sexta-feira, agosto 19, 2016

na praia de burkini

"Women are the nigger of the world" afirmou John Lennon, de forma que hoje certamente seria considerada política e duplamente incorreta.  Ele tinha toda razão.  Não existe na história da humanidade - ou seja, na história da opressão e da dominação - nada que tenha escapado às mulheres.  Ontem a imprensa veiculou que mulheres de burquíni não serão mais toleradas nas praias francesas e a questão ganhou polêmica.  O premier francês, Manuel Valls, disse que as praias são espaços públicos e, como tal, não devem tolerar trajes que signifiquem  um "projeto político de contrassociedade" pela expressão da "subserviência feminina".  Já há alguns anos que a França não mais tolera burcas que cobrem o rosto  nos espaços públicos como medida de segurança, o que se compreende. Porém, o que está em jogo não é o uso dos trajes que cobrem a mulher inteira, mas o uso nas praias pelas muçulmanas de uma vestimenta fechada, como se fosse um vestido de manga comprida por cima de uma legging (foto abaixo).   
Ignoro se alcanço bem o conceito de "contrassociedade" propugnado por Valls, mas bem sei que não pensou ele que talvez ir à praia, ainda que de burquíni, já é um grande passo para as mulheres muçulmanas. A questão que parece a todos escapar, ao menos do que li até agora sobre o assunto, é que a "evolução" (coloco aspas porque não sei se a palavra é bem essa), melhor dizendo, o caminhar das sociedades não segue da mesma forma, tampouco parte dos mesmos valores. É certo que aquelas mulheres agora podem frequentar uma praia - e nela ter a bela experiência de um banho de mar - não ousavam fazê-lo há bem pouco tempo. Se chegarão a se desnudarem é outra coisa, coisa aliás irrelevante, porém não se discute que se não puderem ir vestidas como seus costumes permitem simplesmente não irão à praia.  Figure-se num calor infernal no norte da África ou mesmo nas cidades mediterrâneas em pleno verão olhando o mar sem poder banhar-se.  Como carioca, calculo sem dificuldade a tortura que seria. 
Então por que razão justo a Europa, e em particular a França que se diz tolerante, irá impor o código de vestimenta àquelas que, de forma tardia, alcançaram um lazer tão banal? Será difícil supor que se assim for delas será sumariamente suprimido um deleite que apenas agora conquistaram?              
No mundo inteiro, em anos de história, de uma forma ou de outra, tudo às mulheres acaba por virar opressão - até quando se afirma que a intenção é libertá-las.   
Valls, désolée, mas vc não me representa, tampouco as muçulmanas que diz querer "libertar".

p.s. será que Valls tentou deixar a ultradireita atônita com essa declaração? Seria a ambiguidade da sua declaração uma jogada política?

p.s2. Valls teria sido elegante se no lugar da infeliz declaração dissesse que se regozijava com o fato de as muçulmanas agora frequentarem as praias e que esperava um dia vê-las se vestindo de uma forma mais leve - e apenas isso.

p.s3. já pensou se aos portugueses, ao aqui aportarem em 1500, não tivesse sido permitido pelos índios banharem-se com seus camisolões? "Aqui só nu, como fazemos nós", teria sido o comando dos então donos das terras.  Passados mais de cinco séculos, continuamos nos vestindo. O toplesss, aqui, não pegou, e são poucas as praias de nudistas.

#napraiadeburquini


sexta-feira, maio 13, 2016

muitos trezes


Número intrigante, esse 13.  Foram 13 anos no poder o partido que atende pelo número 13, cuja credibilidade, que já vinha abalada, foi praticamente sepultada pela ação do juiz federal titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, o qual foi considerado a 13ª pessoa mais influente no mundo.  Para completar, hoje, considerado o primeiro dia útil após o afastamento da presidente - que, ao que tudo indica, não voltará ao cargo - é sexta-feira 13.  Intrigante, esse impeachment, completamente diferente do anterior, em que a honestidade do presidente era o ponto central da questão.  Agora não é o caso e, na prática, dadas as circunstâncias, acredito que seja a verdadeira instituição do parlamentarismo no Brasil. Intrigante, esse parlamentarismo instituído desta forma, sobretudo considerando que num passado nem tão remoto foi rejeitado pela população no plebiscito - a ideia de ter um governante eleito por voto direto foi sonho acalentado durante anos pelo povo e ninguém queria abrir mão dessa prerrogativa. Sem sofismas, o que se viu, de fato, foi a verdadeira queda do gabinete, com robespierres vociferando e bradando em alto e bom som que, à parte a polêmica das pedaladas fiscais, o conjunto da obra justificava tudo. Intrigante, esse novo ministério, o qual conta com investigados na operação comandada pela 13ª pessoa mais influente do mundo, titular da 13ª vara federal de Curitiba, que ajudou a defenestrar o partido de inscrição número 13 e que governou por 13 anos.
Nessa sexta-feira, 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, acho que vou fazer uma fézinha.  Ando precisando sentir esperança.          

domingo, dezembro 13, 2015

sobre as marcas deléveis e a semana na inusitada política brasileira

Há duas coisas que não se compadecem da pós-modernidade: a caligrafia e a voz.  Duas marcas tão pessoais, tão particulares e tão indeléveis que estão se perdendo.  São poucas as ligações de telefone; a caligrafia, basicamente, inexiste.  No entanto, basta ler uma carta manuscrita que por alguma razão tenha sido guardada, ou um bilhete, ou uma anotação em agenda ou caderneta de telefone para se pressentir a presença de quem manuscreveu.  Da mesma forma, a voz, hoje reduzida àquelas pessoas da convivência mais íntima, a um entorno muito apequenado, cedeu a mensagens enviadas via aplicativos.  No lugar do calor de uma frase dita, e portanto ouvida, há fotos, mensagens, filmes. Mas nada disso substitui um pequeno bilhete manuscrito ou mesmo a voz de alguém.  O mundo digital substituiu muita coisa - mas substituiu muito mal. 
De outro lado, há coisas que permanecem - o péssimo nível da política nacional, por exemplo.  Na semana que passou, tão bem retratada na coluna de Arthur Xexéo desta semana, viu-se cenas de pugilato no Congresso, como por vezes se vê na Coreia (tenho boa memória), uma carta do vice-presidente à presidente que jamais seria digna de quem ocupa tão elevado cargo na República (algo infantil, do tipo "magoou" ou "estou de mal, come sal, na panela de mingau"), e por fim, mas não por último, uma Ministra de Estado  que, numa festa, ao não gostar de ser chamada de namoradeira por um político de escol, não titubeou: redarguiu com veemência e jogou-lhe o vinho que tinha no copo. 
Abstraído o inusitado da cena, tenho que admitir: Kátia Abreu, quem diria, você é das minhas -  gosta de tudo bem a vera.
  

quarta-feira, novembro 18, 2015

"Nós Sempre Teremos Paris"

Será que ainda teremos? 129 pessoas mortas e outras tantas feridas foi quase como morrer de susto.  Aliás, entendi o que se sente quando se diz ter quase morrido de susto.  Como alguém pode invocar o nome de Deus para uma matança como esta é algo que escapa à racionalidade até dos bem perversos, na presunção de que a perversão, como tudo na vida, tem lá a sua previsibilidade.  O que me choca no terrorismo é a exportação do conflito para quem não é parte dele, para quem não resolveu lutar, para quem, em suma, não tem nada a ver com o assunto.
Não que não sejamos globais, não que ignoremos o efeito borboleta, a teoria do caos, longe disso. Faz tempo que sabemos que somos um, que a nave é por muitos compartilhada, mas também que não é igualmente compartilhada.  Não somos iguais, tampouco a democracia é ditadura da maioria, e nada disso é novidade. Sequer inova um ataque terrorista de grandes proporções no primeiro mundo ocidental.
O inédito é que aconteceu em...Paris.  E com a crueldade típica do terrorismo de fazer de vítimas pessoas normais, como comensais à mesa e torcedores reunidos no estádio.  A sensação de "eu podia estar lá" é comum, porém não admira: todo mundo viaja o tempo todo para algum lugar.
A novidade é que aconteceu na Paris que não é mais a mesma Paris - e talvez por isso mesmo o parisiense tenha sido tão atingido.  Nesta hora em que se olha para dentro, certamente se perguntaram: no quê nos transformamos? Onde estamos, afinal? É um pouco como se sentir hóspede na própria casa ou como não se reconhecer ao se olhar no espelho. 
Faz tempo que a senhora elegante perdeu a elegância.  Aliás, ver o que é típico parisiense é quase como fazer um safári nas savanas e topar casualmente com uma onça depois de horas. A senhora mudou, perdeu em charme, em originalidade, em romantismo.  Não é mais bom abrigo para os apaixonados.  Não serve mais de cenário a uma lua de mel ou a encontros amorosos, como fez no passado.  
Paris não é mais a mesma. E desde o acontecido me dei conta que também eu não me sinto mais a mesma sem a Paris que, um dia, tive a sorte de experimentar.

