quarta-feira, julho 03, 2013

mind the gap

Manifestações pacíficas, repúdios, barulho, trânsito bloqueado, saques, polícia, muita confusão.  Uma delas vi acontecer na esquina da Presidente Vargas, eu no meu carro e mais uma meia dúzia de pessoas por ali já bem tarde, justo naquele momento.  A Polícia Militar, quando enfim conseguiu liberar a pista, não precisou esperar mais de dez segundos para que eu ultrapassasse aquele circo armado.  Estranhamente não tive medo, mas estava bem alerta, a postos para salvar minha pele, já que era mesmo o caso de salvar a pele.  Isso aconteceu muito antes de o movimento crescer na proporção em que cresceu.  Aí vieram as manifestações, acompanhadas da inundação de opiniões em todos os sentidos.  Nunca vi tanta gente tendo tanta opinião e, ao ser indagada pelos meus familiares europeus do que se tratava, senti que acertara na síntese, ainda que, ao fazê-la, estivesse bem atônita: protesta-se contra a corrupção e contra a falta de bons serviços públicos. 
Passado um tempo, a culpa do mundo que de início fora depositada apenas no governo federal acabou por ser dispersada.  Hoje li que toda a classe política eleita perdeu popularidade.  Intriga-me como algum político pode perder tanta popularidade de um dia para o outro e calculo que ou bem a popularidade não era consistente ou bem num único golpe toda a consciência política foi apreendida, numa queda de ficha coletiva. 
Mas se tudo parecia estar caminhando com alguma ordem, por que então o protesto tomou tamanha proporção? Por que existe tanta ambiguidade entre o que se pensa e o que se pratica? Por que há um espaço entre o que se vive, o que se percebe da vida, e o que se quer de fato? Por que é esparsa e escassa a comunicação com os cidadãos em plena democracia?Por que o caldo estava para entornar e ninguém se dava realmente conta do nível de intolerância a que se chegara?  As vozes das ruas já murmuravam há muito tempo, recolhidas, mas, sabe-se lá porquê, ninguém parecia estar percebendo o murmúrio inicial, tampouco o volume que poderia ganhar.  
Permaneço intrigada, mas uma luz se abriu.  A caminho da final da Copa das Confederações, no metrô, ao ouvir as instruções para o desembarque, agora ditas também em inglês, percebi que ali poderia se aviar a fórmula para a classe política  sobreviver - e  sobreviver a si própria - uma coisa tão sutil e tão certeira: "mind the gap". 

segunda-feira, março 18, 2013

Dez séculos depois, um Bento e um Francisco

Curioso que nessa miríade de análises e comentários que vieram à profusão a respeito da renúncia de Bento XVI e da escolha do novo Papa ninguém tenha se referido a algo que a mim pareceu muito claro logo depois do seu anúncio e do nome que resoveu adotar - e olhe que não sou nenhuma teóloga ou expert na Igreja Católica. 
O fato é que para a Igreja o Século V e o XI ficaram conhecidos como os séculos dos santos, santos que lhe determinaram novos rumos e que são, até hoje, cultuados por sua obra e pelo exemplo que deixaram.   A instituição da Igreja, tanto no Século V quanto depois, no Século XI, estava moribunda, afundada em vergonha e corrupção, muitíssimo distante do legado de Cristo e de sua doutrina.  Não resisitiria muito mais se naquela direção prosseguisse.  Quis o destino, ou a Providência Divina para aqueles que assim chamam o acaso, que viessem homens que a recuperaram e que, ao mostrarem ao mundo que era então possível resgatar seu sentido de honra, deram a doutrina cristã uma nova lufada de vigor.
São Bento, homem de movimento segundo Caetano Veloso, um italiano sábio e perspicaz, não desdenhou o mal, formulou e praticou uma oração exorcista até hoje muito popular.  A despeito das reiteradas negativas da Igreja, fundou sua ordem.  Os beneditinos, educadores e missionários, contra a vontade do poder então dominante saíram mundo afora.  Destemidos, professavam uma doutrina ao mesmo tempo rigorosa com o que reputavam malsão e amorosa com as pessoas.  São Bento resistiu a todo tipo de achaque e ataque a sua pessoa.  É conhecida a passagem em que um corvou salvou-lhe a vida ao morrer após comer a comida envenenada a ele destinada.
São Francisco, um italiano nobre e rico, despojou-se de tudo e fundou a ordem dos franciscanos, da mesma forma contra a vontade do poder dominante.  Francisco era altamente místico e  até hoje é  um ícone do misticismo cristão.  Conversava com os animais, admirava a natureza, e dizem que em seus momentos de êxtase exclamava aos passantes palavras de amor.  É tamanha a importância de São Francisco para a doutrina cristã que há quem o chame de o "Segundo Cristo".  Uma curiosidade: Santo Antonio, religioso português muito amigo de Francisco, à sua ordem serviu como pároco da cidade de Pádua, na Itália.  Antonio era tão bondoso e fazia tantas curas que já em vida era chamado de "il santo" por seus paroquianos, e não por Padre Antonio.
Dez séculos depois (ou cinco mais cinco) a história se repete: atolada em episódios escabrosos como os dos padres pedófilos e escândalo do Banco do Vaticano, um papa antevê a necessidade de uma atuação rigorosa e pede inspiração a São Bento.  Alquebrado por problemas de saúde, pelo dito 'fogo amigo',  e sem disposição para enfrentar a situação árdua, Bento XVI renuncia num ato de humildade, e chega o jesuíta Francisco I com a missão de enfrentar o que deve ser enfrentado e de renovar o que deve ser renovado.  
Para mim, a prova que é possível a renovação é o fato de ser a fé que sustenta a Igreja e que há séculos a vem sustentando.  E a fé cristã se funda na ideia de renovação que a ressurreição de Cristo encerra (como dizia São Paulo, "se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé").  É dizer: se não se acreditar na renovação, nada faz muito sentido.  E todos nós sabemos, cristãos ou não,  que 'ressucitamos' muitas vezes na vida, que muitas vezes a temos que renovar.   
Penso às vezes nos santos como pessoas comuns e gosto deles pela santidade adquirida, por tanta renúncia em suas vidas e tudo de transformação que trouxeram ao mundo com ousadia e paixão.  Ontem, ao ouvir na oração de São Francisco a passagem que diz que é dando que se recebe, calculei que esse singelo aforisma talvez resuma o maior desafio de Francisco I - fazer com que a Igreja saiba dar mais do que receber, saiba compreender mais do que ser compreendida, saiba amar mais do que ser amada. Depois pensei que se tivesse sido escolhido um brasileiro viria a calhar adotar o nome de Antonio - porque também aí, dez séculos depois, a história se repetiria.


p.s. quem sabe um dia uma Papisa é eleita e vem a escolher o nome de Teresa em homenagem a Santa Teresa D'Ávila, fundadora da Ordem das Carmelitas e grande mística e revolucionária? Os revolucionários de ontem, as ditas pedras angulares, têm se revelado, numa manobra da ironia do destino, o sustento de hoje.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

oxalá!

