segunda-feira, julho 20, 2009

na dúvida, a dúvida

entre o certo e o errado
fico com o vão
que há entre nós:
nada de explicação,
nada demais

aliás, ouso dizer-te:
é apenas paixão, rapaz
é loucura, algo que não se compraz
do medo

ou talvez seja diverso:
quem sabe a alforria
que perversamente nos aprisiona

em nós mesmos?

terça-feira, julho 14, 2009

allez, enfants!


Você, burguês, que não ostenta nenhum título de nobreza, mas que adora uma mordomia. Você, um 'snob' ('sine nobilitae'), que gosta de coisas boas, de um bon entourage, de uma boa refeição e que entende como o mais perfeito milagre da multiplicação dos pães o máximo de conforto que seu suadinho dinheiro pode dispor. Sim, você mesmo, que apenas aí está nesse status razoável porque alguém resolveu acabar com aquela lassidão e todo aquele luxo excessivo da nobreza de antanho. Cabeças rolaram, é verdade. Menos mal que, a cada dia, tentamos livrar a nossa. Como diria meu ex-futuro-já-finado marido Serge Gainsbourg: aux armes, cidadãos, etceterrrrá!
foto capturada hoje no site do Le Monde, a parada de 14 juillet

sábado, julho 11, 2009

coffee break


Viagem a trabalho é assim: você se desloca, sai da rotina, ganha novos ares e tem uma missão expressa a ser cumprida. Nem sempre os ares são tão bons ou o desfazimento da rotina será benéfico, não raro, aliás, o deslocamento é sobremaneira sofrível e a missão volta e meia não sai de fato cumprida. E há os coffre-breaks, pensados para ser uma pausa restauradora, o cenário do networking e da troca de experiências, mas depois de seis deles certamente ninguém mais olhará para um bolinho de milho como algo ingênuo, ali posto para deleite dos trabalhadores-do-brasil. A cada volta de viagem de trabalho, com umas graminhas a mais, eu me faço a mesmíssima pergunta: isto tudo deve fazer algum sentido.


p.s. a foto é minha, um dos breaks gulosos a que me rendi nos últimos dias.

sábado, julho 04, 2009

sonhos existem para serem realizados...


... e é uma maravilha quando acontece. Há anos que eu queria ir a Flip ou, ao menos, ver a cara de Paraty na feira. A cidade, linda, ganha uma aura de magia, aquelas pessoas ali a circundar e respirar e exalar literatura. Autores, livreiros, editores, literatos, curiosos, gente esquisita de toda sorte (adoro gente esquisita), neo-hippies, muitas crianças, autores consagrados e autores iniciantes, alguns dos quais, após uma abordagem simpática, leem um poema e oferecem, cheios de orgulho, seus livros-brochuras por um preço módico, e recusá-los seria um crime de lesa-delicadeza. Foi rápido, dispunha de apenas duas horas, mas neste tempo fiquei imersa naquilo que tanto me acolhe quando me recolho. E pensei, quando já ganhava a estrada: aos sonhos, a realização. Aí vai uma das pérolas que lá tive o prazer de recolher:
"Sem licença Poética
(voltando do Rio)
Poesia é tua cria
Tua eterna companhia
Que não lhe pediu licença
Para fazer presença,
Ter te usado
Pra chegar ao mundo.
É teu sempre fardo
Teu poro que não exala estado
Líquido ou gasoso
E sim,
Algo, contudo
Mais profundo"
Thiago dos Santos in "Baile da Nostalgia", edição do autor. Adorei esse poema!
a foto é minha, instantâneo de um momento lúdico.

domingo, junho 21, 2009

tudo e mais um pouco

uma páprika doce e uma pimenta-do-reino
salsa, cebolhinha,
e também manjericão e coentro e sálvia

um atalho, uma via expressa
um viaduto, uma marginal
uma grande avenida central

você, meu tempero,
meu caminho e meu descaminho
o que tenho de mais certo e de mais errado.
Até aqui, sendo bem franca:

você é tudo pra mim

sábado, junho 20, 2009

let´s do it, let´s fall in love

But that’s why birds do it,
Bees do it,
Even educated fleas do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

In Spain the best upper sets do it,
Lithuanians and Letts do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

The Dutch in old Amsterdam do it,
Not to mention the Finns,
Folks in Siam do it,
Think of Siamese twins.

Some Argentines without means do it,
People say in Boston even beans do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Romantic sponges they say do it,
Oysters down in Oyster Bay do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Cold Cape Cod clams against their wish do it,
Even lazy jellyfish do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Electric eels, I might add, do it,
Though it shocks ‘em I know,
Why ask if shads do it,
Waiter bring me shad roe.

In Shallow shoals, English soles do it
Goldfish, in the privacy of bowls, do it
Let's do it, let's fall in love

The dragonflies in the reeds do it,
Sentimental centipedes do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Mosquitoes, heaven forbid, do it,
So does every katydid do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

The most refined ladybugs do it,
When a gentleman calls,
Moths in your rugs do it,
What’s the use of moth balls?

Locusts in trees do it,
Bees do it,
Even overeducated flees do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Let’s do it, let’s fall in love,
Let’s do it, let’s fall in love

quarta-feira, junho 17, 2009

filha da puc e de um bric


Tinha certeza que ia gostar do filme, caí de amores já no triller. O roteiro é singelo, a história também, e as grandes vedetes, no fim das contas, são a juventude e a Puc. É muito bom ter um campus para se abrigar e singrar aqueles primeiros anos de juventude. Não é vida mole, mas é vida boa. Muita esperança, uns conflitos da idade, uns amores, uns amassos, muito chão pela frente junto com a percepção que é o começo do começo do começo. De uma certa forma me identifiquei com a personagem interpretada por Érika Mader - que no filme, curiosamente, não tem nome. É, apenas, uma menina de uns vinte anos, magrinha, de pernas compridas e finas, terminando o namoro sem nenhuma ruptura traumática. E hoje, curiosamente, os Bric bombando de novo no noticiário. Escrevi sobre a felicidade de ver o Brasil num grupo com importância no mundo há tempo atrás (o post deve estar aí embaixo) e não admira. Do mesmo modo como lá nos verdes anos me vislumbrei um porvir algo augurioso, sempre acreditei firmemente que ainda veria o meu país melhor de vida, melhor situado. Pois é, filha da Puc e de um Bric... Nada mau.

segunda-feira, junho 15, 2009

a yoga e o silêncio

É horrível engrossar as fileiras da banalidade - e hoje é trivial ouvir alguém dizer que pratica yoga - mas confesso que isto mudou muita coisa em mim. Sinto uma falta imensa quando não posso ir a aula mesmo que a perca pela melhor causa do mundo, e não sinto falta apenas do exercício, do derrame de endorfinas, ou de estar com meu professor, ou ainda do reconforto da ducha que me faz seguir mais relaxada para o restante da jornada. Sinto falta, sobretudo, dos silêncios que sinto - e são tantos que preciso do plural. Porque é um silêncio profundo que me faz, um silêncio acolhedor, de uma mente que se esvazia, de ouvir nítido o pulsar do coração e da respiração. Tudo vibra em mim naquele silêncio do qual parece que sou feita. Não é um silêncio da ausência de sons, é um silêncio que vem de dentro. E é bem envolta neste silêncio que me escuto melhor.

domingo, junho 14, 2009

gostar, gostar e gostar?

Conversando outro dia com minha amiga Marcia B chegamos juntas à conclusão de que ambas sofremos do "mal do desamparo". Por alguma força misteriosa da natureza, talvez alguma conjunção astral havida em 1962, fazemos parte de uma pentelhonésima parte da humanidade que parece nunca precisar do outro. Somos, aos olhos de todos, umas fortalezas incorruptíveis, umas criaturas estóicas que passarão pelas vidas sem jamais necessitarem de quem quer que seja ou de algum cuidado em particular. E também por algumas dessas razões insondáveis, e no sentido diametralmente oposto, o resto dos homens e das mulheres, dos amigos, dos familiares, dos colegas de trabalho, dos cônjuges, dos namorados e etc (alguns desses homens e mulheres nem de tanta boa vontade assim) sempre precisarão de nós, e bem amiúde. Aliás, seremos por eles escolhidas como amigas ou namoradas ou cônjuges bem por esta percepção. Quando esse momento chegar, certamente será de nós que se lembrarão. Uma lacuna que se abre em suas vidas, um desacontecimento, alguma coisa ingrata os levarão a discar o número do celular que nos alcança. E, sim, nós estaremos lá. Certamente estaremos. Seremos atentas em tudo e por tudo às misérias alheias. Ouviremos suas aflições, teremos bons conselhos, a compaixão em nossos corações falará mais alto e jamais negaremos abrigo a quem quer que seja. O problema é que, às vezes, também precisamos nós de algum consolo, de algum colinho, ainda que colinho light, ou, apenas, de alguma interlocução ou de uma mera... atenção. Tudo isso lhes passará batido. Não por falta de comunicação ou de evidência, simplesmente não será percebido de nenhuma maneira. Sabe aquele telefonema simples, apenas para saber se vai tudo bem com o outro? Sabe aquele contato que não é para dizer nada em particular, mas para ouvir como vai a vida do outro? Não rola. Se alguém liga (a menos que para um convite ou outra frugalidade) é porque está precisando de algo. Diante de nossa constatação desalentadora, resolvi reformular meu velho conceito de amigo - "aquele de quem a gente não tem que se proteger", de resto muito mais um ideal do que um conceito - para "aquele que quer nos ouvir e saber de nós quando a sua própria vida estiver bem". Aquele que quer compartilhar não a alegria do encontro social ou qualquer outro contentamento pessoal, mas, tão-só, o simples saber da vida da gente. Não me acho sofisticada, tampouco complexa é a Marcia B, mas somos predestinadas a servir, a servir, a servir. A pergunta é: quem nos servirá, além de uma a outra? E não deveria ser a vida apenas e simplesmente gostar e gostar e gostar?

sexta-feira, junho 12, 2009

ah, a paixão!


