
Feliz páscoa!
foto capturada do google imagens

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Singrei o Aterro do Flamengo hoje mais uma vez debaixo de chuva. Só pode ser essa insistência úmida a me melar o humor, a me deixar nessa zona grísea de indigestão espiritual. Mais uma vez acordo com o sol à espreita e vou me deitar sob um chuvisco insistente. Que saco! Essas coisas têm um efeito deletério sobre a gente. Por exemplo: nunca mais vi aquele deus grego, aquele que corre na pista do aterro com seu cachorro todo dia por volta das nove e quinze da manhã, um corpo esculpido em tudo e por tudo à semelhança do Criador. Que maravilha da natureza - e que natureza! Um impávido colosso. Pois desde que chove desse jeito a criatura sumiu. Ele e seu cachorro abandonaram o exercício matinal e deixaram minhas retinas viúvas daquela visão do paraíso. Pergunto aos quatro ventos: cadê o gato do cachorro? Cadê?











O Presidente da República andou falando a respeito, reclamando como de costume de seus pares políticos, outro dia ouvi um comentário sobre a necessidade da hipocrisia na vida social, sobre as múltiplas mentiras que se contam todos os dias (por volta de 60 diariamente, não pensei que falássemos tantas); enfim, o assunto, vira e mexe, vem à tona.
Talvez porque toda pessoa traga em si uma bela dose de hipocrisia.
O que chama a atenção é que ninguém admite tê-la, provavelmente o mesmo fenômeno que ocorre com a inveja, da qual todos se dizem objeto, jamais sujeito.
Não fosse a hipocrisia, porém, certas profissões ficariam altamente prejudicadas, ou mesmo seu exercício restasse totalmente impossibilitado (diplomatas, políticos, advogados, marqueteiros, publicitários, poetas, escritores, donas de casa, socialaites); talvez sem ela fosse o mundo mais beligerante do que já é.
Não faço a apologia da hipocrisia, claro que não. Confesso-me hipócrita, o que é bem diferente. Sim, é verdade, mas não sou hipócrita o tempo todo; aliás, o sou bem raramente. Em tempos mais iludidos, sofri mesmo as conseqüências de um certo excesso de sinceridade, mas isto não vem ao caso. Vivi, aprendi, não necessariamente evoluí. E confesso mais outra imperfeição: a de estar abaixo da média nesse quesito. Seja como for, é no ponto inverso que mora o perigo, é a livre manifestação do pensamento que move alguém de sua zona de conforto para a linha de tiro. Da sala de visita para o front.
Porque ninguém tem preconceito, não é mesmo? Oh, claro que não! Vá você expressar algum para receber, incontinenti, a enxurrada de censura dos politicamente corretos, os que, a exemplo dos invejosos, jamais comungam desta torpeza. Vá você confessar seu desconforto com alguma minoria, hoje alçada à condição de casta sacrossanta e intocável, e receba - de imediato - sua sentença à la carte: ser empalado vivo ou crucificado no hall dos elevadores, como queira.
É a vida. Seja a dos hipócritas militantes e declarados (raros), seja a dos confessadamente e por vezes hipócritas, seja a daqueles seres virtuosos que, ao se incomodarem com a sinceridade alheia e não perceberem que só se vê no outro o que se é, são duplamente hipócritas.
Mas sobre isso, evidente, não se fala.