quarta-feira, outubro 07, 2015

a história de Cupido

Os anjos não têm sexo, todos sabem.  Rectius: quase todos.  Há uma milésima percentagem que, desafiando a sina outorgada pelo Altíssimo, aqueles que na versão humana recebem a qualificação de recessivos, têm sexo - masculino, feminino, e (por que não?), terceiro sexo. Cupido nasceu do sexo masculino, um lindo anjo de bochechas coradas que, ao chegar a adolescência, percebeu-se diferente de seus pares (ímpares?) no coro a que pertencia.  Não se sentia bem daquela forma; sentia ultimamente as asas diferentes, pesadas, os vôos haviam ficado mais curtos e já não tinha nenhuma motivação para cumprir as ordens que recebia dos Arcanjos.  Arrastava-se pelos ares, refestelava-se preguiçoso pelas nuvens e, quando lhe destinavam um posto de guarda em reforço ao anjo titular, morria de tédio.  Então, quando as coisas já estavam caminhando para um caso raro de depressão angélica, recebeu um torpedo que lhe dizia para procurar sua "cara metade".  Não fazia ideia do que era aquilo, mas não foi difícil descobrir.  Difícil seria conseguir permissão para procurar a tal cara metade.  Sim, era possível a um anjo com sexo procurar seu par, contanto que autorizado. Venceu bravamente as várias instâncias e, diante Dele, tímida, mas resolutamente, pediu permissão. Conseguiu-a, ao mesmo tempo em que foi advertido de que apenas poderia ter vida conjugal se sua eleita também o quisesse.  Do contrário, seria imediatamente revertido à condição que naturalmente deveria ter e que, por acidente, não tinha - a dos anjos assexuados.       
A tarefa de encontrar sua cara metade não era fácil, porque eram poucos os anjos com sexo e haveria de ser alguém que também o quisesse.  Vasculhou a imensidão do universo de todas as formas, tocou suas trombetas, fez sinais de fumaça, cantou em todos os coros que encontrava pela frente.  Despiu-se de sua timidez e tédio e superou-se a si próprio.  De uma coisa tinha certeza: se não a encontrasse, certo era que não seria mais o mesmo.  No mínimo, subiria na hierarquia angélica.  Quando menos esperava, a encontrou: linda, pura, com asas translúcidas e olhar triste. Um sonho, um sonho de criatura. Mas... ela não o quis. De nada adiantaram suas românticas investidas, suas serenatas e sinfonias. Ela declarou, com seus lindos olhos tristes rasos d'água, que tudo era perfeito, mas que nada tocara seu coração. Não era ele a sua cara metade.
Cupido resolveu que não procuraria mais ninguém.  Conformou-se a ser um anjo sem sexo, mas não quis nunca mais cumprir as ordens que lhe davam.  Fez a Deus um último pedido e foi atendido - o de passar a eternidade ajudando os humanos a encontrar seus pares.  Para que elas, as felizardas criaturas que nascem com sexo, tentassem ser felizes como ele não pôde ser. 
Desde então, continuam todos tentando, Cupido e humanos.    

terça-feira, setembro 15, 2015

oscilante

a massa de ar quente resoluta
resiste à invasão bárbara da frente fria
faz do vento ardiloso mensageiro
de intrigante e cáustica armadilha

cede ao úmido uma quase-primavera
toma de cinza a manhã inteira
forceja sua presença pouco alvissareira
uma súbita e densa atmosfera

o pêndulo presume-se oscilante
como a nuvem que espero passageira
certo é haver semana demais
no cansaço desta sexta-feira

terça-feira, abril 14, 2015

Rio Nicolas Tours

Para quem quiser fugir do lugar comum do turismo no Rio, visite www.rionicolastours.com.br. Para pequenos grupos, com guia francófono. É genial! 

Guide privé francophone à Rio: visitez www.rionicolas.tours.com.br.  C'est genial!

terça-feira, março 03, 2015

A Carta de Deus

"Muito bem, Dona Fulana, um momento de decisão e vc não sabe exatamente que rumo tomar.  E vc nunca saberá enquanto não entender certas coisas a seu respeito.  Se vc tomou a decisão certa de escolher a profissão que escolheu, e o marido, e o divórcio, e a mudança de país e tudo o mais parace que não é questão.  Ótimo, assim não é a vida toda que está em xeque.  Ótimo? Não, péssimo. Uma coisa está ligada a outra, que está ligada a outra, que está ligada a algo que parece que nunca te ocorreu pensar.  Uma coisa que tem origem no seu irmão e na sua mãe. Ou melhor, em como vc se relaciona com eles.
E por que vc nunca se relacionou verdadeiramente com eles? Por que esta visão que seu irmão, por ser mais novo, é alguém "menor" e que, por isso, não compreende bem vc ou não entende as coisas da vida? Vc nunca percebeu que seu irmão sempre foi de uma fidelidade canina a vc, assim como a sua mãe, muito amorosa.  Vc preferiu vê-los como pessoas muito simples, não tão espertas ou inteligentes quanto vc.  Vc varreu os dois para debaixo do tapete e o fato de não ter tido no seu irmão e na sua mãe os melhores amigos que vc poderia ter fez com que vc estivesse agora nessa encruzilhada diabólica. A vida toda vc preferiu se relacionar apenas com seu pai que, vaidoso como vc, fez de vc, sua filha mais velha e muito esperta e muito inteligente, uma extensão dele mesmo.  Como vc errou.  Espero que não erre mais.       
Veja o seguinte: seu irmão e sua mãe quiseram estar perto de vc em todas as suas vitórias, assim como em todos os seus momentos mais difíceis.  Além de vc não ter permitido uma aproximação, vc os esnobou algumas vezes.  Por exemplo, não fez questão de estar aqui quando seu irmão se casou, não participou ativamente da doença de sua mãe, sequer estava aqui quando ela veio a falecer. Se disse surpresa com o rápido desfecho da doença.  Se estivesse a par da situação, saberia que eu a estava chamando rápido - é uma doença rápida mesmo. O casamento do seu irmão foi um dos poucos momentos de imensa alegria nessa família, porque todos adoravam o casal e eles demoraram a se decidir.  Foi o casamento mais alegre que já se viu, a familia e os amigos todos reunidos, coisa bem rara, mas vc estava muito ocupada pensando em sua tese de mestrado.  Uma bobagem, ainda havia muito tempo pra isso.  Eles também quiseram muito estar perto de vc quando vc se divorciou, porque aquele foi um momento de muita dor para vc, e vc não deixou que sequer chegassem perto, só falou com seu pai e ele nada disse para ninguém. Vc sequer informou o resultado que obteve com sua tese, pensou que eles não saberiam valorizar. Novamente, apenas falou com seu pai. Que esnobe.
Eu não escolho irmãos por acaso.  Vc tem muito a aprender com ele e até aqui infelizmente ele já aprendou com vc o que é uma amizade não correspondida.  De sua mãe não vou falar porque ela já não está mais com vcs e agora já é outro assunto.
Mas se vc acha que seu irmão é "menor", que ele tem pouco valor, que não fez grande coisa na vida, veja isso: ele tem uma mulher e um filho adoráveis.  Eles se amam muito e vivem imensamente felizes. Levam uma vida boa e estão satisfeitos.  Se vc acha que seu irmão é apenas um professorzinho do ensino médio, saiba que ele revolucionou as duas escolas em que trabalha e que é adorado por todos - alunos, pais, colegas, diretores.  Ele é um profissional hiper realizado, só que não liga para dinheiro ou para títulos.  Ele está mais interessado no processo das coisas do que no resultado que pode conseguir com elas. Se vai dar certo é outra história, ele gosta é de fazer.  Ele nunca ligou para ser popular, e no entanto sempre teve a admiração dos que o conhecem.  Vc pode ser popular, mas ele tem prestígio.   
Então, para resumir, é o seguinte: enquanto vc não se despojar dessas bobagens que fazem com que vc não perceba os verdadeiros afetos, quem se importa com vc realmente, quem te dá históriareal de vida, e não apenas suposto reconhecimento do seu "valor", outras situações como esta acontecerão e sempre será a mesma coisa: vc tomará a decisão que parece ser a melhor no momento para, mais tarde, perceber que confundiu tudo. 
Pense nisso."  

