quarta-feira, setembro 29, 2010

duplamente pela metade

Figure a seguinte cena: uma loira linda, alta, esguia, avança num corredor a passos largos empunhando a coleira de um cachorro tão garboso quanto ela.  Detém-se diante de uma porta que é aberta por um homem não muito bonito, mas profundamente atraente.  Ela o traz junto a si ("meu príncipe") e os dois se beijam apaixonadamente.  A loira é Brigitte Bardot e o não-bonitão, Serge Gainsbourg, altamente sedutor. Corta.  Um bando de obesos numa mesa redonda, num evento que parece ser um casamento, têm um diálogo tenso numa língua eslava (russo? polonês?) sobre um show que não irá acontecer e que lhes será a ruína total.  Há uma mulher na cena que espuma de ódio e trinca os dentes e, para não se trincar toda, colocam entre suas mandíbulas um guardanapo.  É curiosa a cena, instigante e, sobretudo, muito engraçada.  Corta.  Aparece um responsável pelo Festival do Rio que diz que houve um problema com o filme (o da cena da loira, sobre a vida de Serge Gainsbourg) e que a sessão em poucos instantes seria retomada.   Minutos depois aparece uma outra mocinha da organização do festival e anuncia: "Desculpem, houve um problema com os rolos dos filmes e nesse momento alguém deve estar assistindo indevidamente ao filme do Serge Gainsbourg... Não temos como retomar a sessão.  O dinheiro será restituído na bilheteria".  Como assim?  Trocaram os rolos dos filmes? "E qual era o outro filme?", pergunta um com absoluto senso de oportunidade um expectador, mas a mocinha não sabe.  A plateia de cinéfilos em festival ficou também sem saber.  O pior: sem saber de nenhum dos filmes.  Só pode ser sacanagem do Gainsbarre...  

p.s. a edição do Globo de hoje informa que os rolos vieram trocados na França.  Gainsbarre, Gainsbarre...

Foto capturada no Google 

sábado, setembro 25, 2010

como uma partitura

as cidades regurgitam tantas coisas e pessoas e excessos
e falta de tempo e bons sentimentos
a pressa, a pressa, sempre a pressa
e afobação e ansiedade

aqui no alto do morro olho o céu barrocamente estrelado
e penso nas bobagens que a cidade guarda
sem perceber
sem se dar minimamente conta

que estrelas são como a partitura de uma sinfonia
inscrita pelos deuses no céu para os homens

que cá embaixo, porém, já não a conseguem escutar.

segunda-feira, setembro 13, 2010

sacrossantas férias...


... e o exemplo capturado neste instântaneo: de nada mais preciso para ser feliz.

Itacaré, sul da Bahia, em foto minha.
Posted by Picasa

sábado, julho 17, 2010

uma teoria para joão carlos

Devo-lhe uma teoria, João Carlos.  Sim, falei que deveria haver uma explicação para a febre que assola as nações em época de copa do mundo e acho que encontrei.  É meio simplório, reconheço.  Equivale a tal febre a um oásis no deserto, a uma ilha no meio do oceano, a um refúgio completo das tribulações do dia-a-dia.  Simples simples.  Ninguém tem que pensar em muita coisa, ou ao menos não muito profundamente; afinal... é época de copa do mundo e o desempenho da seleção é o que verdadeiramente importa.  Nada mais tem muito apelo.  E esse oásis, numa época em que celulares tocam sem parar e tourear uma caixa de entrada de correio eletrônico deixou de ser banal, é um refrigério no meio do sertão nordestino profundo em tempos de seca prolongada.  Esqueça e-mails, ligações, pentelhações de toda ordem.  Esqueça-se.  O que de fato importa é se sua seleção vai ganhar, de quem, por quanto.  O que fico me indagando é se em tempos de globalização essa história de seleção do próprio país ainda faz sentido.  Alguma teoria?  

segunda-feira, junho 28, 2010

muito cacete


Fico contente com a vitória, mas acho futebol muito chato. Fazer o quê?

foto capturada no globonline: Brasil 3, Chile 0.

domingo, junho 27, 2010

sobre corredores e escritores

Admiro os corredores pela ausência de produção: basta-lhes um tênis, uma pista e disposição para se satisfazerem com a enxurrada das endorfinas que a corrida proporciona.  Nada de clubes, equipamentos, gastos ou parceiros.  As pernas, os pés, um par de tênis, o chão e lá vão eles, um leve sorriso estampado ao final da corrida, transpirados e felizes (não corro, apenas caminho, mas um dia chego lá, senão para celebrar a simplicidade desse prazer).  Escrever, acredito, é parecido.  Quando penso que Saramago mal terminou o ginásio, assim como Erico Veríssimo também não, e ambos os grandes escritores que foram (ou são? será que escritores nunca morrem, assim como os sonhos não envelhecem?), tudo parece tão simples: a folha em branco, a caneta, ou o teclado e a tela, uma ideia na cabeça, alguma observação da vida, a vontade e a coragem de maltraçar umas linhas.  Nenhuma sofisticação, nenhum equipamento, nada.  Corredores e escritores não esperam por ninguém, olham para o papel em branco ou para o chão e vão em frente, na certeza que o melhor não é chegar ao fim, mas se dar o prazer e o sofrer do percurso.        

sexta-feira, junho 18, 2010

pena




José Saramago, nascido em 16 de novembro de 1922 e falecido hoje, 18 de junho de 2010.

foto capturada no google

soube viver

José Saramago e sua mulher, Pilar, no dia do casamento deles, em 2007.

imagem capturada no google

sábado, junho 12, 2010

o amor é um mistério

A mídia dedicou ao amor a semana que antecedeu o dia dos namorados, programas e artigos sobre estudos recentes em paixão e romance, enquetes sobre expectativas dos homens e mulheres em relação a relacionamentos e etc.  A neurobiologia descobriu que a atração é informada não por subjetividades, mas por cheiros que escapam ao olfato perceptível, cheiros que denunciam se o sistema imunológico do outro é complementar ao seu próprio para garantir uma prole forte.  Visto assim, o fenômeno da atração parece fácil.  Mulheres estrogênicas procurariam por homens testosterônicos. Não consegui assistir aos programas todos, vi parte de um na quinta-feira e  a um terço de outro ontem.  É natural a curiosidade da ciência sobre o assunto, não conheço quem não questione o amor romântico e quem não queira viver em estado de paixão. Não ouvi os cientistas dizerem, mas ousei supor um dia que o amor tivesse a ver com o desejo primário da reprodução e com a evidência de que duas pessoas juntas serão sempre mais eficientes em se proteger mutuamente na vida que, ainda hoje - e talvez mais ainda hoje - é uma verdadeira selva.  Supus, supus...  Minhas conversas com Cupido desde a adolescência nunca foram muito reveladoras, mas a de ontem, surpreendentemente, foi: não há qualquer razão palpável. O que explicaria, por exemplo, duas pessoas completamente diferentes se apaixonarem e, em alguns casos, permanecerem juntas anos a fio? É comum irmãos com temperamentos completamente opostos porque um puxou ao pai e outro, a mãe.  Culturas distantes, origens diversas, diferenças de idade, os mais variados abismos os apaixonados superam por uma ponte chamada amor.  A mim não parece razoável a explicação de feronômios para quem se conhece na virtualidade, e eu sei de um caso desses com final feliz, tampouco para aqueles que não mais estão em idade reprodutiva.  Perguntei a Cupido ontem se seriam as flechas atiradas ao acaso ou se ele recebia alguma instrução superior antes de as desferir.  "Porque você quer saber, afinal, porque todos querem saber? Aceitem o mistério", respondeu. Concordo.  Aos apaixonados, aos que querem se apaixonar, aos que já se apaixonaram, aos que sofrem por amor e aos que se regozijam com ele, a todos, meus votos de um feliz dia desse mistério que se chama amor.  

ilustração capturada na Internet, Cupido e Psique in love (também ele!), ela numa atitude de total entrega.  Curioso, não existe "dia dos casados".

domingo, maio 30, 2010

ela é melindrosa, ela é melindrosa...

