domingo, outubro 26, 2008

órfãos das diretas já



Essa crise financeira mundial, diuturnamente propalada como a crise das crises, os líderes mundiais volta e meia reunidos, os Tesouros europeus abrindo seus cofres, a inusitada proposta de se refundar o capitalismo, os economistas de plantão com os jornalistas e comentaristas de volta às bancadas, tudo isso pareceria um pão dormido não estivesse o Brasil, dessa vez, dessa única vez, fora do furacão. É tão difícil acreditar que consultei minhas bases, meus pares de geração e refrescamos a memória: formados na primeira metade dos anos 80, mal começávamos a ganhar a vida e quase sucumbimos ao plano cruzado, ao plano bresser (parece que deste houve duas versões, não me lembro mais), ao plano verão, ao plano collor, ao confisco da poupança e etc. Na época eu pensava que tudo isso era culpa de a proposta Dante de Oliveira não ter passado e que os deuses nos puniam com aquele arremedo de dobradinha Tancredo-Sarney, malfada em tudo e por tudo. Sentia-me irremediavelmente órfã, tendo que me virar, e era difícil se virar com 1% ao dia de inflação. Não havia over-night que desse jeito, tampouco explicação que bastasse para meu marido estrangeiro que não compreendia a desvalorização diária da moeda. Sobrevivíamos todos mal, aquém do nosso potencial e esforço. Levava-se a vida, pedindo-se por saúde - e olhe lá. De nada adiantou aquele mega-comício, o qual assisti de camarote num quarto que (espertamente) aluguei com uns amigos no Hotel Guanabara, em plena Avenida Presidente Vargas. Nessa época fatídica, para piorar, o Rio inundou, a falência da cidade foi decretada e numa manhã, saindo para trabalhar, depois de 24 horas de chuva incessante, vi aturdida algumas pirâmides de areia na bucólica rua que então morava no Humaitá. Portanto, não admira que tenho ficada tão pasma com a declaração do presidente do Citigroup, Bill Rhodes, publicada na edição física do jornal O Globo de 14 de outubro, reportagem de José Meirelles Passos de título "Acho que Deus é realmente brasileiro". Diz Rhodes: "Se algum país é capaz hoje de domar essa tempestade que enfrentamos é o Brasil. O que me incomoda é os EUA não terem aprendido com as lições da América Latina. Os EUA passaram décadas ditando regras. Acontece que os estudantes cresceram e se tornaram professores." Então é isso mesmo? Quer dizer que toda aquela minha orfandade não foi em vão? Passaremos incólumes, ou quase, de toda essa turbulência? Não será como nas recentes crises da Coréia ou da Rússia? Aprendemos todas as lições? E será que Deus é mesmo brasileiro? Só falta agora São Pedro ser carioca, esse verão não inundar a cidade e o Gabeira, enfim, ganhar.

Fotos do meu arquivo pessoal. A primeira são crianças encantadas no Oceanário de Lisboa; a segunda sou eu, virando criança de novo no Oceanário.

3 comentários:

Anônimo disse...

...e Gabeira...não ganhou...Pena...
Alice.

Lord Broken Pottery disse...

O mais fácil, o Gabeira ganhar, não aconteceu. Pena...
Beijo

Adelino disse...

Denise, o mal das "Diretas Já" é que agora não mais podemos culpar as "Indiretas". E já faz tanto tempo... E não pense que vamos passar ilesos à crise não, Denise. Elas são cíclicas, são como ondas do mar. Espero estar completamente, definitivamente errado.
E ainda bem que há uns 10 anos os boicotes do atual governo não prevaleceram sobre o anterior, caso contrário estaríamos hoje num carrossel inflacionário.
Um abraço. Feliz quarta-feira, quinta-feira...