p.s. Gretha Kotisc postou no Facebook: "Olá amigos, estou escrevendo um projeto em parceria com Tamasha Theatre aui de Londres e queria lançar um desafio.  Imagino que vc está num momento muito difícil da sua vida, que o faz questionar qual direção tomar, e DEUS te nvia uma carta.  E eu pergunto, o que você gostaria de ouvir sobre si mesmo? Qual o conteúdo da carta que gostariam de receber? Aos que quiserem dividir comigo seus pensamentos e experiências enviem um email para g.vianadefigueiredo1@arts.ac.uk."  Foi o que eu fiz, a partir de uma fabulação minha, uma personagem que inventei.  


segunda-feira, dezembro 15, 2014

o que só a presença revela

Impossível, ou improvável, ou suspeita a percepção de charme numa pessoa com quem nunca se esteve. Ainda que se possa nela ter notado alguma inteligência, ou graça, ou cultura, coisas tácteis justamente por assim serem não se rendem à obviedade desses tempos fluidos, tempos que supostamente prescindem da presença física.  É como dizer que um homem cheira bem sem jamais ter tido com ele proximidade, ou de sabê-lo com pele macia sem tê-lo tocado - ainda que tocado sem querer, ainda que tocado por uma fração de segundo. Não, não há como se perceber, é mesmo impossível calcular. Tampouco é possível gostar do sotaque desta pessoa ou da sua voz ou de sua forma de falar sem jamais ter estado com ela. De gostar, por exemplo, da inflexão que tem ao contar uma piada, de gostar do seu jeito de rir, de sorrir, de arquejar as sombrancelhas.  De gostar de como gesticula, ou de como não gesticula.  De gostar de como hesita em fazer uma revelação e de depois, ao fazê-la, de como é tão despudoramente confessional. De como se senta, de como caminha essa pessoa quando vai distraída, de como pausa uma frase para prestar atenção a um passarinho que canta numa árvore próxima. De como  não percebe o mundo ao redor quando está na presença de um afeto, de como não ignora a roupa com que sua companhia naquele preciso dia está vestida. De como se despe. De como lida com sua própria nudez, de como admira a nudez alheia.  De como dirige seu carro em noite avançada sem nenhuma pressa. De como seu olhar fixa num ponto para resgatar da memória uma lembrança remota.  Da forma que come, que bebe.  De como - por que não? - se lambuza desajeitadamente tomando um sorvete num dia quente de dezembro.
Dessas coisas todas, e de outras mais tácteis ainda, é bem disso que estou falando.

terça-feira, outubro 07, 2014

o bolsa bolsa

Estive na Inglaterra em 1982 para estudar inglês.  Fiquei dois meses numa pequena cidade chamada Bournemouth, frequentei uma boa escola e me hospedei com uma família inglesa no bucólico bairro de Talbot Woods.  Até hoje me lembro do endereço - 6, Dulsie Road - e da casa que era a mais modesta da melhor rua do melhor bairro da cidade.  Havia uma crise na Inglaterra punk no início dos 80's. Emergentes, meus landlords eram jovens, faziam um super esforço para melhorar de vida e apenas por essa razão recebiam estudantes em casa - quem conhece um pouco os ingleses sabe que não são lá muito chegados a hóspedes. Minha landlady era uma pessoa legal, nem tanto meu landlord, e me apaixonei pela filha deles, uma doce e educada menina loura de quatro anos de idade e com cabelos compridos até o meio das costas. Nicholas Michelle era seu nome, mas tomei a liberdade de chamá-la "beautiful" como seus pais a chamavam.  Era muito fofa.  Eu tinha 19 anos e a entretinha brincando de boneca e lendo histórias, mesmo que com o sotaque que tentava sem muito sucesso aprimorar.  Para ir a escola eu andava 20 minutos a pé, porque num frio de 20 graus negativos não dá para ficar parado esperando o ônibus. Era tão frio, mas tão frio, que antes desse gelo todo só o inverno de 1968.  Há pessoas que até hoje se lembram do gélido inverno europeu de 82.  Um dia, voltando da escola, num friaca de doer os ossos, vi uma fila comprida na agência de correios que terminava na rua. Estranhou-me o fato de na fila só haver mulheres, todas muito bem vestidas. Quando cheguei em casa, minha landlady se queixou justamente do frio que sentira na fila dos correios.  Que coincidência! Soube então o porquê desse flagelo todo: era o dia do pagamento de um benefício que todo mês as mulheres com filhos recebiam do Estado Britânico. Bastava ter um filho, não importava a classe social.  O valor do benefício era o mesmo para todas. A razão do pagamento do benefício para uma terceiramundista como eu era bizarra.  Segundo ela, as mulheres britânicas não sabiam muito bem quanto os seus maridos ganhavam, de forma que aquele dinheiro era para elas próprias ou para seus filhos, como decidissem. Poderiam gastar no que desejassem.  Como eu havia comprado uma bolsa naquele mesmo dia no valor aproximado do benefício, perguntei-lhe se com ele poderia ter comprado... uma bolsa. "Sim, claro!", respondeu-me taxativa.  Poderia comprar o que bem entendesse.
Pensei no 'bolsa bolsa' dia desses e me ocorreu pensar por que será que mais de 30 anos depois alguém reclama de se ter instituído o bolsa família para os pobres no Brasil, um país que, ainda hoje, persiste rico para os ricos e pobre para os pobres. 

quinta-feira, junho 19, 2014

Vila Maria, Bicho de Pé e a verdadeira teoria da redução de complexidade





“Por que facilitar se é tão simples complicar?”, perguntou o jurista. Já ia tarde o seminário e havia meros gatos pingados, eu incluída, numa última palestra de último dia.  Quem resiste a uma maratona de dias sem fim com palestras longuíssimas rodeado de advogados e seus indômitos celulares?  Aquele finzinho era uma quase-benção e então contava o jurista (uma figura ímpar, culta e muito divertida) sobre sua primeira causa, cuja defesa, em 40 laudas, caprichava nas teses.  Confiante, perguntou a um ex-professor seu, juiz aposentado, o que dela achava, recebendo como resposta uma lição lapidar: “muito boa, mas nenhum juiz vai ler uma defesa de 40 páginas. Acho que merece uma redução de complexidade”, tendo pronunciado ‘redução de complexidade’ com as vogais bem abertas, já que o jurista era baiano. Dias depois ainda repercutia em mim aquela frase que, primeiro, virou um aforisma meio de brincadeira e, depois, uma espécie de teoria para tudo na vida. É isso, nada de sofisticações desnecessárias. Tem que ser justo. Tem que ser preciso.  Tem que ser simples. 
Desde então, não duvido estar diante de algo fadado ao sucesso quando me deparo com a materialização dessa teoria.  Foi o que me aconteceu ouvindo e vendo a banda Bicho de Pé: está tudo ali, tudo o que precisa haver de instrumental e vocal, verdadeira mmbb (música muito boa brasileira).  Dá vontade de ouvir até não mais poder.  Uma identidade tão grande senti que me dei conta que a brasilidade sopra de onde quer e alcança o que nem sempre espera (no caso eu mesma, carioca da gema, que me apaixonei pela banda do novíssimo ritmo 'xoxote'). O mais curioso é que a tal teoria da redução de complexidade, tão rara de acontecer, veio num só dia em dose dupla - horas antes, havia visto “Vila Maria”, peça em cartaz no Teatro Gonzaguinha até o fim do mês. Texto, direção e atores na justa medida da perfeita harmonia, como uma boa peça de teatro deve ser. Bem concebida do começo ao fim, vai fluindo redonda até fazer a plateia sentir pena quando acaba.  Essa teoria é tão escassamente vista na dramaturgia e, no entanto, bastam bons atores, um bom texto e uma boa direção.  Como tampouco são banais uma mulher bonita sem nenhuma maquiagem ou um corpo bem feito em que nada sobra e nada falta.
Confesso que foi um refrigério ver que ainda existe gente que percebe haver uma imensa força na simplicidade da cultura brasileira.  Foi mesmo redentor encontrar artistas que não quiseram reinventar a roda para revelarem ao mundo como são bons, como são geniais.   