Da história ouvi três versões, o que significa que essa talvez seja a quarta. Tentarei, porém, ser fidedigna aos fatos e prometo que, para além de um tempero pessoal aqui e acolá, não fabularei. Foi assim: Mathilde já estava cansada da insistência de sua filha Ignez em levar seu quase noivo Tito para passar o carnaval na casa da cidade. "Não fica bem", dizia Mathilde, "e de mais a mais seu pai jamais permitirá". Ignez não se dava por vencida e ponderava que seria um bom momento para se certificar que realmente queria ficar noiva de Tito, o homem com quem estava pensando em compartilhar a vida e em relação a quem se sentia algo morna. E voltava à carga: "Fale com o papai, mamãe, não há nada que ele te negue. Por favor, por favor!". De fato, Lindolpho atendia sua mulher em quase tudo. A qualidade de ser mãe de seus doze filhos, mulher dedicada e companheira fiel conferia a Mathilde superpoderes com seu marido, um homem com quem ninguém folgava. Junto ao velho, osso duríssimo de roer, Mathilde tinha lá suas estratégias, e a mais eficiente delas sempre fora chamá-lo ao quarto logo após o jantar. De lá saíam ambos apenas no dia seguinte invariavelmente com mais um pedido de Mathilde atendido. Enfim, Tito ganhou autorização para passar o carnaval na casa da cidade, sob a promessa de Mathilde de que manteria os olhos bem abertos sobre os dois. Além desse convidado, outro a eles se juntaria, o engenheiro que o Departamento Nacional da Produção Mineral enviara a pedido do velho Lindolpho para analisar a água de sua fazenda, a qual pensou ser termal. Não era termal coisa nenhuma, mas passar o carnaval em Poços de Caldas não pareceu ao engenheiro um mau negócio; a cidade, agradável, era bastante badalada na década de 30. Vai daqui, vai dali, foram todos juntos ao baile no Palace Hotel no sábado de carnaval, aquele bando enorme de gente, Ignez, seu noivo, seus oito irmãos, duas irmãs e mais um punhado de primos. 'Famiglia' total. E dançaram juntos. Não Ignez e Tito, mas Ignez e o engenheiro. No segundo dia também. E no terceiro. No meio do baile da segunda-feira de carnaval, vira-se o engenheiro para Ignez, após sentir um aperto especial em suas mãos, e dispara: "Moça, percebo que você gosta de mim e eu também gosto muito de você. Quer se casar comigo?", ao que Ignez de pronto aceitou. Como contar a Tito, a sua mãe e a seu pai pareceu-lhe um mero detalhe diante da paixão avassaladora da qual tinha sido tomada. Com Tito se entendeu logo após o carnaval e lá se foi ele com as cinzas da quarta-feira. Não consta que tenha sofrido de amor, mas um travo de amargura bem deve ter remoído. À sua mãe foi franca e direta porque suspeitava que já percebera algo no ar. Foi batata: "Eu sabia! Como conto ao seu pai isso agora, Ignez? Vocês percebem o escândalo que vão provocar?". Realmente, Poços de Caldas em 1935 não era bem um lugar liberal, e a tradição mineira sempre foi muito cultivada naquela família, uma das mais respeitadas da região. "E agora?", insistiu uma contrariada Mathilde. "Você saberá o momento certo de contar ao papai", disse Ignez, aconselhada pela lucidez pós-desvario. E assim se deu. Num momento em que o velho Lindolpho elogiava o engenheiro Mario, Mathilde, oportuna, disse que apreciava saber de tal admiração, porque sua filha e ele pretendiam se casar em breve. "Quem é este rapaz?" reagiu, furioso, o velho Lindolpho. Ignez (também dita Zizita) e Mario (o engenheiro carioca da gema) se viram apenas 27 dias antes do casamento, logo marcado para janeiro do ano seguinte. Um ano após o casamento nasceu o primeiro filho, e o segundo nasceu justo no mesmo dia quatro anos depois. Foram felicíssimos a vida toda, se admiraram loucamente nos 55 anos que tiveram de vida conjugal e em comum tinham muito amor por todos os seus, inclusive por esta que aqui narra uma linda e ousadíssima história de amor, que é a história de seus avós paternos. Feliz dias dos namorados!
foto capturada do google imagens
o vídeo abaixo é um duo de Gwyneth Paltrow com Huey Lewis extraído de um filme chamado justamente... "Duets". Apenas agora percebi que ela faz o papel de filha dele, o que vem bem calhar no dia dos namorados, já que se diz que o primeiro namorado da menina é sempre o seu pai. Incestuosa, eu? Não, freudiana...

terça-feira, junho 09, 2009

saudade

o beijo da despedida tem já um travo de saudade,
uma saudade sentida por antecipação

que também é um destilar do gosto teu,
do gozo nosso
e é tudo o que podemos ter um do outro.

saudade é o amor se fazendo lembrar

domingo, junho 07, 2009

na crise, à direita


Qual a razão? Nunca entendi. Mas as eleições para o Parlamento Europeu são prova que, na crise, a direita sempre arrebanha mais votos. Terá sido essa a razão de 64? Será que apenas a estabilidade econômica permitiu ao partido mais identificado com o socialismo chegar ao poder no Brasil? Não sei, essas questões da política sempre me escapam um pouco, embora me pareçam recorrentes. De uma coisa, porém, estou certa: se La Bruni gostasse mesmo de política não teria se identificado com Sarkozy. Mas prefiro pensar que o amor é cego e que dispensa essas bobagens mundanas. Aliás, basta ver seu (recorrente) sorriso. O amor é lindo...
foto capturada do site do jornal o globo hoje

quarta-feira, junho 03, 2009

ele, o tempo


Tudo passa por ele. O tempo que se perde na fila, que se ganha num sinal marotamente furado, que se quer retroceder com a medicina estética ou que se quer avançar para a semana correr logo e rápido chegar o descanso do fim de semana. O tempo perdido na esbórnia, o desperdiçado num farniente ainda que merecido, o trabalhado à exaustão, o caminhado nas andanças vadias, o tempo que um amor sem agenda insistentemente nega. Tudo isso é uma coisa louca chamada tempo, algo estranho, quase imensurável, mas que todo ano nos faz lembrar mais um aniversário. O tempo não-ocupado com os afetos sinceros e que depois talvez seja causa de eterno remorso ("tivesse eu dez anos a menos..."), porque certo na vida, certo mesmo, é não saber o dia de amanhã. Não sei se o tempo me assusta ou se, de alguma forma, me consola; afinal, não posso com ele. É como gostar de alguém e ter a certeza de que não adianta perquirir a razão. Se o tempo passa, o amor surpreende. Resigno-me. Por sabedoria ou impotência, simplesmente resigno-me.
a foto é minha, um instatâneo da pressa dos motoristas no Aterro do Flamengo, algo que nunca entendi. Porque não se deliciar com essa beleza toda e correr feito louco?

sábado, maio 16, 2009

bye, bye, outro blog!


