos ela uma carta aos cuidados da Flávia, que luxuosa e secretamente a guardou por estes anos todos, e ali, lida por Betinha, foi por nós escutada e sorvida com solene silêncio, o único daquela noite de risos e algaravia.
Disse-nos do prazer que a convivência conosco lhe causara naqueles anos todos, do grande desafio que era formar pessoas, e, sobretudo, do imenso amor que envolve a educação de crianças e adolescentes. Falou, reiteradas vezes, do amor. Do amor. Sempre ele, o amor.
No mais, foi alegria, a melhor coisa que existe. Quem mudou, quem está igual, quem faz o quê, por onde andou, quem faltou, quem não se achou, quem se perdeu, quem fez falta, quando vai ser o próximo. Enfim, parodiando o Poeta lá de cima, que sei que me dá licença, se a vida é a arte do encontro, é também - e mais ainda - a arte do reencontro.
Valeu, Turma do Isa!

terça-feira, junho 13, 2006

Santo Antonio de Padua e de Lisboa


Viva Santo Antonio, que me entende em português, viva o Santo que une os corações, viva o dispensador de mercês!

segunda-feira, junho 12, 2006

Mulata Assanhada

Recebo uma mensagem bastante bizarra, a começar pelo endereço eletrônico da remetente – assanhadamulata arroba alguma coisa.
Diz-me que por acaso encontrou o meu blog, que adorou o título, que se identificou loucamente com o texto “Gainsbarre” porque tem situação parecida com Roberto Carlos, que (ainda) não se casou com ela porque (ainda) não a conheceu, mas que o tempo se encarregará de resolver este pequeno descaminho; fala que gostou de “Volta”, deteve-se em “C’est la Vie” e, curiosamente, reconhece não ter vergonha de se dizer assanhada, porque herança de família e tradição não se desconsidera. Sua mãe, a mais assanhada de todo o matriarcado, teve três filhas com três homens diferentes, todas lindas, todas mulatas, ainda que com variações de cor. Ela diz ser mel-queimado, sua irmã do meio mais feijão, a mais velha a mais clara. Todas black power, todas com cintura fina, belas pernas e bunda generosa.
Ah, a bunda. Um capítulo à parte. Tece loas à sua própria em duas linhas de puro escárnio, diz que lhe prometem mundos e fundos se... Bem, não importa. Não se envergonha desta sua parte copiosa e diz que a curva de sua cintura é algo escultural. Não, a modéstia não lhe socorre neste particular.
Mas lhe socorre em outro, pois, a despeito de pouco estudo - confessa não haver completado o segundo grau -, tem um texto perfeito, sequer um erro de português. Elabora, explica, conclui, muda o período, tem ritmo, tem bossa. “Assanhada” leva jeito para as letras.
Diz que apenas agora começa a se dar conta disso e que o descobriu depois que o pai de sua irmã mais velha lhes deu um computador, posteriormente acessado à Internet por presente do pai de sua outra irmã, a do meio. Como está desempregada, andou navegando nas tardes vadias e disse que, para pasmo seu, para sua surpresa incontida, percebeu que tem “isso de conteúdo” e que não viu muitas coisas bem escritas em blogs e afins. “Vi muita abobrinha”, diz, “muita sacanagem”.
Quer minha ajuda, mas como posso ajudá-la? Sugeri que faça um blog e que nele escreva o que lhe vem à cabeça, como sói em blogs. Sugeri um título, expliquei que não é difícil e que certamente terá bastante diversão.
Respondeu-me Mulata Assanhada hoje, lacônica: “preguiça...”