Acho que foi uma benção, sobretudo, porque os tempos cá em Terras Brasilis andam para lá de complexos.    

sábado, abril 26, 2014

em plena entressafra existencial, o carnaval

Se mudanças são complicadas, mais ainda são entressafras existenciais. A intercessão do nada que passou e do nada que ainda não aconteceu é um vácuo absurdo, que não será preenchido pela teoria dos conjuntos.  Mas consegue ser pior, porque, como o diabo, finge que não existe.  Então você está tocando a sua vida e súbito percebe que está aprisionado por sua própria displicência consigo mesmo.  Aconteceu-me há anos atrás.  Não me dei conta que o carnaval se aproximava e até hoje me intriga o fato de ter perdido os comentários sobre alguma eventual opção. Para onde planejavam ir as pessoas ou mesmo quem haveria de ficar no Rio naquele tempo em que o carnaval se resumia ao desfile da banda de ipanema, às escolas de samba na sapucaí e aos bailes gay, foi como se nada tivesse sido dito.  Não me dei minimamente conta.  Estava, depois de anos, desacompanhada.  E, o pior dos mundos: não tinha uma amiga entressafrada como eu, um amigo disponível, um amigo gay querendo alguma folia.  Não tinha cachorro. Não tinha casa, porque a dos meus pais estava sendo pintada (foi mesmo há anos atrás) e eu estava hospedada com familiares.  Que, naturalmente, tinham planos para o carnaval e que sem problemas teriam neles me incluído se eu...bem, se eu os tivesse ouvido.  Tendo passado o mês de janeiro rapidamente (e não sei o que não fiz naquele mês), chegou fevereiro e lá pelas tantas acordei em pleno sábado de carnaval.  Sozinha, com a geladeira meio vazia. Porém, como o passar do tempo nem sempre é ingrato, lá pela segunda-feira apareceu alguém e rolou uma companhia para ir ao menos até o bar lagoa. Agora, se naquele tempo tudo me passou desapercebido por que raios eu fui me lembrar disso justo neste momento? Talvez porque pensei em escrever essas maltraçadas no carnaval, que já passou, e também porque hoje realizei que já passaram a quaresma e a Páscoa e - incrível! - semana que vem tem o feriado do dia do trabalho.      

quinta-feira, novembro 21, 2013

procure pensar

Olhar para o passado sempre explica algo do presente, olhar para alguém do passado pode ser mais esclarecedor ainda. Assisti ao documentário sobre o Sobral Pinto e uma luz se abriu. Ele daria toda a explicação pertinente, perspicaz e suficiente a esta polêmica sobre as biografias. Com sua verve já teria há muito tempo proclamado a inconstitucionalidade do artigo 20 do Código Civil. Uma pessoa que lutou pela democracia, pela liberdade de expressão e, sobretudo, pela cidadania responsável já teria entornado esse caldo todo – e sem concessão meio-termo, tipo “isso precisa ser combinado” ou “só queremos conversar”. Foi bom lembrar o quanto custou redemocratizar esse país. Eu estava no comício das Diretas Já e costumo dizer que minha geração é órfã do malogro dessa campanha. Sobral explicaria também o comportamento dos manifestantes e do black bloc. Aliás, explicou: disse que à juventude recomendava se manifestar sempre em ordem e pacificamente justamente para resgatar um tempo em que o direito, ao imperar, a tudo se sobrepunha. Deu o depoimento de haver vivido neste tempo, antes da Primeira Guerra Mundial, e que daí em diante a vida mudara, as relações humanas também (tudo para pior), e que depois da guerra o mundo tinha se tornado um lugar infinitas vezes mais violento. A mudança do mundo e a velocidade da mudança, também sobre isso me fez pensar o Sobral. Lembrei-me do caso do campeonato de lançamento de anões a distância que tanta polêmica causou mundo afora, exemplo dado em sala pelo professor da “nova disciplina dos contratos”. O caso dividiu, literalmente, a turma: é possível, é legítimo, fere a ordem jurídica, permitir que anões sejam arremessados e que saia vencedor quem conseguiu lançá-lo a uma distância maior? Ouvido, o presidente da associação de anões declarou que em nada aquilo feria a sua dignidade, que estava com equipamento de proteção e que, além de tudo, faturava a sua graninha. Mas será que poderia ele decidir por si ou há casos em que o estado deve defender a pessoa dela mesma? É verdade que argumentos consistentes existem para os dois lados. Calculo que no caso das biografias a mesma coisa aconteça. E daí outra dúvida me ocorreu: será que devem os biografados ser defendidos de si próprios ou das suas biografias?

p.s. ainda sobre a reconstrução da democracia e atuação dos membros do Judiciário e advogados, vale ver a tese engendrada pelos advogados quanto ao cabimento de habeas corpus para acusados de crimes políticos, o que havia sido vedado por um decreto. Em suma, os advogados impetravam o habeas corpus logo que o acusado desaparecia argumentando que não havia acusação formal de crime.  Com isso, os juízes davam liminar e oficiavam a todas as delegacias e unidades prisionais para informar se o acusado lá estava preso (por isso ficou conhecido como "habeas corpus de localização"). Identificada a prisão, o acusado era solto em cumprimento à ordem judicial.  Centenas de pessoas escaparam dessa maneira.  Corajosos os juízes e criativos os advogados - a reconstrução da democracia requereu também coragem e criatividade. 

Atualização em 11 de junho: Por 9 votos a 0, o STF, em julgamento ontem, decidiu pela inconstitucionalidade do art. 20 do Código Civil.  Segundo a Relatora, Ministra Cármen Lúcia, "cala boca já morreu". Histórico.

quarta-feira, julho 03, 2013

mind the gap

Manifestações pacíficas, repúdios, barulho, trânsito bloqueado, saques, polícia, muita confusão.  Uma delas vi acontecer na esquina da Presidente Vargas, eu no meu carro e mais uma meia dúzia de pessoas por ali já bem tarde, justo naquele momento.  A Polícia Militar, quando enfim conseguiu liberar a pista, não precisou esperar mais de dez segundos para que eu ultrapassasse aquele circo armado.  Estranhamente não tive medo, mas estava bem alerta, a postos para salvar minha pele, já que era mesmo o caso de salvar a pele.  Isso aconteceu muito antes de o movimento crescer na proporção em que cresceu.  Aí vieram as manifestações, acompanhadas da inundação de opiniões em todos os sentidos.  Nunca vi tanta gente tendo tanta opinião e, ao ser indagada pelos meus familiares europeus do que se tratava, senti que acertara na síntese, ainda que, ao fazê-la, estivesse bem atônita: protesta-se contra a corrupção e contra a falta de bons serviços públicos. 
Passado um tempo, a culpa do mundo que de início fora depositada apenas no governo federal acabou por ser dispersada.  Hoje li que toda a classe política eleita perdeu popularidade.  Intriga-me como algum político pode perder tanta popularidade de um dia para o outro e calculo que ou bem a popularidade não era consistente ou bem num único golpe toda a consciência política foi apreendida, numa queda de ficha coletiva. 
Mas se tudo parecia estar caminhando com alguma ordem, por que então o protesto tomou tamanha proporção? Por que existe tanta ambiguidade entre o que se pensa e o que se pratica? Por que há um espaço entre o que se vive, o que se percebe da vida, e o que se quer de fato? Por que é esparsa e escassa a comunicação com os cidadãos em plena democracia?Por que o caldo estava para entornar e ninguém se dava realmente conta do nível de intolerância a que se chegara?  As vozes das ruas já murmuravam há muito tempo, recolhidas, mas, sabe-se lá porquê, ninguém parecia estar percebendo o murmúrio inicial, tampouco o volume que poderia ganhar.  
Permaneço intrigada, mas uma luz se abriu.  A caminho da final da Copa das Confederações, no metrô, ao ouvir as instruções para o desembarque, agora ditas também em inglês, percebi que ali poderia se aviar a fórmula para a classe política  sobreviver - e  sobreviver a si própria - uma coisa tão sutil e tão certeira: "mind the gap". 