Estava bem quieta quando a Ana Luiza, minha amiga, me instou a criar um blog na comunidade 'globonliners' da página do jornal O Globo na internet. Relutei um pouco, depois pensei que lá poderia me focar no noticiário, enquanto que aqui permaneceria um canto para minhas bobagens mais bobagentas. O curioso é que o 'na blogosfera' teve milhares de visitas e, sabe-se lá o porquê, virou indicação na página inicial da comunidade. Nunca entendi como tantas pessoas podiam ler aquelas maltraçadas, nunca entendi como poderia ter mais de cem visitas por dia. É dessa substância intrigante que é feita a internet: muita gente, muito anonimato, nenhuma razão palpável. Por incrível que pareça, gosto disso, sempre achei muito chato ter que dar satisfação de onde ir, com quem e porque (talvez seja trauma herdado da adolescência, talvez tenha a ver com uma renitente mania de transgredir um pouco). Um belo dia, porém, recebemos todos um e-mail em que, secamente, foi anunciado o fim da comunidade. Tínhamos todos trinta dias para salvar nossos escritos. A razão? Não se disse. O que virá em seguida? Tampouco. Não admiram tantos protestos e estranhamentos; afinal, era uma... comunidade! E comunidade na internet não se desfaz assim. Ou será que se desfaz? Andei pensando: não é realidade total, mas também não é ficção. Não é algo sólido, mas não diria ser líquido. Está mais para o etéreo, uma substância gasosa que, ao subir, vira nada. Enfim, a pós-modernidade e suas idiossincrasias, conosco no meio.
foto de Ernesto Martins

quarta-feira, abril 08, 2009

numa páscoa, as maritacas



Eu juro que vi. Na época morava na Gávea num apartamento que tinha uma vista magnífica para o Morro Dois Irmãos. Ficava muito intrigada de nunca ver niguém na varanda, aquelas lindas manhãs absolutamente desprezadas, apenas eu como uma testemunha silenciosa daquele presente da natureza. Onde estavam os moradores que se permitiam perder tudo aquilo? Francamente, nunca entendi. Pois foi num desses dias estranhamente desprezados, bem numa sexta-feira santa, que eu, às sete da matina já de pé me deliciando com aquela beleza de manhã outonal, vi um bando de maritacas se aproximando do prédio e pousando na varanda num andar abaixo do meu. Tive um ângulo de visão diagonal, de maneira que as pude contar. Eram onze maritacas pousadas sobre o guarda-corpo, quietinhas, quietinhas e, de repente, começaram a berrar a plenos pulmões. Fiquei pensando do que deveriam reclamar já que tudo parecia tão perfeito. Então mais uma se aproximou, meio perdida, bem lentamente, e fez-se a dúzia. Ficaram ali por meros trinta segundos e logo alçaram voo. Uma meia hora mais tarde, ao tomar o café da manhã e pensar no que presenciara, percebi que aquela visão havia sido meu presente de páscoa, como se os apóstolos ali estivessem estado e, de uma forma marota e insólita, me mandado um recadinho, um segredo sussurado ao pé do ouvido de que a vida começava então a se renovar. Foi quase uma revelação.
Feliz páscoa!

foto capturada do google imagens



terça-feira, março 31, 2009

fruto proibido

morra-se o mundo,
queimem-se as almas do inferno
salvem-se as almas do purgatório
morda-se a língua,
instaure-se a crise,
explodam-se todos,
danem-se!

pouco se me dá

ao ver-te,
ganho o dia

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Na Sapucaí


A ideia não foi minha, mas de minha mãe, que adora carnaval e que enquanto não me arrancou um 'sim' não sossegou. Não resisti à sua proposta de uma frisa na avenida, mas reconheço que não tinha noção de como estaria próxima do desfile. Chegamos de turistas - mamãe, meu marido e eu - num daqueles ônibus imensos, vendo tudo bem de cima e sentindo-nos um pouco estrangeiros na própria casa. Fiquei pasma com a organização; tão logo chegamos, rapidamente fomos conduzidos ao nosso lugar. Quando me dei conta de que estava mesmo em plena Sapucaí, a avenida que vejo na televisão a cada ano e que há mais de vinte não retornava, meu coração mandou o aviso da emoção, ali uma imensa alegria. Pode parecer lugar comum, mas com toda franqueza d'alma digo que a melhor sensação da noite foi a que tive antes de o desfile começar. As pessoas naquela espera, aquele buliço... Senti-me no convívio dos eleitos, uma privilegiada. Saímos apenas ao final e a maratona não chegou a nos cansar. A bem da verdade, passou muito rápido. Foi tudo lindo: as escolas com seus sambas, passistas, carros alegóricos, baterias; a plateia que vibrou incessantemente; o Salgueiro, que ontem ganhou meu coração. E mamãe... bem, mamãe tinha toda razão. Evoé, Momo!

fotos do meu arquivo pessoal tiradas ontem na Sapucaí. A segunda é o momento antes de a primeira escola desfilar, o início da festa. A primeira sou eu, encantada e feliz.
atualização na quarta-feira de cinzas: a Salgueiro é a campeã do carnaval de 2009. Merecidíssimo!

sábado, janeiro 31, 2009

coincidência das coincidências

No ano passado, em 30 de junho, escrevi um post chamado "a nova (des) ordem mundial" em que perguntei, ao final, se haveria chance de algum país no mundo de hoje dar anistia a imigrantes ilegais, como a que foi concedida a meu marido em 1988, através do (provavelmente) último decreto-lei editado antes da nova Constituição. Hoje li que a anistia se repetirá mais uma vez no Brasil. Fiquei divagando: será que alguém me ouviu? É bem verdade que andei falando disso por aí e, sei lá, pode ser que a ideia tenha reverberado e que alguém tenha até mesmo levado crédito por ela. Depois pensei que alguém poderia ter lido casualmente essas maltraçadas linhas lançadas a esmo na blogosfera, mas em seguida achei pouco provável. Por último, pensei que... bem, será que profetizei? Vai saber. Enfim, não importa, me regozijo com a notícia - deve ser muito ruim imigrar e viver ilegalmente num país estranho.

sábado, dezembro 20, 2008

meados de dezembro


Desço a Avenida Rio Branco e percebo mais abraços e beijos do que seria o normal numa sexta-feira, uma certa expressão beatífica em todos, como se pedissem perdão pelas mordiscadas dadas no ano que se encerra. Desço a Rio Branco em meio a pessoas carregadas de sacolas, os ambulantes com chapéus de papai noel, os pontos de ônibus lotados. Desço a Rio Branco nesta última sexta-feira antes do Natal e, sem querer pensar no ano que acaba, sem pretender balanços, o papel picado jogado pelas janelas precocemente não me concede essa inocência. Desço a Rio Branco na esperança que o ano vindouro seja melhor, na certeza que estão encerradas minhas compras de Natal e que teremos todos uma noite muito feliz. Feliz Natal!

foto capturada na Internet

segunda-feira, dezembro 01, 2008

primeiro de dezembro


Um ano como qualquer outro, em que coisas boas acontecem e coisas ruins também. Nada de muita surpresa, uma imensa satisfação porque meu pai se safou mais uma vez, porém não o meu cachorro. Perdemos o Zeca, uma vida que foi escrita junto com a nossa, tanto afeto e amizade compartilhados, de me fazer crer que as pessoas deveriam ter um cachorro antes de pensar que sabem alguma coisa sobre amizade. Depois veio a avalanche midiática daquele casal medonho e a garotinha morta, a chatice repetida ad nausem do joelho do Ronaldinho (ô assunto), uma inundação de praxe, não há ano que passe batido sem uma desgraça natural, uma amiga que espantou a depressão, ela bem à sua porta, outra que se reconciliou com o marido para o bem de todos e felicidade geral, outra que se livrou do dela e parece que em boa hora. Uma crise financeira mundial que ninguém imaginava, o candidato afro-descendende enfim eleito (menos mau), o prefeito péssimo que já vai tarde (menos péssimo), nenhum bom filme, desses de causar impressão cinematográfica plasmada na memória, mas uma peça de teatro linda, os Beatles e apenas eles, suas canções maviosamente interpretadas, eu com os olhos rasos d’água ao ouvir “Something”. Ah, meu Tio Carlos que se foi também, embora já tivesse partido há tempos (não era mais ele), e parece que o casarão na Gávea ficou de todo vazio. Uma primavera feia, chuvosa, cinza e chata, um céu azul em Lisboa de matar de inveja qualquer carioca órfão de uma bela primavera, uns três meses do ano trabalhados só para pagar imposto de renda na fonte e outros tantos de azul desperdiçado num cinza que nada desfazia. A vida, a vida, a vida, agora o Natal, o réveillon e depois tudo de novo.

foto capturada da Internet, Barack Obama em Berlin aos 24 de julho de 2008, diante de 200.000 pessoas. Para mim, é a foto do ano.

sábado, novembro 29, 2008

o gato do cachorro

Singrei o Aterro do Flamengo hoje mais uma vez debaixo de chuva. Só pode ser essa insistência úmida a me melar o humor, a me deixar nessa zona grísea de indigestão espiritual. Mais uma vez acordo com o sol à espreita e vou me deitar sob um chuvisco insistente. Que saco! Essas coisas têm um efeito deletério sobre a gente. Por exemplo: nunca mais vi aquele deus grego, aquele que corre na pista do aterro com seu cachorro todo dia por volta das nove e quinze da manhã, um corpo esculpido em tudo e por tudo à semelhança do Criador. Que maravilha da natureza - e que natureza! Um impávido colosso. Pois desde que chove desse jeito a criatura sumiu. Ele e seu cachorro abandonaram o exercício matinal e deixaram minhas retinas viúvas daquela visão do paraíso. Pergunto aos quatro ventos: cadê o gato do cachorro? Cadê?


foto de Ernesto Martins

quinta-feira, novembro 20, 2008

'sem compromisso, mas com responsa'