Serpenteei excitada a grande avenida que margeia a cidade aos poucos se insinuando já em sua grandeza.  Ali percebi sua densidade, mas não poderia imaginar o quanto é fresca e juvenil.  Sim, estava em New York, depois de quase não partir do Rio de Janeiro, na data do embarque então assolado por uma inundação incomum em abril, e de uma conexão perdida em Atlanta.  Ali estava ela - e eu nela, afinal - e me senti mais realizada do que propriamente feliz.  Acho que nunca vou me esquecer daquela sensação de quase-festa que tive ao sair do aeroporto e de me aproximar de Manhattan.  Se a imaginava grandiosa, surpreendeu-me saber  tão lindamente art-déco, um estilo que tanto admiro, embora não tenha sido difícil entender o porquê - afinal, era a moda na época em que a cidade mais floresceu - e, afora seus ícones, como o Chrylser Building, há detalhes inusitados em toda parte.  A melindrosa é pulsante, é vibrante e se oferece em música, teatro e compras o tempo todo.  É incrível como se compra!  E é apressada, não tem muito tempo a oferecer em nenhum serviço como anotar o pedido no restaurante ou comprar ingressos para o teatro.  Na melindrosa há arte, muita arte, a ponto de valer uma visita de quase oito horas no Metropolintan Museum of Art, e mais outros cinco museus, incluindo a felicidade de ver Tim Burton expondo no MoMa, além da Frick Collection e da galeria eleita minha preferida, The Neue Galerie, que abriga Kadinsky, Schiele, Ernst, Klimt e Otto Dix, este a vedete máxima, todos reunidos num prédio esplêndido (muito mortal aquilo tudo!).  Antes de partir, a melindrosa me perguntou ao ajeitar seu chapéu no toilette do The Radio City Music Hall: "honey, are we going to meet again?", ao que respondi, sinceramente esperançosa:  "I really hope so, babe".             

p.s. foto capturada do Google imagens

sexta-feira, abril 02, 2010

o causo do coup-de-foudre e a goiabada

A 'famigilia' se reuniu em peso no último domingo e da reunião brotaram causos.  Do passado e do presente é muita história; não admira, a famiglia é mesmo imensa e a memória é cultivada.  Há uma história que sempre achei meio fantasiosa, mas que parece ser de fato verdadeira, a da noiva que fugiu com o padre no dia de seu casamento, lembrada e relatada a uma prima querida e a mim ainda uma vez.  Ouvimos atentíssimas e pus-me a indagar (ninguém soube dizer, parece que os dois sumiram no mundo) se tiveram filhos, se foram felizes, o que fizeram da vida, onde moraram. Nada se sabe.  Sabe-se, porém, ou pelo menos é o que se conta, que a noiva teria fugido com o padre bem na hora do casório àquela época pudica do fim do século retrasado e naquele fim de mundo.  Figuro os noivos ali, prestes ao enlace, justo no momento do 'felizes para sempre até que a morte os separe' e ela, marota, dando uma piscadela para o padre, o sinal para evadirem-se, o que fizeram num cavalo que ali dava sopa.  Seriam apaixonados já há algum tempo ou tudo se deu mesmo na hora do casório?  Disseram-me ter sido a segunda hipótese, o padre era novo na cidade.   Foi o mais perfeito amor à primeira vista, coup-de-foudre total. Falei a minha prima que um caso de quem larga tudo por um amor demasiadamente súbito e intenso é o avesso do amor impossível, aquela coisa deprê de Abellard e Heloïse, de Romeu e Julieta, criaturas desprovidas de desprendimento e coragem.  Rimos as duas.  Eu, pela história bizarra; ela, suponho que sim, mas também porque antes me confidenciara, com aquela singeleza própria da gente do interior, que está produzindo (e vendendo) nada menos do que sessenta toneladas de goiabada por mês.  Ô, sô!   

foto capturada da Internet

domingo, março 28, 2010

em punta


"No más, no más", dizia a croupier do Casino Conrad, as mãos se espalmando sobre a mesa, os dedinhos se contraindo e se expandindo, a tensão antes de a roleta girar ao anunciar que as apostas estavam finalizadas.  É possível ficar na mesa por horas a fio apenas oscilando entre escolher o vermelho ou o preto, ou  a dezena, ou outras variações, e não perder muito dinheiro, apenas algum para a diversão.  O casino é feio, as pessoas, tensas, mas a cumplicidade que a situação do perigo induz é sedutora.  Ali aprendi que o dinheiro não é entregue a croupier, mas à mesa, e que não deve haver lugar mais vigiado no mundo do que um casino.  Punta del Este, o balneário instalado numa península à leste do Atlântico é bonito e sofisticado, e o mistério de saber como pode não haver lixo sem lixeiros intriga uma carioca que vê ambos aos montes neste outro balneário.  A praia é silenciosa, e o mar, bem frio, atrai medusas, a quem quase se deve pedir licença para mergulhar.  No dia anterior, o por-do-sol em Casapueblo, residência e atelier de Carlos Villarò - o maior pintor uruguaio vivo e uma simpatia - se revelou algo intensamente poético, pungente e, da natureza, um exemplo de verdadeira maravilha.  O sol se derretendo no meio do mar, no meíssimo do mar e todos os dias, como diz o artista, ficará para sempre plasmado em minha memória.  Na península, ao sul do continente, o mar e o sol me trouxeram saudade de tudo o que amo e também de mim, mas foi uma saudade que em nada doeu.   

a foto é minha, um instantâneo do por-do-sol em Casapueblo

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

seria ele um ponto de interrogação?

Uma amiga outro dia num e-mail disse que não interrogava porque a interrogação se recusava.  Dito assim parece bizarro, mas era simplesmente uma queixa sua do teclado.  É que fica tudo muito engraçado dito por ela, uma criatura estóica, o deboche articulado pelos sérios é sempre especialmente divertido.  Insiste em ser o ponto de interrogação da vez o "g": acabo de ler que cientistas franceses, contrariamente ao que afirmaram os cientistas ingleses há pouco tempo, juram de pé junto sua existência.  Ora, que coisa! Que potin no meio científico! Todo o rigor da ciência e anos de pesquisa em torno de tamanha interrogação, alguns milhares de euros e libras gastos em torno dela.  Calculo que seja um pouco mais do que o Mar da Mancha a separar ambas nacionalidades e indago se não haverá nada melhor para se  pesquisar.  Sim, porque não se trata de um tricotar feminino, de uma quimera gestada pelo ondular do estrogênio, e sim de pesquisa ci-en-tí-fi-ca, que demanda recursos e tempo e projetos e pessoas e etc.  Debaixo do Equador e em tempos de carnaval, imagino uma antiga marchinha para o "g": "olha o ponto g das muié, o que será que ele é, o que será que ele é?" 

foto capturada no site do Globo ontem, o carnaval de rua no Rio de Janeiro. Evoé, Momo!  

terça-feira, janeiro 12, 2010

mamãe na lagoa com seu hipopótamo


Deve ser o verão que faz os acalorados delirarem um pouco, não sei.  Seja o que for, o fato é que achei bastante inventiva a justificativa que meu pai deu para a louca que telefona para minha mãe ao menos vinte vezes ao dia (eu havia alertado que se tratava de uma maluca de jogar pedra na lua e que, ainda por cima, possuía requintes de chantagista emocional profissional.  É uma louca perversa, mas ninguém me deu ouvidos e ainda me chamaram de pouco compassiva): "ela foi buscar seu hipopótamo no Jockey Clube para levá-lo para passear na Lagoa, está muito calor".  É aí que entra a canícula porque a ela atribuo a razão de, ato contínuo, eu ter lisergicamente figurado minha mãe, em formato de história em quadrinhos, puxando pela coleira seu hipopótamo na Lagoa Rodrigo de Freitas.  E na sequência ainda a imaginei sentada num quiosque com o bicho deitado a seus pés enquanto ela conversava com minha madrinha que, por sua vez, tinha na coleira uma girafa, as duas tomando água de coco. Não tenho tanta imaginação, só pode ser delírio causado pelo calor senegalesco e inclemente: ontem, às 18:50hs (ou 17:50hs no horário normal), o termômetro marcava 39º C.  Nunca vi temperatura igual neste horário no Rio de Janeiro.  Já a louca de estimação, dada a delírios diuturnos, respondeu que o hipopótamo da mamãe ( "uma graça de bicho") deveria estar mesmo sentindo... muito calor.