segunda-feira, março 18, 2013

Dez séculos depois, um Bento e um Francisco

Curioso que nessa miríade de análises e comentários que vieram à profusão a respeito da renúncia de Bento XVI e da escolha do novo Papa ninguém tenha se referido a algo que a mim pareceu muito claro logo depois do seu anúncio e do nome que resoveu adotar - e olhe que não sou nenhuma teóloga ou expert na Igreja Católica. 
O fato é que para a Igreja o Século V e o XI ficaram conhecidos como os séculos dos santos, santos que lhe determinaram novos rumos e que são, até hoje, cultuados por sua obra e pelo exemplo que deixaram.   A instituição da Igreja, tanto no Século V quanto depois, no Século XI, estava moribunda, afundada em vergonha e corrupção, muitíssimo distante do legado de Cristo e de sua doutrina.  Não resisitiria muito mais se naquela direção prosseguisse.  Quis o destino, ou a Providência Divina para aqueles que assim chamam o acaso, que viessem homens que a recuperaram e que, ao mostrarem ao mundo que era então possível resgatar seu sentido de honra, deram a doutrina cristã uma nova lufada de vigor.
São Bento, homem de movimento segundo Caetano Veloso, um italiano sábio e perspicaz, não desdenhou o mal, formulou e praticou uma oração exorcista até hoje muito popular.  A despeito das reiteradas negativas da Igreja, fundou sua ordem.  Os beneditinos, educadores e missionários, contra a vontade do poder então dominante saíram mundo afora.  Destemidos, professavam uma doutrina ao mesmo tempo rigorosa com o que reputavam malsão e amorosa com as pessoas.  São Bento resistiu a todo tipo de achaque e ataque a sua pessoa.  É conhecida a passagem em que um corvou salvou-lhe a vida ao morrer após comer a comida envenenada a ele destinada.
São Francisco, um italiano nobre e rico, despojou-se de tudo e fundou a ordem dos franciscanos, da mesma forma contra a vontade do poder dominante.  Francisco era altamente místico e  até hoje é  um ícone do misticismo cristão.  Conversava com os animais, admirava a natureza, e dizem que em seus momentos de êxtase exclamava aos passantes palavras de amor.  É tamanha a importância de São Francisco para a doutrina cristã que há quem o chame de o "Segundo Cristo".  Uma curiosidade: Santo Antonio, religioso português muito amigo de Francisco, à sua ordem serviu como pároco da cidade de Pádua, na Itália.  Antonio era tão bondoso e fazia tantas curas que já em vida era chamado de "il santo" por seus paroquianos, e não por Padre Antonio.
Dez séculos depois (ou cinco mais cinco) a história se repete: atolada em episódios escabrosos como os dos padres pedófilos e escândalo do Banco do Vaticano, um papa antevê a necessidade de uma atuação rigorosa e pede inspiração a São Bento.  Alquebrado por problemas de saúde, pelo dito 'fogo amigo',  e sem disposição para enfrentar a situação árdua, Bento XVI renuncia num ato de humildade, e chega o jesuíta Francisco I com a missão de enfrentar o que deve ser enfrentado e de renovar o que deve ser renovado.  
Para mim, a prova que é possível a renovação é o fato de ser a fé que sustenta a Igreja e que há séculos a vem sustentando.  E a fé cristã se funda na ideia de renovação que a ressurreição de Cristo encerra (como dizia São Paulo, "se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé").  É dizer: se não se acreditar na renovação, nada faz muito sentido.  E todos nós sabemos, cristãos ou não,  que 'ressucitamos' muitas vezes na vida, que muitas vezes a temos que renovar.   
Penso às vezes nos santos como pessoas comuns e gosto deles pela santidade adquirida, por tanta renúncia em suas vidas e tudo de transformação que trouxeram ao mundo com ousadia e paixão.  Ontem, ao ouvir na oração de São Francisco a passagem que diz que é dando que se recebe, calculei que esse singelo aforisma talvez resuma o maior desafio de Francisco I - fazer com que a Igreja saiba dar mais do que receber, saiba compreender mais do que ser compreendida, saiba amar mais do que ser amada. Depois pensei que se tivesse sido escolhido um brasileiro viria a calhar adotar o nome de Antonio - porque também aí, dez séculos depois, a história se repetiria.


p.s. quem sabe um dia uma Papisa é eleita e vem a escolher o nome de Teresa em homenagem a Santa Teresa D'Ávila, fundadora da Ordem das Carmelitas e grande mística e revolucionária? Os revolucionários de ontem, as ditas pedras angulares, têm se revelado, numa manobra da ironia do destino, o sustento de hoje.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

oxalá!

Passou.  Nunca vi nada passar mais rápido do que esse ano de 2012, parece até que ele próprio estava apressado.  Talvez quisesse que essa história de calendário maia e fim do mundo ficasse logo superada, talvez tenha havido algum excesso coletivo a influir na vida de cada um.  O fato é que hoje termina 2012 e desde que o fim do ano começou (o ano passa rápido, mas o fim do ano costuma demorar a passar) eu venho falando "oxalá".  Nunca falei essa palavra antes e agora todos os meus votos começam por ela: "oxalá possamos nos ver mais em 2013", "oxalá o verão não seja esse inferno anunciado", "oxalá as coisas se resolvam da melhor forma possível".  Curioso, embora se pareça com os místicos axé e saravá, é uma palavra do português no dicionário - e que, além de equivaler a "tomara" e cuja origem remonta ao árabe "inshala",  também significa Orixalá, o maior de todos os orixás.  O ano de 2013 nasce sob o signo da dúvida: será regido por Iemanjá ou por Obaluaê?  O que Auriel, seu anjo regente, nos reserva?  E o que dizer de Saturno, o astro da mudança (vá você pegar um trânsito de saturno para ver o que é bom para tosse)? Será de boa fortuna o 13?  Ou será ele um desafortunado para os supersticiosos?  Há uma linda música do Madredeus (postei abaixo) justo com esse título, que diz "oxalá eu não faça tudo à pressa, oxalá meu futuro aconteça".  Eu mesma nada sei, mas afirmo: 'oxalá' seja um bom ano, sobretudo menos corrido do que esse que se vai, e que, estranhamente, para todo mundo voou baixo. 
Um feliz - e oxalá bem macio - 2013!

foto de Ernesto Martins

Madredeus - Oxalá

quinta-feira, setembro 20, 2012

verão à paulista

O calorão de ontem já deu uma prévia do que será o verão no Rio.  Boa propriamente a prévia não foi, porque bom mesmo o verão só é em dois momentos: quando começa, e se sente aquele sabor de infância do início das férias escolares em que dois longos meses abrigavam todo o fazer-nada e todas as brincadeiras do mundo (e algum adolescer rápido, porque basta um verão para se adolescer, todo mundo de volta às aulas com buços incipientes e peitos nem tanto) e depois quando o verão se vai e o outono começa, um refresco na temperatura e a paisagem vestida com outras cores.  É fato que o Rio fica diferente no verão, diferente por si mesmo, por seus eternos seguidores veranistas, e até pelos paulistas que voltaram.  Sim, eles voltaram depois de anos, tranquilizados pelo apascentamento das comunidades e pelo velho charme que o balneário destila.  Só falta agora os cariocas se acostumarem com um único beijinho do cumprimento paulista e os paulistas, por sua vez, entenderem que os dois beijos dos cariocas não são empolgação, mas medida de certificação que o interlocutor cheira bem até debaixo de 41º C à sombra.  A primavera só começa sábado, mas já existe um cheiro de verão no ar.  Que venha seu início e, depois, o seu fim.   


foto capturada do site G1

terça-feira, julho 31, 2012

crônica de um dia que se bastou

A semana começa.  Às quatro e meia da manhã eu não sou eu, sou uma pré-eu.  Uma espécie de geléia de mim mesma, um ser pastoso e burro. De pé a essa inominável hora para pegar um avião bem cedo, e premida pelo horário, às cinco e meia já deveria estar quase pronta, mas foi a hora em que acabei de tomar café.  Tinha, portanto, exatos trinta minutos para tomar banho, lavar a cabeça, secar o cabelo, me arrumar e sair.  O taxista esperou sete minutos, estava marcado para as seis da manhã.  Trinta e sete minutos no total, quase um recorde.  Ganhei a rua um pouco depois do amanhecer  e já estava cheia; o aeroporto, uma rodoviária de tanta gente, como costumam ser agora os aeroportos.  Suponho que todos lá tenham sido tão matutinos quanto eu, já que os homens tinham a barba feita e as mulheres estavam arrumadas e maquiadas para mais um dia de trabalho no cerrado.  Embarcada, veio o pior - dormir no avião é difícil, ler é difícil, ouvir música idem, pensar na vida, um pensamento mais articulado, impossível.  Então resolvi rezar.  Agradeci, pedi proteção, me imaginei abraçada por Maria, e ali fiquei quase o voo todo.  Talvez intuísse o quanto esse carinho me absorveria o impacto das más notícias que em seguida recebi (notícias ruins, sim, mas não mortais). Reunião que fluiu normal, sem maiores embates.  Missão cumprida, valia uma passada na Catedral para aproveitar o espírito do dia e também porque há tempos lá não ia, queria vê-la recuperada após a reforma nos seus belos vitrais.  É lindo, parece o céu, tudo tão azul, os três anjos dependurados.  Depois, segredinho do cerrado: almoço em restaurante natureba.  Sim, restaurantes naturebas em Brasilia são os melhores do mundo.  Esqueça tudo o que vc já viu de restaurante natural por aí, em Brasilia, afianço, tem melhor.  Calculo que seja pelo fato de lá nunca ter saído de moda o comportamento hippie (não é hippie chique, ou new hippie, nada disso.  É hippie mesmo, daqueles lá dos primórdios dos anos sessenta, hippie cabelão, bolsa a tiracolo, roupa indiana, chinelo, macrobiótica, crianças semi-nuas, casa na chapada para ver disco voador e etc).  Volto para o Rio às quatro da tarde.  No meio da tarde e em companhia aérea barata adivinha quem está no voo?  Hippies, claro.  Ao meu lado uma família ruidosa inteira.  Tudo bem.  Tinha tudo para ser uma volta péssima, mas "A Última Madrugada", de JP Cuenca - uma reunião de suas crônicas que há tempos procurava e achei, enfim, no aeroporto (livrarias de aeroporto, velhas minhas conhecidas) - me absorveu integralmente.  Consegui ler, incrível. Imersa no espaço mais fácil de transitar do mundo que são aquelas crônicas deliciosas, percebi eu mesma a crônica do meu dia e não tive a angústia de chegar logo em casa.  Desembarquei tranquila, abençoada, leve e feliz.  Tem dia que só o dia basta.         