um fim de semana e dois filmes

A vantagem de ser filmes em DVD, após seus lançamentos nos cinemas com toda a espuma que em geral provocam, é ter este distanciamento que serve para se livrar da impregnação que críticas e boca-a-boca costumam causar. Passado o tempo, tem-se um ponto de observação sobre a obra, guarda-se a impressão pessoal que o turbilhão midiático e as opiniões dos amigos costumam confundir e sugestionar. Quer dizer, que costumam me confundir e me sugestionar.
O fato é que vi dois filmes que há muito queria ver, sendo que um deles ainda está em cartaz nos cinemas: “Brokeback Mountain” e “Match Point”. Gostei muito dos dois, não saberia dizer se mais de um do que do outro, mas o curioso é que ambos falam - um de forma mais sutil, o outro de forma bastante aberta, já que se trata exatamente de sua mensagem principal - de coisas que me ocorrem pensar com certa freqüência.
“Brokeback” diz que não se programa paixão, amor, amizade. Não são coisas programáveis, escapam ao controle, simplesmente acontecem. Uma vez apresentados os personagens, parece que seria bastante improvável que eles se apaixonassem e que tivessem um caso. Mas se apaixonam, se amam mesmo, e por anos mantêm-se fiel a este sentimento. Como os apaixonados, não escondem a felicidade ao se verem e o sofrimento a cada separação. É o imponderável lembrando que o acaso é de tal importância na vida que tentar estar no controle das coisas é perda de tempo. A vida acontece quando se está ocupado fazendo outra coisa, já dizia John Lennon. Pura, pura verdade.
Fora isso, o filme é plasticamente bonito, a trilha sonora é muito boa, os artistas estão ótimos – um, que interpreta o personagem Ennis Del Mar, contido; outro, Jack Twist, o sedutor, um sexy discreto – e as cenas românticas são muito bem conduzidas. Nada me chocou neste filme, gostei de tudo o que vi.
Já “Match Point”... ah, é um Woody Allen e, como qualquer Woody Allen, me causou aquela impressão cinematográfica que ficará em mim por uns dias. Ele é perfeito, o adoro. Este filme, ainda por cima, tem a sofisticação de haver sido rodado em Londres com atores britânicos, salvo Scarlett Johansonn, a sexy nada discreta. “Match Point” responde a inevitável pergunta “sorte ou talento” (a pergunta está na moda) sem rodeios: sorte, claro, que talento todo mundo tem, porque, com algum talento, com algum dom, todo mundo nasce (Deus é generoso e, afinal, é preciso "de um tudo para se fazer um mundo"). Ora, isso é tão óbvio, porque se perde tanto tempo em elucubrações psicodélicas e existencialistas sobre este assunto? Nunca entendi.
De mais a mais, o filme tem o vigor do mestre naquelas intrincadas tramas pessoais que recorrentemente elabora, aquelas paixões complicadas, natimortas, cansativas. Simplesmente genial.
Às vezes acredito firmemente que enquanto existirem cineastas bons e roteiristas competentes o mundo estará a salvo da mesmice.
Já a pipoca e o celular do vizinho tocando indômito, sinceramente, eu dispenso: eu preciso do silêncio.