Passou.  Nunca vi nada passar mais rápido do que esse ano de 2012, parece até que ele próprio estava apressado.  Talvez quisesse que essa história de calendário maia e fim do mundo ficasse logo superada, talvez tenha havido algum excesso coletivo a influir na vida de cada um.  O fato é que hoje termina 2012 e desde que o fim do ano começou (o ano passa rápido, mas o fim do ano costuma demorar a passar) eu venho falando "oxalá".  Nunca falei essa palavra antes e agora todos os meus votos começam por ela: "oxalá possamos nos ver mais em 2013", "oxalá o verão não seja esse inferno anunciado", "oxalá as coisas se resolvam da melhor forma possível".  Curioso, embora se pareça com os místicos axé e saravá, é uma palavra do português no dicionário - e que, além de equivaler a "tomara" e cuja origem remonta ao árabe "inshala",  também significa Orixalá, o maior de todos os orixás.  O ano de 2013 nasce sob o signo da dúvida: será regido por Iemanjá ou por Obaluaê?  O que Auriel, seu anjo regente, nos reserva?  E o que dizer de Saturno, o astro da mudança (vá você pegar um trânsito de saturno para ver o que é bom para tosse)? Será de boa fortuna o 13?  Ou será ele um desafortunado para os supersticiosos?  Há uma linda música do Madredeus (postei abaixo) justo com esse título, que diz "oxalá eu não faça tudo à pressa, oxalá meu futuro aconteça".  Eu mesma nada sei, mas afirmo: 'oxalá' seja um bom ano, sobretudo menos corrido do que esse que se vai, e que, estranhamente, para todo mundo voou baixo. 
Um feliz - e oxalá bem macio - 2013!

foto de Ernesto Martins

Madredeus - Oxalá

quinta-feira, setembro 20, 2012

verão à paulista

O calorão de ontem já deu uma prévia do que será o verão no Rio.  Boa propriamente a prévia não foi, porque bom mesmo o verão só é em dois momentos: quando começa, e se sente aquele sabor de infância do início das férias escolares em que dois longos meses abrigavam todo o fazer-nada e todas as brincadeiras do mundo (e algum adolescer rápido, porque basta um verão para se adolescer, todo mundo de volta às aulas com buços incipientes e peitos nem tanto) e depois quando o verão se vai e o outono começa, um refresco na temperatura e a paisagem vestida com outras cores.  É fato que o Rio fica diferente no verão, diferente por si mesmo, por seus eternos seguidores veranistas, e até pelos paulistas que voltaram.  Sim, eles voltaram depois de anos, tranquilizados pelo apascentamento das comunidades e pelo velho charme que o balneário destila.  Só falta agora os cariocas se acostumarem com um único beijinho do cumprimento paulista e os paulistas, por sua vez, entenderem que os dois beijos dos cariocas não são empolgação, mas medida de certificação que o interlocutor cheira bem até debaixo de 41º C à sombra.  A primavera só começa sábado, mas já existe um cheiro de verão no ar.  Que venha seu início e, depois, o seu fim.   


foto capturada do site G1

terça-feira, julho 31, 2012

crônica de um dia que se bastou

A semana começa.  Às quatro e meia da manhã eu não sou eu, sou uma pré-eu.  Uma espécie de geléia de mim mesma, um ser pastoso e burro. De pé a essa inominável hora para pegar um avião bem cedo, e premida pelo horário, às cinco e meia já deveria estar quase pronta, mas foi a hora em que acabei de tomar café.  Tinha, portanto, exatos trinta minutos para tomar banho, lavar a cabeça, secar o cabelo, me arrumar e sair.  O taxista esperou sete minutos, estava marcado para as seis da manhã.  Trinta e sete minutos no total, quase um recorde.  Ganhei a rua um pouco depois do amanhecer  e já estava cheia; o aeroporto, uma rodoviária de tanta gente, como costumam ser agora os aeroportos.  Suponho que todos lá tenham sido tão matutinos quanto eu, já que os homens tinham a barba feita e as mulheres estavam arrumadas e maquiadas para mais um dia de trabalho no cerrado.  Embarcada, veio o pior - dormir no avião é difícil, ler é difícil, ouvir música idem, pensar na vida, um pensamento mais articulado, impossível.  Então resolvi rezar.  Agradeci, pedi proteção, me imaginei abraçada por Maria, e ali fiquei quase o voo todo.  Talvez intuísse o quanto esse carinho me absorveria o impacto das más notícias que em seguida recebi (notícias ruins, sim, mas não mortais). Reunião que fluiu normal, sem maiores embates.  Missão cumprida, valia uma passada na Catedral para aproveitar o espírito do dia e também porque há tempos lá não ia, queria vê-la recuperada após a reforma nos seus belos vitrais.  É lindo, parece o céu, tudo tão azul, os três anjos dependurados.  Depois, segredinho do cerrado: almoço em restaurante natureba.  Sim, restaurantes naturebas em Brasilia são os melhores do mundo.  Esqueça tudo o que vc já viu de restaurante natural por aí, em Brasilia, afianço, tem melhor.  Calculo que seja pelo fato de lá nunca ter saído de moda o comportamento hippie (não é hippie chique, ou new hippie, nada disso.  É hippie mesmo, daqueles lá dos primórdios dos anos sessenta, hippie cabelão, bolsa a tiracolo, roupa indiana, chinelo, macrobiótica, crianças semi-nuas, casa na chapada para ver disco voador e etc).  Volto para o Rio às quatro da tarde.  No meio da tarde e em companhia aérea barata adivinha quem está no voo?  Hippies, claro.  Ao meu lado uma família ruidosa inteira.  Tudo bem.  Tinha tudo para ser uma volta péssima, mas "A Última Madrugada", de JP Cuenca - uma reunião de suas crônicas que há tempos procurava e achei, enfim, no aeroporto (livrarias de aeroporto, velhas minhas conhecidas) - me absorveu integralmente.  Consegui ler, incrível. Imersa no espaço mais fácil de transitar do mundo que são aquelas crônicas deliciosas, percebi eu mesma a crônica do meu dia e não tive a angústia de chegar logo em casa.  Desembarquei tranquila, abençoada, leve e feliz.  Tem dia que só o dia basta.         


a foto é minha, tirada com o telefone celular

sábado, maio 12, 2012

mães -

Um feliz dia das mães para todas as mães, as mães das mães, queridas avós, as mães das mães das mães, queridas bisavós, para as mães solteiras, mães divorciadas, mães viúvas, para as mães que criam seus filhos sozinhas (ou quase), para as mães que trabalham fora, para as mães tempo integral, para as mães adotivas, para as mães biológicas, para as mães barriga de aluguel, para as mães de leite, para as mães coruja, para as mães natureba, para as mãezonas, para as mães liberais, para as mães adolescentes e mães tardias, para as mães falecidas, para as irmãs, madrinhas e tias e babás que também são um pouco mães, para as mães de prematuros, para as que têm filhos doentes e para as que perderam seus filhos, para as mães gays, para as mães de gays e as que enfrentam todo tipo de preconceito, para as que vivem longe dos seus filhos e morrem de saudade deles, para as que tiveram um único filho e as que tiveram muitos filhos, para as que tiveram gêmeos e uma trabalheira imensa, para as madrastas, para as que sequer pensavam em engravidar, para as que tentaram engravidar com ajuda médica e não conseguiram, e para as que conseguiram, para as mães que se realizam plenamente na maternidade e para aquelas que nem tanto (mas que ainda assim amam suas crias mais do que tudo na vida), para Maria, nossa mãe no céu e  tão próxima, para todos nós - porque, afinal, a maternidade precede a todos nós - um dia muito, muito feliz.  

