Sempre adorei Caetano Veloso. O poeta, o músico, o compositor, o homem. Sempre gostei, mesmo quando não era moda gostar, tempo em que era visto como um chato opiniático. Adorei "Coração Vagabundo", documentário em cartaz rodado ao tempo de duas turnês internacionais. Está lá o artista e o homem por inteiro, a pessoa desnuda, despojada. Simples. Tão simples que tem aversão a que o tratem como se fosse uma entidade, um ser que sobrepaira a torpe humanidade. Declara odiar este tratamento, não compreende quem se auto-confere uma coisa igual. É a anticelebridade pop, e é justamente esse avesso do avesso do avesso que me fascina em particular. Tem humor, muito humor, ri de si mesmo, de sua condição. E tem coragem, porque há um momento em que se diz triste e vulnerável com sua vida íntima, mas não declara o porquê - fala que uma coisa dessas não se revela. O melhor mesmo foi perceber que a letra da música que dá título ao filme diz "meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer". Aí está alguém com a ousadia de afirmar que seu sonho de consumo é existencial, algo que também eu digo, mas que digo com pudor, porque é raro alguém compreender. Um refrigério, esse Caetano Veloso.