segunda-feira, outubro 23, 2023

sobre o luto

O luto é estranho, mas que não o estranhe - todo mundo passa por ele.  É uma tristeza que fica lá, à espreita, subjacente a todos os momentos do dia e, quando uma lembrança espoucar na mente, artimanha da memória talvez sádica, talvez aleatória, mas sempre necessária, o coração vai doer, e talvez venha uma lágrima, ou talvez venham muitas, e nem sempre vai ser possível disfarçar. 

Quando acharem que vc está bem, será quando você estará pior, porque ali o esforço para prosseguir estará sendo enorme.

O tempo muda no luto - ou a percepção dele. Ficam os dias morosos, enquanto as semanas voam.

O luto é sólido na dor, líquido nas lembranças, gasoso no que se esvai.  É um estado da matéria tanto quanto um estado da alma.

Todo luto tem também um pouco dos lutos precedentes.  Mas quem se acostuma com a dor?

O luto é estar nas mãos de Deus, sentir-se ligado ao que os olhos não enxergam e ao que o coração não duvida.  

O luto é o encontro do inevitável, da sina de todo ser vivente sobre a Terra, a reafirmar que a vida é aqui, agora, nos encontros que vamos tendo, casuais ou não.

O luto é um divisor de águas - os que estiveram e estão por perto, os que preferem não se envolver.  Ele é solitário como toda dor, mas não precisa ser um abandono.

E, o peito doendo, quando menos se esperar, uma alegria vai teimar em aparecer, porque a alegria dos entristecidos é até mais alegre.

O resto, é o tempo.








Na foto, meu pai, já no fim da vida, mas ainda não doente.  Ele havia se encontrado com uma amiga minha na rua casualmente e ela fez esse registro, que é bem a expressão dele. 

terça-feira, julho 06, 2021

gentil visita às seis da manhã

Há exatos cinco anos atrás recebi a gentil visita de senhores e senhoras que bateram à minha porta às seis horas da manhã.  Entraram abrindo as gavetas, levantando almofadas, mexendo em tudo.  Não tive medo, mas quase morri de susto.  Aliás, quase mesmo.  A dita visita poderia ter sido evitada - uma carta, um ofício seriam bastantes.

Mas não.  O circo à época montado demandava a cena.  Não impedi, não embaracei, fiz o que me pediram.  Até hoje a coisa se arrasta.

Antes de se cunhar a expressão "cancelamento", fui cancelada.  Fui também a primeira advogada a ter o seu ofício criminalizado.

Em 2016 eu tinha 32 anos de formada.  Uma reputação construída com muito, muito esforço e luta. Como doeu.  Ainda dói.

E dói porque não terminou, a coisa se arrasta.  É tão insignificante que se arrasta, esquecido em algum escaninho empoeirado.  "É a pandemia", dirão alguns.  Não, não é a pandemia.  É algo que não deveria nem ter começado a existir, mas, já que começou, que não tardasse em acabar.

Tenho minha consciência tranquila, sempre terei. E aqueles que provocaram todo esse horror, de uma forma ou de outra, certamente consciência é algo que não têm.  



sexta-feira, maio 08, 2020

Viralizou!