"Tudo sobre minha mãe", de Almodóvar, penso que mostra a maternidade tal qual é: uma experiência rica e humana, tanto em sua grandeza quanto em fragilidade.  O poster do filme foi capturado no Google imagens.

sábado, abril 21, 2012

a pauta dos outros

Séculos sem escrever.  Não é bloqueio criativo propriamente, é preguiça mesmo.  Tem acontecido até de ter preguiça de ler, é tanta coisa para fazer, esse raio de imposto de renda que me perturba a paz.  E aí o tempo vai passando, os assuntos vão se acumulando, e a preguiça também se acumula.  É uma bola de neve - quanto mais preguiça se tem, mais se cultiva a preguiça, mais preguiça ainda se tem.  Dizem os maledicentes que os bahianos construíram uma meia-Bahia com tanta preguiça.  Pode ser.  Se é uma meia-Bahia não sei, mas que é um carnaval-total, lá isso é.  Ah, sim, a pauta dos outros.  Escreveram a rodo sobre "Pina", a coreógrafa alemã morta em 2009 no olhar de Wim Wenders.  O que ninguém disse é que aquele balé contemporâneo tem muito mais de clássico do que parece à primeira vista, os bailarinos girando sobre o próprio eixo e subitamente voltando em toda tensão à posição inicial.  É lindo, é sublime.  E faz pensar no quanto o trabalho coletivo é belo quando bem afinado.  E como exige disciplina. E concentração.  E ensaios à exaustão.  A coreografia com "Leãozinho", música de C. Veloso, é formidável e me fez relembrar um pensamento antigo: a música é o ponto equidistante entre o Brasil e o mundo.  Se é um país difícil de entender por tantas contradições, é traduzível pela música.  Não precisa entender, basta ouvir que tudo se revela, e todo mundo entende.  Escreveram também sobre o pico  do caos do trânsito paulista, e me ocorreu novamente aquela teoria antiga que tenho sobre a dívida do Brasil para com São Paulo.  Quanto do PIB é gerado naquela cidade? 30%? Um pouco menos, talvez? Não é um mundo isso? Então a União tem a obrigação de retribuir e dar o melhor e mais moderno e mais ultra eficiente transporte público para quem lá mora e trabalha.  É dívida, não é benesse, e ai daquele que brandir a lógica do invejoso - o paulistano merece, e merece muito.  Escreveram também sobre o jumentinho de Nosso Senhor na Páscoa, sobre uma porcaria de filme "Heleno" que não diz ao que veio, sobre as novas milionárias chinesas, sobre tanta coisa.  Hum, a pauta dos outros e eu aqui com tanta preguiça...  Para ser realista, minha pauta atual é mesmo terminar o imposto de renda neste feriado de 23 de abril que o co-padroeiro São Jorge fez a gentileza de estender um pouquinho mais para nós, cariocas. 

foto de Ernesto Martins

terça-feira, janeiro 31, 2012

chuvas de um não-verão

Assim passou janeiro: promissor no versão, abundante nas águas.  Não propriamente tempestades, o que livra o carioca de se ver com inundações e engarrafamentos quilométricos, mas chuvas chatas e longos dias nublados, e dias cinzentos no horário de verão significa muito cinza.  Salvou-nos o show do Chico Buarque, que destila sua paixão pela moça e muito justamente a quer berrar ao mundo, e "A Música Segundo Tom Jobim", filme de Nelson Pereira dos Santos que não tem sequer uma palavra falada, mas melodias sem ter fim e uma lágrima que fica rasa nos olhos ao mesmo tempo em que se esbugalham na tela e os ouvidos se abrem.  Que melodia, que coisa linda.  Nada de por-do-sol espetacular ou um chopp refrescante neste janeiro de 2012.  Esquecer a recente tragédia do desabamento é a meta, a despeito do cinza.  Mas é que a música de Chico e Tom realmente nos salvou todos, e o carioca é quase que acostumado a salver-se a si próprio.  Agora vem fevereiro e o carnaval; depois, aí sim, o ano começa.   

foto de Ernesto Martins, "amanhecer amarelo".

domingo, janeiro 01, 2012

primeiro dia do ano? mas o ano não começa apenas depois do carnaval?


Feliz 2012!

A foto é minha, um instantâneo de Ipanema capturado com meu celular.  Clique aqui para uma deliciosa crônica do réveillon carioca.

domingo, dezembro 18, 2011

o shopping e a colônia rastro

Bendita chuva a de ontem.  Tinha hora no cabeleireiro e pensei que iria penar com a multidão a circular pelo shopping da Gávea no último fim de semana antes do Natal.  Nada como uma pancada d'água para deixar o carioca em casa, os corredores tinham lá uma meia dúzia de duas ou três pessoas.  Que maravilha!  Cortei o cabelo, comprei uma sandália de salto baixo (uma raridade encontrar um calçado cujo salto não é alto nem rasteiro) e, andando por lá e acolá,  pensei nessa miríade de opções de compras de hoje em oposição às duas únicas opções de presente que antes existiam ao se receber, num sábado, um convite de aniversário de última hora.  O comércio fechava à uma da tarde e só era possível comprar uma colônia Rastro na farmácia (farmácia de antigamente era uma coisa pobrinha), ou um disco; mas disco (vinil), só até às três da tarde, porque depois disso a loja da Teixeira de Mello fechava.  Comprei muitas colônias Rastro.  Era um ótimo presente.  O embrulho, um caso à parte - o papel muitas vezes dobrado de um lado com um aplique de fita, que, para ficar curva, era bastante debastada com a tesoura (comerciários tinham que saber embrulhar para presente).  Vi que a colônia mudou sua embalagem tão linda e elegante de antigamente.  Aliás, tudo mudou.  Ontem, depois de uma super-praia de verão estranhamente vazia, no úiltimo fim de semana antes do Natal, circulando tranquila num shopping, pude vagar meu pensamento, que deu de aportar na rara opção de presente de última hora que tive durante anos - no século passado e na era pré-shopping.

foto clicada no Espaço do Perfume em SP e capturada aqui, um post delicioso sobre a colônia.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

o pier de ipanema que eu conheci


Meus avós moravam na Praia de Ipanema e me lembro muito bem da oposição que meu avô fez ao indigitado emissário.  Ele, um carioca nato e praticante diário de frescobol, não concebia sua querida praia afogada no esgoto que seria atirado ao mar sem nenhum tratamento prévio.  Sim, o que hoje parece óbvio à época não era, tanto que o emissário lá está até hoje regurgitando porcaria (quando chove intensamente em pouco tempo as línguas negras aparecem volumosas em questão de minutos).  Meu avô engendrou uma briga ferrenha pela imprensa com a Cedae e fez um diário das condições do mar que avistava da varanda de seu apartamento.  É curioso que se fale agora que o píer ficava em frente à rua Farme de Amoedo.  A foto está aí para provar que ficava muito mais perto da Teixeira de Mello: clicada do prédio 192, onde meus avós moravam no sexto andar, lá está o píer à esquerda.  A Farme de Amoedo, na história da praia de Ipanema, é outra coisa: anos mais tarde viria a ser ponto gay (muito tempo depois, aliás). Também acho curiosa essa expressão "dunas da Gal" que agora dizem que identificava aquele local. Tudo bem que eu era pré-adolescente, mas as dunas ficaram lá por um bom tempo e nunca, nunca mesmo ouvi ninguém da minha família, ou seus amigos, ou os meus amigos, dizerem que frequentavam as "dunas da Gal". Dizia-se apenas que se ia a praia no "pier". Deve ser aquela velha coisa de quem conta um conto, aumenta um ponto.  Ou talvez haja uma certa dificuldade em colocar as coisas em perspectiva.

p.s. a foto é do Jornal O Globo, clicada à época da construção do píer e publicada no jornal, quando meu avô deu uma entrevista sobre o absurdo do emissário.

vovô e o pier


foto do Jornal O Globo clicada à mesma época da postada acima.  Esta não foi publicada.

segunda-feira, setembro 05, 2011

uma carta para ruth bueno

Eu não te conheci pessoalmente, Ruth, apenas através dos livros teus, e um deles minha mãe sempre disse que era encharcado de saudade e poesia, aquele parte escrito em francês e parte em português. Também meu pai dizia que te dava carona sempre, vcs trabalharam juntos anos a fio, e quando vc adoeceu, disso lembro bem porque já era adolescente, meus pais foram te buscar no aeroporto. Hoje num sebo encontrei um livro seu (o tal parte em francês, parte em português) elegantíssimo em sua capa preta, dedicado a um velho amigo José Antonio e por vc assinado. Calculo que vc usasse uma caneta tinteiro. Calculo também que cada linha deste livro "Cartas para um Monge" tenha sido fruto de algum sofrimento e, sobretudo, da imensa saudade de um bem-querer muito especial que morava longe e que te era proibido. Quem vai entender? Parece que nem vocês dois entendiam, mas souberam bem censurar-se à vista do que aquela afeição poderia causar ao mundo. Não hesitei quando meus dedos, ao percorrerem aquelas lombadas de livros usados, pararam alertas diante do teu livro: paguei o preço pedido - barato para uma preciosidade, caro para seu mau estado - e saí da loja feliz, com a sensação de certeza que uma boa leitura me traz. É sempre assim diante de um bom livro, e esse hoje veio inesperado.