foto capturada da Internet, uma praia na Polinésia Francesa.  Gostaria de ser a dona dos pés, menos pelos pés e mais pela praia.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

quarta-feira, dezembro 30, 2009

fim de festa

Se é verdade que o ano passa rápido, é também verdade que o fim de ano custa muito a passar.  Dentre os vários eventos e almoços e confraternizações e coquetéis a que fui - e não é apenas porque devo, mas também porque quero, mas de toda forma devo - conto uns vinte, sem exagero.  Aquelas pessoas que pouco te viram o ano todo (e porquê?) , os que aniversariam em dezembro e que, por isso mesmo, fazem questão de sua comemoração particular (compreensível), e todas as pendências que o trabalho não pode deixar virarem o ano (é quase uma verdade universal este fato) clamam por sua presença e ação.  Além do mais, há muita coisa para lembrar - os cartões (ainda mando alguns pelo correio), os presentes (os de última hora, os piores), os e-mails, os telefonemas...  Fazer o quê? Me parece aquele fim de festa em que fica todo mundo esperando o sinal que levará meia dúzia final de sobreviventes de si mesmos a irem embora, com a sutil diferença de, na virada do ano, não ser preciso sinal algum para nada - o ano novo virá de toda forma.  Pois venha logo, 2010!

quinta-feira, dezembro 24, 2009

à la une!

Vire seu olhar um pouco a leste e veja porque o Le Monde considerou Lula um homem... do mundo.

bem-aventuranças



bem-aventurados os despossuídos, porque deles é o sono dos justos;
bem-aventuradas as crianças, sobretudo as que neste natal ainda acreditam em papai noel;
bem-aventurada a consanguineidade;
e os amigos, a consanguineidade do afeto;
bem-aventurados os trabalhadores que fazem a máquina do mundo girar;
bem-aventuradas as aventuras bem vividas;

e bem-aventurada a criança pobre que nasceu há mais de dois mil anos para trazer esperança,
porque sem esperança nenhum coração sobrevive.

foto de Ernesto Martins


segunda-feira, dezembro 14, 2009

drama italiano


Não precisa muito esforço para perceber que o italiano é o ser mais  hiperbólico de todos os latinos. Tudo nele é exagerado: o amor de mãe e filho, as brigas entre os irmãos, o comer, o gostar.  Aliás, não se gosta ou se desgosta de alguém ou alguma coisa, se ama ou se odeia, e no limite de cada vértice.  Lembro muito bem da minha vó filha de italianos que declarava "ter paixão" ou "ter horror" no lugar de simplesmente dizer "gosto" ou "não gosto". A minha sogra nem pergunto mais se vai bem, e sim se está melhorzinha de saúde.  Nunca está, e desfia um rosário de reclamações com riqueza de detalhes sobre os tratamentos a que se submete.  É curioso pensar que um canastrão como o fotografado tem apoio popular; porém, em se tratando de um político italiano, calculo deva ter tanto apoio quanto rejeição.  Coitado!  Desmanchou até o penteado.

foto capturada na Internet

sábado, dezembro 12, 2009

nos anos 2000

Não pretendo fazer balanço da década, não tenho competência para isso, e também ainda não está realmente completa.  Além do mais, minha memória mudou: se antes fui qualificada por um amigo como um "catálogo ambulante" porque me lembrava de tudo e nenhum detalhe me escapava, agora já não é bem assim.  É estranha a memória, há detalhes e pessoas e fatos de que me lembro quase que cinematograficamente, e há coisas que parecem que me foram lavadas da massa cinzenta.  Química cerebral alterada? Tico e Teco já funcionaram a pleno vapor, mas me acalmou meu professor de yoga ao dizer que depois dos quarenta, para funcionarem bem, só pegando no tranco com as posições invertidas, e lá vou eu ficar de cabeça para baixo...  Pensar em falar sobre os nove anos desta primeira década dos 2000 até que me desafia, mas não sou pretensiosa.  Dizer também que entrar em 2010 me parece algo tresloucado porque ontem mesmo estranhei escrever "2000" é chover no molhado, não há ser vivente sobre a Terra que não diga que o tempo passa muito mais rápido do que antes.  O fato é que os 2000 vieram após a esquisitice e cafonice estética dos anos 80 e do minimalismo quase espartano dos 90 e fizeram do mundo um lugar muito menor e muito mais perigoso, e que, polêmicas à parte, evidenciaram o que antes já se intuia sobre o clima, porque o tempo mudou, não há dúvida.  Nos 2000, a instantaneidade e exposição proporcionadas pela web, a aproximação das pessoas, as relações virtuais.  O telefone celular e seus prós (adolescentes ligam diretamente para seus namorados sem passar pela sogra, que maravilha!) e contras (será que nunca mais terei paz?) igualmente mudaram padrões e me fazem pensar que a tecnologia é como advogados - um mal necessário - depois que se incorpora à vida das pessoas não se vive mais sem.  Entro em 2010 lembrando que quando criança pensava que nos 2000 estaria trafegando em foguetinhos e à beira da decrepitude.  Valeu pela lembrança, Tico e Teco, mas me alivia perceber que, embora persista estranhando muita coisa, não será bem assim quanto à decrepitude, ainda que tenha que continuar jurassicamente me deslocando sobre rodas e dirigindo num trânsito histérico.  Que venha 2010.  E feliz ano novo! 

domingo, novembro 29, 2009

Julie & Julia & Nora & Eu

Assistindo ontem Julie &Julia e percebendo as coincidências que permeiam a história do filme, não pude deixar de perceber as coincidências daquela história comigo mesma, já que também eu tenho um blog para maltraçar minhas linhas e tentar de alguma forma expor o que penso, mesmo que eu tenha a quase-certeza que meia dúzia de pessoas, vez por outra, aqui chegam por acaso e ainda que talvez seja o mero exercício de um velho cacoete meu: pensar e escrever.O fato é que adoro a Nora Ephron e seus filmes, amei este "Julie & Julia", e seu livro "Eu odeio meu pescoço" ("I feel bad about my neck", no original) é de rara sensibilidade. Ousei escrever-lhe uma carta, estimulada por seu próprio relato de sempre ter escrito cartas imaginárias para os autores de seus livros preferidos; não posso assegurar que lhe chegou, a remeti aos cuidados de sua editora no Brasil, mas intuo que, sim, ela deve ter lido aqueles três parágrafos que certamente contêm algum erro de inglês. Ao final da sessão, encantada com uma história que conta de forma tão graciosa uma sucessão de acasos e intuição, me lembrei de Paulo Leminski e de seu verso fulminante: "distraídos venceremos".

p.s. Eis a carta para Nora Ephron:

“Dear Nora Ephron:
I have just finished reading your book and I’m completely charmed. I feel exactly like you do after reading something really good: excited and sorry at the same time. A good book should never end.
Since I know now that you use to write imaginary letters to your favorite authors, I thought that I should tell you that although the distance (I live in Brazil) and some age difference (I’m 44) we feel exactly the same way about lots of things.
Thank you very much for sharing your feelings and thoughts in such a charming and open way and also for ensure me that we never quite understand life or love or death or whatever - it’s just the way it is.
Yours sincerely,
Denise Sollami
Rio, Feb, 26, 2007”

p.s2. o vídeo abaixo é delicioso

TimesTalks: Nora Ephron, Meryl Streep and Stanley Tucci



quarta-feira, novembro 25, 2009

o mesmo céu de sempre

o mesmo céu de sempre
ao meu desabrigo, o mesmo firmamento
ao anoitecer de ontem nele vi um novo ponto brilhar
um diminuto ponto, um nada, algo quase imperceptível:

e já não é mais o mesmo céu

domingo, novembro 15, 2009

trinta e seis anos depois


Posted by PicasaVolto à Praia do Forte trinta e seis anos depois de lá ter estado com minha família numas férias de verão. Tudo mudou: o aeroporto, a estrada, o acesso, tudo agora é diferente e voltado para receber o turista.  Na Bahia da era pré-axé havia na Praia do Forte apenas uma vila de pescadores e a sede da fazenda de reflorestamento em que trabalhava um primo do meu pai.  Ficamos naquele paraíso uns dez dias antes de ganhar Salvador, e me lembro perfeitamente de tudo o que então visitamos.  Já a vastidão do mar, os arrecifes o matizando do azul profundo ao turquesa, a areia branca e fininha, os coqueiros adornando o litoral caprichosamente recortado continuam iguais.  Ao caminhar nessa praia e experimentar tanta liberdade e desprendimento, constatei: eu, se mudei, não foi tanto.                

foto minha, um instantâneo dessa maravilha em 13 de novembro de 2009

quarta-feira, novembro 11, 2009

"que painel o quê, minha filha!"