Ganhei a rua cedinho, como era o previsto.  Às seis da manhã já caminhava em direção ao meu destino final; caminhava em passos largos, e assim não tardei em chegar à rua principal do meu bairro.  Havia bastante gente tendo o dia mal irrompido, todos caminhando silenciosos.  Tudo indicava que caminhávamos ao mesmo destino.  Uma multidão silenciosa, solene.  Parei para respirar, perdi o fôlego rápido.  Entreouvi os sinos das duas igrejas próximas badalando ao mesmo tempo, num ritmo alternado.  Detive-me para ouvir melhor e recuperar-me um pouco.  Confesso que estranhei imenso.  Muitos meses sem ouvir um sino.  Muitos meses sem ver gente na rua.  Num bar.  Num restaurante.  Numa igreja.  Num cinema, num parque.  Um silêncio mórbido se abatera sobre a cidade, sobre o país, sobre o planeta.  Era um silêncio que destilava dor.  Naquele tempo de reclusão, eu vira poucos transeuntes nas raras vezes que saí à rua.  No começo havia mais gente.  Depois, apenas mascarados no supermercado, na farmácia, na máquina do banco.  Pouco a pouco, a presença dos mascarados era mais e mais rarefeita.  Muitos certamente haviam morrido.  Não via sorrisos há tempos tampouco.  Foram meses, meses que se alongaram silenciosos, ansiosos, tristes.  O tempo segurando o tempo, pulsando angústia e incerteza.  O tempo se arrastando sem ninguém saber o que viria a seguir.  O silêncio era a tristeza. Como era mesmo a vida antes?  Temia esquecer. 

A segunda onda fora pior, muito pior.  A boa nova anunciada logo evanesceu.  A cidade se fechou ainda mais antes de reabrir.  Havia tanto terror na súbita mutação do vírus que já então infectara milhões de pessoas e ceifara milhões de vidas.  A mutação viera mais letal.  O que fazer ante àquele anúncio?  Nada dera real conta do Covid-19, quem dirá do Covid-20.  Era como se fosse o primo irmão de uma bomba atômica arrebatada sobre todos – e em tempos de paz.  Sim, uma paz imposta pela pandemia mais letal que o planeta havia visto desde tempos imemoriais.  Seria impossível haver guerra, os soldados estariam mortos antes de alcançar as trincheiras.  Muitos já haviam morrido, aliás.      

Sentimento estranho o de ser uma quase-sobrevivente, porque sobrevivente da própria biografia.    

Percebi então que o céu estava azul, azul de doer.  Fazia sol na minha cidade. E eu podia caminhar sem máscara e sem medo. Eram seis e meia da manhã e senti uma ponta de felicidade no peito.  Felicidade.  Alegria.  Liberdade.  Como era a vida antes mesmo? Não podia esquecer.

No quê exatamente se transformara a vida naquele tempo era difícil precisar.  Basicamente, a vida dependia de uma conexão à rede.  Era zoom, whattsapp e que tais. Acordava-se já na rede.  Era o jeito.  E nem se dar mais ao luxo de ignorar as notícias era possível, porque a primeira vez que ouvira as sirenes tocar sem saber a razão – me havia dado ao sacrossanto luxo da leitura naquela tarde, e apenas leitura - me apavorei.  Ainda ouviria as sirenes tocar muitas vezes.

A terceira onda viera aterrorizante.  Pessoas morreram às pencas, as morgues e os cemitérios estiveram cheios.  A capacidade de mutação do vírus era tamanha que os tratamentos para o Covid-19 não muito serviram para o Covid-20, e menos ainda para o Covid-21.  A velocidade da mudança vinha sendo prenunciada pela ciência para a mudança climática e ali tudo indicou haver um vínculo entre esses fenômenos.  Era o preço pago pelos ouvidos moucos feitos aos apelos renitentes dos cientistas, esses seres desprezados pelos negacionistas que naquele tempo dominaram o cenário político.  A negação cobrou seu tributo: os negacionistas morreram quase todos na segunda onda; os restantes, capitularam.  Um certo presidente de memória nada saudosa morreu e de sua família não se ouvia mais falar.  Talvez estivessem mesmo mortos. Se não estavam, queriam estar.

Chego à Lagoa e ouço mais um badalar de sinos.  Descendo Botafogo, logo alcançarei a Praia do Flamengo e o Aterro.  Lá diziam me esperar.

Fora apenas uma resposta à uma corrente dessas de rede social: o que você propõe para o primeiro dia após a fim da pandemia?  Eu tinha sede da vida táctil.  Muita sede e fome.  Propus uma terapia do abraço num lugar público bem amplo e lancei: “Proponho um abraçaço no Aterro do Flamengo de manhã bem cedo”.  Que se abrace quem se encontrar pela frente, deixe-se estar no tempo que quiser o abraço durar.