"Perguntei à rosa-rosa se me querias. Perguntei à rosa-rosa se virias. Perguntei à rosa-rosa se pensas em mim. E a tua rosa presa de silêncio, deu-me em resposta o teu silêncio, aquele mesmo em que te abrigas, há tanto tempo, de onde estás - e onde estás? -, tão longe, em distância que beira o infinito."

("Cartas para um Monge", Ruth Bueno, RJ, 1967. "Este livro é uma saudade", diz a autora no prólogo)


imagem capturada no google

domingo, agosto 14, 2011

calma, rapazes!

Ouço o relato de meu sobrinho espancado na França um tanto atônita.  Aquela doce criatura, incapaz de fazer mal a uma mosca, com o olho arrebentado e o maxilar quebrado?  Afastada qualquer inocência de sobrinho à parte, o fato é que as férias da família ficaram à mercê de uma melhora sua.  Não que se esperasse que pudesse comer um filé dois dias depois, mas que a fixação de seu maxilar evoluísse bem a ponto de poderem partirem no tempo planejado.  Seguiram ontem para a praia, após boiar no sudeste da França onde moram - e aonde são nascidos - depois de duas semanas de impensáveis chuva e frio.  O sobrinho que peguei no colo e os dirigentes europeus com as férias ameaçadas.  A diferença é que os "adôs" se estranham todo ano e que se recusam a ser mais um caso de polícia: quando instigado a fazer queixa, disse que já haviam resolvido o caso "entre eles".  Calma, rapazes! E curtam seu escasso verão europeu.     

foto capturada do site da BBC Brasil - obras de recuperação em Tottenham, Londres, após a onda de violência que sacudiu o Reino Unido

domingo, julho 24, 2011

por que ninguém fala mais nele?

Amanhã é segunda-feira e sei que vou pensar nele, abriu minhas semanas durante anos, sua verve e humor embalando uma manhã um tanto delicada.   Quando li uma crônica sua que começava com "mamãe morreu" profetizei com meus botões que não tardaria ele mesmo a partir.  Pensei e, de fato, aconteceu: nunca mais seus gatos, aquelas situações só dele, suas tias, sua irmã, seu cunhado pastor evangélico, sua Bauru natal, seu pai preparando drinks na piscina de casa, sua mãe "pérola" .  Sim, o glamour paulista do interior, e daí?  Era o seu mundo, que projetou adiante e que comunicou lindamente no teatro do besteirol.  Nem sei há quanto tempo partiu porque ninguém mais fala nele.  Nem uma palavra, sequer uma lembrança.  Seus antigos parceiros, seus amigos, será que falam em particular? E a imprensa, que o cortejou por tanto tempo quando era novidade, por que silencia? É estranho.  As segundas-feiras desde então trouxeram um outro cronista, outro universo, tudo um tanto saudosista, mas não é por nada, não reclamo porque ninguém substitui ninguém.  O esquecimento é que me estranha.  Calculo que o fato de não ter publicado ficção ou porque crônicas, uma vez passadas, passadas estão, levem a algum esquecimento.  Pensei em Mauro Rasi mais uma vez quando soube da morte de Amy Winehouse ontem; penso que ela, por ter deixado o registro de sua voz, será cultuada mais no tempo.  Ainda assim, sem uma pista sequer sigo me perguntando: por que, por que raios, ninguém fala mais nele. 

foto capturada do google imagens (http://www.nelsonperez.com.br/), o sorriso franco e a alegria incontida de Mauro Rasi.

domingo, junho 05, 2011

sábado, junho 04, 2011

o direito à busca da felicidade - o afeto como valor jurídico

Junho chegou me felicitando e trazendo de novidade na minha vida um tal de "quatro ponto nove" que antecede os cinquentinha prometidos pelo ano vindouro, na esperança que ainda estarei peregrina neste mundo.  Não reclamo nem um pouco, apenas me admira, já que parece que foi ontem que mudei de década.  Em junho também os namorados celebram seu dia aqui nos trópicos, diferente de outras plagas em que São Valentino dá as caras em fevereiro;  hoje, ao ler o jornal, vi uma matéria sobre os homossexuais que este ano comemorarão com mais alegria o dia dedicado aos enamorados.  É curioso porque reforça a ideia que me ocorreu quando vi o casamento real: o mundo gira, o tempo passa, mas todo o mundo gosta e sempre gostou de exibir o seu amor.  É humano isto.   Resolvi então ler transcrições do julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a união homoafetiva e seu reconhecimento pela ordem jurídica, porque antes não tive tempo.  É um verdadeiro primor.  O título (a ementa) ostenta orgulhoso o belo  aforisma "busca da felicidade".  Mesmo para os não-iniciados vale a pena ler.  Deixo abaixo apenas alguns ligeiros trechos, na certeza que quem os ler terá, se já não tem, a dimensão do que fazem os julgadores reunidos no Supremo Tribunal Federal, uma atividade que tanto parece hermética.  Bacana, esse meio de ano.  

"União Estável Homoafetiva - Regime Jurídico - Entidade Familiar - Busca da Felicidade - Papel Contramajoritário do STF (Transcrições)