É fato: morava numa pequena rua no Humaitá e, no verão, todos os dias a luz era cortada precisamente às quatro da manhã ao ser ligado, pela padaria, o forno para assar o pão.  Aquilo era todos os dias.  De nada pareciam adiantar os abaixo-assinados dirigidos à concessionária e preparados pelo diligente síndico do prédio vizinho.  Chegava o homem  brandindo aqueles formulários, sempre esbaforido, não tinha como não assinar e a causa era mesmo justa. Infelizmente, esforço inútil, porque por anos satisfação alguma nos foi dada.  Um dia a luz faltou mais cedo, bem mais cedo, às dez da noite, e estranhei.  Nada de televisão, nada de música, mas, como se sabe, casais jovens não morrem de tédio.  No dia seguinte, às seis da manhã, acordei ainda sem luz e telefonei para reclamar.  Um alô com voz de tédio me fez intuir que não estava diante de alguém motivado no trabalho.  Fui direta: "Está faltando luz na Rua Maria Eugênia desde ontem à noite".  "Ah, é? E onde fica essa rua"?, repondeu o pouco-motivado.  "No Humaitá".  "Pode até ser" - disse ele - " mas não tem nada aqui não.  Eu cheguei agora e não tem nenhum bilhete por aqui".  "Bilhete?" - perguntei, surpresa - "Mas moço, não existe um painel à sua frente piscando onde falta luz na cidade??", ao que me respondeu: "Que painel o quê, minha filha...".  Meia hora depois a luz voltou, e pensei que provavelmente apenas eu havia comunicado o fato.  O síndico devia estar fora da cidade e, como toda a rua contava com sua extrema diligência, ninguém fez nada.  Tempos depois o vi na esquina da rua Humaitá, numa quarta-feira, dia de feira livre na Maria Eugênia, e percebi que, rodeado de mulheres, assistiam todos a troca do famigerado transformador.  Pensei que as preces da rua inteira haviam sido ouvidas, já que dos abaixo-assinados se desistira há muito tempo.
Lembrei da rua que no verão faltava luz a partir das quatro da manhã, da noite inteira sem luz e sem que ninguém reclamasse, do tal painel estilo jetson que minha vã filosofia imaginava existente, do fora que levei do atendente, da troca do transformador em pleno dia de feira livre.  Pensei nisso tudo ontem durante o apagão.  O síndico deve ter ficado indignado.     

segunda-feira, novembro 02, 2009

a jardineira fiel



Nada como um jardim.  O meu é mínimo, mas o amo de paixão.  Cuido, cuido... As bromélias floriram todas, várias orquídeas ameaçam florir também.  Que me desculpe o Nando Reis: ele poderia fazer tudo por mim, menos cuidar do meu jardim.  Dele cuido eu.

sábado, outubro 31, 2009

a pedra lavada


Já cantou Adriana Calcanhoto: "carioca não gosta de dias nublados". É difícil conviver com um segundo semestre quase inteiro de chuvas. Aquele tempo úmido a melar o humor, um cinza compacto imposto dia após dia, a cidade transtornada debaixo de uma chuva renitente. Porém, um dia de sol após uma temporada de chuvas é um alívio para a alma e um colírio para os olhos. As montanhas, ainda molhadas e luzidias ao sol, devolvem o prumo ao carioca.


p.s. a foto é minha, tirada ontem no Jardim Botânico.

sexta-feira, outubro 30, 2009

desimportância

Deve ser falta de identidade com los hermanos. Ou excesso de tarefas e informações. Ou um cotidiano atribulado, um redemoinho que se instalou nos últimos tempos. Vai ver é puro egoísmo, desinteresse, ignorância. É bem verdade que tive um amigo hondurenho quando estive na Inglaterra, um militante estudantil exilado pela família para aquela diminuta cidade ao sul da ilha com o objetivo de protegê-lo da perseguição da ditadura. Chamava-se Omar e morava em Tegucigalpa; lembro bem dele, um mestiço de olhos verdes. Agora, francamente, não dei a mínima para esta crise em Honduras. Mas, assim, um minimo minimorum não dei... Um episódio que me passou inteiramente batido. Não entendi direito a atuação do Brasil nele, ignoro se foi boa ou má, e desconfiei imenso daquela criatura de chapéu de vaqueiro - e não sei o porquê, nada tenho contra vaqueiros nem contra chapéus de vaqueiro. Enfim, parece que por lá finalmente se compuseram, o que, considerando que a população de um país inteiro deve ter andado bem amolada com tamanho imbroglio, não é de todo mau. Ainda que, francamente...

sábado, outubro 24, 2009

Luis Miguel *La Barca* Festival 1994

Dicen que la distancia es el olvido
Pero yo no concibo esta razón
Porque yo seguiré siendo el cautivo
De los caprichos de tu corazón
Supiste esclarecer mis pensamientos
Me diste la verdad que yo soñé
Auyentaste de mí los sufrimientos
En la primera noche que te amé
Hoy mi playa se viste de amargura
Porque tu barca tiene que partir
A cruzar otros mares de locura
Cuida que no naufrague tu vivir
Cuando la luz del sol se esté apagando
Y te sientas cansada de vagar
Piensa que yo por ti estaré esperando
Hasta que tú decidas regresar
Supiste esclarecer mis pensamientos
Me diste la verdad que yo soñé
Auyentaste de mí los sufrimientos
En la primera noche que te amé
Hoy mi playa se viste de amargura
Porque tu barca tiene que partir
A cruzar otros mares de locura
Cuida que no naufrague tu vivir
Cuando la luz del sol se esté apagando
Y te sientas cansada de vagar
Piensa que yo por ti estaré esperando
Hasta que tú decidas regresar

(é que às vezes é muito bom ser cafonamente romântica...)

sábado, outubro 17, 2009

duas das antigas - a primeira:

Eu te amo, mas não te quero
Te desprezo, mas não te dispenso
Te alimento, mas não te sacio
Eu te esvazio. E te completo.

Eu te adoro, mas te abandono
Te engano, mas te esclareço
Te enlaço, mas te libero.
Eu me zero. E recomeço.

... e a segunda:

Há coisas que a memória revela
há outras que dela bem escapam
nada posso se a minha vela
por você, que talvez não o queira.