a foto é minha, tirada com o telefone celular

sábado, maio 12, 2012

mães -

Um feliz dia das mães para todas as mães, as mães das mães, queridas avós, as mães das mães das mães, queridas bisavós, para as mães solteiras, mães divorciadas, mães viúvas, para as mães que criam seus filhos sozinhas (ou quase), para as mães que trabalham fora, para as mães tempo integral, para as mães adotivas, para as mães biológicas, para as mães barriga de aluguel, para as mães de leite, para as mães coruja, para as mães natureba, para as mãezonas, para as mães liberais, para as mães adolescentes e mães tardias, para as mães falecidas, para as irmãs, madrinhas e tias e babás que também são um pouco mães, para as mães de prematuros, para as que têm filhos doentes e para as que perderam seus filhos, para as mães gays, para as mães de gays e as que enfrentam todo tipo de preconceito, para as que vivem longe dos seus filhos e morrem de saudade deles, para as que tiveram um único filho e as que tiveram muitos filhos, para as que tiveram gêmeos e uma trabalheira imensa, para as madrastas, para as que sequer pensavam em engravidar, para as que tentaram engravidar com ajuda médica e não conseguiram, e para as que conseguiram, para as mães que se realizam plenamente na maternidade e para aquelas que nem tanto (mas que ainda assim amam suas crias mais do que tudo na vida), para Maria, nossa mãe no céu e  tão próxima, para todos nós - porque, afinal, a maternidade precede a todos nós - um dia muito, muito feliz.  

"Tudo sobre minha mãe", de Almodóvar, penso que mostra a maternidade tal qual é: uma experiência rica e humana, tanto em sua grandeza quanto em fragilidade.  O poster do filme foi capturado no Google imagens.

sábado, abril 21, 2012

a pauta dos outros

Séculos sem escrever.  Não é bloqueio criativo propriamente, é preguiça mesmo.  Tem acontecido até de ter preguiça de ler, é tanta coisa para fazer, esse raio de imposto de renda que me perturba a paz.  E aí o tempo vai passando, os assuntos vão se acumulando, e a preguiça também se acumula.  É uma bola de neve - quanto mais preguiça se tem, mais se cultiva a preguiça, mais preguiça ainda se tem.  Dizem os maledicentes que os bahianos construíram uma meia-Bahia com tanta preguiça.  Pode ser.  Se é uma meia-Bahia não sei, mas que é um carnaval-total, lá isso é.  Ah, sim, a pauta dos outros.  Escreveram a rodo sobre "Pina", a coreógrafa alemã morta em 2009 no olhar de Wim Wenders.  O que ninguém disse é que aquele balé contemporâneo tem muito mais de clássico do que parece à primeira vista, os bailarinos girando sobre o próprio eixo e subitamente voltando em toda tensão à posição inicial.  É lindo, é sublime.  E faz pensar no quanto o trabalho coletivo é belo quando bem afinado.  E como exige disciplina. E concentração.  E ensaios à exaustão.  A coreografia com "Leãozinho", música de C. Veloso, é formidável e me fez relembrar um pensamento antigo: a música é o ponto equidistante entre o Brasil e o mundo.  Se é um país difícil de entender por tantas contradições, é traduzível pela música.  Não precisa entender, basta ouvir que tudo se revela, e todo mundo entende.  Escreveram também sobre o pico  do caos do trânsito paulista, e me ocorreu novamente aquela teoria antiga que tenho sobre a dívida do Brasil para com São Paulo.  Quanto do PIB é gerado naquela cidade? 30%? Um pouco menos, talvez? Não é um mundo isso? Então a União tem a obrigação de retribuir e dar o melhor e mais moderno e mais ultra eficiente transporte público para quem lá mora e trabalha.  É dívida, não é benesse, e ai daquele que brandir a lógica do invejoso - o paulistano merece, e merece muito.  Escreveram também sobre o jumentinho de Nosso Senhor na Páscoa, sobre uma porcaria de filme "Heleno" que não diz ao que veio, sobre as novas milionárias chinesas, sobre tanta coisa.  Hum, a pauta dos outros e eu aqui com tanta preguiça...  Para ser realista, minha pauta atual é mesmo terminar o imposto de renda neste feriado de 23 de abril que o co-padroeiro São Jorge fez a gentileza de estender um pouquinho mais para nós, cariocas. 

foto de Ernesto Martins

terça-feira, janeiro 31, 2012

chuvas de um não-verão

Assim passou janeiro: promissor no versão, abundante nas águas.  Não propriamente tempestades, o que livra o carioca de se ver com inundações e engarrafamentos quilométricos, mas chuvas chatas e longos dias nublados, e dias cinzentos no horário de verão significa muito cinza.  Salvou-nos o show do Chico Buarque, que destila sua paixão pela moça e muito justamente a quer berrar ao mundo, e "A Música Segundo Tom Jobim", filme de Nelson Pereira dos Santos que não tem sequer uma palavra falada, mas melodias sem ter fim e uma lágrima que fica rasa nos olhos ao mesmo tempo em que se esbugalham na tela e os ouvidos se abrem.  Que melodia, que coisa linda.  Nada de por-do-sol espetacular ou um chopp refrescante neste janeiro de 2012.  Esquecer a recente tragédia do desabamento é a meta, a despeito do cinza.  Mas é que a música de Chico e Tom realmente nos salvou todos, e o carioca é quase que acostumado a salver-se a si próprio.  Agora vem fevereiro e o carnaval; depois, aí sim, o ano começa.   

foto de Ernesto Martins, "amanhecer amarelo".

domingo, janeiro 01, 2012

primeiro dia do ano? mas o ano não começa apenas depois do carnaval?


Feliz 2012!

A foto é minha, um instantâneo de Ipanema capturado com meu celular.  Clique aqui para uma deliciosa crônica do réveillon carioca.

domingo, dezembro 18, 2011

o shopping e a colônia rastro

Bendita chuva a de ontem.  Tinha hora no cabeleireiro e pensei que iria penar com a multidão a circular pelo shopping da Gávea no último fim de semana antes do Natal.  Nada como uma pancada d'água para deixar o carioca em casa, os corredores tinham lá uma meia dúzia de duas ou três pessoas.  Que maravilha!  Cortei o cabelo, comprei uma sandália de salto baixo (uma raridade encontrar um calçado cujo salto não é alto nem rasteiro) e, andando por lá e acolá,  pensei nessa miríade de opções de compras de hoje em oposição às duas únicas opções de presente que antes existiam ao se receber, num sábado, um convite de aniversário de última hora.  O comércio fechava à uma da tarde e só era possível comprar uma colônia Rastro na farmácia (farmácia de antigamente era uma coisa pobrinha), ou um disco; mas disco (vinil), só até às três da tarde, porque depois disso a loja da Teixeira de Mello fechava.  Comprei muitas colônias Rastro.  Era um ótimo presente.  O embrulho, um caso à parte - o papel muitas vezes dobrado de um lado com um aplique de fita, que, para ficar curva, era bastante debastada com a tesoura (comerciários tinham que saber embrulhar para presente).  Vi que a colônia mudou sua embalagem tão linda e elegante de antigamente.  Aliás, tudo mudou.  Ontem, depois de uma super-praia de verão estranhamente vazia, no úiltimo fim de semana antes do Natal, circulando tranquila num shopping, pude vagar meu pensamento, que deu de aportar na rara opção de presente de última hora que tive durante anos - no século passado e na era pré-shopping.

foto clicada no Espaço do Perfume em SP e capturada aqui, um post delicioso sobre a colônia.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

o pier de ipanema que eu conheci


Meus avós moravam na Praia de Ipanema e me lembro muito bem da oposição que meu avô fez ao indigitado emissário.  Ele, um carioca nato e praticante diário de frescobol, não concebia sua querida praia afogada no esgoto que seria atirado ao mar sem nenhum tratamento prévio.  Sim, o que hoje parece óbvio à época não era, tanto que o emissário lá está até hoje regurgitando porcaria (quando chove intensamente em pouco tempo as línguas negras aparecem volumosas em questão de minutos).  Meu avô engendrou uma briga ferrenha pela imprensa com a Cedae e fez um diário das condições do mar que avistava da varanda de seu apartamento.  É curioso que se fale agora que o píer ficava em frente à rua Farme de Amoedo.  A foto está aí para provar que ficava muito mais perto da Teixeira de Mello: clicada do prédio 192, onde meus avós moravam no sexto andar, lá está o píer à esquerda.  A Farme de Amoedo, na história da praia de Ipanema, é outra coisa: anos mais tarde viria a ser ponto gay (muito tempo depois, aliás). Também acho curiosa essa expressão "dunas da Gal" que agora dizem que identificava aquele local. Tudo bem que eu era pré-adolescente, mas as dunas ficaram lá por um bom tempo e nunca, nunca mesmo ouvi ninguém da minha família, ou seus amigos, ou os meus amigos, dizerem que frequentavam as "dunas da Gal". Dizia-se apenas que se ia a praia no "pier". Deve ser aquela velha coisa de quem conta um conto, aumenta um ponto.  Ou talvez haja uma certa dificuldade em colocar as coisas em perspectiva.

