terça-feira, outubro 02, 2007

Piaf, Única e comum


Imagine alguém nascido pobre, abandonado pela mãe e depois pelo pai, criada pela avó dona de um bordel, e que, ainda bem criança, fica cega e recupera a visão quase que por milagre. Imagine alguém que se vicia em heroína para aliviar a dor que sente em decorrência de um quase-fatal acidente de carro, e que perde o amor de sua vida num acidente de avião. Imagine que este alguém, nascido sob o pálio da tragédia, é uma mulher e que se chama Edith Piaf, dita “La Môme Piaf (“o pequeno pardal”), magnificamente bem retratada no filme de Olivier Dahan. “La Môme” ou, em português, “Piaf – Um Hino Ao Amor” é um tributo tardio, mas não por isso menos valoroso. É um filmaço.
O roteiro, também de Dahan, gira em torno de três eixos, Piaf criança e em início de carreira, Piaf no auge de sua fama e forma, e Piaf alquebrada pela doença, um pouco antes de sua prematura morte aos 46 anos de vida. Estes três eixos se intercomunicam ao longo do filme inteiro e faz ver como cada condição, cada fase da vida, informa a outra. Em nenhum momento a história se perde; ao contrário, cada vez ganha mais sentido a personagem. É um senhor roteiro.
A atriz que faz a retratada não poderia estar melhor. Nunca ouvira falar em Marion Cotillard, nunca mais a esquecerei. O mis-en-corps, a voz, a expressão vocal, tudo remete à Piaf, à sua essência. Marion Cotillard é uma intérprete rara.
E Piaf dispensa qualquer comentário - morta há mais de quarenta anos, não há quem desconheça sua versão de “La vie en rose” e “Je ne regrette rien”, não há quem não identifique imediatamente sua voz ao primeiro timbre. E, no entanto, era apenas uma mulher como qualquer outra, que apenas queria amar e ser amada.
p.s. este texto foi publicado na página do Jornal "O Globo" na Internet.

7 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Denise,
Bela resenha. Também gosto muito de Piaf e de bons roteiros. Não perderei o filme.
Beijo

Denise Sollami disse...

Não perca mesmo, Lord, é um filme raro e de muitas sutilezas.

Strix disse...

Obrigado.
Ela, a Piaf, deve ter ido para o lado de lá na mesma época em que tu estavas chegando.
Fiquei bem umas quatro horas fuçando o YouTube e o Google recordando.
Queria encontrar a interpretação dela (comovente, ti garanto) da "Marseillaise". Não encontrei.
Muito tempo antes de aquí tu chegares já era tarado pela voz dela.
Tenho pena dela pela maneira como foi explorada e sacaneada por seu "amante" americano.
Um gigolô barato que numca teve pena da fraqueza da Edith.
Boa noite
Um upa.
Strix.

Obscenum disse...

Já não pretendia deixar de ver, agora então, depois desse comentário, não perco mesmo. Abraços.

Adelino disse...

Denise, obrigado pelo seu comentário lá no meu canto.
Gostei de ver o Strix se declarando um admirador incondicional da Edith Piaf.

Muito bom gosto, Denise.
Bom final de semana para todos nós.

Anônimo disse...

Você tem razão quanto à intérprete ,está mais-do-que-perfeita!
Entretanto , acho que foi até econômica em seus elogios ao filme...
É avassalador, real , trágico , sofrido , lúcido , harmonioso ...imperdível!
Saí do cinema enlevada , embevecida com a sensibilidade de Dahan!

Anônimo disse...

E.T.Curiosidade:
Marion Cotillard pode ser vista no filme "Um Bom Ano", atualmente em cartaz nos canais Net Telecine.
Está irreconhecível com seu rosto e porte verdadeiros!
Melhor se pode avaliar a magistral interpretação que a transformou , literalmente , em Piaf.