O post virou um recorde com um milhão, quinhentos e vinte e sete mil repostagens.  Viralizou.  Não era crédito meu, não era um lampejo de inteligência, mas a tradução do sentimento que reinava meses depois da decretação da pandemia pela OMS, ainda nos tempos do Covid-19.

Porque não seria o abraço dos afogados.  Seria, enfim, o abraço de nós, os sobreviventes.


terça-feira, dezembro 03, 2019

como um pilão


tá tudo socado lá dentro
bem socadinho
o que senti e ressenti
queria ver se nascia algo novo
nesse pântano socado no peito

ô peito que sente, droga de peito que sente demais
e que não sabe o que fazer com essa droga
de sentimento das coisas demais

terça-feira, setembro 03, 2019

um ano depois...

... posto esses dois textos.  Incrível que não tenha me dado conta do tempo que fiquei sem passar por aqui e mais incrível ainda que apenas agora me dei conta que as histórias que tenho são de pessoas que se foram esse ano - Domingos de Oliveira, João Gilberto e, mais recentemente, Fernanda Young.  Depois falo dela. 
Que ano, meu Deus.

Domingos e os Meninos


Domingos de Oliveira morreu e só agora me dei conta. Que estranho, a morte sempre me impacta logo e tanto, ou será que em algum momento deixou de impactar e não percebi? Essa reação tardia me é estranha. 

Não era sua amiga, quem sou eu. Encontrei com ele um dia no aniversário da minha amiga Leila Meirelles, eles, sim, eram amigos. Fiquei sem graça de pedir para tirar uma fotografia com ele, então tirei dele depois de silenciar o telefone, mas acho que ele percebeu, que de bobo não tinha nada.

Eu adoro seus filmes. E de um em particular, porque me fez ver o menino que todo homem nunca deixa de ser - e depois disso confesso ter passado a ver os homens de outro jeito. 

Assisti “Juventude” no dia 25 de dezembro de 2008 às 16:00 hs com mais meia dúzia de 3 ou 4 pessoas na sala. O filme foi em diversas passagens aplaudido em cena aberta. Todos éramos fãs dele, ou não estaríamos no dia de Natal à tarde assistindo um filme de Domingos de Oliveira. Que tratava de 3 amigos que se encontram para festejar o aniversário de um deles e estão impressionados com a chegada dos 70, a idade do “você está ótimo”. Tendo percebido que meu psi estava também pasmo com os 70 que em breve completaria, dei o dvd pra ele de Natal na sessão de terapia seguinte. Ele amou o filme, disse que tinha sido o melhor presente daquele Natal.

A conversa que o filme nos trouxe sobre o tempo, as idades, e sobretudo sobre o menino que todo homem nunca deixa de ser nos rendeu senão a mais intensa e densa sessão de análise, certamente uma delas. Para nós dois, aliás.

Domingos era, ele mesmo, um menino, um menino travesso, arteiro e apaixonado pelas mulheres, que me fez entender os homens um pouquinho mais, porém um pouquinho que me deu conforto e redenção. Foi com esse filme que relembrei a menina que sou sendo já mulher e a menina que também nunca vou deixar de ser. Somos umas crianças na versão adulta, uma versão que o tempo concede, e não a idade. É estranho, mas é isso, sem tirar, nem por.

Quem sabe, Domingos, não nos encontramos num pátio de recreio? Será que se eu tiver coragem de te chamar pra brincar você brinca comigo, menino?

João


Olho a última foto de João Gilberto no jornal hoje, dois dias depois de sua morte. Depois da inundação na rede de homenagens mais que merecidas a um gênio da raça - que abençoada uma pessoa que entra para a história pelo bem que fez - aquele olhar dele me dilacerou.

Não que seja difícil dilacerar meu coração. Não em particular quando tento manter ainda vida num coração que ultimamente parece senão em cacos, bem craquelado.