(...)
 É, portanto, nesse papel de intermediário entre as diferentes forças que se antagonizam na presente causa que o Supremo Tribunal Federal atua neste julgamento, considerando, de um lado, a transcendência da questão constitucional suscitada neste processo (bem assim os valores essenciais e relevantes ora em exame), e tendo em vista, de outro, o sentido legitimador da intervenção de representantes da sociedade civil, a quem se ensejou, com especial destaque para grupos minoritários, a possibilidade de, eles próprios, oferecerem alternativas para a interpretação constitucional no que se refere aos pontos em torno dos quais se instaurou a controvérsia jurídica.
(...)
Não é por outra razão que STEPHANIE SCHWARTZ DRIVER (“A Declaração de Independência dos Estados Unidos”, p. 32/35, tradução de Mariluce Pessoa, Jorge Zahar Ed., 2006), referindo-se à Declaração de Independência dos Estados Unidos da América como típica manifestação do Iluminismo, qualificou o direito à busca da felicidade como prerrogativa fundamental inerente a todas as pessoas: “Em uma ordem social racional, de acordo com a teoria iluminista, o governo existe para proteger o direito do homem de ir em busca da sua mais alta aspiração, que é, essencialmente, a felicidade ou o bem-estar. O homem é motivado pelo interesse próprio (sua busca da felicidade), e a sociedade/governo é uma construção social destinada a proteger cada indivíduo, permitindo a todos viver juntos de forma mutuamente benéfica.” (grifei) A força normativa de que se acham impregnados os princípios constitucionais e a intervenção decisiva representada pelo fortalecimento da jurisdição constitucional exprimem aspectos de alto relevo que delineiam alguns dos elementos que compõem o marco doutrinário que confere suporte teórico ao neoconstitucionalismo, em ordem a permitir, numa perspectiva de implementação concretizadora, a plena realização, em sua dimensão global, do próprio texto normativo da Constituição. Nesse contexto, o postulado constitucional da busca da felicidade, que decorre, por implicitude, do núcleo de que se irradia o princípio da dignidade da pessoa humana, assume papel de extremo relevo no processo de afirmação, gozo e expansão dos direitos fundamentais, qualificando-se, em função de sua própria teleologia, como fator de neutralização de práticas ou de omissões lesivas cuja ocorrência possa comprometer, afetar ou, até mesmo, esterilizar direitos e franquias individuais. (...) Parece-me irrecusável, desse modo, considerado o objetivo fundamental da República de “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (CF, art. 3º, IV), que o reconhecimento do direito à busca da felicidade, enquanto idéia-força que emana, diretamente, do postulado constitucional da dignidade da pessoa humana, autoriza, presente o contexto em exame, o rompimento dos obstáculos que impedem a pretendida qualificação da união civil homossexual como entidade familiar. VII. O afeto como valor jurídico impregnado de natureza constitucional: a valorização desse novo paradigma como núcleo conformador do conceito de família Isso significa que a qualificação da união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar, desde que presentes, quanto a ela, os mesmos requisitos inerentes à união estável constituída por pessoas de gêneros distintos, representará o reconhecimento de que as conjugalidades, homoafetivaspor repousarem a sua existência nos vínculos de solidariedade, de amor e de projetos de vida em comum, hão de merecer o integral amparo do Estado, que lhes deve dispensar, por tal razão, o mesmo tratamento atribuído às uniões estáveis heterossexuais. (...) Com efeito, a partir do momento em que a Constituição Federal reconheceu o amor como o principal elemento formador da entidade familiar não-matrimonializada, alçou a afetividade amorosa à condição de princípio constitucional implícito, que pode ser extraído em função do art. 5.º, § 2.º, da CF/1988, que permite o reconhecimento de princípios implícitos por decorrentes dos demais princípios e do sistema constitucional (além dos tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil faça parte). Essa evolução social quanto à compreensão da família elevou o afeto à condição de princípio jurídico oriundo da dignidade da pessoa humana no que tange às relações familiares, visto que estas, para garantirem o direito à felicidade e a uma vida digna (inerentes à dignidade humana), precisam ser pautadas pelo afeto e não por meras formalidades como a do casamento civil. Assim, ‘o princípio do afeto é um princípio constitucional implícito, decorrente da dignidade da pessoa humana e, ainda, da própria união estável’, que tem, nele, o principal elemento para reconhecimento do ‘status’ jurídico-familiar de uniões não-matrimonializadas.” (grifei) Também o eminente Professor (e ilustre membro do Ministério Público Federal) DANIEL SARMENTO (op. cit., p. 643) revela igual percepção em torno dessa particular questão, reconhecendo, no afeto, enquanto valor jurídico-constitucional, um elemento fundamental (e preponderante) na esfera das relações do direito de família, inclusive no âmbito das uniões entre pessoas do mesmo sexo: “Enfim, se a nota essencial das entidades familiares no novo paradigma introduzido pela Constituição de 88 é a valorização do afeto, não há razão alguma para exclusão das parcerias homossexuais, que podem caracterizar-se pela mesma comunhão e profundidade de sentimentos presentes no casamento ou na união estável entre pessoas de sexos opostos (...) Esse protagonismo do Poder Judiciário, fortalecido pelo monopólio da última palavra de que dispõe o Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional (MS 26.603/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), nada mais representa senão o resultado da expressiva ampliação das funções institucionais conferidas ao próprio Judiciário pela vigente Constituição, que converteu os juízes e os Tribunais em árbitros dos conflitos que se registram no domínio social e na arena política, considerado o relevantíssimo papel que se lhes cometeu, notadamente a esta Suprema Corte, em tema de jurisdição constitucional. Daí a plena legitimidade jurídico-constitucional da decisão que o Supremo Tribunal Federal está a proferir neste julgamento, que representa verdadeiro marco histórico no processo de afirmação e de consolidação dos direitos da minoria homossexual em nosso País. Torna-se de vital importância reconhecer, Senhor Presidente, que o Supremo Tribunal Federal – que é o guardião da Constituição, por expressa delegação do poder constituinte – não pode renunciar ao exercício desse encargo, pois, se a Suprema Corte falhar no desempenho da gravíssima atribuição que lhe foi outorgada, a integridade do sistema político, o amparo das liberdades públicas (com a conseqüente proteção dos direitos das minorias), a estabilidade do ordenamento normativo do Estado, a segurança das relações jurídicas e a legitimidade das instituições da República restarão profundamente comprometidas. Concluo o meu voto, Senhor Presidente. E, ao fazê-lo, julgo procedente a presente ação constitucional, para, com efeito vinculante, declarar a obrigatoriedade do reconhecimento, como entidade familiar, da união entre pessoas do mesmo sexo, desde que atendidos os mesmos requisitos exigidos para a constituição da união estável entre homem e mulher, além de também reconhecer, com idêntica eficácia vinculante, que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis estendem-se aos companheiros na união entre pessoas do mesmo sexo. É o meu voto." 

sábado, abril 30, 2011

yes, you can... love!

Gire o mundo o quanto girar, passe o tempo o quanto passar, mudem os costumem, e duas pessoas que se amam querem ficar juntas e celebrar esse amor diante daqueles que conhecem.  É assim desde sempre e nada está a indicar que o casamento vai sumir do mapa dos costumes. Verdade seja dita: não há festa mais alegre e romântica do que uma festa de casamento (eu amo festas de casamento e sempre recomendo aos noivos que festejem mesmo).  Os urubus de plantão que apressaram a miséria existencial de Charles e Diana não saberiam que estavam a prestar um serviço ao resto da monarquia europeia.  Fala-se na inglesa, mas o fato e que há muitas monarquias ainda vivas pela Europa, igualmente glamourosas.  A variante, ao que parece, é que há menos maledicentes à sua volta.  Digo isso porque a dèbacle daquele célebre casal e a exposição pública das tentativas de terem algum alento amoroso fora do casamento legitimaram os herdeiros de outras coroas europeias a se casarem com quem estivessem verdadeiramente apaixonados.  Assim fez o príncipe da Espanha quando questionado sobre sua namorada jornalista, divorciada e neta de um taxista.  A mesma coisa o da Dinamarca (acho que de lá, mas não estou bem certa), ao se casar com uma mãe solteira e ex-adicta em drogas.  E também o da Holanda, que escolheu para sua mulher uma argentina filha de um suposto colaborador da ditadura, que sequer convidado para o casamento foi.  Esse fato, que poderia ser o máximo da saia justa, rendeu uma tocante cena que assisti na TV: a noiva, ao entrar sozinha na majestosa igreja, linda de morrer, provocou o marejar dos olhos do noivo ao vê-la ali só, com tanta galhardia.  Emocionou-se sem pudor algum.  E recentemente a herdeira da coroa sueca, que se casou com seu ex-personal trainer, e ainda o de Monaco, que está noivo de uma plebeia.  É aquela coisa: podem até mudar os costumes - e herdeiros da monarquia que se casam em peso com plebeus é prova disso -  mas o casamento ainda é o triunfo do amor romântico. Vida longa aos... apaixonados! 

foto capturada no google imagens

quarta-feira, abril 06, 2011

os improváveis - improváveis?


Marilyn Monroe e Arthur Miller

Nem tão improváveis assim, pois ela adorava ler e se cultivava muito, e ele era tão esteta quanto intelectual - além de muito charmoso, como denuncia a foto.  Por que tantos rótulos, afinal? 

foto capturada da Internet, no ótimo blog da Marina W (link ao lado).

domingo, março 27, 2011

à moda

O preto é lindo tanto quanto o branco e o cinza. Há dias, porém, que só posso o azul, outros que (estranhamente) só o laranja me veste. Odeio salto plataforma e sandália gladiadora. Não há nada como um vestido no verão ou uma bermuda. Camiseta branca cem por cento algodão é bom demais. Turistas não têm moda (alguns improvisam bem). Um cabelo curto é redentor, assim como um lenço no pescoço no inverno (o pescoço é um quase-termômetro). Unhas esmaltadas são divinas, mas não de azul ou verde. Fazer uma mala na medida requer arte.