Mas eu te juro e confesso
ainda que ao tempo tudo ceda:
por você minha memória vela
em você meu coração se espelha.

quarta-feira, setembro 30, 2009

nada como dantes no quartel de abrantes

Num seminário, saio de uma porta e dou de cara com um afro-descentente de terno preto, a quem pergunto se saberia informar se no hotel há um restaurante. Diz que não sabia, mas "que deveria haver". Mais tarde, depois do almoço, percebo que não era um segurança do hotel, mas um participante do tal seminário jurídico, provavelmente um advogado. No Arpoador, diante de um bebê simpático que não parava de me sorrir, pergunto ao senhor que empurrava seu carrinho se era seu neto aquele baby tão sorridente, ao que me responde ser seu filho, com especial ênfase na palavra filho. Na minha rua, a maior casa do trecho em que moro pertence a uma criatura que só anda de chinelos. A cachorra dos meus pais, uma fox paulistinha, raça super rústica que em geral vive uns quinze anos, morreu de um câncer fulminante em menos de uma semana com oito anos de idade. O meu viveu treze e era a criatura mais frágil do planeta, de tão doente. Sei não, mas estou me sentindo algo deslocada ultimamente. É estranho não receber um manual de instruções novo para a vida a cada quinze dias.

terça-feira, setembro 22, 2009

tesouro

guarde meu amor contigo
guarde-o mesmo, bem guardadinho
como um livro que abriga uma flor hoje seca
que antes, porém, bem perfumou o seu instante

a origem das coisas

Quando as coisas não me vão lá muito bem em termos literários eis que um Hemingway vem em meu socorro. Deste - "O Verão Perigoso" - nunca ouvira falar, mas caiu no meu colo como um quina da loto me cairia perfeita se estivesse prestes a sair de férias. Um Hemingway tem essa fisgada imediata, da primeira linha até onde a vista aguenta segue-se num prumo só, e é apenas o sono que pode então me vencer, embora antes relute bastante. É fluido, é instigante, é prazeroso. É delicioso. O tema deste em particular são as touradas que ele tanto admirava e quanto mais são descritas mais me fazem pensar na origem delas. O que terá sido? Um camponês que desafiou os amigos a enfrentar um touro e depois virou uma competição causada pelo excesso de testosterona dos adolescentes virando machos? Ou terá sido um rapaz que quis fazer bonito para a sua amada que não o notava? Tantas coisas cujas origens me escapam, pensei. O fã clube da bossa nova no Japão, a queda dos italianos pelo drama, o pé-sujo fedorento que vira ponto de encontro absoluto, a intimidade que se faz do nada, o filme idiota que fica um ano em cartaz, o amor eterno que se desfaz, outro arrasado que se reconstrói. O mundo e meu permanente pasmo diante dele, cuja origem, também esta, ignoro.

segunda-feira, setembro 07, 2009

jardim botanicamente

citibank, abbr, bradesco
a placa diz ali ser 60 o limite de velocidade
da varanda do belmonte é quase tudo o que vejo

neste sete de setembro de saudade e tédio

segunda-feira, agosto 17, 2009

apenas uma segunda-feira


É isso. É a vida. Um dia você acorda e percebe o quanto tudo está desorganizado, mas o fato é que o contrário, o banal e o confortável, tampouco fariam mais sentido. Uma febre para a qual não há remédio, mas que, se houvesse, não se tomaria. Uma loucura que não leva a nada mas que, sem ela, a vida de nada valeria. Uma armadilha, uma quimera, um surto? Não, é só uma segunda-feira, e todo o absurdo que ela contém.
a foto é minha, o metrô de Lisboa

segunda-feira, agosto 10, 2009

sem 'complexo de entidade'

Sempre adorei Caetano Veloso. O poeta, o músico, o compositor, o homem. Sempre gostei, mesmo quando não era moda gostar, tempo em que era visto como um chato opiniático. Adorei "Coração Vagabundo", documentário em cartaz rodado ao tempo de duas turnês internacionais. Está lá o artista e o homem por inteiro, a pessoa desnuda, despojada. Simples. Tão simples que tem aversão a que o tratem como se fosse uma entidade, um ser que sobrepaira a torpe humanidade. Declara odiar este tratamento, não compreende quem se auto-confere uma coisa igual. É a anticelebridade pop, e é justamente esse avesso do avesso do avesso que me fascina em particular. Tem humor, muito humor, ri de si mesmo, de sua condição. E tem coragem, porque há um momento em que se diz triste e vulnerável com sua vida íntima, mas não declara o porquê - fala que uma coisa dessas não se revela. O melhor mesmo foi perceber que a letra da música que dá título ao filme diz "meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer". Aí está alguém com a ousadia de afirmar que seu sonho de consumo é existencial, algo que também eu digo, mas que digo com pudor, porque é raro alguém compreender. Um refrigério, esse Caetano Veloso.

quinta-feira, agosto 06, 2009

figuras matinais

São dois boxers lindos, com ar garboso, que tudo percebem conduzidos pela empregada da casa vizinha. Algo me diz que seja um casal. Depois os inúmeros ciclistas zarpando na minha rua de todos os lados, algumas meninas com aquele ar desdenhoso, outros que acredito quase profissionais com seus capacetes futuristas e garrafinhas d'água nas costas. Adiante, na altura da Igreja São José, passa um homem de meia idade de óculos ray ban feliz da vida em sua bicicleta, e não sei porque acho que é assim, de bicicleta e em mangas de camisa, que vai trabalhar. Logo mais, já na Lineu de Paula Machado, outra mulher também passeia seu cachorro, um lindo galgo cinza claro, ela com imensos óculos escuros faça sol ou faça chuva. Ainda na Lineu, apoiados num poste, dois senhores fazem exercícios de alongamento após (imagino) correrem na Lagoa. E há também os motoristas alucinados de sempre no Aterro do Flamengo onde, com sorte e dependendo do quanto eu estiver atrasada, encontro o 'gato do cachorro' sobre quem já escrevi, e que recentemente aposentou a sunga vermelha quase histórica para uma preta mais discreta. Vejo sempre essas figuras, praticamente todas as manhãs, mas não sei se elas me veem.

sábado, agosto 01, 2009

um sexy discreto


Nunca fui fã exatamente de Chanel. Acho legal, feminina, etc e tal, mas não me arrebata. Gosto, porém, daquele ar sexy discreto que mademoiselle cultuava e que tão bem personificou. Como se dissesse: "se quiser ser levadinha, ma biche, que seja, mas não precisa escrever na testa". Gosto disso, sabe? Acho assim... redentor!
foto minha, tirada num shopping em Floripa, uma homenagem a grife e a sua autora. Tremenda produção.

segunda-feira, julho 20, 2009

na dúvida, a dúvida

entre o certo e o errado
fico com o vão
que há entre nós:
nada de explicação,
nada demais

aliás, ouso dizer-te:
é apenas paixão, rapaz
é loucura, algo que não se compraz
do medo

ou talvez seja diverso:
quem sabe a alforria
que perversamente nos aprisiona

em nós mesmos?

terça-feira, julho 14, 2009

allez, enfants!


Você, burguês, que não ostenta nenhum título de nobreza, mas que adora uma mordomia. Você, um 'snob' ('sine nobilitae'), que gosta de coisas boas, de um bon entourage, de uma boa refeição e que entende como o mais perfeito milagre da multiplicação dos pães o máximo de conforto que seu suadinho dinheiro pode dispor. Sim, você mesmo, que apenas aí está nesse status razoável porque alguém resolveu acabar com aquela lassidão e todo aquele luxo excessivo da nobreza de antanho. Cabeças rolaram, é verdade. Menos mal que, a cada dia, tentamos livrar a nossa. Como diria meu ex-futuro-já-finado marido Serge Gainsbourg: aux armes, cidadãos, etceterrrrá!
foto capturada hoje no site do Le Monde, a parada de 14 juillet

sábado, julho 11, 2009

coffee break


Viagem a trabalho é assim: você se desloca, sai da rotina, ganha novos ares e tem uma missão expressa a ser cumprida. Nem sempre os ares são tão bons ou o desfazimento da rotina será benéfico, não raro, aliás, o deslocamento é sobremaneira sofrível e a missão volta e meia não sai de fato cumprida. E há os coffre-breaks, pensados para ser uma pausa restauradora, o cenário do networking e da troca de experiências, mas depois de seis deles certamente ninguém mais olhará para um bolinho de milho como algo ingênuo, ali posto para deleite dos trabalhadores-do-brasil. A cada volta de viagem de trabalho, com umas graminhas a mais, eu me faço a mesmíssima pergunta: isto tudo deve fazer algum sentido.


p.s. a foto é minha, um dos breaks gulosos a que me rendi nos últimos dias.

sábado, julho 04, 2009

sonhos existem para serem realizados...