O olhar - aquela expressão em seu olhar - reconheço nos meus velhos, os que já partiram e em alguns que por aqui ainda estão.

É um olhar de espanto, de espanto com o que está diante dele - o mundo. Há um espanto ínsito ao envelhecer, ao acumular anos à própria existência. Ignoro se é pelo fato de se estranhar ainda se estar por aqui depois de tanto tempo, se é porque o mundo se tornou um lugar estranho. Minha bisavó Mathilde, sempre tão alegre, e que partiu aos 103 anos de idade em casa sem dor ou agonia, um dia me disse que “era muita vida vivida”. 

Não é estar no mundo, é em que mundo se está. 

Com a velocidade da mudança a cada dia maior, me inundou um enorme medo, e não apenas por mim, mas pela minha geração que aqui anda tão frustrada. Estamos ainda pensantes e pulsantes, mas correndo da imensa roda da vida que nos alcançará. 

A ideia da morte nunca me pareceu má e nunca a vi como o oposto da vida, mas do nascimento. Não existe vida sem morte, tampouco morte sem vida.

Existirão, porém, anos no porvir sem tanto espanto?

segunda-feira, setembro 03, 2018

na roça

Vou pra roça com meu pai.  Quero ouvir o silêncio que dá um quase zumbido nos ouvidos, ler um livro sem ser interrompida, ficar ao abrigo da reverberação das más notícias.  Quero ter ao menos uma daquelas longas conversas com ele que meio que nos emocionam (sobretudo quando trazem  lembranças dos que já se foram), meio que acertam alguma ponta pendente, ou, se não acertam, mal também não fazem.  Vou ver o que o jardim trouxe de novo nesse último par de meses, ver os animais, tomar banho de rio, andar a cavalo, e com sorte chegar até o sertãozinho, onde há lindas e imensas bromélias nativas. Quero ficar despojada dessa bravata que virou viver nessa cidade.  Achar graça de ter que subir o morro para tentar uma vez por dia pegar um sinal de celular e, com sorte, acessar a internet.  Quero ir ao quilombo São José e ter dois dedos de prosa com alguém de lá que certamente sabe quem eu sou sem que eu jamais tenha me apresentado.  Sou urbana, eminentemente urbana, mas amo o mato e gosto de mim quando estou lá.  
Fico mais doce.  Talvez, mais eu.

segunda-feira, agosto 06, 2018

presente

O arboreto me abriga em sua paz
É domingo.
Mal não faz não pensar no tempo.
Ser do presente cativa,
saber que é só o que tenho
há de bastar. Haveria de me bastar
junto com a saudade que subjaz
ao domingo, ao jardim e à paz.

quarta-feira, maio 02, 2018

pagãos

É saudade e saciedade
da ausência nossa
e episódica presença
tudo o que nos vem por consequência
da nossa própria inconsequência

(talvez tardia e reiterada adolescência?)


Uma coisa sem dúvida rara

e certamente densa,
que todavia se fez do nada.
Será o permitir-se uma autoindulgência?

Quem sabe é a descoberta

do tal mágico instante
- o instante que a si se basta - 
pelos deuses de tempos em tempos ofertado
ao mortal assim resignado,
ao que no arco da vida
segue já em sua inflexão

(talvez um quê de transgressão?)


Somos nós: apenas nós

dando-nos um ao outro
o melhor de nós dois.
Somos nós, enfim: os que
ousam se despudorar,
os que se querem
- sobretudo se sabem - 
bárbaros, divinos pagãos.