sexta-feira, maio 19, 2006

Almoço com Marcelo

Almoçar com um bom amigo é um refrigério e, mais ainda, se for com um amigo inteligente, gente boa e divertido, como é o Marcelo. Colega de profissão, contemporâneo de faculdade, trabalhou anos no maior escritório de contencioso do Rio de Janeiro e, recentemente, partiu para carreira solo. Elegante, queria que conhecesse seu novo cafofo antes do almoço e lá fui eu, bem feliz por testemunhar sua conquista e também pela promessa de um bom papo. Seu escritório está lindo, novinho em folha, nada sobra, nada falta, e seu sorriso na recepção foi a melhor forma de boas-vindas que eu poderia ter. Simpatia é algo insubstituível. Simpatia é a sua marca.
Por sugestão minha, seguimos, após o tour do escritório, para um restôzinho ali perto bem simpático, comida ótima, ambiente agradável, sem maiores sofisticações ou pretensões. Uma casa honesta. Ele não conhecia e adorou.
Advogados adoram falar de advogados. Não são muitos os colegas (que palavra!) divertidos, mas eles se reconhecem no meio. Nós nos encontramos por acaso, assim nos identificamos, e sempre que estamos juntos nos divertimos.
Advogados são vaidosos. Quer dizer, muitos o são, em especial os que não têm senso de ridículo, os de rala auto-crítica e os que menosprezam a inteligência alheia. Junte dois causídicos com um pouco de verve e mais um tanto de peçonha e - voilà! - está feito o caldo saboroso da maledicência inocente, ou o que quer que isso possa ser.
Entre divagações sobre a vaidade, ele me conta um caso impagável e que, em essência, reproduz uma antiga piada cujo protagonista é o Frank Sinatra. A piada não vem ao caso, mas a história é a seguinte: o dono do escritório em que trabalhou, quando conselheiro da OAB, estava numa daquelas chatíssimas plenárias e recebeu de um colega (que palavra!), aqui chamado de Doutor V, um pedido bizarro, que veio precedido de uma vasta e auto-lisonjeira introdução: “Estive na Bolívia, como você sabe, representando a Ordem, participei disso e daquilo, e hoje vou reportar tudo. Lá ganhei uma medalha, a maior que é dada a um advogado visitante, a "Simon Bolívar Pacificador das Américas", mas acho muito cabotino eu mesmo informar isso. Pergunto se você poderia mencionar o fato ao presidente depois da minha palestra, só para não passar em branco”. “Claro, V!”, disse o ex-patrão do Marcelo, “Mas claro!”. Doutor V reportou sua ida à Bolívia, esteve no congresso tal, proferiu palestra qual, aquilo tudo, e, ao terminar, passou à palavra ao presidente; antes, porém, que o presidente seguisse na pauta, interveio o ex-patrão do Marcelo, como combinado: “Senhor Presidente, pela ordem, e apenas para informar ao plenário, gostaria de dizer que o Doutor V foi agraciado na Bolívia, muito merecidamente, com a maior medalha que lá é concedida a um advogado estrangeiro, a “Simon Bolívar...” e, antes que terminasse a frase, foi interrompido pelo próprio Doutor V: “Isso é besteira...”.
Depois dessa, tive que lhe perguntar se ele próprio não tinha uma historinha de “escada”. Não é que tinha? Ou quase. É a seguinte: ajudando um tio seu que é artista plástico num caso não jurídico, tinha constantes contatos com um ícone da arquitetura brasileira. Certo dia, em reunião com portentosos e potenciais clientes, o ex-patrão junto e tudo o mais, é interrompido no viva voz por sua secretária, que, constrangida, informava que o arquiteto estava ao telefone, que reclamara de sua indisponibilidade momentânea e que queria lhe falar com urgência. Reage então o Marcelo - pedindo licença para atender o telefone, meneia a cabeça com ar de enfado e fala baixinho, como se pensasse alto: “Oscar me enche o saco”.
Marcelinho, que agora está solito pero contento, meu fraternal abraço. E muito, muito sucesso!

terça-feira, maio 02, 2006

A Greve

Muito barulho por nada, muito peido e pouca bosta (como gosta de dizer meu pai em dias desbocados), muita discussão, muita comoção. Prós e contras. O potin do momento. O esposo (agora é esposo e esposa, não sei dizer o porquê de o elegante tratamento de marido e mulher ter sido legado ao esquecimento) da suposta governadora deste combalido Estado do Rio de Janeiro resolveu fazer greve de fome. E, estranhamente - bem estranhamente -, este fato não me arrancou um fiapo de compaixão. Ou de raiva. Ou de retórica. Nada. Nada mesmo.
Francamente, I don’t give a damm shit.
Aliás, estranhamente, não. Porque é verdade que por um desses tortuosos expedientes de que se vale a psique já faz um tempo que não acompanho mais o cenário político. Leio, não muito freqüentemente, aqui e acolá, alguma coisa, umas notas esparsas, um comentário ligeiro. Não discuto mais com ninguém sobre este assunto, e olha que teria assunto. Abstraio-me quando a discussão é esta. Parece que fui tomada por uma repulsa, uma aversão a tudo o que diz respeito a partidos políticos, a políticos, a câmaras, a assembléias, a colegiados. Melhor dizendo: a pessoas neste estado gregário. Nem mais o temor que uns ou outros se arroguem no poder me move.
Honestamente, je m’en fiche carrément.
E não sei o que aconteceu. Quer dizer, sei, mas não quero saber do que sei. Quero, apenas, me dar o auxílio luxuoso do esquecimento - e do silêncio. Não quero mais constatar a triste realidade que são estes os nossos políticos, que são estes os que elegemos, que ninguém se interessa em fazer política partidária, que é este o retrato da sociedade brasileira. Quero ignorar que não alcançamos, em pleno século XXI, um nível razoável de organização.
Sinceramente, pouco se me dá.
E pensar que ainda tem a propaganda política gratuita pela frente.