... e é uma maravilha quando acontece. Há anos que eu queria ir a Flip ou, ao menos, ver a cara de Paraty na feira. A cidade, linda, ganha uma aura de magia, aquelas pessoas ali a circundar e respirar e exalar literatura. Autores, livreiros, editores, literatos, curiosos, gente esquisita de toda sorte (adoro gente esquisita), neo-hippies, muitas crianças, autores consagrados e autores iniciantes, alguns dos quais, após uma abordagem simpática, leem um poema e oferecem, cheios de orgulho, seus livros-brochuras por um preço módico, e recusá-los seria um crime de lesa-delicadeza. Foi rápido, dispunha de apenas duas horas, mas neste tempo fiquei imersa naquilo que tanto me acolhe quando me recolho. E pensei, quando já ganhava a estrada: aos sonhos, a realização. Aí vai uma das pérolas que lá tive o prazer de recolher:
"Sem licença Poética
(voltando do Rio)
Poesia é tua cria
Tua eterna companhia
Que não lhe pediu licença
Para fazer presença,
Ter te usado
Pra chegar ao mundo.
É teu sempre fardo
Teu poro que não exala estado
Líquido ou gasoso
E sim,
Algo, contudo
Mais profundo"
Thiago dos Santos in "Baile da Nostalgia", edição do autor. Adorei esse poema!
a foto é minha, instantâneo de um momento lúdico.

domingo, junho 21, 2009

tudo e mais um pouco

uma páprika doce e uma pimenta-do-reino
salsa, cebolhinha,
e também manjericão e coentro e sálvia

um atalho, uma via expressa
um viaduto, uma marginal
uma grande avenida central

você, meu tempero,
meu caminho e meu descaminho
o que tenho de mais certo e de mais errado.
Até aqui, sendo bem franca:

você é tudo pra mim

sábado, junho 20, 2009

let´s do it, let´s fall in love

But that’s why birds do it,
Bees do it,
Even educated fleas do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

In Spain the best upper sets do it,
Lithuanians and Letts do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

The Dutch in old Amsterdam do it,
Not to mention the Finns,
Folks in Siam do it,
Think of Siamese twins.

Some Argentines without means do it,
People say in Boston even beans do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Romantic sponges they say do it,
Oysters down in Oyster Bay do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Cold Cape Cod clams against their wish do it,
Even lazy jellyfish do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Electric eels, I might add, do it,
Though it shocks ‘em I know,
Why ask if shads do it,
Waiter bring me shad roe.

In Shallow shoals, English soles do it
Goldfish, in the privacy of bowls, do it
Let's do it, let's fall in love

The dragonflies in the reeds do it,
Sentimental centipedes do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Mosquitoes, heaven forbid, do it,
So does every katydid do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

The most refined ladybugs do it,
When a gentleman calls,
Moths in your rugs do it,
What’s the use of moth balls?

Locusts in trees do it,
Bees do it,
Even overeducated flees do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Let’s do it, let’s fall in love,
Let’s do it, let’s fall in love

quarta-feira, junho 17, 2009

filha da puc e de um bric


Tinha certeza que ia gostar do filme, caí de amores já no triller. O roteiro é singelo, a história também, e as grandes vedetes, no fim das contas, são a juventude e a Puc. É muito bom ter um campus para se abrigar e singrar aqueles primeiros anos de juventude. Não é vida mole, mas é vida boa. Muita esperança, uns conflitos da idade, uns amores, uns amassos, muito chão pela frente junto com a percepção que é o começo do começo do começo. De uma certa forma me identifiquei com a personagem interpretada por Érika Mader - que no filme, curiosamente, não tem nome. É, apenas, uma menina de uns vinte anos, magrinha, de pernas compridas e finas, terminando o namoro sem nenhuma ruptura traumática. E hoje, curiosamente, os Bric bombando de novo no noticiário. Escrevi sobre a felicidade de ver o Brasil num grupo com importância no mundo há tempo atrás (o post deve estar aí embaixo) e não admira. Do mesmo modo como lá nos verdes anos me vislumbrei um porvir algo augurioso, sempre acreditei firmemente que ainda veria o meu país melhor de vida, melhor situado. Pois é, filha da Puc e de um Bric... Nada mau.

segunda-feira, junho 15, 2009

a yoga e o silêncio

É horrível engrossar as fileiras da banalidade - e hoje é trivial ouvir alguém dizer que pratica yoga - mas confesso que isto mudou muita coisa em mim. Sinto uma falta imensa quando não posso ir a aula mesmo que a perca pela melhor causa do mundo, e não sinto falta apenas do exercício, do derrame de endorfinas, ou de estar com meu professor, ou ainda do reconforto da ducha que me faz seguir mais relaxada para o restante da jornada. Sinto falta, sobretudo, dos silêncios que sinto - e são tantos que preciso do plural. Porque é um silêncio profundo que me faz, um silêncio acolhedor, de uma mente que se esvazia, de ouvir nítido o pulsar do coração e da respiração. Tudo vibra em mim naquele silêncio do qual parece que sou feita. Não é um silêncio da ausência de sons, é um silêncio que vem de dentro. E é bem envolta neste silêncio que me escuto melhor.

domingo, junho 14, 2009

gostar, gostar e gostar?

Conversando outro dia com minha amiga Marcia B chegamos juntas à conclusão de que ambas sofremos do "mal do desamparo". Por alguma força misteriosa da natureza, talvez alguma conjunção astral havida em 1962, fazemos parte de uma pentelhonésima parte da humanidade que parece nunca precisar do outro. Somos, aos olhos de todos, umas fortalezas incorruptíveis, umas criaturas estóicas que passarão pelas vidas sem jamais necessitarem de quem quer que seja ou de algum cuidado em particular. E também por algumas dessas razões insondáveis, e no sentido diametralmente oposto, o resto dos homens e das mulheres, dos amigos, dos familiares, dos colegas de trabalho, dos cônjuges, dos namorados e etc (alguns desses homens e mulheres nem de tanta boa vontade assim) sempre precisarão de nós, e bem amiúde. Aliás, seremos por eles escolhidas como amigas ou namoradas ou cônjuges bem por esta percepção. Quando esse momento chegar, certamente será de nós que se lembrarão. Uma lacuna que se abre em suas vidas, um desacontecimento, alguma coisa ingrata os levarão a discar o número do celular que nos alcança. E, sim, nós estaremos lá. Certamente estaremos. Seremos atentas em tudo e por tudo às misérias alheias. Ouviremos suas aflições, teremos bons conselhos, a compaixão em nossos corações falará mais alto e jamais negaremos abrigo a quem quer que seja. O problema é que, às vezes, também precisamos nós de algum consolo, de algum colinho, ainda que colinho light, ou, apenas, de alguma interlocução ou de uma mera... atenção. Tudo isso lhes passará batido. Não por falta de comunicação ou de evidência, simplesmente não será percebido de nenhuma maneira. Sabe aquele telefonema simples, apenas para saber se vai tudo bem com o outro? Sabe aquele contato que não é para dizer nada em particular, mas para ouvir como vai a vida do outro? Não rola. Se alguém liga (a menos que para um convite ou outra frugalidade) é porque está precisando de algo. Diante de nossa constatação desalentadora, resolvi reformular meu velho conceito de amigo - "aquele de quem a gente não tem que se proteger", de resto muito mais um ideal do que um conceito - para "aquele que quer nos ouvir e saber de nós quando a sua própria vida estiver bem". Aquele que quer compartilhar não a alegria do encontro social ou qualquer outro contentamento pessoal, mas, tão-só, o simples saber da vida da gente. Não me acho sofisticada, tampouco complexa é a Marcia B, mas somos predestinadas a servir, a servir, a servir. A pergunta é: quem nos servirá, além de uma a outra? E não deveria ser a vida apenas e simplesmente gostar e gostar e gostar?

sexta-feira, junho 12, 2009

ah, a paixão!