terça-feira, janeiro 09, 2018

block is the new black

Percebi ter sido bloqueada no Instagram e não atino a razão.  Sendo alguém que conheço,  - mais precisamente quem considerava uma pessoa amiga - e se não tive um comportamento que minimamente possa ser interpretado como inconveniente, alguma coisa há.  Pergunto a pessoa diretamente via zap a razão daquela atitute - sim, sou curiosa - e ato contínuo a resposta já não me interessa.  Perdeu-me o interesse aquela pessoa por quem eu nutri um sincero afeto, que queria ver bem e feliz.  Sequer li a resposta. Estranho esse súbito desinteresse meu, logo eu jamais indiferente e sempre tão reativa, mas foi tão súbito quanto intenso.  Foi um super fenomenal foda-se.
Passado o pasmo inicial, engatei uma segunda e bloqueei eu mesma a pessoa que um pouco mais tarde veio a me desbloquear (se não percebo a razão da primeira atitude, menos ainda me convém agora saber a razão da segunda) e a surpresa do alívio que poucas vezes senti com tanta fervor foi inexplicavelmente intensa.  Ah, que maravilha bloquear.  Que coisa fascinante clicar sobre aqueles três pontinhos à direita e confirmar positivamente a mensagem que em seguida aparece indagando quase que in extremis se é isso mesmo que se quer fazer diante de tão nefastas consequências.  Sim, eu quero, querido aplicativo, eu quero bloquear.  Deixe-me bloquear. E não só quero como faço. E não só faço como o faço resolutamente e sem nenhum esforço além de clicar nos  tais três pontinhos e depois, hum, depois confirmar. Que coisa redentora saber que nunca mais verei quem a pessoa curtiu ou deixou de curtir em seguidores comuns; que alívio saber que desconhecerá meus passos dali pra frente.  Nada do que eu fizer estará a seu alcance, ignorará se estou aqui ou acolá, sozinha ou acompanhada, sobretudo por quem acompanhada, se de cara lavada ou não, se em minha cidade ou fora dela, se em minha rotina ou catapultada para um resort cinco estrelas que não se supõe como lá teria eu ido dar com os costados. Que poder este o do bloqueio.  Que maravilha este desinteresse que me contagiou como uma virose pestilenta de verão carioca devolvido neste simples gesto que se chama... bloquear.
Minha mais nova resolução de ano novo: bloqueie mais, mas bloqueie mesmo, sem dó nem piedade, bloqueie na vida online e fora dela,  que isto é mais do que poder, isto é mais alívio do que aquele redentor xixi da cerveja, isto é tão simples como na dúvida sobre o que vestir escolher aquele little black dress velho e bom de guerra que nunca fez feio em nenhuma ocasião.   
Eu não sabia, mas agora tenho certeza: block is the new black. Estou pronta para você, 2018.

P.S. a imagem, capturada do Google, é de Oprah Winfrey em seu emocionante discurso na 75a edição do Globo de Ouro, quando todos foram de preto em demonstração de repúdio ao assédio sexual e outros abusos pelos quais passam as mulheres.  Esta atitude agora me fez pensar que black is the new block.  Block neles!



terça-feira, dezembro 05, 2017

de novo, flor

o mundo me diz
ser distante do amor
quem quis, não quis

não há dor

a saudade partiu
o tempo em dois:
era antes, foi depois

agora descubro-me flor
em tardiva primavera

não há dor:
colheita à espera?

segunda-feira, julho 31, 2017

Decreto S/N

apenas quero o que seja fácil
nada que tome demasiado meu saco
que de resto não tenho
tampouco o tempo, que hoje um pouco até que sobra.

gente, trabalho, amor
venha o que for, mas que venha fácil
se for complicado, trabalhoso, cargoso 
desculpe, não quero
não é do meu desejo
tampouco do meu afeto
não é assim que mereço.

porque a essa altura eu sei: o complicado descaminha,
frustra, engendra caraminholas.

chega,
basta.
a hora é de descomplicar  


ainda que tardiamente, decretei hoje eu mesma: essa hora me chegou.

sexta-feira, maio 26, 2017

andarilho


o amor que vagueia andarilho
ao encontrar num porto misterioso seu abrigo
cruza a linha do desconhecido
estranha-se a si mesmo, deforma-se.  Dói.

tudo o que toca, transforma
será para melhor, será para pior?
não há respostas para esse andarilho
que tampouco perguntas fez ou faz

o andarilho diz se bastar em vagar
e que o porto sempre lhe será impermanente

quarta-feira, março 29, 2017

a trabalho

Mais um quarto de hotel em viagem de trabalho:
este tem vista pra montanha verde e uma cama decente.