quarta-feira, abril 26, 2006

c'est la vie (shit happens)

Chegava com seu andarzinho malemolente, sua voz a anunciá-la à distância, uma voz metálica com que jactava seu enorme feito de ser ela mesma. Maravilhosa, perfeita, filhos e marido idem, um verdadeiro casal 20 pós-moderno, com direito a todo o consumo possível, férias para esquiar, carro tipo bunker, vários serviçais, casa reformada etc. Uma falta de imaginação única, mas, verdade seja dita, tudo no melhor estilo, tudo bem fake para ser o mais real possível. Incrível a mediocridade de tudo o que se cercava, e por sua própria opção. Lá vinha ela para receber a notícia que não esperava e que metade do mundo já sabia.
Quase ninguém, no fundo, sentiu pena. Um certo constrangimento de o saber de véspera; aliás, de o saber há muito tempo. Remanejamentos feitos, não lhe sobrara mais lugar no trabalho, outra o ocupou e da voz metálica ninguém sentiu falta. Nem do seu pontificar a respeito de restaurantes e afins, lugares in e out, o que se devia ou não vestir, sapatos e bolsas tais e quais e otras cositas más. Sempre haveria lugar no mundo para tudo aquilo, claro, parte da humanidade arrota grandeza, outra a esnoba e o resto a cobiça. Apenas parece que havia um certo cansaço dela, um cansaço do seu excesso. Quanta falta de autenticidade, quanta tolice tão primorosamente cultivada, quanta ignorância. Tivesse perdido mais tempo adquirindo cultura teria tido melhor sorte. Falaria línguas, saberia de outros mundos, de literatura, quem sabe até de poesia. Certamente artes plásticas seriam defendidas com unhas e dentes ou reduzidas a pó, porque pontificar para ela era um must. Triste geração criada com muita coisa e quase nada. Sem densidade, faltava-lhe utopia, faltava-lhe destemor, estava praticamente reduzida a ser um prêt-à-porter tamanho único. Uma prova de múltipla escolha. Um besteirol banal.
A notícia foi dada por escrito, uma simples carta e mais nada. Discursos e agradecimentos foram dispensados porque era um salve-se quem puder. Cada um que livrasse o seu couro e já estava bom, para que perder tempo com alguém que anunciava que seu salário era só para seus alfinetes? Não havia sentido. Disseram que depois de ler a carta a engoliu como um apontador de jogo do bicho quando chega a polícia. Bobagem, lenda urbana. Maldade, até. Engoliu em seco, isso sim, esvaziou sua mesa e saiu tão rapidamente que não sobrou tempo para um até breve.
Parece que uma coluna social recentemente noticiara que estava passando uma temporada em Londres com os filhos, medo da violência urbana. Não era o fim do mundo para quem se viu numa situação de dispensa sem rodeios, choro ou vela. Talvez até uma recompensa por um trauma tão irreparável com que mimosamente lhe agraciou o marido dominado. É até possível que se arranje por lá em algum séquito, porque ainda deve haver algum último snob aspirante à nobreza.
Enfim, c'est la vie. Shit happens.

segunda-feira, abril 24, 2006

Salve, Jorge!