Da história ouvi três versões, o que significa que essa talvez seja a quarta. Tentarei, porém, ser fidedigna aos fatos e prometo que, para além de um tempero pessoal aqui e acolá, não fabularei. Foi assim: Mathilde já estava cansada da insistência de sua filha Ignez em levar seu quase noivo Tito para passar o carnaval na casa da cidade. "Não fica bem", dizia Mathilde, "e de mais a mais seu pai jamais permitirá". Ignez não se dava por vencida e ponderava que seria um bom momento para se certificar que realmente queria ficar noiva de Tito, o homem com quem estava pensando em compartilhar a vida e em relação a quem se sentia algo morna. E voltava à carga: "Fale com o papai, mamãe, não há nada que ele te negue. Por favor, por favor!". De fato, Lindolpho atendia sua mulher em quase tudo. A qualidade de ser mãe de seus doze filhos, mulher dedicada e companheira fiel conferia a Mathilde superpoderes com seu marido, um homem com quem ninguém folgava. Junto ao velho, osso duríssimo de roer, Mathilde tinha lá suas estratégias, e a mais eficiente delas sempre fora chamá-lo ao quarto logo após o jantar. De lá saíam ambos apenas no dia seguinte invariavelmente com mais um pedido de Mathilde atendido. Enfim, Tito ganhou autorização para passar o carnaval na casa da cidade, sob a promessa de Mathilde de que manteria os olhos bem abertos sobre os dois. Além desse convidado, outro a eles se juntaria, o engenheiro que o Departamento Nacional da Produção Mineral enviara a pedido do velho Lindolpho para analisar a água de sua fazenda, a qual pensou ser termal. Não era termal coisa nenhuma, mas passar o carnaval em Poços de Caldas não pareceu ao engenheiro um mau negócio; a cidade, agradável, era bastante badalada na década de 30. Vai daqui, vai dali, foram todos juntos ao baile no Palace Hotel no sábado de carnaval, aquele bando enorme de gente, Ignez, seu noivo, seus oito irmãos, duas irmãs e mais um punhado de primos. 'Famiglia' total. E dançaram juntos. Não Ignez e Tito, mas Ignez e o engenheiro. No segundo dia também. E no terceiro. No meio do baile da segunda-feira de carnaval, vira-se o engenheiro para Ignez, após sentir um aperto especial em suas mãos, e dispara: "Moça, percebo que você gosta de mim e eu também gosto muito de você. Quer se casar comigo?", ao que Ignez de pronto aceitou. Como contar a Tito, a sua mãe e a seu pai pareceu-lhe um mero detalhe diante da paixão avassaladora da qual tinha sido tomada. Com Tito se entendeu logo após o carnaval e lá se foi ele com as cinzas da quarta-feira. Não consta que tenha sofrido de amor, mas um travo de amargura bem deve ter remoído. À sua mãe foi franca e direta porque suspeitava que já percebera algo no ar. Foi batata: "Eu sabia! Como conto ao seu pai isso agora, Ignez? Vocês percebem o escândalo que vão provocar?". Realmente, Poços de Caldas em 1935 não era bem um lugar liberal, e a tradição mineira sempre foi muito cultivada naquela família, uma das mais respeitadas da região. "E agora?", insistiu uma contrariada Mathilde. "Você saberá o momento certo de contar ao papai", disse Ignez, aconselhada pela lucidez pós-desvario. E assim se deu. Num momento em que o velho Lindolpho elogiava o engenheiro Mario, Mathilde, oportuna, disse que apreciava saber de tal admiração, porque sua filha e ele pretendiam se casar em breve. "Quem é este rapaz?" reagiu, furioso, o velho Lindolpho. Ignez (também dita Zizita) e Mario (o engenheiro carioca da gema) se viram apenas 27 dias antes do casamento, logo marcado para janeiro do ano seguinte. Um ano após o casamento nasceu o primeiro filho, e o segundo nasceu justo no mesmo dia quatro anos depois. Foram felicíssimos a vida toda, se admiraram loucamente nos 55 anos que tiveram de vida conjugal e em comum tinham muito amor por todos os seus, inclusive por esta que aqui narra uma linda e ousadíssima história de amor, que é a história de seus avós paternos. Feliz dias dos namorados!
foto capturada do google imagens
o vídeo abaixo é um duo de Gwyneth Paltrow com Huey Lewis extraído de um filme chamado justamente... "Duets". Apenas agora percebi que ela faz o papel de filha dele, o que vem bem calhar no dia dos namorados, já que se diz que o primeiro namorado da menina é sempre o seu pai. Incestuosa, eu? Não, freudiana...

terça-feira, junho 09, 2009

saudade

o beijo da despedida tem já um travo de saudade,
uma saudade sentida por antecipação

que também é um destilar do gosto teu,
do gozo nosso
e é tudo o que podemos ter um do outro.

saudade é o amor se fazendo lembrar

domingo, junho 07, 2009

na crise, à direita


Qual a razão? Nunca entendi. Mas as eleições para o Parlamento Europeu são prova que, na crise, a direita sempre arrebanha mais votos. Terá sido essa a razão de 64? Será que apenas a estabilidade econômica permitiu ao partido mais identificado com o socialismo chegar ao poder no Brasil? Não sei, essas questões da política sempre me escapam um pouco, embora me pareçam recorrentes. De uma coisa, porém, estou certa: se La Bruni gostasse mesmo de política não teria se identificado com Sarkozy. Mas prefiro pensar que o amor é cego e que dispensa essas bobagens mundanas. Aliás, basta ver seu (recorrente) sorriso. O amor é lindo...
foto capturada do site do jornal o globo hoje

quarta-feira, junho 03, 2009

ele, o tempo


Tudo passa por ele. O tempo que se perde na fila, que se ganha num sinal marotamente furado, que se quer retroceder com a medicina estética ou que se quer avançar para a semana correr logo e rápido chegar o descanso do fim de semana. O tempo perdido na esbórnia, o desperdiçado num farniente ainda que merecido, o trabalhado à exaustão, o caminhado nas andanças vadias, o tempo que um amor sem agenda insistentemente nega. Tudo isso é uma coisa louca chamada tempo, algo estranho, quase imensurável, mas que todo ano nos faz lembrar mais um aniversário. O tempo não-ocupado com os afetos sinceros e que depois talvez seja causa de eterno remorso ("tivesse eu dez anos a menos..."), porque certo na vida, certo mesmo, é não saber o dia de amanhã. Não sei se o tempo me assusta ou se, de alguma forma, me consola; afinal, não posso com ele. É como gostar de alguém e ter a certeza de que não adianta perquirir a razão. Se o tempo passa, o amor surpreende. Resigno-me. Por sabedoria ou impotência, simplesmente resigno-me.
a foto é minha, um instatâneo da pressa dos motoristas no Aterro do Flamengo, algo que nunca entendi. Porque não se deliciar com essa beleza toda e correr feito louco?

sábado, maio 16, 2009

bye, bye, outro blog!


Estava bem quieta quando a Ana Luiza, minha amiga, me instou a criar um blog na comunidade 'globonliners' da página do jornal O Globo na internet. Relutei um pouco, depois pensei que lá poderia me focar no noticiário, enquanto que aqui permaneceria um canto para minhas bobagens mais bobagentas. O curioso é que o 'na blogosfera' teve milhares de visitas e, sabe-se lá o porquê, virou indicação na página inicial da comunidade. Nunca entendi como tantas pessoas podiam ler aquelas maltraçadas, nunca entendi como poderia ter mais de cem visitas por dia. É dessa substância intrigante que é feita a internet: muita gente, muito anonimato, nenhuma razão palpável. Por incrível que pareça, gosto disso, sempre achei muito chato ter que dar satisfação de onde ir, com quem e porque (talvez seja trauma herdado da adolescência, talvez tenha a ver com uma renitente mania de transgredir um pouco). Um belo dia, porém, recebemos todos um e-mail em que, secamente, foi anunciado o fim da comunidade. Tínhamos todos trinta dias para salvar nossos escritos. A razão? Não se disse. O que virá em seguida? Tampouco. Não admiram tantos protestos e estranhamentos; afinal, era uma... comunidade! E comunidade na internet não se desfaz assim. Ou será que se desfaz? Andei pensando: não é realidade total, mas também não é ficção. Não é algo sólido, mas não diria ser líquido. Está mais para o etéreo, uma substância gasosa que, ao subir, vira nada. Enfim, a pós-modernidade e suas idiossincrasias, conosco no meio.
foto de Ernesto Martins