Domingo à noite é bom só pensar em amenidades.


a foto é minha, o Pier Mauá no Fashion Rio

domingo, fevereiro 13, 2011

sob o signo de aquário (e quase peixes)

Deixei o post abaixo quieto um tempão e não quis postar de propósito. Não que me preocupe muito o fato de não postar e parecer desleixo com a meia dúzia de dois ou três que dão com os costados neste espaço-de-coisa-alguma - meia dúzia por quem tenho todo o respeito, bem entendido - mas é que pensar na quintessência do poder é pensar na solidão, e pensar na solidão, sobretudo na solidão acompanhada, toma tempo demais. O calor também não ajuda, e o inglês (suspeito tenha sido um inglês) que inventou a expressão "calor senegalesco" certamente não conhecia o do Rio de Janeiro. Por falar em inglês, o filme do verão, para mim, é "O Discurso do Rei", menos pelo filme em si, mais pelas atuações de todos os atores, mas sobretudo pelo carinho da rainha por seu frágil marido.  É bonita a amizade dos dois, a ternura que os une, a confiança que mutuamente têm (é curioso pensar que a Rainha Elizabeth, aparentemente tão estóica, descende de alguém tão sensível).  O primeiro trimestre de 2011 também trouxe ao poder novas caras - no Brasil, uma mulher eleita, no Egito, o povo que defenestrou o ditador - e é só o primeiro trimestre.  Um verão, um filme inglês, novos ares no poder: Aquário e Peixes em 2011. 

a foto é minha, a estrada o retrovisor

domingo, janeiro 02, 2011

será ela - e apenas ela

Uma mulher no poder e parece que só agora que as mulheres têm poder.  No cargo máximo da República é a primeira vez no Brasil, mas o que dizer das anônimas que lideram as famílias, que delas são seus arrimos, que administram as multiplicidades de suas vidas?  "Empower the women", diziam as feministas nos anos setenta, e somente agora o aforisma se materializa por aqui.  Sim, a solidão das mulheres passa desapercebida de muitos, embora elas a experimentem diariamente.  Muitas demandas a atender - as próprias, as de sua saúde, as do trabalho, as dos amigos, as da família - e, ao fim do dia, a impressão que não se deu conta de tudo.  A Presidente já sabe, é uma mulher experiente, mas, a cada vez que se sentir só e com o peso da responsabilidade apenas sobre ela, pensará ter esquecido a famosa 'solidão do poder'. Será ela e sua consciência.  Ontem, ao vê-la passar as tropas em revista, a situação que se repetirá nos próximos anos ali tão claramente espelhada, não pude deixar de me emocionar e pensar na luta de tantas mulheres mundo afora.

foto de Roberto Stuckert, capturada da Internet

sábado, janeiro 01, 2011

agora é com ela


Dilma Rousseff, primeira mulher eleita para ocupar a Presidência da República no Brasil.  Feliz ano novo!

foto capturada do site da BBC Brasil

fez história


foto da Agence France Press, Getty Images, capturada do site do New York Times

sexta-feira, dezembro 24, 2010

teoria de fim de ano

Mais uma teoria minha, ainda que a humanidade não mereça. Fim de ano é a época em que todo mundo fica mais acentuado no que já é.  Os alegres ficam alegríssimos, os consumistas se esbaldam, os tristes ficam a um passo de cortar os pulsos, os blasées andam solenemente para as comemorações, os deselegantes aproveitam para não agradecer as gentilezas e atenções que receberam ao longo do ano, os desconfiados desconfiam até dos presentes que receberam, os espiritualizados se iluminam e etc.  É sempre assim, o que me leva a crer que é preciso ter paciência para transigir com a característica de cada qual e, como não tenho muita, já é de praxe renovar meus votos de melhorar no ano seguinte.  Mas é que essa hipérbole toda francamente me enche o saco.  Se foi um bom ano? Foi.  Sempre agradeço o que tive de bom, de delicado e especial, do deletério de que me livrei, de ter tido saúde, e trabalho, e coragem, e também das boas surpresas que a vida sempre me traz.  O senão dessa época é essa canícula que assola este pedaço dos trópicos, embora nem isso chegue propriamente a estragar a coisa toda: os cheiros do início do verão são os mesmos desde que, criança, entrava de férias, e é algo tão táctil que facilmente me transporta. Aos que aqui chegam por acaso e para os que volta e meia dão com os costados neste canto da minha quietude, um Natal hiperbolicamente na paz e um ano novo hiperbolicamente bacana!        


p.s. esqueci de dizer que os carentes ficam ainda mais carentes.  E também que todos ficamos meio carentes.

foto de Ernesto Martins

domingo, novembro 14, 2010

será?










será a paz que só tenho em teus braços
o aperto no coração por tua ausência
a alegria em ouvir tua voz
ou apenas saber que estás bem:
será isso o amor?

o olhar fixo num ponto em plena algaravia
a abrigar tua lembrança tão querida
a lágrima e o sorriso:
será isso o amor?

ou será muito mais que isso?


p.s. a foto é minha, um instantâneo da decoração da romântica festa de casamento da Pilar ontem. 

domingo, novembro 07, 2010

pessoas descartáveis, coisas imprescindíveis



Arqueje seu dedo médio e o pressione contra seu polegar, fazendo um círculo.  Depois, solte o dedo médio, o estique bem esticado e estará feito o peteleco.  Sim, é tudo o que é preciso fazer para descartar alguém por quem se perdeu o interesse, a função, cuja presença ficou injustificada na vida.  Estamos em 'tempos líquidos', não será uma descortesia, é o código de conduta em vigor, o que facilita muito a compreensão pelo descartado.  Pode ser que o objeto do peteleco até tenha sido em algum momento uma presença benfazeja, mas agora perdeu o interesse.  Isso, peteleque sem culpa.  Agora pense nas coisas indispensáveis, nos seus must have, naquilo que não dá para passar sem.  É grande a lista? Hum..., é.  Curioso: hoje, sem razão aparente, realizei que pessoas são frequentemente coisificadas e coisas, personificadas.   

p.s. Logo após postar, indagada por uma amiga se descarto amiúde ou se sou descartada, respondi que já descartei, mas por uma causa justificada, porque me vi num relacionamento deletério e/ou maléfico.  Seja como for, jamais descartaria meu pai, ou minha mãe, ou minha irmã, ou meu marido, inobstante dificuldades e pentelhações de toda ordem. 
p.s2. a foto é minha, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro num instantâneo domingo passado.  Nunca havia ficado na galeria, a visão é total e a companhia, animadíssima.  Barishnikov continua uma tremenda presença em cena. 

segunda-feira, novembro 01, 2010

sobre as eleições (e duas ou três coisas que sei)