A frase do título não é minha, é aforisma do blog do Oldon. É ótima. Lembrei-me dela porque diz a Cora Rónai em sua crônica publicada na edição física do jornal O Globo de hoje que escrever sobre livros de amigos cronistas, pares de redação, é meio delicado - há sempre novidades, alguém publicando alguma coisa, e fica parecendo algo quase-cabotino. Não tenho esse pudor, não me sinto constrangida de falar bem de livros de autoria de amigos meus colegas de profissão; apenas não o faço porque, sinceramente, obras jurídicas aqui dariam traço no Ibope. Mas o livro do Arnaldo Bloch é realmente muito bom ("Os Irmãos Karamabloch", Companhia das Letras). Fui no lançamento na terça-feira, o comprei, e, do que li até agora, adorei. É muito bem escrito, uma história espetacular. A saga dos Bloch é cinematogrática e ouso jogar as fichas em que esse livro vira um filme, um docudrama. Quem sabe? Portanto, assim que terminar de ler "Leila Diniz", de Joaquim Ferreira dos Santos, com quem ultimamente me pego com total delícia naqueles meus vinte minutos antes de dormir (com o livro, bem entendido), é no do Arnaldo que vou me jogar. Não há nada melhor do que ler um bom livro e melhor ainda se foi escrito por alguém de quem se gosta e se admira pelo talento e pela gentileza. Não apenas declaro (sem compromisso), como assino embaixo - com total responsa.

outro despudor, a dedicatória que me fez AB: "À Denise S, tradicional amiga de e'mails e blog, e também de uma chuvosa feijoada no Jobi de ótimas lembranças, com um beijo do Arnaldo"

quinta-feira, novembro 13, 2008

dias nublados virão


Setembro começou muito quente, um calor de 36º C à sombra, eu nem sabia o que mais podia propor a uns amigos estrangeiros que teimavam em largatear na praia. Não titubeei em lagartear junto, era a fome e a vontade de comer. Depois viajei, um sol de rachar; quando voltei, soube que aqui chovera o tempo todo. Desde então não vi mais nenhum dia amanhecer ensolarado. Tem dois meses isso. Chove, chove, chove. Para piorar, há uma névoa densa e úmida pela cidade. Detesto esse clima de floresta tropical porque, além de me sentir mal fisicamente, tenho a impressão de que fica todo mundo de bode, com uma burrice crônica, uma idiotia. É horrível. E, se as nuvens insistem em assolar o Rio e emburrecer a todos, o resto da humanidade resolveu teimar do fundo da alma que tudo vai mudar porque Barack Obama foi eleito. É claro que adorei sua vitória, que fique claro. Mas insisto em achar que, à exceção do clima carioca, que até pouco tempo atrás tinha a primavera ensolarada e ventosa, nada muda tão rápido. De mais a mais, ele não é um furão da questão racial e seu determinismo, como o o Ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, por exemplo (reparem: filho de pedreiro, estudou sempre em instituições públicas e foi aprovado em concurso público para Procuradoria da República). Para piorar a burrice que anda a todos sobrepairando, ontem ouvi a pérola de que o Brasil vai precisar de 'anos de educação' para eleger um presidente afro-descendente. Agora, me expliquem: se nós elegemos um ex-operário, porque raios precisaríamos de 'anos de educação' para eleger um afro-descendente? Aposto que é culpa das nuvens!
p.s. a foto é de Ernesto Martins, que, pelo jeito, não perdeu o bom humor com tanto tempo nublado.

terça-feira, novembro 11, 2008

blind date




Blind dates são, por natureza, constrangedores. Alguém anteviu alguma afinidade entre você e um amigo e armou o encontro. Você não quer ir, mas cede; quase desiste, mas segue em frente. Ficam os dois ali, meio que se entreolhando, num ritual de aproximação quase indígena, vai um espelhindo daqui, vem uma pena em troca de lá. É o meio de cultura ideal para a infecção pelo vírus da gafe. E uma gafe é algo mortal numa situação dessas, capaz de catapultar seu sujeito ao total esquecimento do outro, ou, pior, ao escárnio pelas costas com o amigo armador do encontro. Fazer o quê? Uma gafe, por definição, é uma inconveniência não-deliberada; se deliberada fosse seria uma grosseria. Dessas coisas horríveis da vida. Tenho sempre um pouco dessa sensação de blind date com autoridades de outro país e é bem assim que me sinto em relação ao presidente eleito Barack Obama. O fato de ter que conviver com alguém não-escolhido por mim que, mesmo distante, é capaz de me afetar por uma decisão sua, me traz essa sensação. É estranho, mas é verdade. O pior é que ele próprio já cometeu uma gafe e foi alvo de outra. Que coisa! Espero jamais encontrar com esses blind dates. Temo cometer uma gafe incontornável. Já pensou criar um incidente diplomático?
as fotos, capturadas da internet, mostram o que um amigo me disse ser uma das mais valiosas qualidades de um político: ter um belo sorriso e uma expressão agradável, amistosa.
há um artigo chamado "Barracobama ou Tem Branco no Samba", de Mathilda Kóvak, publicado no Cronópios, portal de literatura e arte, que vale a pena ler. É, no mínimo, polêmico.

domingo, outubro 26, 2008

órfãos das diretas já



Essa crise financeira mundial, diuturnamente propalada como a crise das crises, os líderes mundiais volta e meia reunidos, os Tesouros europeus abrindo seus cofres, a inusitada proposta de se refundar o capitalismo, os economistas de plantão com os jornalistas e comentaristas de volta às bancadas, tudo isso pareceria um pão dormido não estivesse o Brasil, dessa vez, dessa única vez, fora do furacão. É tão difícil acreditar que consultei minhas bases, meus pares de geração e refrescamos a memória: formados na primeira metade dos anos 80, mal começávamos a ganhar a vida e quase sucumbimos ao plano cruzado, ao plano bresser (parece que deste houve duas versões, não me lembro mais), ao plano verão, ao plano collor, ao confisco da poupança e etc. Na época eu pensava que tudo isso era culpa de a proposta Dante de Oliveira não ter passado e que os deuses nos puniam com aquele arremedo de dobradinha Tancredo-Sarney, malfada em tudo e por tudo. Sentia-me irremediavelmente órfã, tendo que me virar, e era difícil se virar com 1% ao dia de inflação. Não havia over-night que desse jeito, tampouco explicação que bastasse para meu marido estrangeiro que não compreendia a desvalorização diária da moeda. Sobrevivíamos todos mal, aquém do nosso potencial e esforço. Levava-se a vida, pedindo-se por saúde - e olhe lá. De nada adiantou aquele mega-comício, o qual assisti de camarote num quarto que (espertamente) aluguei com uns amigos no Hotel Guanabara, em plena Avenida Presidente Vargas. Nessa época fatídica, para piorar, o Rio inundou, a falência da cidade foi decretada e numa manhã, saindo para trabalhar, depois de 24 horas de chuva incessante, vi aturdida algumas pirâmides de areia na bucólica rua que então morava no Humaitá. Portanto, não admira que tenho ficada tão pasma com a declaração do presidente do Citigroup, Bill Rhodes, publicada na edição física do jornal O Globo de 14 de outubro, reportagem de José Meirelles Passos de título "Acho que Deus é realmente brasileiro". Diz Rhodes: "Se algum país é capaz hoje de domar essa tempestade que enfrentamos é o Brasil. O que me incomoda é os EUA não terem aprendido com as lições da América Latina. Os EUA passaram décadas ditando regras. Acontece que os estudantes cresceram e se tornaram professores." Então é isso mesmo? Quer dizer que toda aquela minha orfandade não foi em vão? Passaremos incólumes, ou quase, de toda essa turbulência? Não será como nas recentes crises da Coréia ou da Rússia? Aprendemos todas as lições? E será que Deus é mesmo brasileiro? Só falta agora São Pedro ser carioca, esse verão não inundar a cidade e o Gabeira, enfim, ganhar.