Salve, Jorge da Capadócia, salve São Jorge, santo guerreiro, co-padroeiro da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro! Abençoe a mim e a minha família, cuide para que eu tenha sempre fé, amor, saúde, trabalho e para que não me falte dinheiro. Viva, São Jorge, fiel escudeiro! Amém!

quarta-feira, abril 19, 2006

quinta-feira, abril 13, 2006

Tentação

Lá vem ele se insinuando, aquele insidioso. Aproxima-se lentamente, me olha de esguelha, depois me encara. Fica assim um tempo: me olha como se não me conhecesse, como se quisesse decifrar um estranho, depois segue seu rumo. Não por muito tempo. Volta, flerta comigo com sua autoconfiança irritante, sabe-se um sedutor. Quer me vencer pelo cansaço e temo que consiga. Ai, como me cansa resistir, como me consome esta atitude de permanente guarda sempre que ele aparece. Quanto esgotamento. Perco o sossego, perco o foco, e tenho que me concentrar, tenho coisas para ler, tenho coisas em que pensar, tenho coisas para escrever. Estou ocupada, não percebe? Não posso vadiar. De mim, só quer uma coisa: me ter na cama. Apenas isso, nada além. Não me iludo. E me faz promessas, me abre possibilidades, ele e sua miríade de possibilidades. Safado. Ele e suas tantas oportunidades. Insolente! “Porque não?” diz, sorrindo de soslaio, virando o rosto para novamente me olhar, descansando a vista num ponto em mim que não descubro qual. Digo mais uma vez que não. Entende? É não e não. Preciso resistir. Eu vou resistir.
Mas agora, a essa hora... Ah, cansei, não agüento mais. Reconheço que não tenho mais forças para resistir. Rendo-me. Estou vencida, esgotada, exausta. Morta. Trabalhei muito hoje.
Vamos, Morfeu, vamos. Vamos à cama, já é tarde.
E amanhã acordo cedo.

sexta-feira, abril 07, 2006

Volta

há um certo prazer
em revelar a verdade
e logo a você, confesso
houve um quê de revanche

seu silêncio eloqüente
sua supresa contida
ah, se eu soubesse
diria tudo bem antes

quarta-feira, abril 05, 2006

Fudevú de Cassarolê

Estávamos eu e meu coleguíssima de repartição, LP, dando conta de nossos infindáveis prazos judiciais naquela manhã comum, como de resto em todos os nossos dias úteis, talvez também os inúteis, com a costumeira sensação de sermos uns gatos correndo atrás dos próprios rabos. Militantes há muito tempo – ele, de militância, tem quase a minha idade - teclávamos sem parar, cada um no seu ritmo, em silêncio, sentados um defronte ao outro. Cafezinhos, cigarrinhos e códigos legais eram a nossa vida. Nossos diálogos, econômicos, eram mais ou menos assim: “Sollamí, os declaratórios estão no 535?”. E eu: “Sim, e o cerceamento de defesa na constituição,  é no 5º LV, não? Nunca lembro”. Seria uma manhã normal de um dia ordinário, não fosse o inesquecível 11 de setembro de 2001. Um pouco mais tarde, mas ainda pela manhã, nosso chefe, CH, entra na sala esbaforido: “Deu merda em Nova Iorque, um avião atingiu um prédio.” Acorremos ao Globo Online que já estampava a foto de uma das torres em chamas; a notícia, porém, era lacônica. “Que coisa, heim, LP? O que será que aconteceu?”, indaguei. “Sei lá”, disse ele, “mas vão ter muita poeira para limpar.” Não poderíamos imaginar quanta. Terminei um prazo, comecei outro e reapareceu CH, agora transtornado: “Meu filho me ligou dizendo que um avião caiu no Pentágono”. Paramos os dois, nos olhamos os três, e fez-se o vácuo do silêncio, a dúvida pairando no ar. Falei, meio desolada: “pô, LP, será que o mundo está acabando e a gente está aqui cumprindo prazo?" E já meio transtornada: "E agora?”, ao que me redargüiu ele, com sua costumeira fleuma, pronto para sair para o almoço, ajeitando a gravata no reflexo da janela: “Como diria aquele meu amigo que tomou posse no tribunal regional do trabalho ontem, aquele com quem eu tomo um uísque no Jockey às quartas, sabe?" E se virou para mim, categórico: "É fudevú de cassarolê, Sollamí. Fu-de-vú!”.
Nunca me senti tão fudevú.