Quis o destino que num domingo, lá pelos idos de 1980 (ou 1981), eu tenha assistido, junto com meu pai, um programa chamado Canal Livre, comandado pelo jornalista Roberto D'Ávila e veiculado pela TVE.  O entrevistado do dia era um líder sindical que acabara de fundar um partido chamado "dos Trabalhadores", Luiz Inácio da Silva, depois dito Lula.  Assistimos ambos muito impressionados e, ao final, disse para meu pai que perigava de um dia o sindicalista vir a ser Presidente da República, tanta retórica e articulação.  Meu pai, que assistiu vidrado a entrevista, ainda que do entrevistado discordasse de tudo e por tudo, me censurou.  Naquele tempo as eleições diretas não haviam sido retomadas.  Eu acabara de entrar na faculdade. 
Quis também o destino que em 1989 eu tenha votado naquele sindicalista para presidente, assim como nas eleições que àquela sucederam.  Era um partido ideológico, com um discurso claramente ideológico, e com ele me identificava.  Coisa da juventude?  Talvez, mas não estava em má companhia, havia muitos intelectuais de peso no projeto de um partido cuja luta maior era um país socialmente mais justo.  Sempre votei no PT, à exceção de quando a candidata ao governo do Estado do Rio se uniu ao casal Garotinho. 
Quis ainda o destino que passados muitos anos, em 2005, eu fosse convidada para implantar uma empresa pública cuja missão maior era (e é) realizar os estudos de planejamento energético para a formulação de políticas públicas.  Uma empresa nova, concebida por força das lições colhidas com o racionamento de energia de 2001, enxuta e altamente técnica. Estava no setor elétrico há um tempo e, sem querer, me vi envolvida num projeto do partido em quem sempre votei, embora tenha sido chamada por critérios profissionais. Implantamos toda a empresa.  As licitações - do mobiliário, equipamentos de telefonia e informática aos serviços de copa e recepção - tudo foi feito com uma equipe muito pequena.  Elaboramos as normas internas da empresa, promovemos os concursos públicos, tudo, enfim.  O projeto foi pensado pela então Ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff  e dele sou testemunha de nunca ter havido favorecimento a quem quer que fosse.  Aliás, havia uma preocupação enorme com a lisura e a transparência das ações.  Não houve nenhuma intercorrência judicial nas tantas licitações que fizemos, rolou tudo redondinho, trabalhamos direitinho, a empresa lá está, concorrendo para que não falte luz aos empresários, aos cidadãos, para que não se repita o fiasco do governo anterior nessa área, evidenciado pelo desabastecimento que todos amargaram e que foi uma vergonha nacional, mesmo que bastante anunciada aos então governantes. 
Quis o destino num de seus atalhos que a então Ministra de Minas e Energia viesse a ser uma auxiliar mais próxima do Presidente da República e que, por seu espírito empreendedor, por sua lealdade a ele nos momentos difíceis tenha sido sua escolhida para sucedê-lo.  Por fim, comandou o destino que Dilma Rousseff tenha sido ontem eleita para Presidente da República.
Ouvi muita coisa nessa campanha.  Para aqueles que insistem em propalar o 'aparelhamento das estatais', dou aqui meu testemunho pessoal de não ter visto nada disso na empresa que ajudei a implantar, como tampouco vejo na que hoje trabalho.  Gostaria que essas informações do dito aparelhamento viessem de forma mais palpável ao público, porque o espírito da corporação nas estatais é muito forte e não raro regimental.  De fato, ouvi muita coisa: que a candidata não tinha biografia, que não teria competência para governar e etc. Quanto à biografia, parece simples, são dados de realidade:  trabalhou na área pública por anos, foi presa nos tempos da ditadura, tem formação superior.  Já sua capacidade de trabalho é sabida e consabida.  É inegável.  Por que tanta maledicência, então? Medo? Preconceito? Ignoro. 
Ouvi cada coisa.  Que o "povão" vota em quem lhe dá uma merreca e que prefere comprar bens de consumo a ter saúde e educação.  Ora, que balela. O "povão" gostou, isso sim, de ser elevado a uma camada da população que consome (ou não estamos num regime capitalista?) e saúde e educação são problemas históricos, vindos de sucessivos governos, que apenas alguns países no mundo resolveram de forma satisfatória e que todos esperamos que aqui sejam um dia também resolvidos.  As instituições e os ideais da República estão preservados, os erros, os malfeitos, investigados,  as autoridades policiais enfim a tanto aparelhadas.  Muitos escândalos, argumentaram.  Para os desmemoriados lembro que a Controladoria Geral da União foi criada pelo governo anterior - uma atitude louvável, diga-se - em razão de eventos do gênero.  Disseram ainda que a máquina administrativa foi usada para o auxílio da candidata do Presidente.  Como isso pode ocorrer não sei, já que há em vigor uma lei eleitoral que proíbe práticas tais.  Nenhum gestor de empresa pública há de querer responder por crime eleitoral.  O que se fez, ninguém aponta concretamente.  Dizem, dizem, dizem.  Disseram, disseram, disseram. Muita coisa, tanta bobagem.  Poderia contraditar muito, mas não vale a pena.  As urnas, finalmente, falaram - e seu resultado ninguém pode contrariar.     
Agora, veremos.  Já sob o sábio alvitre manifestado pela Presidente eleita de que democracia não é ditadura da maioria.

p.s. foto capturada do site do NY Times

sábado, outubro 23, 2010

"joyeux anniversaire maman" - Catherine Deneuve



"joyeux anniversaire maman, tu est le heroïne de mon romans"... a letra é de uma irreverência total.  A bela Catherine, dirigida pelo rapazinho a seu lado nessa música bem suingada para o filme "Belle Maman", é a prova que marron glacé pode combinar com ketchup. Acredite!  

sexta-feira, outubro 22, 2010

refrigério

Meio cansada da campanha à eleição presidencial, da maledicência levianamente instaurada, do blá-blá-blá em geral, de muita confusão, do espelho que descobri ser o Facebook e de perceber que aquilo é bem a materialização da máxima caetana 'Narciso acha feio o que não é espelho', peguei o pior caminho para o trabalho, a meiúca de Botafogo, a Rua Voluntários da Pátria.  Tencionava apenas ir devagar, trafegar bem vagarosamente, a pressa hoje me era tão estranha quanto a beleza é para aquele pedaço quase intransitável da cidade.  Cansada e preguiçosa, descobri, porém, num espasmo de lucidez e com alguma surpresa, que naquele bairro sempre consigo algum conforto.  Não é que me traga ele boas lembranças, ou porque ali  tenha passado uma boa fase da vida, não é por nada particularmente bom.  É, talvez, apenas por ser familiar, antigo, velho conhecido.  A confusão da Rua Voluntários da Pátria, por me ser totalmente previsível, hoje foi meu refrigério.

foto de Ernesto Martins, "Flutuante".  Aí está um refrigério bem mais agradável.

quarta-feira, setembro 29, 2010

duplamente pela metade

Figure a seguinte cena: uma loira linda, alta, esguia, avança num corredor a passos largos empunhando a coleira de um cachorro tão garboso quanto ela.  Detém-se diante de uma porta que é aberta por um homem não muito bonito, mas profundamente atraente.  Ela o traz junto a si ("meu príncipe") e os dois se beijam apaixonadamente.  A loira é Brigitte Bardot e o não-bonitão, Serge Gainsbourg, altamente sedutor. Corta.  Um bando de obesos numa mesa redonda, num evento que parece ser um casamento, têm um diálogo tenso numa língua eslava (russo? polonês?) sobre um show que não irá acontecer e que lhes será a ruína total.  Há uma mulher na cena que espuma de ódio e trinca os dentes e, para não se trincar toda, colocam entre suas mandíbulas um guardanapo.  É curiosa a cena, instigante e, sobretudo, muito engraçada.  Corta.  Aparece um responsável pelo Festival do Rio que diz que houve um problema com o filme (o da cena da loira, sobre a vida de Serge Gainsbourg) e que a sessão em poucos instantes seria retomada.   Minutos depois aparece uma outra mocinha da organização do festival e anuncia: "Desculpem, houve um problema com os rolos dos filmes e nesse momento alguém deve estar assistindo indevidamente ao filme do Serge Gainsbourg... Não temos como retomar a sessão.  O dinheiro será restituído na bilheteria".  Como assim?  Trocaram os rolos dos filmes? "E qual era o outro filme?", pergunta um com absoluto senso de oportunidade um expectador, mas a mocinha não sabe.  A plateia de cinéfilos em festival ficou também sem saber.  O pior: sem saber de nenhum dos filmes.  Só pode ser sacanagem do Gainsbarre...  

p.s. a edição do Globo de hoje informa que os rolos vieram trocados na França.  Gainsbarre, Gainsbarre...