Amanheceu hoje com sol,
o céu azul da serra bem limpo, lavado da chuva de ontem.

Sinto cheiro bom de café,
e o barulho dos vizinhos de porta que fazem um amor matinal.

Hora de levantar.

terça-feira, março 28, 2017

instante



Foi com um misto de espanto e medo
Que te vi desnudo e belo
Mostrando-te a mim sem segredo
Trazendo ao meu pudor tanto desejo.

Desejo imenso que ali nasceu
De um momento tão intenso
Ver-te tal qual menino  insolente
Trouxe à minha menina outro ensejo.

O destino ali nos quis
e quis tão denso, daquele inesperado jeito.
Com destino bem sei que não se brinca:
a ele e a ti, sem me entregar, inteiramente já me dei.

Mas não é a vida desatino?


Itaipava, 28 de março de 2017

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Especula-se

Acordo com o despertador no sábado porque temia perder a hora e o compromisso estava agendado há dias.  Verifico se está tudo certo: as cinco vias impressas do contrato de locação, cujo conteúdo fora discutido na véspera com o interessado, meu primo, cinco envelopes, papel branco extra, caneta, caderneta de anotação e etc.  A isso se somava a roupa que iria usar depois num almoço de família que incluía piscina no clube, o que fazia com que também o biquíni, o filtro solar, o chinelo, a canga e etc estivessem separados.  Aparato feito, casa arrumada, pego meu carro e, rumo ao destino, procuro estacionar em Copacabana.  Ai de mim.   Tento contato com a pessoa com quem tenho o compromisso marcado, em vão.  Uma, duas, três ligações não atendidas, até que recebo um zap dizendo "vi que vc ligou", "mas me esqueci do compromisso, foi agendado faz tempo, na segunda-feira anterior" (curioso  que do dia em que o marcamos se lembrava), justificando a falta "porque não nos havíamos falado mais" (precisava?) e, finalmente, que estava passando por problemas de família e que não poderia mais alugar o apartamento. Ora, desistiu do negócio em que tanto insistira? Fui rápida em redarguir que, ao menos, deveria ter me avisado - um mero zap bastava - e que não é certo ocupar pessoas à toa.  Arrematei o "diálogo" dizendo que lhe faltava seriedade na vida.  Uma frase me lavou a alma e o trabalho, tempo e material desperdiçados: "falta de s e r i e d a d e".
Uma especuladora.  Aliás, mais uma, porque percebo o verbo especular sendo amiúde empregado ultimamente.  Não mais apenas em jogos de azar ou em outras apostas em que a roda da fortuna gira. Não, agora especular é mais amplo: da locação que já de antemão não se sabe possível, ou ao menos bastante incerta, ao relacionamento que se pretende amoroso derivado de uma fila que ora anda, ora desanda, mas que, sejamos francos, é fruto do exercício da mais pura especulação.  Deve haver algum charme na pergunta "vai que cola?" e mais ainda na resposta - porém não alcanço como se conjuga esse verbo impunemente envolvendo outras pessoas e negócios sérios. 
Para especular, e desde que me entendo por gente, é bom lembrar que existe um apontador do jogo do bicho a cada duas quadras no Rio de Janeiro e inúmeras lotéricas vendendo o sonho de consumo existencial de cada ser no planeta, até dos que não jogam, que é, sempre foi, ganhar uma aposta, ficar rico e nunca mais ter que trabalhar. Agora entendo bem o porquê da perenidade dos jogos de azar.
Há mais especuladores do que especulação nessa vida. 