Fotos do meu arquivo pessoal. A primeira são crianças encantadas no Oceanário de Lisboa; a segunda sou eu, virando criança de novo no Oceanário.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Zeca e o Silêncio

Primeiro eu queria falar sobre a bocada de que dispuseram os blogueiros na cobertura da convenção do Partido Democrata nos EUA: uma tenda com variadas mordomias, mil comidinhas e bebidinhas, tudo patrocinado pelo Google. Li numa edição física do Globo, reportagem de José Meirelles Passos, ele mesmo um blogueiro da quintessência da blogosfera que, vá entender, não deu essa notícia no seu próprio blog. O fato significativo é que há quatro anos atrás foram cadastrados 40 blogueiros para a convenção e agora mais de 500. Depois pensei em falar sobre a última crônica da Cora Rónai em que conta sua alegria de haver recebido um livro de uma blogueira que admira e freqüenta, e por quem também é freqüentada. Não me lembro mais do seu nome nem de seu livro, separei o jornal e não sei onde o guardei.
Não falei e acabei perdendo o fio da meada.
Quis também comentar um texto da Dira Paes publicado na Revista do Globo de 24 de agosto chamado “Eis o mistério da fé!”. Com muita doçura e precisão, Dira consegue dizer o que para ela significa ter fé e, sem pieguice ou tom messiânico, descreve uma ocasião em que estava em especial comunhão com a natureza e que percebeu haver recebido um sinal, tempos depois identificado como o anúncio da gravidez que viria. Espero um dia conseguir falar sobre o que para mim significa ter fé, algo que me veio tardiamente e que também se revela, a cada vez , de forma bastante singela. Não mudei de religião, não me converti a nenhuma seita, não foi nenhuma ruptura com nada. Um dia falo disso.
Mas o que eu queria mesmo era conseguir falar sobre o Zeca, meu poodle por 13 anos, alguém que me ensinou imenso sobre amar e sobre cuidar. Fomos incondicionalmente amigos um do outro. Ele partiu, nos deixou no dia 19 de agosto. A casa está vazia, assim como vazio está meu coração.
Mas disso eu não consigo falar.



foto do meu arquivo pessoal, Zeca atendendo a um dos comandos de que mais gostava: "vamos viajar?"

sexta-feira, agosto 01, 2008

na virada do mês

O mês vira e minha caixa de correio transborda de faturas, revistas, informes, propagandas, contas, contas, contas. Meu e-mail também transborda de inutilidades, “isto é spam, isto é spam, isto é spam"; a caixa de entrada do celular idem e lá vou eu “excluir, excluir, excluir”.
O mês acaba, um novo começa, o mesmo assédio. O tempo voa, as semanas correm, os dias parecem arrastados.
A velocidade, o tempo, o descompasso.
Benfazeja a greve dos correios mês passado.

quinta-feira, junho 26, 2008

junho

Junho chegou com suas manhãs enevoadas,
os aeroportos fechados,
alguma chuva.
Me fez lembrar um livro que já li
um perfume que costumava usar,
algum lugar que nunca mais fui.

Como todo ano,
junho me trouxe uma nova primavera em pleno outono
e também teve cara de inverno
e fez dias quentes como no verão.

Este junho, porém, conteve a vida toda
o mundo todo
(você e eu)
e muitos instantes.

quarta-feira, abril 30, 2008

isso de olhar a lua

Este mês de abril já vai tarde. Pensando bem, não é um bom mês, historicamente é dito o mês dos resfriados e da declaração do imposto de renda. Este abril, em particular, foi muito estranho. Não fiquei resfriada, porém não me consolou pensar que deveria me dar por satisfeita por não ter pego dengue. Da declaração de imposto de renda, porém, não escapei. Quem escapa?
Peguei total implicância com abril. É estranho isso de implicar, nem sempre faz sentido, eu deveria gostar de abril, é o início do outono e adoro o outono - a luz fica mais sutil, menos amarela, ao olhar o mar se vê o horizonte bem definido, o céu num azul um pouco mais claro do que o tom "azul noturno" do mar. É como se o Rio deixasse de ser um quadro de Gauguin em sua fase tahitiana, com seus tons amarelados e alaranjados, e ganhasse uma paleta mais suave. Os dias em abril também ficam mais frescos, o sol, mais ameno, a praia, quase vazia.
Chato ter pego implicância. Mas é que este abril em particular, além de dengue e da famigerada declaração, conseguiu o terrível feito de reunir duas tragédias marcadas por estranhas crueldades, ambas igual e massivamente noticiadas pelas mídias locais. E esta crueldade toda fez com que tanto no Brasil quanto na Áustria tenha havido o mesmo efeito aterrador que o ato de se confrontar com os elásticos limites da crueldade humana causa.
Li há pouco que os meninos austríacos (do algoz filhos e netos ao mesmo tempo), antes prisioneiros e agora libertos, viram finalmente o mundo pela primeira vez. Tudo os impressionou, em particular a lua. Encantaram-se ao olhar a lua, nunca a haviam visto. Foram, por anos, privados de olhar o céu, algo tão fundamental.
Que bom que este mês de abril acabou! E que bom que a lua em maio é sempre linda.

quarta-feira, março 12, 2008

bem, obrigada


Você me pergunta como vou
pergunta assim, impunemente
vou bem, vou como sempre
singrando entre temerários
e uma ou outra histérica.
Agora ouço “samba da benção” sempre que dirijo
e todo dia me enleva,
me traz diálogos imaginários com o poetinha.
Ando vendo muito pouco os amigos
e sentindo uma estranha saudade de mim

de mim num tempo em que tinha tempo
pra mim.

sábado, março 08, 2008

Fala, Vovó!

Consta que hoje, 08 de março, é o dia internacional da mulher, e me lembrei logo da minha avó materna, a mulher mais internacional que conheci. Vovó foi mesmo a matriarca de todas estas que hoje estão aí envergando sua boa forma e desdenhando a idade, no pressuposto que sempre há uma geração vanguarda que facilita as coisas para as que vêm a seguir. Uma contradição em termos, minha avó: criada em internato de freiras, ao se casar, e começar de fato a viver, foi pioneira em algumas coisas naquela cidade em que morava, no distante extremo sul do Brasil: dirigir, por exemplo. Usar vestido tomara-que-caia também. Abafou num modelo preto, copiado da revista Burma, num baile do Clube Comercial (“freqüentei muito a sociedade”). Recebia imensa influência da Argentina, próxima fisicamente e muito cosmopolita àquela época. Buenos Aires era um destino freqüente, e sempre fazia um enxovalzinho de inverno para os filhos. Construiu sua casa inspirada em fotos de revistas americanas, cuja novidade absoluta era uma entrada circular para o carro, por ela concebida de maneira a permitir sua parada bem em frente à porta. A chuva fria do inverno gaúcho nunca mais atrapalhou ninguém, tampouco os penteados glostorados daquela época. Vovó pensava em tudo. Depois, quando a família veio morar no Rio, na década de 50, elegeu Copacabana como seu território, mas não quis morar em frente à praia, como seu cunhado: o barulho do mar atrapalhava sua noite de sono. Também não quis um apartamento muito grande. Prática, quis facilitar a vida. Foram anos douradíssimos até que enviuvou, em 62. Minguou um ano, contristou-se, chorou até secar as lágrimas, definhou. Passado o luto fechado de preto absoluto que então se usava, fez uma plástica e foi visitar uma amiga que morava na Califórnia. Foi o recomeço. Beverly Hills era muito divertida nos anos sessenta, a sociedade americana muito liberal, de maneira que namorar um pouco, inclusive um homem mais moço, não foi um problema (não sei bem a razão, mas fiquei depositária de uma carta dele para a vovó, uma carta singela, nada de mais, à exceção de uma frase muito insinuante que não confesso para a mamãe nem por um decreto). Teve alguns outros namorados também, inclusive aqui no Brasil, e para eles mostrava uma foto minha eu bem criancinha. Essa coisa de ser avó revelava um pouco a idade, e sua idade era um segredo de estado. Vivia viajando. Conheceu o mundo todo, contava os lugares que não visitara. O espírito aventureiro foi herança de seu pai, um italiano que fugiu de casa aos 16 anos para não entrar para a Marinha, tradição familiar, e, clandestino num navio, foi dar com os costados no sul do Brasil. O mundo, a bem da verdade, era pequeno para sua mente curiosa. Tocava muito bem piano e acordeão, tinha uma boa voz (“minha voz foi melhor, as freiras a estragaram quando me obrigaram a cantar no coro num dia em que estava resfriada”), fazia a posição invertida da yoga para melhorar seu aprendizado de inglês (anteviu a evidência hoje proclamada de que o sangue à cabeça melhora a memória), cozinhava uns pratos italianos, e contas só fazia de cabeça para exercitar o raciocínio. Tinha um grupinho de amigas, eram todas meio parecidas com ela, passeavam muito juntas, ela sempre dirigindo seu fusquinha branco, sempre de cabelo feito, sempre arrumadinha. Vovó foi de vanguarda, mas vanguarda discreta. Detestava a vulgaridade. Ela me ensinou muita coisa com seu jeito original. E me faz uma falta enorme. Vó, nunca te disse antes, mas digo agora: esse tal dia internacional da mulher é a tua cara!

quarta-feira, março 05, 2008

este céu de hoje


hoje este céu de algodão doce
atiçou imenso minha gula
queria poder provar deste açúcar
deste açúcar onde moram os anjos
(foto capturada no google imagens)

sábado, março 01, 2008

feliz aniversário, moça!