Foto capturada no Google 

sábado, setembro 25, 2010

como uma partitura

as cidades regurgitam tantas coisas e pessoas e excessos
e falta de tempo e bons sentimentos
a pressa, a pressa, sempre a pressa
e afobação e ansiedade

aqui no alto do morro olho o céu barrocamente estrelado
e penso nas bobagens que a cidade guarda
sem perceber
sem se dar minimamente conta

que estrelas são como a partitura de uma sinfonia
inscrita pelos deuses no céu para os homens

que cá embaixo, porém, já não a conseguem escutar.

segunda-feira, setembro 13, 2010

sacrossantas férias...


... e o exemplo capturado neste instântaneo: de nada mais preciso para ser feliz.

Itacaré, sul da Bahia, em foto minha.
Posted by Picasa

sábado, julho 17, 2010

uma teoria para joão carlos

Devo-lhe uma teoria, João Carlos.  Sim, falei que deveria haver uma explicação para a febre que assola as nações em época de copa do mundo e acho que encontrei.  É meio simplório, reconheço.  Equivale a tal febre a um oásis no deserto, a uma ilha no meio do oceano, a um refúgio completo das tribulações do dia-a-dia.  Simples simples.  Ninguém tem que pensar em muita coisa, ou ao menos não muito profundamente; afinal... é época de copa do mundo e o desempenho da seleção é o que verdadeiramente importa.  Nada mais tem muito apelo.  E esse oásis, numa época em que celulares tocam sem parar e tourear uma caixa de entrada de correio eletrônico deixou de ser banal, é um refrigério no meio do sertão nordestino profundo em tempos de seca prolongada.  Esqueça e-mails, ligações, pentelhações de toda ordem.  Esqueça-se.  O que de fato importa é se sua seleção vai ganhar, de quem, por quanto.  O que fico me indagando é se em tempos de globalização essa história de seleção do próprio país ainda faz sentido.  Alguma teoria?  

segunda-feira, junho 28, 2010

muito cacete


Fico contente com a vitória, mas acho futebol muito chato. Fazer o quê?

foto capturada no globonline: Brasil 3, Chile 0.

domingo, junho 27, 2010

sobre corredores e escritores

Admiro os corredores pela ausência de produção: basta-lhes um tênis, uma pista e disposição para se satisfazerem com a enxurrada das endorfinas que a corrida proporciona.  Nada de clubes, equipamentos, gastos ou parceiros.  As pernas, os pés, um par de tênis, o chão e lá vão eles, um leve sorriso estampado ao final da corrida, transpirados e felizes (não corro, apenas caminho, mas um dia chego lá, senão para celebrar a simplicidade desse prazer).  Escrever, acredito, é parecido.  Quando penso que Saramago mal terminou o ginásio, assim como Erico Veríssimo também não, e ambos os grandes escritores que foram (ou são? será que escritores nunca morrem, assim como os sonhos não envelhecem?), tudo parece tão simples: a folha em branco, a caneta, ou o teclado e a tela, uma ideia na cabeça, alguma observação da vida, a vontade e a coragem de maltraçar umas linhas.  Nenhuma sofisticação, nenhum equipamento, nada.  Corredores e escritores não esperam por ninguém, olham para o papel em branco ou para o chão e vão em frente, na certeza que o melhor não é chegar ao fim, mas se dar o prazer e o sofrer do percurso.        

sexta-feira, junho 18, 2010

pena




José Saramago, nascido em 16 de novembro de 1922 e falecido hoje, 18 de junho de 2010.

foto capturada no google

soube viver

José Saramago e sua mulher, Pilar, no dia do casamento deles, em 2007.

imagem capturada no google

sábado, junho 12, 2010

o amor é um mistério

A mídia dedicou ao amor a semana que antecedeu o dia dos namorados, programas e artigos sobre estudos recentes em paixão e romance, enquetes sobre expectativas dos homens e mulheres em relação a relacionamentos e etc.  A neurobiologia descobriu que a atração é informada não por subjetividades, mas por cheiros que escapam ao olfato perceptível, cheiros que denunciam se o sistema imunológico do outro é complementar ao seu próprio para garantir uma prole forte.  Visto assim, o fenômeno da atração parece fácil.  Mulheres estrogênicas procurariam por homens testosterônicos. Não consegui assistir aos programas todos, vi parte de um na quinta-feira e  a um terço de outro ontem.  É natural a curiosidade da ciência sobre o assunto, não conheço quem não questione o amor romântico e quem não queira viver em estado de paixão. Não ouvi os cientistas dizerem, mas ousei supor um dia que o amor tivesse a ver com o desejo primário da reprodução e com a evidência de que duas pessoas juntas serão sempre mais eficientes em se proteger mutuamente na vida que, ainda hoje - e talvez mais ainda hoje - é uma verdadeira selva.  Supus, supus...  Minhas conversas com Cupido desde a adolescência nunca foram muito reveladoras, mas a de ontem, surpreendentemente, foi: não há qualquer razão palpável. O que explicaria, por exemplo, duas pessoas completamente diferentes se apaixonarem e, em alguns casos, permanecerem juntas anos a fio? É comum irmãos com temperamentos completamente opostos porque um puxou ao pai e outro, a mãe.  Culturas distantes, origens diversas, diferenças de idade, os mais variados abismos os apaixonados superam por uma ponte chamada amor.  A mim não parece razoável a explicação de feronômios para quem se conhece na virtualidade, e eu sei de um caso desses com final feliz, tampouco para aqueles que não mais estão em idade reprodutiva.  Perguntei a Cupido ontem se seriam as flechas atiradas ao acaso ou se ele recebia alguma instrução superior antes de as desferir.  "Porque você quer saber, afinal, porque todos querem saber? Aceitem o mistério", respondeu. Concordo.  Aos apaixonados, aos que querem se apaixonar, aos que já se apaixonaram, aos que sofrem por amor e aos que se regozijam com ele, a todos, meus votos de um feliz dia desse mistério que se chama amor.  

ilustração capturada na Internet, Cupido e Psique in love (também ele!), ela numa atitude de total entrega.  Curioso, não existe "dia dos casados".

domingo, maio 30, 2010

ela é melindrosa, ela é melindrosa...

Serpenteei excitada a grande avenida que margeia a cidade aos poucos se insinuando já em sua grandeza.  Ali percebi sua densidade, mas não poderia imaginar o quanto é fresca e juvenil.  Sim, estava em New York, depois de quase não partir do Rio de Janeiro, na data do embarque então assolado por uma inundação incomum em abril, e de uma conexão perdida em Atlanta.  Ali estava ela - e eu nela, afinal - e me senti mais realizada do que propriamente feliz.  Acho que nunca vou me esquecer daquela sensação de quase-festa que tive ao sair do aeroporto e de me aproximar de Manhattan.  Se a imaginava grandiosa, surpreendeu-me saber  tão lindamente art-déco, um estilo que tanto admiro, embora não tenha sido difícil entender o porquê - afinal, era a moda na época em que a cidade mais floresceu - e, afora seus ícones, como o Chrylser Building, há detalhes inusitados em toda parte.  A melindrosa é pulsante, é vibrante e se oferece em música, teatro e compras o tempo todo.  É incrível como se compra!  E é apressada, não tem muito tempo a oferecer em nenhum serviço como anotar o pedido no restaurante ou comprar ingressos para o teatro.  Na melindrosa há arte, muita arte, a ponto de valer uma visita de quase oito horas no Metropolintan Museum of Art, e mais outros cinco museus, incluindo a felicidade de ver Tim Burton expondo no MoMa, além da Frick Collection e da galeria eleita minha preferida, The Neue Galerie, que abriga Kadinsky, Schiele, Ernst, Klimt e Otto Dix, este a vedete máxima, todos reunidos num prédio esplêndido (muito mortal aquilo tudo!).  Antes de partir, a melindrosa me perguntou ao ajeitar seu chapéu no toilette do The Radio City Music Hall: "honey, are we going to meet again?", ao que respondi, sinceramente esperançosa:  "I really hope so, babe".             

p.s. foto capturada do Google imagens