p.s. a foto é do Jornal O Globo, clicada à época da construção do píer e publicada no jornal, quando meu avô deu uma entrevista sobre o absurdo do emissário.

vovô e o pier


foto do Jornal O Globo clicada à mesma época da postada acima.  Esta não foi publicada.

segunda-feira, setembro 05, 2011

uma carta para ruth bueno

Eu não te conheci pessoalmente, Ruth, apenas através dos livros teus, e um deles minha mãe sempre disse que era encharcado de saudade e poesia, aquele parte escrito em francês e parte em português. Também meu pai dizia que te dava carona sempre, vcs trabalharam juntos anos a fio, e quando vc adoeceu, disso lembro bem porque já era adolescente, meus pais foram te buscar no aeroporto. Hoje num sebo encontrei um livro seu (o tal parte em francês, parte em português) elegantíssimo em sua capa preta, dedicado a um velho amigo José Antonio e por vc assinado. Calculo que vc usasse uma caneta tinteiro. Calculo também que cada linha deste livro "Cartas para um Monge" tenha sido fruto de algum sofrimento e, sobretudo, da imensa saudade de um bem-querer muito especial que morava longe e que te era proibido. Quem vai entender? Parece que nem vocês dois entendiam, mas souberam bem censurar-se à vista do que aquela afeição poderia causar ao mundo. Não hesitei quando meus dedos, ao percorrerem aquelas lombadas de livros usados, pararam alertas diante do teu livro: paguei o preço pedido - barato para uma preciosidade, caro para seu mau estado - e saí da loja feliz, com a sensação de certeza que uma boa leitura me traz. É sempre assim diante de um bom livro, e esse hoje veio inesperado.

"Perguntei à rosa-rosa se me querias. Perguntei à rosa-rosa se virias. Perguntei à rosa-rosa se pensas em mim. E a tua rosa presa de silêncio, deu-me em resposta o teu silêncio, aquele mesmo em que te abrigas, há tanto tempo, de onde estás - e onde estás? -, tão longe, em distância que beira o infinito."

("Cartas para um Monge", Ruth Bueno, RJ, 1967. "Este livro é uma saudade", diz a autora no prólogo)


imagem capturada no google

domingo, agosto 14, 2011

calma, rapazes!

Ouço o relato de meu sobrinho espancado na França um tanto atônita.  Aquela doce criatura, incapaz de fazer mal a uma mosca, com o olho arrebentado e o maxilar quebrado?  Afastada qualquer inocência de sobrinho à parte, o fato é que as férias da família ficaram à mercê de uma melhora sua.  Não que se esperasse que pudesse comer um filé dois dias depois, mas que a fixação de seu maxilar evoluísse bem a ponto de poderem partirem no tempo planejado.  Seguiram ontem para a praia, após boiar no sudeste da França onde moram - e aonde são nascidos - depois de duas semanas de impensáveis chuva e frio.  O sobrinho que peguei no colo e os dirigentes europeus com as férias ameaçadas.  A diferença é que os "adôs" se estranham todo ano e que se recusam a ser mais um caso de polícia: quando instigado a fazer queixa, disse que já haviam resolvido o caso "entre eles".  Calma, rapazes! E curtam seu escasso verão europeu.     

foto capturada do site da BBC Brasil - obras de recuperação em Tottenham, Londres, após a onda de violência que sacudiu o Reino Unido

domingo, julho 24, 2011

por que ninguém fala mais nele?

Amanhã é segunda-feira e sei que vou pensar nele, abriu minhas semanas durante anos, sua verve e humor embalando uma manhã um tanto delicada.   Quando li uma crônica sua que começava com "mamãe morreu" profetizei com meus botões que não tardaria ele mesmo a partir.  Pensei e, de fato, aconteceu: nunca mais seus gatos, aquelas situações só dele, suas tias, sua irmã, seu cunhado pastor evangélico, sua Bauru natal, seu pai preparando drinks na piscina de casa, sua mãe "pérola" .  Sim, o glamour paulista do interior, e daí?  Era o seu mundo, que projetou adiante e que comunicou lindamente no teatro do besteirol.  Nem sei há quanto tempo partiu porque ninguém mais fala nele.  Nem uma palavra, sequer uma lembrança.  Seus antigos parceiros, seus amigos, será que falam em particular? E a imprensa, que o cortejou por tanto tempo quando era novidade, por que silencia? É estranho.  As segundas-feiras desde então trouxeram um outro cronista, outro universo, tudo um tanto saudosista, mas não é por nada, não reclamo porque ninguém substitui ninguém.  O esquecimento é que me estranha.  Calculo que o fato de não ter publicado ficção ou porque crônicas, uma vez passadas, passadas estão, levem a algum esquecimento.  Pensei em Mauro Rasi mais uma vez quando soube da morte de Amy Winehouse ontem; penso que ela, por ter deixado o registro de sua voz, será cultuada mais no tempo.  Ainda assim, sem uma pista sequer sigo me perguntando: por que, por que raios, ninguém fala mais nele. 

foto capturada do google imagens (http://www.nelsonperez.com.br/), o sorriso franco e a alegria incontida de Mauro Rasi.

sábado, junho 04, 2011

o direito à busca da felicidade - o afeto como valor jurídico

Junho chegou me felicitando e trazendo de novidade na minha vida um tal de "quatro ponto nove" que antecede os cinquentinha prometidos pelo ano vindouro, na esperança que ainda estarei peregrina neste mundo.  Não reclamo nem um pouco, apenas me admira, já que parece que foi ontem que mudei de década.  Em junho também os namorados celebram seu dia aqui nos trópicos, diferente de outras plagas em que São Valentino dá as caras em fevereiro;  hoje, ao ler o jornal, vi uma matéria sobre os homossexuais que este ano comemorarão com mais alegria o dia dedicado aos enamorados.  É curioso porque reforça a ideia que me ocorreu quando vi o casamento real: o mundo gira, o tempo passa, mas todo o mundo gosta e sempre gostou de exibir o seu amor.  É humano isto.   Resolvi então ler transcrições do julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a união homoafetiva e seu reconhecimento pela ordem jurídica, porque antes não tive tempo.  É um verdadeiro primor.  O título (a ementa) ostenta orgulhoso o belo  aforisma "busca da felicidade".  Mesmo para os não-iniciados vale a pena ler.  Deixo abaixo apenas alguns ligeiros trechos, na certeza que quem os ler terá, se já não tem, a dimensão do que fazem os julgadores reunidos no Supremo Tribunal Federal, uma atividade que tanto parece hermética.  Bacana, esse meio de ano.  

"União Estável Homoafetiva - Regime Jurídico - Entidade Familiar - Busca da Felicidade - Papel Contramajoritário do STF (Transcrições)