Dizem que uma cidade é a imagem e semelhança de suas nativas. Paris é uma senhora elegante, Londres uma mulher um tanto excêntrica, o Rio de Janeiro, uma moça desabusada, sensual e despojada. Parece verdade e faz um certo sentido se se imaginar que uma cidade é como a casa de uma família, em que haverá a marca de sua dona ali posta de forma a lhe dar uma identidade particular. A moça sensual, despojada e desabusada, porém, anda meio carente. Não se acerta com nenhum namorado – ultimamente, então, acreditou num que lhe prometeu mundos e fundos e acabou por receber apenas os piores fundos, porque ele se esqueceu dos lindos e doces mundos prometidos como se jamais os houvesse mencionado. Anda triste esta moça, anda cansada, anda sofrida. Mal-ajambrada, precisa fazer as unhas, ir ao dentista, dar um corte no cabelo. Não vai. Está tomada por uma letargia que a impele ao esquecimento de si mesma. Nem se olha mais no espelho e tampouco gosta de ver fotografias, lembra-se do quanto foi bela e festejada e aí a tristeza é pior. Anda sofrendo com umas turbulências de saúde também. Volta e meia cai doente. Viver nem sempre é fácil. Porém, como também dizem que quem foi rei não perde a majestade, a moça tem um fã clube persistente e muito militante. Há mesmo vários fãs clubes de além-mar. E charme, como se sabe, não envelhece. Então hoje, dia de seu aniversário, eu queria dizer que você é linda, sempre foi, ainda é, que todos nós adoramos você e que estamos na torcida para que este tempo difícil passe logo. Feliz aniversário, moça! E que teus padroeiros, São Sebastião e São Jorge, te abençoem sempre.

(foto do meu arquivo pessoal, o Cristo Redentor visto do Jardim Botânico)

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

A Superterça, o Mardi Gras, Hillary Clinton e Erica Jong: Coincidências de 2008


E não é que a superterça este ano cai no Mardi Gras? E não é que este ano o Dia de Iemanjá caiu no primeiro dia de Carnaval? Originalidades de 2008 à parte, me surpreendi ao ver, na edição física do Globo, um artigo escrito por Erica Jong para o Washington Post sobre Hillary Clinton. É que, coincidência das coincidências, o que parece ser o denominador comum deste ano, estou terminando de ler um livro desta autora chamado “Medo de Voar” que, lá pelos 70’s, fez a cabeça de muitas mulheres, minha amiga Marcia incluída. Então adolescente, Marcia vivia brandindo o livro como panacéia para todos os nossos males, como oráculo esclarecedor de todas as nossas dúvidas, e talvez tanta certeza de sua parte tenha gerado certa desconfiança em mim sobre aquela sabedoria toda. Mas o destino tem lá seus caminhos e, passados trinta anos, não titubeei ao comprar (por um real), num bazar de caridade ali na Rua Canning, pertinho de onde a Marcia morava, outra coincidência, uma edição bem antiga deste livro. Não surpreende que Erica Jong tenha feito a cabeça de tantas mulheres - sua descrição da “mulher fálica” e do “sentido masculino da territorialidade” são absolutamente atuais. O resto é o feminismo em seu nascedouro e puro estado, tendo a história mostrado que a liberdade sexual da qual desfrutou sua geração - materialização do ideário feminista - sucumbiu ao perigo da AIDS. Porque, com franqueza, aquilo sim era liberdade sexual.
E não é que a síntese de Hillary descrita por Erica Jong é desprovida de qualquer feminismo radical? Observa Jong que Hillary sempre esteve ao lado das mulheres e das crianças americanas e que são estas as pessoas mais oprimidas daquele país. Aí está uma verdade universal: os destinatários históricos da opressão sempre foram (e são) as mulheres e as crianças, não importa em que país estiverem, no ocidente ou no oriente. E, entre tantos fatos que pontuaram a trajetória de Hillary, Jong destaca esta defesa como a justificativa para ela haver se tornado sua candidata à presidência.
E não é que Erica Jong, trinta anos depois, se revela incrivelmente lúcida e imensamente sensata?

foto capturada do www.nyt.com

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Olivia e seu Montinho


Outro dia fui ver Luiz Melodia no Rival e adorei. O Negro Gato está batendo um bolão neste novo CD "Estação Melodia", que tem apenas com músicas da velha guarda, de Oswaldo Melodia, seu pai, a Cartola. A banda que o acompanha no show é a fina-flor dos virtuoses, só tem fera. Foi ovacionado e o povo não sossegou depois de um super super bis.
Já estava, portanto, satisfeita pelo fim-de-semana, quando quis o destino que, no dia seguinte, num domingo, acabasse por assistir Olivia Byington no porão da Casa de Cultura Laura Alvim. Nunca vi um show tão original: além de cantar as canções do seu CD há pouco lançado, em que todas as melodias são de sua autoria, canta antigos sucessos (quem poderia se esquecer de "Lady Jane"?), desfia aquela sua linda, maviosa voz, e conversa, conta história, muita história.
É aí que entra o tal "montinho". Não vou ser estraga-prazer, porque é apenas uma pequena parte e muita coisa é dita em cena, mas vale para mostrar a delicadeza que permeia o show. É o seguinte: disse Olivia que, numa de suas conversas com o finado poeta Cacaso, de quem era amiga, ele comentou que no Brasil se tem o perverso costume de se "soprar montinho". Indagado sobre o que seria isso, ele lhe explicou que "montinho" é tudo o que se vai vivendo, vendo, ouvindo, sentindo e experimentando nessa vida e que, do nada, se chega e - puf! - assopra-se sobre ele. Verdade ou não, se é hábito ou não do brasileiro varrer da memória as lembranças, desfazer-se da própria bagagem assim do nada, não sei; porém, estou certa que assistir este show forma um pouco a sensibilidade da gente.
E é por isso que doravante esta performance de Olivia Byington em "a vida é perto" estará indelevelmente no meu próprio montinho.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

para não dizer que sou tão episódica

São apenas uns quinze minutos e alguns acordes. É lindo aquele dedilhar na guitarra, é de uma destreza extraordinária. Nunca vi seu autor, apenas sei que é meu vizinho, músico profissional, e que brinda a vizinhança com aqueles quinze minutos de um som vigoroso, ora roquenrol, ora um entoar mais jazzístico, algumas vezes MPB. Nunca me incomodou. É intenso, o ar e o espaço vibram, mas é breve.
O que me faz pensar que o barulho dos outros, em boa dose, não incomoda.

quarta-feira, novembro 14, 2007

sem filhos vs com filhos

Numas de suas deliciosas crônicas, o João Ximenes Braga gerou uma polêmica enorme sobre uma suposta rixa entre pessoas com filhos e sem filhos. Virou SF vs CF e vice e versa e foi de tal monta a polêmica que ensejou uma reportagem no Fantástico (o programa domingueiro da musiquinha que a muitos angustia). Isso rendeu ainda mais umas duas colunas daquelas suas quinzenais no Ela e até hoje me lembro da verve dos passantes em seu blog em defesa de uma categoria ou outra.
Claro que os SF tinham acabavam perdendo, embora tivessem mais humor e fina ironia. Difícil competir com quem seguiu o roteiro direitinho do Criador no que toca a “crescei e reproduzi-vos”. Parece que os SF, além de não reproduzirem, também não cresceram. Além do mais, tem algo de desnaturado em reclamar da falta de educação das crianças. Além de não terem tido a competência de gerar filhotes, os SF não se curvam à lei maior da natureza e, pecado dos pecados, não têm paciência com as criaturas diminutas. Mesmo que quebrem seus enfeites, sujem o sofá, falem demais e sejam invasivos.
E tem aquele papo de mãe, de maternidade, de razão da minha vida, o melhor dela etc. Não vou discutir. Estando na categoria SF, ainda que por muito tempo nela tenha estado contrariadamente, é de boa prudência ficar calada.
O que não me agrada é acharem que por ser uma SF tenho todo o tempo livre do mundo, além de, vez ou outra, ainda me deparar com insinuação sobre que eu deveria estar melhor de vida tendo menos despesas. Na ótica destes críticos, se cuido do jardim, dou banho no cachorro e faço henna no cabelo é porque sou uma SF. Se fosse uma CF, não me sobraria tempo para este do-it-yourself. Não ocorre a ninguém que poderia ir caçar borboletas ou jogar xadrez. Não admira, um CF é alguém torturado pela inglória luta contra o tempo – está num lugar pensando em outro e tudo isto neste momento da comunicação móvel, em que os telefones celulares são ditadores compulsivos. Aliás, devo confessar uma coisa: detesto aquele tom de voz tolo que se usa com os miúdos, em especial quando são galalaus que já olham de forma erotizada para as amigas das mamães deles. Já os SF dispõem da eternidade para seus não-afazeres.
Voltando, talvez eu devessa estar melhor de vida. Curioso, sempre ouvi dizer que os SF gastam mais porque se divertem mais. Sobrando-lhes este tempo livre tão invejado, é claro que lhes devia sobrar dinheiro. Não é esta, porém, a lógica de alguns dos CF. Estes acreditam piamente que dinheiro é algo que eles fazem jus, e que deveria, para eles, minar de algum lugar mágico, já que as despesas de seus rebentos se equivalem ao Triângulos das Bermudas. Enfim, até os CF não se entendem muito sobre o tempo e o dinheiro dos SF. E também não se justifica que um SF disponha de muito espaço para morar. Na visão de muitos CF, eu deveria estar instalada num catre.
Quanta ilusão. Quanto desconhecimento. E que saudade do blog do João.
Uma coisa, porém, é certa: às vezes observo pássaros.