domingo, abril 02, 2006

talvez

talvez você não saiba
porque não queira
porque não veja
mas tua presença
me é grata
e benfazeja.

Coisas Redentoras

cirurgia corretiva de miopia, xixi da cerveja, parar de fumar, dormir na própria cama depois de um dia de trabalho, telefonema de amigo no dia do aniversário, zerar a fatura do cartão de crédito, perdoar, ser perdoado, banho de mar num dia quente de verão, feriado vadio no meio da semana, feriados em geral, tirar férias e se atirar para trás, exame de saúde ok, encher o tanque de gasolina, parceiro que sabe (e gosta de) cozinhar, o sim quando se espera o sim, o não quando se precisa do não.

Coisas Medonhas

fila de banco, fila de banco com alguém à frente que usa shampoo anti-caspa, homem baixinho com calça de prega, mulher de terninho 100% poliéster, gente que acorda de mau humor, gente que acorda falando sem parar, pessoas que não opinam, pontificam, gente excessivamente blasée, gente excessivamente animada, excessos em geral, restaurante a quilo, restaurante a quilo no domingo, telefone celular, toques de celular infames, empresas de telefonia celular, cerveja quente, vinho merlot, vinho de teor alcoólico 13º, problema de atitude, ego estridente, ego indômito, academia de ginástica, cheiro de academia de ginástica, professor de ginástica que grita, falso discurso de "carmelita descalça", livro ruim, música de bate estaca, tosse, exame de saúde, sala de espera para fazer exame de saúde, acampamento, acampamento dentro de casa, perfume muito doce, naftalina, tomada quebrada, falta de papel higiênico, elevador, ataque de riso dentro do elevador, gafes alheias, gafes próprias, gafe de padre, padre italiano velho que ninguém entende nada o que fala, prova de matemática, véspera de prova de matemática, pesadelo, insônia, cachorro doente.
p.s. esta listagem poderá ser atualizada, contanto que não vire obrigação. porque obrigação é outra coisa medonha e este blog aqui é só hobby, nada de compromisso.

sexta-feira, março 24, 2006

Aterro do Flamengo


Venha, meu bem, cole, cole bem nas minhas costas, mas cole mesmo, sem medo. Eu não vou me mexer nem um milímetro. Ultrapasse pela esquerda, ou pela direita, se preferir, mas ultrapasse mesmo, voando baixo nesse seu carrão, esse off-road totalmente injustificável para a lida urbana. Pise mais fundo que seus compromissos não podem esperar. Como alguém ousa te atrasar? Seus hedges, seus derivativos, suas reuniões tão agendadinhas... Todos à sua espera. Quanta premência. Que vida.
Eu vou devagar. Não que eu não tenha pressa, mas é que depois de passar por aquela Enseada tão caprichosamente recortada e de dar te cara com esta pedra lavada (choveu) brilhando sob o sol (feérica, esta manhã de outono, tão azul, tão azul) chamada Pão de Açúcar eu tive um verdadeiro spleen. Ignoro se as endorfinas se derramaram em meu cérebro, tal qual uma sinfonia orgiástica. Talvez efeito da caminhada, sei lá. Eu estou a setenta por hora e estou assim porque quero, simplesmente porque quero ver esta maravilha. Honey, eu estou até sorrindo ao dirigir, e faz tempo que eu não gosto mais de dirigir.
Mas é que as quaresmeiras floriram, e nunca vi tanto carandá junto. Tem montinhos de palmeiras-de-macarthur à direita, aquelas árvores que parecem japonesas (na origem devem ser) adiante, à esquerda. E um tronco depois do outro, depois do outro, depois do outro, depois do outro. Nunca vi tanta árvore junta. Há milhares de árvores-do-viajante no fim do retão, todas enormes. Percebi hoje uma amhrestia nobilis perto do MAM.
Lamento, mas não vou jogar tudo fora no desvão da tua pressa, ainda me restam esses sete preciosos minutos antes de mais um dia. É pena que você os tenha perdido. Sinceramente, faço votos que os recupere em breve.
É que as cássias ameaçam uma inflorescência extemporânea. Percebe?