quarta-feira, abril 08, 2009

numa páscoa, as maritacas



Eu juro que vi. Na época morava na Gávea num apartamento que tinha uma vista magnífica para o Morro Dois Irmãos. Ficava muito intrigada de nunca ver niguém na varanda, aquelas lindas manhãs absolutamente desprezadas, apenas eu como uma testemunha silenciosa daquele presente da natureza. Onde estavam os moradores que se permitiam perder tudo aquilo? Francamente, nunca entendi. Pois foi num desses dias estranhamente desprezados, bem numa sexta-feira santa, que eu, às sete da matina já de pé me deliciando com aquela beleza de manhã outonal, vi um bando de maritacas se aproximando do prédio e pousando na varanda num andar abaixo do meu. Tive um ângulo de visão diagonal, de maneira que as pude contar. Eram onze maritacas pousadas sobre o guarda-corpo, quietinhas, quietinhas e, de repente, começaram a berrar a plenos pulmões. Fiquei pensando do que deveriam reclamar já que tudo parecia tão perfeito. Então mais uma se aproximou, meio perdida, bem lentamente, e fez-se a dúzia. Ficaram ali por meros trinta segundos e logo alçaram voo. Uma meia hora mais tarde, ao tomar o café da manhã e pensar no que presenciara, percebi que aquela visão havia sido meu presente de páscoa, como se os apóstolos ali estivessem estado e, de uma forma marota e insólita, me mandado um recadinho, um segredo sussurado ao pé do ouvido de que a vida começava então a se renovar. Foi quase uma revelação.
Feliz páscoa!

foto capturada do google imagens



terça-feira, março 31, 2009

fruto proibido

morra-se o mundo,
queimem-se as almas do inferno
salvem-se as almas do purgatório
morda-se a língua,
instaure-se a crise,
explodam-se todos,
danem-se!

pouco se me dá

ao ver-te,
ganho o dia

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Na Sapucaí


A ideia não foi minha, mas de minha mãe, que adora carnaval e que enquanto não me arrancou um 'sim' não sossegou. Não resisti à sua proposta de uma frisa na avenida, mas reconheço que não tinha noção de como estaria próxima do desfile. Chegamos de turistas - mamãe, meu marido e eu - num daqueles ônibus imensos, vendo tudo bem de cima e sentindo-nos um pouco estrangeiros na própria casa. Fiquei pasma com a organização; tão logo chegamos, rapidamente fomos conduzidos ao nosso lugar. Quando me dei conta de que estava mesmo em plena Sapucaí, a avenida que vejo na televisão a cada ano e que há mais de vinte não retornava, meu coração mandou o aviso da emoção, ali uma imensa alegria. Pode parecer lugar comum, mas com toda franqueza d'alma digo que a melhor sensação da noite foi a que tive antes de o desfile começar. As pessoas naquela espera, aquele buliço... Senti-me no convívio dos eleitos, uma privilegiada. Saímos apenas ao final e a maratona não chegou a nos cansar. A bem da verdade, passou muito rápido. Foi tudo lindo: as escolas com seus sambas, passistas, carros alegóricos, baterias; a plateia que vibrou incessantemente; o Salgueiro, que ontem ganhou meu coração. E mamãe... bem, mamãe tinha toda razão. Evoé, Momo!

fotos do meu arquivo pessoal tiradas ontem na Sapucaí. A segunda é o momento antes de a primeira escola desfilar, o início da festa. A primeira sou eu, encantada e feliz.
atualização na quarta-feira de cinzas: a Salgueiro é a campeã do carnaval de 2009. Merecidíssimo!

sábado, janeiro 31, 2009

coincidência das coincidências

No ano passado, em 30 de junho, escrevi um post chamado "a nova (des) ordem mundial" em que perguntei, ao final, se haveria chance de algum país no mundo de hoje dar anistia a imigrantes ilegais, como a que foi concedida a meu marido em 1988, através do (provavelmente) último decreto-lei editado antes da nova Constituição. Hoje li que a anistia se repetirá mais uma vez no Brasil. Fiquei divagando: será que alguém me ouviu? É bem verdade que andei falando disso por aí e, sei lá, pode ser que a ideia tenha reverberado e que alguém tenha até mesmo levado crédito por ela. Depois pensei que alguém poderia ter lido casualmente essas maltraçadas linhas lançadas a esmo na blogosfera, mas em seguida achei pouco provável. Por último, pensei que... bem, será que profetizei? Vai saber. Enfim, não importa, me regozijo com a notícia - deve ser muito ruim imigrar e viver ilegalmente num país estranho.

sábado, dezembro 20, 2008

meados de dezembro


Desço a Avenida Rio Branco e percebo mais abraços e beijos do que seria o normal numa sexta-feira, uma certa expressão beatífica em todos, como se pedissem perdão pelas mordiscadas dadas no ano que se encerra. Desço a Rio Branco em meio a pessoas carregadas de sacolas, os ambulantes com chapéus de papai noel, os pontos de ônibus lotados. Desço a Rio Branco nesta última sexta-feira antes do Natal e, sem querer pensar no ano que acaba, sem pretender balanços, o papel picado jogado pelas janelas precocemente não me concede essa inocência. Desço a Rio Branco na esperança que o ano vindouro seja melhor, na certeza que estão encerradas minhas compras de Natal e que teremos todos uma noite muito feliz. Feliz Natal!

foto capturada na Internet

segunda-feira, dezembro 01, 2008

primeiro de dezembro


Um ano como qualquer outro, em que coisas boas acontecem e coisas ruins também. Nada de muita surpresa, uma imensa satisfação porque meu pai se safou mais uma vez, porém não o meu cachorro. Perdemos o Zeca, uma vida que foi escrita junto com a nossa, tanto afeto e amizade compartilhados, de me fazer crer que as pessoas deveriam ter um cachorro antes de pensar que sabem alguma coisa sobre amizade. Depois veio a avalanche midiática daquele casal medonho e a garotinha morta, a chatice repetida ad nausem do joelho do Ronaldinho (ô assunto), uma inundação de praxe, não há ano que passe batido sem uma desgraça natural, uma amiga que espantou a depressão, ela bem à sua porta, outra que se reconciliou com o marido para o bem de todos e felicidade geral, outra que se livrou do dela e parece que em boa hora. Uma crise financeira mundial que ninguém imaginava, o candidato afro-descendende enfim eleito (menos mau), o prefeito péssimo que já vai tarde (menos péssimo), nenhum bom filme, desses de causar impressão cinematográfica plasmada na memória, mas uma peça de teatro linda, os Beatles e apenas eles, suas canções maviosamente interpretadas, eu com os olhos rasos d’água ao ouvir “Something”. Ah, meu Tio Carlos que se foi também, embora já tivesse partido há tempos (não era mais ele), e parece que o casarão na Gávea ficou de todo vazio. Uma primavera feia, chuvosa, cinza e chata, um céu azul em Lisboa de matar de inveja qualquer carioca órfão de uma bela primavera, uns três meses do ano trabalhados só para pagar imposto de renda na fonte e outros tantos de azul desperdiçado num cinza que nada desfazia. A vida, a vida, a vida, agora o Natal, o réveillon e depois tudo de novo.

foto capturada da Internet, Barack Obama em Berlin aos 24 de julho de 2008, diante de 200.000 pessoas. Para mim, é a foto do ano.

sábado, novembro 29, 2008

o gato do cachorro

Singrei o Aterro do Flamengo hoje mais uma vez debaixo de chuva. Só pode ser essa insistência úmida a me melar o humor, a me deixar nessa zona grísea de indigestão espiritual. Mais uma vez acordo com o sol à espreita e vou me deitar sob um chuvisco insistente. Que saco! Essas coisas têm um efeito deletério sobre a gente. Por exemplo: nunca mais vi aquele deus grego, aquele que corre na pista do aterro com seu cachorro todo dia por volta das nove e quinze da manhã, um corpo esculpido em tudo e por tudo à semelhança do Criador. Que maravilha da natureza - e que natureza! Um impávido colosso. Pois desde que chove desse jeito a criatura sumiu. Ele e seu cachorro abandonaram o exercício matinal e deixaram minhas retinas viúvas daquela visão do paraíso. Pergunto aos quatro ventos: cadê o gato do cachorro? Cadê?


foto de Ernesto Martins