sexta-feira, outubro 26, 2007

dois sucessos e um fiasco

Numa das vezes em que estive em SP ano passado a trabalho tive a boa idéia de pegar um vôo cedo para poder ver a exposição “Grande Sertão Veredas” que estava em cartaz no Museu da Língua Portuguesa. Foi uma experiência sensorial que sorvi aos poucos. Havia um imenso encantamento de todos que lá estavam. A mostra, linda, original e inusitada, era abrigada em salas pequenas, contíguas, que iam sendo descobertas no percurso. Ela se revelava aos poucos - e assim surpreendia. À parte uma ou outra interjeição dos visitantes e, ao final, a voz de Maria Bethânia lendo um trecho da obra, imperava um silêncio quase solene. Saí feliz e encantada. Ontem o acaso me levou a Casa França Brasil, onde está a exposição “180 Anos da Indústria Brasileira”, que ignorava totalmente. Também saí feliz, com um sorriso dos lábios. Há de tudo lá. Desde o Brasil Colônia até agora, passando pelo Brasil Império, início da República etc. Há originais dos artefatos, de toda espécie de inventiva, de indumentária, objetos pessoais, toda a sorte de produtos industrializados. Tudo está separado por épocas e a partir delas está caracterizado um ator ou uma atriz que ali ficam integrando o lugar e o seu espírito. Uma graça. É um programa para todas as idades, para mentes curiosas. O fiasco? A montagem de “Grande Sertão Veredas” que no sábado passado casualmente vi no MAM, onde tinha ido para assistir a exposição “Marilyn, um Mito”. Não tem a menor graça, a sensação de mistério que tinha a montagem paulista ali ficou esvaziada. Instalada numa grande parte do mezanino, ficou tudo reto, sem contorno, sem descoberta. Além disso, havia um evento de arte para crianças no andar de baixo, o que transformava o lugar num enorme centro de algaravia. Ou seja, uma mostra linda que perdeu o encanto original. Então, é o seguinte: vale correr para ver esta exposição que está na Casa França Brasil. Uma mostra boa é uma conjunção de muitos fatores e nesta estão todos lá.

quarta-feira, outubro 17, 2007

o efeito-chimpanzé


Em nada me admirou saber que 98% de minha informação genética coincidem com a de um chimpanzé. Ora, se coincidem em 80% com a de um porco, nada mais justo. Fico divagando em quanto será a coincidência com uma vaca, visto sentir-me assim amiúde uma vez por mês. Parece que não importa, somos todos mamíferos e a minha experiência com cães já demonstrou que há um denominador comum em termos de mazelas dos seres viventes sobre a Terra. O meu cão, por exemplo, é epilético, cardiopata e recentemente ficou diabético por causa da idade (tem doze anos), o que o levou à catarata, da qual se operou de uma vista e voltou a enxergar. Como nos humanos, uma coisa puxa a outra. Depois me ocorreu essa história de Mônica Veloso, a jornalista que se deitou com Renan Calheiros (tem gosto para tudo) e que, deste leito, gerou uma filha. Pensei furiosamente no efeito-chimpanzé e nos descobri sendo todos reféns deste determinismo genético. Não é um conceito difícil de apreender. As mães ensinam as filhas; os pais, os filhos; as amigas e colegas da escola, umas as outras; os professores aos alunos e etc. Não há criança que queira ser diferente da outra; antes, se querem rigorosamente iguais, em tudo e por tudo, o que uma tem a outra vai querer também. Isso é idêntico no comportamento mais sutil, o que revela que uma atitude é mais do que fruto do “compre isso, consuma aquilo”. Este efeito-chimpanzé explica até o fenômeno da moda e como é fácil aos marqueteiros ganharem a vida. Não é complicado induzir alguém a se comportar como outrem, basta o simples argumento de que alguém já se comportou de tal maneira antes. Nestas sutilezas sobre a moda, aliás, observei que há modismos a grassar em ambientes mais recolhidos, em sub-grupos. Já vi no foro, num dia de chuva, umas duas dúzias de pares de botas parecidíssimas calçadas por advogadas e estagiárias, o que diferia um pouco em termos de estatística com o resto da cidade – botas não eram o último grito naquele outono, mas parecia que ali, naquele reduto, o eram. Ah, sim, a peladona do momento e o efeito-chimpanzé. Deve o desnudar-se de uma jornalista algo valorosa ter sido por ele causado. Virou moda, qualquer pessoa que tenha ganho notoriedade, não importa o porquê, interessa a este específico segmento do mercado editorial, há uma imensa curiosidade em ver nua a mulher-potin do momento. Não me surpreende, um amigo muito sábio e já bem veterano nesta vida uma vez me disse, embalado pela sabedoria que duas doses de destilado lhe conferem, que “tarado é alguém normal pego em flagrante”. Vai ver que sequer de sua autoria é a frase, mas que é sábia, lá isso é. Enfim, é tão-somente uma macaquice capturada pelo mercado. Dizer assim seria um reducionismo impróprio? É possível. Porém, é redentor. Qualquer coisa idiota que um dia venha a fazer, estarei sob o manto do efeito-chimpanzé, do qual dificilmente algum mortal escapa. Mas que não me entendam mal: certamente não interessaria às revistas masculinas nua. Se bem que para este “específico segmento editorial” até que eu poderia escrever umas historinhas interessantes...

terça-feira, outubro 02, 2007

Piaf, Única e comum


Imagine alguém nascido pobre, abandonado pela mãe e depois pelo pai, criada pela avó dona de um bordel, e que, ainda bem criança, fica cega e recupera a visão quase que por milagre. Imagine alguém que se vicia em heroína para aliviar a dor que sente em decorrência de um quase-fatal acidente de carro, e que perde o amor de sua vida num acidente de avião. Imagine que este alguém, nascido sob o pálio da tragédia, é uma mulher e que se chama Edith Piaf, dita “La Môme Piaf (“o pequeno pardal”), magnificamente bem retratada no filme de Olivier Dahan. “La Môme” ou, em português, “Piaf – Um Hino Ao Amor” é um tributo tardio, mas não por isso menos valoroso. É um filmaço.
O roteiro, também de Dahan, gira em torno de três eixos, Piaf criança e em início de carreira, Piaf no auge de sua fama e forma, e Piaf alquebrada pela doença, um pouco antes de sua prematura morte aos 46 anos de vida. Estes três eixos se intercomunicam ao longo do filme inteiro e faz ver como cada condição, cada fase da vida, informa a outra. Em nenhum momento a história se perde; ao contrário, cada vez ganha mais sentido a personagem. É um senhor roteiro.
A atriz que faz a retratada não poderia estar melhor. Nunca ouvira falar em Marion Cotillard, nunca mais a esquecerei. O mis-en-corps, a voz, a expressão vocal, tudo remete à Piaf, à sua essência. Marion Cotillard é uma intérprete rara.
E Piaf dispensa qualquer comentário - morta há mais de quarenta anos, não há quem desconheça sua versão de “La vie en rose” e “Je ne regrette rien”, não há quem não identifique imediatamente sua voz ao primeiro timbre. E, no entanto, era apenas uma mulher como qualquer outra, que apenas queria amar e ser amada.
p.s. este texto foi publicado na página do Jornal "O Globo" na Internet.

sexta-feira, setembro 14, 2007

de volta ao batente

Estive fora, e este fora pode ter vários significados. Estive fora de serviço, de pensamento, de élan, de vontade de escrever. Fora deste blog e de outros muitos de que gosto também, embora tenha maltraçado umas linhas no meu outro blog, o “na blogosfera”. Nada muito digno de nota, não estivesse esta ausência coincidido com a perda de um amigo.
É verdade, eu perdi um amigo.
É algo imensamente triste perder algum afeto, seja em convivência, seja em confiança, seja em bem-querer. Não ver mais, não mais saber, não ouvir falar, não ter sua voz, sua presença. Não importa o motivo, e mesmo que seja um alívio, é triste perder um amigo.
Eu perdi um amigo virtual, alguém que nunca vi. Perdi por uma razão tola, por ciúme de sua mulher que cismou que flertávamos um com o outro. Isso nunca aconteceu e não sei exatamente o que pode tê-la levado a esta idéia. O fato é que, tal qual paranoicos que passam a vida a urdir contra si teorias conspiratórias, agarrou-se furiosamente a esta ideia a ponto de me mandar mensagens desaforadas. Eu não me desaforei, aquilo nem de leve me atingiu, salvo pelo fato de ter ficado impossibilitada de ter por aqui a presença de meu amigo virtual.
Mas passou. E estou de volta.

quinta-feira, agosto 02, 2007

o dia em que fiz uma entrevista

Agora foi minha vez de entrevistar e está no meu outro blog - "na blogosfera" - link ao lado.
A entrevistada é minha amiga Ana Luiza, de quem já falei abaixo, e ficou bem divertida.