sexta-feira, março 03, 2006

Gainsbarre



Afirmada e reafirmada em minha petulância, digo que você só não se casou comigo porque não me conheceu: tivéssemos nos encontrado lá pelos meados dos anos 80, eu novinha, mignonzinha e brunette, do Riô de Janeirô e falando francês, seriam favas contadas. Mas ali quem estava era Bambou (antes teria sido muito cedo para mim) e reconheço que não sou tão doida quanto ela. Nem tão pervertida. E era das doidas e pervertidas que vc gostava.
Tampouco adianta Jane Birkin passar o resto da vida fazendo beicinho, se intitulando sua musa para sempre, você teria me preferido. Um olhar atento (o de Charlotte) revela que o casamento de vocês dois não te foi nada grato, você vendia pouco, sua produção era escassa, e a inspiração, quase nenhuma. Ser um casal querido da midia não te garantia o pão e não te garantia a arte. Você sofreu de tédio, reconheça. Prefiro Bambou, talvez porque era uma suicida inveterada, talvez por você tê-la salvo da morte e dela mesma muitas vezes, mas sobretudo por você ter lhe dado um filho. Caramba, Gains, você teve a coragem de fazer um filho naquela louca...
Ouso repetir, Serge, você teria se casado comigo, mas você partiu de vez um pouco antes de eu ter te descoberto. Quando ouvi "Le Zénith de Gainsbarre" pela primeira vez vibrou em mim uma revolução. Eu esperava exatamente o que lá estava e sequer sabia que esperava, mas, ao ouvir, reconheci imediatamente aquela espera, aquela espera por você, e tudo o que se seguiu naquela temporada vinha embalado para presente, você o embrulho. Eu estava pronta, Serge Gainsbourg.
Mas você se fora uns anos antes e agora, quinze anos depois de sua partida, novas homenagens. Gostei de saber que Charlotte passou o último par de anos enfurnada no escritório de sua casa abrindo pastas, lendo, catalogando. E que tudo vai virar livro. E que novas provocações suas virão. E que vou ter que aguentar o beicinho da vovó-Birkin, mas tudo bem.
Porque vou ver tudo de novo, todas as suas reprises, especiais de tevê, matérias nos jornais, muitas fotos. Ouvirei sua voz falando, cantando. Acho que reconheceria em mil anos a tua voz. Tudo de novo e ainda não será tudo, porque você é inesgotável. Nunca me cansa.
Creia-me, você teria se casado comigo, e nos esgarçaríamos as almas e nos cansaríamos os corpos. Conversaríamos horas, nos divertiríamos um com o outro. E você teria gostado bem, antes que virássemos apenas amigos. Aux armes, Serge. Etcetéra.
Eu juro a você que nunca entendi porque Nicô vive dizendo que eu deveria ter me casado com um intelectual de óculos.

quinta-feira, março 02, 2006

quieta...

... em meu canto, mas não tão quieta assim. Os quietos são bem menos quietos do que parecem ser, guardam muitos pensamentos, palavras, atos etc. Não se enganem com os quietos pensando que não pensam, que não falam, que não se encorajam. Guardam-se, ou não, aventuram-se, ou não, mas estão no mundo, existem, pensam. E muito. Não necessariamente nesta ordem.
E, depois de falar muito por aí em blogs alheios, aqui estou.
Oi!