segunda-feira, julho 31, 2017

Decreto S/N

apenas quero o que seja fácil
nada que tome demasiado meu saco
que de resto não tenho
tampouco o tempo, que hoje um pouco até que sobra

gente, trabalho, amor
venha o que for, mas que venha fácil
se for complicado, trabalhoso, cargoso 
desculpe, não quero
não é do meu desejo
tampouco do meu afeto
não é assim que mereço

porque a essa altura eu sei: o complicado descaminha,
frustra, engendra caraminholas

chega, basta!
a hora é de descomplicar  


ainda que tardiamente, decretei hoje eu mesma: essa hora me chegou.

sexta-feira, maio 26, 2017

andarilho


o amor que vagueia andarilho
ao encontrar num porto misterioso seu abrigo
cruza a linha do desconhecido
estranha-se a si mesmo, deforma-se.  Dói.

tudo o que toca, transforma
será para melhor, será para pior?
não há respostas para esse andarilho
que tampouco perguntas fez ou faz

o andarilho diz se bastar em vagar
e que o porto sempre lhe será impermanente

quarta-feira, março 29, 2017

a trabalho

Mais um quarto de hotel em viagem de trabalho:
este tem vista pra montanha verde e uma cama decente.

Amanheceu hoje com sol,
o céu azul da serra bem limpo, lavado da chuva de ontem.

Sinto cheiro bom de café,
e o barulho dos vizinhos de porta que fazem um amor matinal.

Hora de levantar.

terça-feira, março 28, 2017

instante



Foi com um misto de espanto e medo
Que te vi desnudo e belo
Mostrando-te a mim sem segredo
Trazendo ao meu pudor tanto desejo.

Desejo imenso que ali nasceu
De um momento tão intenso
Ver-te tal qual menino  insolente
Trouxe à minha menina outro ensejo.

O destino ali nos quis
e quis tão denso, daquele inesperado jeito.
Com destino bem sei que não se brinca:
a ele e a ti, sem me entregar, inteiramente já me dei.

Mas não é a vida desatino?


Itaipava, 28 de março de 2017

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Especula-se

Acordo com o despertador no sábado porque temia perder a hora e o compromisso estava agendado há dias.  Verifico se está tudo certo: as cinco vias impressas do contrato de locação, cujo conteúdo fora discutido na véspera com o interessado, meu primo, cinco envelopes, papel branco extra, caneta, caderneta de anotação e etc.  A isso se somava a roupa que iria usar depois num almoço de família que incluía piscina no clube, o que fazia com que também o biquíni, o filtro solar, o chinelo, a canga e etc estivessem separados.  Aparato feito, casa arrumada, pego meu carro e, rumo ao destino, procuro estacionar em Copacabana.  Ai de mim.   Tento contato com a pessoa com quem tenho o compromisso marcado, em vão.  Uma, duas, três ligações não atendidas, até que recebo um zap dizendo "vi que vc ligou", "mas me esqueci do compromisso, foi agendado faz tempo, na segunda-feira anterior" (curioso  que do dia em que o marcamos se lembrava), justificando a falta "porque não nos havíamos falado mais" (precisava?) e, finalmente, que estava passando por problemas de família e que não poderia mais alugar o apartamento. Ora, desistiu do negócio em que tanto insistira? Fui rápida em redarguir que, ao menos, deveria ter me avisado - um mero zap bastava - e que não é certo ocupar pessoas à toa.  Arrematei o "diálogo" dizendo que lhe faltava seriedade na vida.  Uma frase me lavou a alma e o trabalho, tempo e material desperdiçados: "falta de s e r i e d a d e".
Uma especuladora.  Aliás, mais uma, porque percebo o verbo especular sendo amiúde empregado ultimamente.  Não mais apenas em jogos de azar ou em outras apostas em que a roda da fortuna gira. Não, agora especular é mais amplo: da locação que já de antemão não se sabe possível, ou ao menos bastante incerta, ao relacionamento que se pretende amoroso derivado de uma fila que ora anda, ora desanda, mas que, sejamos francos, é fruto do exercício da mais pura especulação.  Deve haver algum charme na pergunta "vai que cola?" e mais ainda na resposta - porém não alcanço como se conjuga esse verbo impunemente envolvendo outras pessoas e negócios sérios. 
Para especular, e desde que me entendo por gente, é bom lembrar que existe um apontador do jogo do bicho a cada duas quadras no Rio de Janeiro e inúmeras lotéricas vendendo o sonho de consumo existencial de cada ser no planeta, até dos que não jogam, que é, sempre foi, ganhar uma aposta, ficar rico e nunca mais ter que trabalhar. Agora entendo bem o porquê da perenidade dos jogos de azar.
Há mais especuladores do que especulação nessa vida. 

quarta-feira, janeiro 11, 2017

ainda tinha tanta coisa

E ainda tinha o Jardim Botânico que conheço de cor, onde há lugares que ninguém sequer imagina, lugares de paz e silêncio impensáveis em pleno turbilhão urbano.  E também ir ao cinema e conversar sobre o filme, e ir a praia, porque o mar é paixão, e ouvir música em algum lugar, porque música abençoa o dia e embala os pensamentos.  E se não teria festas ao luar como o poeta prometeu à sua amada, alguma festa  haveria de ter, porque tem sempre alguém que festeja o aniversário e o ano, a cada 365 dias, irrompe em outro novo, e festejar e dançar sempre é bom.  Tinha a minha versátil coleção de músicas, muitas músicas, carradas de músicas, e também alguns bons filmes. E tinha também viajar, falar francês, conhecer algum lugar inédito, sentir frio, observar os costumes dos outros, ganhar um ponto de observação longe de casa e de lá pensar na vida que aqui se leva. 
E só precisava ter dado alguma liga, a atenção encapsulada em banais sinais de fumaça que hoje chamam de zaps, nada de mais, nada demasiado.  Era apenas como soprar um beijo com a mão espalmada na linha do queixo quando a saudade viesse à tona (e ela sempre vinha). Ou alguma tarde livre numa sexta-feira mesmo que fosse para não fazer nada, nada além de jogar conversa fora na varanda e ver e ouvir sorrisos. 
E era para ser simples e otimista, porque a vida sorri para os simples e otimistas - e ela nos havia sorrido generosamente.  Era para preencher, não para ocupar espaço.
Ainda tinha um bocado de coisa.

p.s. a foto capturei no Instagram