(...)
 É, portanto, nesse papel de intermediário entre as diferentes forças que se antagonizam na presente causa que o Supremo Tribunal Federal atua neste julgamento, considerando, de um lado, a transcendência da questão constitucional suscitada neste processo (bem assim os valores essenciais e relevantes ora em exame), e tendo em vista, de outro, o sentido legitimador da intervenção de representantes da sociedade civil, a quem se ensejou, com especial destaque para grupos minoritários, a possibilidade de, eles próprios, oferecerem alternativas para a interpretação constitucional no que se refere aos pontos em torno dos quais se instaurou a controvérsia jurídica.
(...)
Não é por outra razão que STEPHANIE SCHWARTZ DRIVER (“A Declaração de Independência dos Estados Unidos”, p. 32/35, tradução de Mariluce Pessoa, Jorge Zahar Ed., 2006), referindo-se à Declaração de Independência dos Estados Unidos da América como típica manifestação do Iluminismo, qualificou o direito à busca da felicidade como prerrogativa fundamental inerente a todas as pessoas: “Em uma ordem social racional, de acordo com a teoria iluminista, o governo existe para proteger o direito do homem de ir em busca da sua mais alta aspiração, que é, essencialmente, a felicidade ou o bem-estar. O homem é motivado pelo interesse próprio (sua busca da felicidade), e a sociedade/governo é uma construção social destinada a proteger cada indivíduo, permitindo a todos viver juntos de forma mutuamente benéfica.” (grifei) A força normativa de que se acham impregnados os princípios constitucionais e a intervenção decisiva representada pelo fortalecimento da jurisdição constitucional exprimem aspectos de alto relevo que delineiam alguns dos elementos que compõem o marco doutrinário que confere suporte teórico ao neoconstitucionalismo, em ordem a permitir, numa perspectiva de implementação concretizadora, a plena realização, em sua dimensão global, do próprio texto normativo da Constituição. Nesse contexto, o postulado constitucional da busca da felicidade, que decorre, por implicitude, do núcleo de que se irradia o princípio da dignidade da pessoa humana, assume papel de extremo relevo no processo de afirmação, gozo e expansão dos direitos fundamentais, qualificando-se, em função de sua própria teleologia, como fator de neutralização de práticas ou de omissões lesivas cuja ocorrência possa comprometer, afetar ou, até mesmo, esterilizar direitos e franquias individuais. (...) Parece-me irrecusável, desse modo, considerado o objetivo fundamental da República de “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (CF, art. 3º, IV), que o reconhecimento do direito à busca da felicidade, enquanto idéia-força que emana, diretamente, do postulado constitucional da dignidade da pessoa humana, autoriza, presente o contexto em exame, o rompimento dos obstáculos que impedem a pretendida qualificação da união civil homossexual como entidade familiar. VII. O afeto como valor jurídico impregnado de natureza constitucional: a valorização desse novo paradigma como núcleo conformador do conceito de família Isso significa que a qualificação da união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar, desde que presentes, quanto a ela, os mesmos requisitos inerentes à união estável constituída por pessoas de gêneros distintos, representará o reconhecimento de que as conjugalidades, homoafetivaspor repousarem a sua existência nos vínculos de solidariedade, de amor e de projetos de vida em comum, hão de merecer o integral amparo do Estado, que lhes deve dispensar, por tal razão, o mesmo tratamento atribuído às uniões estáveis heterossexuais. (...) Com efeito, a partir do momento em que a Constituição Federal reconheceu o amor como o principal elemento formador da entidade familiar não-matrimonializada, alçou a afetividade amorosa à condição de princípio constitucional implícito, que pode ser extraído em função do art. 5.º, § 2.º, da CF/1988, que permite o reconhecimento de princípios implícitos por decorrentes dos demais princípios e do sistema constitucional (além dos tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil faça parte). Essa evolução social quanto à compreensão da família elevou o afeto à condição de princípio jurídico oriundo da dignidade da pessoa humana no que tange às relações familiares, visto que estas, para garantirem o direito à felicidade e a uma vida digna (inerentes à dignidade humana), precisam ser pautadas pelo afeto e não por meras formalidades como a do casamento civil. Assim, ‘o princípio do afeto é um princípio constitucional implícito, decorrente da dignidade da pessoa humana e, ainda, da própria união estável’, que tem, nele, o principal elemento para reconhecimento do ‘status’ jurídico-familiar de uniões não-matrimonializadas.” (grifei) Também o eminente Professor (e ilustre membro do Ministério Público Federal) DANIEL SARMENTO (op. cit., p. 643) revela igual percepção em torno dessa particular questão, reconhecendo, no afeto, enquanto valor jurídico-constitucional, um elemento fundamental (e preponderante) na esfera das relações do direito de família, inclusive no âmbito das uniões entre pessoas do mesmo sexo: “Enfim, se a nota essencial das entidades familiares no novo paradigma introduzido pela Constituição de 88 é a valorização do afeto, não há razão alguma para exclusão das parcerias homossexuais, que podem caracterizar-se pela mesma comunhão e profundidade de sentimentos presentes no casamento ou na união estável entre pessoas de sexos opostos (...) Esse protagonismo do Poder Judiciário, fortalecido pelo monopólio da última palavra de que dispõe o Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional (MS 26.603/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), nada mais representa senão o resultado da expressiva ampliação das funções institucionais conferidas ao próprio Judiciário pela vigente Constituição, que converteu os juízes e os Tribunais em árbitros dos conflitos que se registram no domínio social e na arena política, considerado o relevantíssimo papel que se lhes cometeu, notadamente a esta Suprema Corte, em tema de jurisdição constitucional. Daí a plena legitimidade jurídico-constitucional da decisão que o Supremo Tribunal Federal está a proferir neste julgamento, que representa verdadeiro marco histórico no processo de afirmação e de consolidação dos direitos da minoria homossexual em nosso País. Torna-se de vital importância reconhecer, Senhor Presidente, que o Supremo Tribunal Federal – que é o guardião da Constituição, por expressa delegação do poder constituinte – não pode renunciar ao exercício desse encargo, pois, se a Suprema Corte falhar no desempenho da gravíssima atribuição que lhe foi outorgada, a integridade do sistema político, o amparo das liberdades públicas (com a conseqüente proteção dos direitos das minorias), a estabilidade do ordenamento normativo do Estado, a segurança das relações jurídicas e a legitimidade das instituições da República restarão profundamente comprometidas. Concluo o meu voto, Senhor Presidente. E, ao fazê-lo, julgo procedente a presente ação constitucional, para, com efeito vinculante, declarar a obrigatoriedade do reconhecimento, como entidade familiar, da união entre pessoas do mesmo sexo, desde que atendidos os mesmos requisitos exigidos para a constituição da união estável entre homem e mulher, além de também reconhecer, com idêntica eficácia vinculante, que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis estendem-se aos companheiros na união entre pessoas do mesmo sexo. É o meu voto." 

sábado, abril 30, 2011

yes, you can... love!

Gire o mundo o quanto girar, passe o tempo o quanto passar, mudem os costumem, e duas pessoas que se amam querem ficar juntas e celebrar esse amor diante daqueles que conhecem.  É assim desde sempre e nada está a indicar que o casamento vai sumir do mapa dos costumes. Verdade seja dita: não há festa mais alegre e romântica do que uma festa de casamento (eu amo festas de casamento e sempre recomendo aos noivos que festejem mesmo).  Os urubus de plantão que apressaram a miséria existencial de Charles e Diana não saberiam que estavam a prestar um serviço ao resto da monarquia europeia.  Fala-se na inglesa, mas o fato e que há muitas monarquias ainda vivas pela Europa, igualmente glamourosas.  A variante, ao que parece, é que há menos maledicentes à sua volta.  Digo isso porque a dèbacle daquele célebre casal e a exposição pública das tentativas de terem algum alento amoroso fora do casamento legitimaram os herdeiros de outras coroas europeias a se casarem com quem estivessem verdadeiramente apaixonados.  Assim fez o príncipe da Espanha quando questionado sobre sua namorada jornalista, divorciada e neta de um taxista.  A mesma coisa o da Dinamarca (acho que de lá, mas não estou bem certa), ao se casar com uma mãe solteira e ex-adicta em drogas.  E também o da Holanda, que escolheu para sua mulher uma argentina filha de um suposto colaborador da ditadura, que sequer convidado para o casamento foi.  Esse fato, que poderia ser o máximo da saia justa, rendeu uma tocante cena que assisti na TV: a noiva, ao entrar sozinha na majestosa igreja, linda de morrer, provocou o marejar dos olhos do noivo ao vê-la ali só, com tanta galhardia.  Emocionou-se sem pudor algum.  E recentemente a herdeira da coroa sueca, que se casou com seu ex-personal trainer, e ainda o de Monaco, que está noivo de uma plebeia.  É aquela coisa: podem até mudar os costumes - e herdeiros da monarquia que se casam em peso com plebeus é prova disso -  mas o casamento ainda é o triunfo do amor romântico. Vida longa aos... apaixonados! 

foto capturada no google imagens

quarta-feira, abril 06, 2011

os improváveis - improváveis?


Marilyn Monroe e Arthur Miller

Nem tão improváveis assim, pois ela adorava ler e se cultivava muito, e ele era tão esteta quanto intelectual - além de muito charmoso, como denuncia a foto.  Por que tantos rótulos, afinal? 

foto capturada da Internet, no ótimo blog da Marina W (link ao lado).

domingo, março 27, 2011

à moda

O preto é lindo tanto quanto o branco e o cinza. Há dias, porém, que só posso o azul, outros que (estranhamente) só o laranja me veste. Odeio salto plataforma e sandália gladiadora. Não há nada como um vestido no verão ou uma bermuda. Camiseta branca cem por cento algodão é bom demais. Turistas não têm moda (alguns improvisam bem). Um cabelo curto é redentor, assim como um lenço no pescoço no inverno (o pescoço é um quase-termômetro). Unhas esmaltadas são divinas, mas não de azul ou verde. Fazer uma mala na medida requer arte.

Domingo à noite é bom só pensar em amenidades.


a foto é minha, o Pier Mauá no Fashion Rio