sexta-feira, junho 12, 2009

ah, a paixão!


Da história ouvi três versões, o que significa que essa talvez seja a quarta. Tentarei, porém, ser fidedigna aos fatos e prometo que, para além de um tempero pessoal aqui e acolá, não fabularei. Foi assim: Mathilde já estava cansada da insistência de sua filha Ignez em levar seu quase noivo Tito para passar o carnaval na casa da cidade. "Não fica bem", dizia Mathilde, "e de mais a mais seu pai jamais permitirá". Ignez não se dava por vencida e ponderava que seria um bom momento para se certificar que realmente queria ficar noiva de Tito, o homem com quem estava pensando em compartilhar a vida e em relação a quem se sentia algo morna. E voltava à carga: "Fale com o papai, mamãe, não há nada que ele te negue. Por favor, por favor!". De fato, Lindolpho atendia sua mulher em quase tudo. A qualidade de ser mãe de seus doze filhos, mulher dedicada e companheira fiel conferia a Mathilde superpoderes com seu marido, um homem com quem ninguém folgava. Junto ao velho, osso duríssimo de roer, Mathilde tinha lá suas estratégias, e a mais eficiente delas sempre fora chamá-lo ao quarto logo após o jantar. De lá saíam ambos apenas no dia seguinte invariavelmente com mais um pedido de Mathilde atendido. Enfim, Tito ganhou autorização para passar o carnaval na casa da cidade, sob a promessa de Mathilde de que manteria os olhos bem abertos sobre os dois. Além desse convidado, outro a eles se juntaria, o engenheiro que o Departamento Nacional da Produção Mineral enviara a pedido do velho Lindolpho para analisar a água de sua fazenda, a qual pensou ser termal. Não era termal coisa nenhuma, mas passar o carnaval em Poços de Caldas não pareceu ao engenheiro um mau negócio; a cidade, agradável, era bastante badalada na década de 30. Vai daqui, vai dali, foram todos juntos ao baile no Palace Hotel no sábado de carnaval, aquele bando enorme de gente, Ignez, seu noivo, seus oito irmãos, duas irmãs e mais um punhado de primos. 'Famiglia' total. E dançaram juntos. Não Ignez e Tito, mas Ignez e o engenheiro. No segundo dia também. E no terceiro. No meio do baile da segunda-feira de carnaval, vira-se o engenheiro para Ignez, após sentir um aperto especial em suas mãos, e dispara: "Moça, percebo que você gosta de mim e eu também gosto muito de você. Quer se casar comigo?", ao que Ignez de pronto aceitou. Como contar a Tito, a sua mãe e a seu pai pareceu-lhe um mero detalhe diante da paixão avassaladora da qual tinha sido tomada. Com Tito se entendeu logo após o carnaval e lá se foi ele com as cinzas da quarta-feira. Não consta que tenha sofrido de amor, mas um travo de amargura bem deve ter remoído. À sua mãe foi franca e direta porque suspeitava que já percebera algo no ar. Foi batata: "Eu sabia! Como conto ao seu pai isso agora, Ignez? Vocês percebem o escândalo que vão provocar?". Realmente, Poços de Caldas em 1935 não era bem um lugar liberal, e a tradição mineira sempre foi muito cultivada naquela família, uma das mais respeitadas da região. "E agora?", insistiu uma contrariada Mathilde. "Você saberá o momento certo de contar ao papai", disse Ignez, aconselhada pela lucidez pós-desvario. E assim se deu. Num momento em que o velho Lindolpho elogiava o engenheiro Mario, Mathilde, oportuna, disse que apreciava saber de tal admiração, porque sua filha e ele pretendiam se casar em breve. "Quem é este rapaz?" reagiu, furioso, o velho Lindolpho. Ignez (também dita Zizita) e Mario (o engenheiro carioca da gema) se viram apenas 27 dias antes do casamento, logo marcado para janeiro do ano seguinte. Um ano após o casamento nasceu o primeiro filho, e o segundo nasceu justo no mesmo dia quatro anos depois. Foram felicíssimos a vida toda, se admiraram loucamente nos 55 anos que tiveram de vida conjugal e em comum tinham muito amor por todos os seus, inclusive por esta que aqui narra uma linda e ousadíssima história de amor, que é a história de seus avós paternos. Feliz dias dos namorados!
foto capturada do google imagens
o vídeo abaixo é um duo de Gwyneth Paltrow com Huey Lewis extraído de um filme chamado justamente... "Duets". Apenas agora percebi que ela faz o papel de filha dele, o que vem bem calhar no dia dos namorados, já que se diz que o primeiro namorado da menina é sempre o seu pai. Incestuosa, eu? Não, freudiana...

7 comentários:

anasimplesassim disse...

Que graça de história, Denise! Linda! E que bom que deu certo.
E certo duplamente, com o seu nascimento, você! :)

Denise Sollami disse...

Não é mesmo linda, Ana? Eu semprei achei curioso que justo meus avós tivessem uma história de amor tão ousada.

Cattley disse...

Não só a história é linda, mas muito bem contada. Cheguei ao final ansioso pelo próximo capítulo...

Denise Sóllami disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Denise Sóllami disse...

Cattley, vc é mto bom contando histórias. Pq não fazer um blog teu?

Adelino disse...

Denise, você é genial. Li com atenção a história que a rigor é também um capítulo de sua vida. Confesso que ao final, me emocionei.
Um abraço. Meus parabéns.
PS - Uma perguntinha que não quer calar: se ainda não acoteceu, quando sairá seu livro? Você escreve muito bem, uma linguagem perfeita, parece que estamos vendo um filme. Sem detalhar muito você diz tudo.
Abs

Denise Sóllami disse...

Adelino, nunca publiquei um livro, apenas essas maltraçadas aqui do blog. Se vou publicar? Não sei se tenho fôlego literário para isso. Agora, fico feliz que vc goste de me ler.