quarta-feira, janeiro 11, 2017

ainda tinha tanta coisa

E ainda tinha o Jardim Botânico que conheço de cor, onde há lugares que ninguém sequer imagina, lugares de paz e silêncio impensáveis em pleno turbilhão urbano.  E também ir ao cinema e conversar sobre o filme, e ir a praia, porque o mar é paixão, e ouvir música em algum lugar, porque música abençoa o dia e embala os pensamentos.  E se não teria festas ao luar como o poeta prometeu à sua amada, alguma festa  haveria de ter, porque tem sempre alguém que festeja o aniversário e o ano, a cada 365 dias, irrompe em outro novo, e festejar e dançar sempre é bom.  Tinha a minha versátil coleção de músicas, muitas músicas, carradas de músicas, e também alguns bons filmes. E tinha também viajar, falar francês, conhecer algum lugar inédito, sentir frio, observar os costumes dos outros, ganhar um ponto de observação longe de casa e de lá pensar na vida que aqui se leva. 
E só precisava ter dado alguma liga, a atenção encapsulada em banais sinais de fumaça que hoje chamam de zaps, nada de mais, nada demasiado.  Era apenas como soprar um beijo com a mão espalmada na linha do queixo quando a saudade viesse à tona (e ela sempre vinha). Ou alguma tarde livre numa sexta-feira mesmo que fosse para não fazer nada, nada além de jogar conversa fora na varanda e ver e ouvir sorrisos. 
E era para ser simples e otimista, porque a vida sorri para os simples e otimistas - e ela nos havia sorrido generosamente.  Era para preencher, não para ocupar espaço.
Ainda tinha um bocado de coisa.

p.s. a foto capturei no Instagram

sábado, dezembro 31, 2016

a carta de 2016 para mim

Eu fui um ano de susto para muita gente e para vc em particular.  Não queria te assustar tanto e, de mais a mais, pensei que vc absorveria o impacto. Talvez tenha mal dimensionado sua inteligência. Não, não é bem isso - o que houve é que subavaliei esse seu coração crédulo.  Por que tanta crença? Acredite menos ou escolha outras crenças; escolha melhor em quem e no quê acreditar. Não seja a rainha da boa vontade, porque não dá título, nem dinheiro. Desconfie, garota.
Gostei, porém, de ver que que minha co-irmã sorte te deu uma força - vc teve alguns encontros pessoais e consigo importantes, profundos mesmo; está enveredando por um caminho que, afinal, sempre quis, e conheceu mais gente que em anos anteriores. Dessas pessoas novas algumas ficarão, outras tantas passarão, mas a esta altura fazer a triagem já não é tão difícil. Lembre-se que não há tanta disponibilidade para o bem-querer. Eu fui um ano divisor de águas e tem hora que é preciso.  Claro que dói, sei que doeu. É verdade que vc perdeu muita gente,  mas será que valia a pena a convivência ou apenas ocupavam espaço?  Não seja tola.  Desacredite um pouco, não há mal nisso. Não é pecado, garota.
Escrevo essa carta nesse meu último dia de existência porque não quero que vc pense em mim como anda pensando, tampouco que fale tão mal de mim como vem falando.  Deixa de bobagem.  Você já teve anos piores.  Aliás, teve uma sucessão deles, e sempre se virou.  Vc é esperta, garota. 
Os fogos de Copacabana vão me detonar no preciso badalar do relógio à meia-noite. Não vou virar abóbora, vou partir para sempre. Como tudo o que é vivo se esvai, no segundo seguinte já ninguém estará sob o meu pálio e, a despeito de todo esse  mimimi, provavelmente eu não entrarei para a história. Segure a onda, porque 2017 será o que terá que ser e fazer planos se concretizar nunca foi o seu forte.  Portanto, nada de planos para não se desapontar depois. Outros já te disseram, aliás Guimarães Rosa vaticinou, e eu vou te repetir: coragem, coragem, coragem. É apenas isso o que importa, é disso que vc precisa.  
E não perca de todo esse seu coração.  Um dia ele vai te servir, garota.





a foto é a mensagem de ano novo da Juliana Reis: um ano macio para todos nós!