quinta-feira, julho 05, 2007

queixa

Não entendo bem o que estou fazendo aqui. Quer dizer, entendo, mas não me conformo. Gostaria mesmo é de estar lá, cercada por quem aprecia o que eu aprecio, sentindo a maresia no ar e comendo moqueca.
Mas cá estou a teclar, diante deste monitor que parece ser meu irmão siamês – às vezes sinto falta dele e digo que parece que fomos separados no berço.
Enfim, estou contrariada, será mais uma edição a passar. Podia até ficar lá na Joana. Fazer o quê? Ganhar a vida. Mas mês que vem vou dar uma escapadinha, se Deus quiser. E com as bênçãos de Maria, minha mãe.

quinta-feira, junho 28, 2007

o dia em que dei uma entrevista

Muito divertido. Ana Simples Assim, doce criatura da blogosfera, resolveu que deveria me entrevistar para o seu blog. Ela escreve uma coluna sobre Internet, blogs, comportamento e é dedicadíssima, toda semana tem mil novidades, fico sabendo de tudo por ela.
Aliás, a Ana Luiza é uma comunicadora nata, ela é um link, um amálgama, um neurônio, uma sinapse. Nasceu para ligar as pessoas às coisas, as coisas às pessoas, as pessoas às pessoas. É uma simpatia.
Valeu, Ana! Como te disse, a sensação é como a de fazer teatro na escola, misto de nervosismo e acanhamento. Tempos que não me divertia assim.
A entrevista está no blog da Ana Luiza - "Simples Assim, em 'beta' - no link ao lado.

quarta-feira, junho 27, 2007

famiglia

A Maria me ligou ontem à noite dizendo que sua mãe é mesmo uma índia, como ela desconfiava. Disse que se queixou de uma “dorzinha” na altura dos rins, foi ao médico, fez uns exames e descobriu que tem uma pedra enorme, do tamanho de uma pedra pome, algo inimaginável. O médico ficou estarrecido e não compreendeu como poderia aquela senhora falar, se mexer, e não estar em estado de total catatonia com uma pedra daquele tamanho dentro dela.
É que ele não conhece a família da Maria.
Outro dia a avó, à mesa, fez um muxoxo e, enquanto mastigava, tirou uma coisa da boca; discretamente, a colocou ao lado do prato. Perguntada sobre o que era, disse: “meu molar, o último que me restava, vou fazer uma simpatia”. Continuou comendo como se nada se passasse. Não tem nem um dente na boca, mastiga com as gengivas.
O curioso é que, se nesta família são estóicos para si, são sensíveis para os outros, de uma delicadeza de sentimentos raramente vista. Acontece de eu estar aborrecida e só assim me perceber através dos olhos da Maria. Nem percebo que estou contrariada, mas ela percebe. Muitas vezes é ela quem me comunica o que sinto.
Enfim, o fato é que a mãe da Maria, diagnosticada ontem, foi operada hoje pela manhã e está ótima, diz não sentir nada (não admira). Deve ir para casa amanhã, no máximo depois de amanhã. A Maria viu a pedra e me disse que era realmente enorme. Faço idéia.
Aposto um bombom como no sábado a mãe da Maria estará de pé na cozinha, fazendo o almoço da famiglia, dizendo “não foi nada, minha filha, era só uma pedrinha...”.

quarta-feira, junho 20, 2007

mas e o que vc respondeu?

A pergunta fiz aos outros, que aqui muito disseram.
Agora eu me pergunto, pergunto eu a mim mesma – escrever por quê?
Para dialogar comigo mesma, para preencher este espaço que existe entre aquilo que percebo e o que intuo; escrevo, o pouco que escrevo, para conversar com meu inconsciente estando bem acordada, diferente de quando durmo e sonho, talvez palavras sejam feitas de uma matéria quase onírica; escrevo porque me reinvento e me exponho, porque ouso, porque nunca sinto medo quando escrevo. Escrevo para o ar, para quem conheço e para quem não conheço, para conversar com quem nunca encontrei, mas com quem, ainda assim, acabo por ter um encontro.
Escrevo porque fiz uma pergunta e pessoas que nunca vi me responderam.

segunda-feira, junho 18, 2007

por que escrever?

Sempre ouço esta pergunta (naturalmente não dirigida a mim) e as respostas são mais ou menos as mesmas. Escrevem, os que escrevem, para extravasar as neuroses, por precisar, querer e gostar, para salvar a vida, para inventar outra, para fabular, para organizar um turbilhão que lhes roda dentro, para desorganizar este raio de turbilhão que lhes roda dentro, para morrer um pouco, reviver outro tanto, para se servir das palavras e estar perto delas, para comunicar, embora não raro se descomunique, para ganhar a vida, por pura diversão, por salvação, por danação, não sabe.
Mas e o que se sabe nesta vida?

segunda-feira, maio 21, 2007

about us

I would have loved tou dearly, honey.

As a matter of fact, I did loved you
but you just took me for granted,
made a terrible mistake
(a sort of misunderstood)
gave up the two of us
just like that…

I have to tell you again
you would have loved me
you could have permitted yourself a little bit of crazyness
but instead
you just gave up
turned the page so easily
and left me so helpless
- so helpless -

I’m still lost, babe

quinta-feira, maio 10, 2007

sobre a saudade

É estranho sentir saudade, mais ainda saber que esta palavra, no seu sentido preciso, não existe em outras línguas.
Tenho saudade de tudo, todos e de coisas bizarras, coisas que, em geral, não são propriamente objeto da saudade de ninguém.
Saudade da faculdade, de ter estudado na PUC no tempo da ditadura. Saudade dos pilotis, do intervalo nos pilotis. Saudade de fazer ginástica num tempo em que ninguém fazia e tinha meia dúzia de dois ou três gatos pingados em sala. Saudade do meu primeiro emprego, aquela exploração. Saudade da amiga que me traiu antes da traição, de ovo frito com feijão que nunca mais comi, daquela vegetação rasteira que havia na areia da praia de Ipanema que fazia cócegas na sola do pé. De uns chinelinhos de couro malcheirosos que se usava quando eu era adolescente. De ser adolescente, claro, este deve ser o ponto g da minha saudade. De não viajar a trabalho, de escrever a mão, de ir a cinema na orla (Rian e Miramar). Pode ser manjado, mas tenho saudade. De ficar espantada com peça de teatro, tanto quanto fiquei com “Trate-me Leão”, e de ler Clarice Lispector e Lillian Hellman pela primeira vez. De falar horas ao telefone com o namorado.
É assim: passou, tenho saudade.
Dizem que se sente saudade do que ainda existe mas que está longe, e nostalgia do que não existe mais. Não sei.
Sei que sinto.

domingo, maio 06, 2007

Dommage... (ou Vive la France!)


Torci vivamente por Ségolène Royal nestas eleições, não apenas porque sempre torço pelos socialistas na França, e faz três eleições que nada levam, mas porque seus adversários são cada vez mais seres rancorosos, como me parece ser Sarkozy. Não faz muito tempo e Le Pen foi alçado ao segundo turno em 2002, quando Jacques Chirac, impressionado, teve que rebolar e conclamar o povo a ir às urnas. Sim, os franceses, embora politizados, andavam blasés em relação a política, talvez solapados por tantos impostos e sem uma única janela aberta para um porvir mais promissor.
Agora, porém, não foi necessário: o povo acorreu maciçamente às urnas e, embora alguns veículos da mídia francesa falem em vitória acachapante de Sarkozy, o próprio iniciou seu discurso, logo após declarado vencedor, com loas à sua adversária e àqueles que nela votaram. Ele, que não é bobo nem nada, sabe que democracia não é ditadura da maioria, e sabe também que não são desprezíveis, em número ou qualidade, os votos angariados por sua adversária.
Acho realmente uma pena que a candidata dos socialistas não tenha ganho, uma pena que os socialistas não tenham conseguido sair do imobilismo em que imergiram diante das novas necessidades da sociedade francesa, ou que não tenham sabido comunicar a alternativa que acreditaram, à última hora, possível.
Uma pena.
Não, contudo, ver a sociedade francesa novamente mobilizada, os ideais e valores da república agitados com tanto fervor, o amor que nessas horas é declarado à França por seus compatriotas. É interessante ver um jornalista iniciar uma entrevista com o presidente da república por “boa noite, fulano de tal”, dispensando tratamentos formais, ou de que valeria o conceiro republicano de igualdade?
E é emocionante ver o discurso da candidata derrotada, com uma cara nada derrotada, aos seus militantes, terminar em “vive la France”, tal qual termina o discurso do candidato vencedor; o hino francês, ao fundo, cantado a capela pelos militantes.
Só me resta fazer coro: "vive la France!".


(foto capturada do site www.lemonde.fr)

segunda-feira, abril 23, 2007

Salve, São Jorge!



Salve, São Jorge, santo guerreiro, co-padroeiro da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro!