quinta-feira, junho 26, 2008
junho
os aeroportos fechados,
alguma chuva.
Me fez lembrar um livro que já li
um perfume que costumava usar,
algum lugar que nunca mais fui.
Como todo ano,
junho me trouxe uma nova primavera em pleno outono
e também teve cara de inverno
e fez dias quentes como no verão.
Este junho, porém, conteve a vida toda
o mundo todo
(você e eu)
e muitos instantes.
quarta-feira, abril 30, 2008
isso de olhar a lua
quarta-feira, março 12, 2008
bem, obrigada

pergunta assim, impunemente
vou bem, vou como sempre
singrando entre temerários
e uma ou outra histérica.
Agora ouço “samba da benção” sempre que dirijo
Ando vendo muito pouco os amigos
e sentindo uma estranha saudade de mim
de mim num tempo em que tinha tempo
sábado, março 08, 2008
Fala, Vovó!
quarta-feira, março 05, 2008
este céu de hoje
sábado, março 01, 2008
feliz aniversário, moça!
(foto do meu arquivo pessoal, o Cristo Redentor visto do Jardim Botânico)
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
A Superterça, o Mardi Gras, Hillary Clinton e Erica Jong: Coincidências de 2008

segunda-feira, janeiro 28, 2008
Olivia e seu Montinho

Já estava, portanto, satisfeita pelo fim-de-semana, quando quis o destino que, no dia seguinte, num domingo, acabasse por assistir Olivia Byington no porão da Casa de Cultura Laura Alvim. Nunca vi um show tão original: além de cantar as canções do seu CD há pouco lançado, em que todas as melodias são de sua autoria, canta antigos sucessos (quem poderia se esquecer de "Lady Jane"?), desfia aquela sua linda, maviosa voz, e conversa, conta história, muita história.
É aí que entra o tal "montinho". Não vou ser estraga-prazer, porque é apenas uma pequena parte e muita coisa é dita em cena, mas vale para mostrar a delicadeza que permeia o show. É o seguinte: disse Olivia que, numa de suas conversas com o finado poeta Cacaso, de quem era amiga, ele comentou que no Brasil se tem o perverso costume de se "soprar montinho". Indagado sobre o que seria isso, ele lhe explicou que "montinho" é tudo o que se vai vivendo, vendo, ouvindo, sentindo e experimentando nessa vida e que, do nada, se chega e - puf! - assopra-se sobre ele. Verdade ou não, se é hábito ou não do brasileiro varrer da memória as lembranças, desfazer-se da própria bagagem assim do nada, não sei; porém, estou certa que assistir este show forma um pouco a sensibilidade da gente.
E é por isso que doravante esta performance de Olivia Byington em "a vida é perto" estará indelevelmente no meu próprio montinho.
sexta-feira, dezembro 14, 2007
para não dizer que sou tão episódica
quarta-feira, novembro 14, 2007
sem filhos vs com filhos
Claro que os SF tinham acabavam perdendo, embora tivessem mais humor e fina ironia. Difícil competir com quem seguiu o roteiro direitinho do Criador no que toca a “crescei e reproduzi-vos”. Parece que os SF, além de não reproduzirem, também não cresceram. Além do mais, tem algo de desnaturado em reclamar da falta de educação das crianças. Além de não terem tido a competência de gerar filhotes, os SF não se curvam à lei maior da natureza e, pecado dos pecados, não têm paciência com as criaturas diminutas. Mesmo que quebrem seus enfeites, sujem o sofá, falem demais e sejam invasivos.
E tem aquele papo de mãe, de maternidade, de razão da minha vida, o melhor dela etc. Não vou discutir. Estando na categoria SF, ainda que por muito tempo nela tenha estado contrariadamente, é de boa prudência ficar calada.
O que não me agrada é acharem que por ser uma SF tenho todo o tempo livre do mundo, além de, vez ou outra, ainda me deparar com insinuação sobre que eu deveria estar melhor de vida tendo menos despesas. Na ótica destes críticos, se cuido do jardim, dou banho no cachorro e faço henna no cabelo é porque sou uma SF. Se fosse uma CF, não me sobraria tempo para este do-it-yourself. Não ocorre a ninguém que poderia ir caçar borboletas ou jogar xadrez. Não admira, um CF é alguém torturado pela inglória luta contra o tempo – está num lugar pensando em outro e tudo isto neste momento da comunicação móvel, em que os telefones celulares são ditadores compulsivos. Aliás, devo confessar uma coisa: detesto aquele tom de voz tolo que se usa com os miúdos, em especial quando são galalaus que já olham de forma erotizada para as amigas das mamães deles. Já os SF dispõem da eternidade para seus não-afazeres.
Voltando, talvez eu devessa estar melhor de vida. Curioso, sempre ouvi dizer que os SF gastam mais porque se divertem mais. Sobrando-lhes este tempo livre tão invejado, é claro que lhes devia sobrar dinheiro. Não é esta, porém, a lógica de alguns dos CF. Estes acreditam piamente que dinheiro é algo que eles fazem jus, e que deveria, para eles, minar de algum lugar mágico, já que as despesas de seus rebentos se equivalem ao Triângulos das Bermudas. Enfim, até os CF não se entendem muito sobre o tempo e o dinheiro dos SF. E também não se justifica que um SF disponha de muito espaço para morar. Na visão de muitos CF, eu deveria estar instalada num catre.
Quanta ilusão. Quanto desconhecimento. E que saudade do blog do João.
Uma coisa, porém, é certa: às vezes observo pássaros.
segunda-feira, novembro 05, 2007
sexta-feira, outubro 26, 2007
dois sucessos e um fiasco
quarta-feira, outubro 17, 2007
o efeito-chimpanzé

Em nada me admirou saber que 98% de minha informação genética coincidem com a de um chimpanzé. Ora, se coincidem em 80% com a de um porco, nada mais justo. Fico divagando em quanto será a coincidência com uma vaca, visto sentir-me assim amiúde uma vez por mês. Parece que não importa, somos todos mamíferos e a minha experiência com cães já demonstrou que há um denominador comum em termos de mazelas dos seres viventes sobre a Terra. O meu cão, por exemplo, é epilético, cardiopata e recentemente ficou diabético por causa da idade (tem doze anos), o que o levou à catarata, da qual se operou de uma vista e voltou a enxergar. Como nos humanos, uma coisa puxa a outra. Depois me ocorreu essa história de Mônica Veloso, a jornalista que se deitou com Renan Calheiros (tem gosto para tudo) e que, deste leito, gerou uma filha. Pensei furiosamente no efeito-chimpanzé e nos descobri sendo todos reféns deste determinismo genético. Não é um conceito difícil de apreender. As mães ensinam as filhas; os pais, os filhos; as amigas e colegas da escola, umas as outras; os professores aos alunos e etc. Não há criança que queira ser diferente da outra; antes, se querem rigorosamente iguais, em tudo e por tudo, o que uma tem a outra vai querer também. Isso é idêntico no comportamento mais sutil, o que revela que uma atitude é mais do que fruto do “compre isso, consuma aquilo”. Este efeito-chimpanzé explica até o fenômeno da moda e como é fácil aos marqueteiros ganharem a vida. Não é complicado induzir alguém a se comportar como outrem, basta o simples argumento de que alguém já se comportou de tal maneira antes. Nestas sutilezas sobre a moda, aliás, observei que há modismos a grassar em ambientes mais recolhidos, em sub-grupos. Já vi no foro, num dia de chuva, umas duas dúzias de pares de botas parecidíssimas calçadas por advogadas e estagiárias, o que diferia um pouco em termos de estatística com o resto da cidade – botas não eram o último grito naquele outono, mas parecia que ali, naquele reduto, o eram. Ah, sim, a peladona do momento e o efeito-chimpanzé. Deve o desnudar-se de uma jornalista algo valorosa ter sido por ele causado. Virou moda, qualquer pessoa que tenha ganho notoriedade, não importa o porquê, interessa a este específico segmento do mercado editorial, há uma imensa curiosidade em ver nua a mulher-potin do momento. Não me surpreende, um amigo muito sábio e já bem veterano nesta vida uma vez me disse, embalado pela sabedoria que duas doses de destilado lhe conferem, que “tarado é alguém normal pego em flagrante”. Vai ver que sequer de sua autoria é a frase, mas que é sábia, lá isso é. Enfim, é tão-somente uma macaquice capturada pelo mercado. Dizer assim seria um reducionismo impróprio? É possível. Porém, é redentor. Qualquer coisa idiota que um dia venha a fazer, estarei sob o manto do efeito-chimpanzé, do qual dificilmente algum mortal escapa. Mas que não me entendam mal: certamente não interessaria às revistas masculinas nua. Se bem que para este “específico segmento editorial” até que eu poderia escrever umas historinhas interessantes...
terça-feira, outubro 02, 2007
Piaf, Única e comum

O roteiro, também de Dahan, gira em torno de três eixos, Piaf criança e em início de carreira, Piaf no auge de sua fama e forma, e Piaf alquebrada pela doença, um pouco antes de sua prematura morte aos 46 anos de vida. Estes três eixos se intercomunicam ao longo do filme inteiro e faz ver como cada condição, cada fase da vida, informa a outra. Em nenhum momento a história se perde; ao contrário, cada vez ganha mais sentido a personagem. É um senhor roteiro.
A atriz que faz a retratada não poderia estar melhor. Nunca ouvira falar em Marion Cotillard, nunca mais a esquecerei. O mis-en-corps, a voz, a expressão vocal, tudo remete à Piaf, à sua essência. Marion Cotillard é uma intérprete rara.
E Piaf dispensa qualquer comentário - morta há mais de quarenta anos, não há quem desconheça sua versão de “La vie en rose” e “Je ne regrette rien”, não há quem não identifique imediatamente sua voz ao primeiro timbre. E, no entanto, era apenas uma mulher como qualquer outra, que apenas queria amar e ser amada.
sexta-feira, setembro 14, 2007
de volta ao batente
É verdade, eu perdi um amigo.
É algo imensamente triste perder algum afeto, seja em convivência, seja em confiança, seja em bem-querer. Não ver mais, não mais saber, não ouvir falar, não ter sua voz, sua presença. Não importa o motivo, e mesmo que seja um alívio, é triste perder um amigo.
Eu perdi um amigo virtual, alguém que nunca vi. Perdi por uma razão tola, por ciúme de sua mulher que cismou que flertávamos um com o outro. Isso nunca aconteceu e não sei exatamente o que pode tê-la levado a esta idéia. O fato é que, tal qual paranoicos que passam a vida a urdir contra si teorias conspiratórias, agarrou-se furiosamente a esta ideia a ponto de me mandar mensagens desaforadas. Eu não me desaforei, aquilo nem de leve me atingiu, salvo pelo fato de ter ficado impossibilitada de ter por aqui a presença de meu amigo virtual.
Mas passou. E estou de volta.
quinta-feira, agosto 02, 2007
o dia em que fiz uma entrevista
A entrevistada é minha amiga Ana Luiza, de quem já falei abaixo, e ficou bem divertida.
sexta-feira, julho 06, 2007
quinta-feira, julho 05, 2007
queixa
Mas cá estou a teclar, diante deste monitor que parece ser meu irmão siamês – às vezes sinto falta dele e digo que parece que fomos separados no berço.
Enfim, estou contrariada, será mais uma edição a passar. Podia até ficar lá na Joana. Fazer o quê? Ganhar a vida. Mas mês que vem vou dar uma escapadinha, se Deus quiser. E com as bênçãos de Maria, minha mãe.
segunda-feira, julho 02, 2007
quinta-feira, junho 28, 2007
o dia em que dei uma entrevista
quarta-feira, junho 27, 2007
famiglia
É que ele não conhece a família da Maria.
Outro dia a avó, à mesa, fez um muxoxo e, enquanto mastigava, tirou uma coisa da boca; discretamente, a colocou ao lado do prato. Perguntada sobre o que era, disse: “meu molar, o último que me restava, vou fazer uma simpatia”. Continuou comendo como se nada se passasse. Não tem nem um dente na boca, mastiga com as gengivas.
O curioso é que, se nesta família são estóicos para si, são sensíveis para os outros, de uma delicadeza de sentimentos raramente vista. Acontece de eu estar aborrecida e só assim me perceber através dos olhos da Maria. Nem percebo que estou contrariada, mas ela percebe. Muitas vezes é ela quem me comunica o que sinto.
Enfim, o fato é que a mãe da Maria, diagnosticada ontem, foi operada hoje pela manhã e está ótima, diz não sentir nada (não admira). Deve ir para casa amanhã, no máximo depois de amanhã. A Maria viu a pedra e me disse que era realmente enorme. Faço idéia.
Aposto um bombom como no sábado a mãe da Maria estará de pé na cozinha, fazendo o almoço da famiglia, dizendo “não foi nada, minha filha, era só uma pedrinha...”.
quarta-feira, junho 20, 2007
mas e o que vc respondeu?
Agora eu me pergunto, pergunto eu a mim mesma – escrever por quê?
Para dialogar comigo mesma, para preencher este espaço que existe entre aquilo que percebo e o que intuo; escrevo, o pouco que escrevo, para conversar com meu inconsciente estando bem acordada, diferente de quando durmo e sonho, talvez palavras sejam feitas de uma matéria quase onírica; escrevo porque me reinvento e me exponho, porque ouso, porque nunca sinto medo quando escrevo. Escrevo para o ar, para quem conheço e para quem não conheço, para conversar com quem nunca encontrei, mas com quem, ainda assim, acabo por ter um encontro.
Escrevo porque fiz uma pergunta e pessoas que nunca vi me responderam.
segunda-feira, junho 18, 2007
por que escrever?
Mas e o que se sabe nesta vida?
sexta-feira, junho 01, 2007
segunda-feira, maio 21, 2007
about us
As a matter of fact, I did loved you
but you just took me for granted,
made a terrible mistake
(a sort of misunderstood)
gave up the two of us
just like that…
I have to tell you again
you would have loved me
you could have permitted yourself a little bit of crazyness
but instead
you just gave up
turned the page so easily
and left me so helpless
- so helpless -
I’m still lost, babe
quinta-feira, maio 10, 2007
sobre a saudade
Tenho saudade de tudo, todos e de coisas bizarras, coisas que, em geral, não são propriamente objeto da saudade de ninguém.
Saudade da faculdade, de ter estudado na PUC no tempo da ditadura. Saudade dos pilotis, do intervalo nos pilotis. Saudade de fazer ginástica num tempo em que ninguém fazia e tinha meia dúzia de dois ou três gatos pingados em sala. Saudade do meu primeiro emprego, aquela exploração. Saudade da amiga que me traiu antes da traição, de ovo frito com feijão que nunca mais comi, daquela vegetação rasteira que havia na areia da praia de Ipanema que fazia cócegas na sola do pé. De uns chinelinhos de couro malcheirosos que se usava quando eu era adolescente. De ser adolescente, claro, este deve ser o ponto g da minha saudade. De não viajar a trabalho, de escrever a mão, de ir a cinema na orla (Rian e Miramar). Pode ser manjado, mas tenho saudade. De ficar espantada com peça de teatro, tanto quanto fiquei com “Trate-me Leão”, e de ler Clarice Lispector e Lillian Hellman pela primeira vez. De falar horas ao telefone com o namorado.
É assim: passou, tenho saudade.
Dizem que se sente saudade do que ainda existe mas que está longe, e nostalgia do que não existe mais. Não sei.
Sei que sinto.
domingo, maio 06, 2007
Dommage... (ou Vive la France!)

Agora, porém, não foi necessário: o povo acorreu maciçamente às urnas e, embora alguns veículos da mídia francesa falem em vitória acachapante de Sarkozy, o próprio iniciou seu discurso, logo após declarado vencedor, com loas à sua adversária e àqueles que nela votaram. Ele, que não é bobo nem nada, sabe que democracia não é ditadura da maioria, e sabe também que não são desprezíveis, em número ou qualidade, os votos angariados por sua adversária.
Acho realmente uma pena que a candidata dos socialistas não tenha ganho, uma pena que os socialistas não tenham conseguido sair do imobilismo em que imergiram diante das novas necessidades da sociedade francesa, ou que não tenham sabido comunicar a alternativa que acreditaram, à última hora, possível.
Uma pena.
Não, contudo, ver a sociedade francesa novamente mobilizada, os ideais e valores da república agitados com tanto fervor, o amor que nessas horas é declarado à França por seus compatriotas. É interessante ver um jornalista iniciar uma entrevista com o presidente da república por “boa noite, fulano de tal”, dispensando tratamentos formais, ou de que valeria o conceiro republicano de igualdade?
E é emocionante ver o discurso da candidata derrotada, com uma cara nada derrotada, aos seus militantes, terminar em “vive la France”, tal qual termina o discurso do candidato vencedor; o hino francês, ao fundo, cantado a capela pelos militantes.
Só me resta fazer coro: "vive la France!".
segunda-feira, abril 23, 2007
quarta-feira, abril 18, 2007
coisas que meu psi não explica
sábado, abril 14, 2007
sexta-feira, abril 13, 2007
tão longe, tão perto

Mas saiba que o vento muda o sopro, mudou súbito para mim, e neste mundo bizarro, de tantas contrariedades e antagonismos tolos, neste mundo em que se descarta a gentileza e a leveza com tanta facilidade, e que o julgamento tem sempre primazia sobre a afeição e sua natural perenidade, estranhamente não tenho tido do que reclamar.
Sinto-me em paz.
E pessoas andam me sorrindo na rua, pasme você.
quinta-feira, abril 12, 2007
terça-feira, abril 03, 2007
sábado, março 31, 2007
as chaves perdidas e a mesma pergunta
o vôo atrasado
a semana acabou e acabou comigo
(toda sexta penso sobre a velocidade do tempo).
Cheguei.
E diante da porta, antes de abri-la,
retenho-me um pouco e sinto um alívio
sabendo-me tua.
Quase vinte anos e a mesma pergunta:
será isso o amor?
quinta-feira, março 29, 2007
quarta-feira, março 28, 2007
O que a Internet mudou na sua vida?
Outra coisa foi ver um certo triunfo da palavra escrita. Sempre se falou muito, sempre se escreveu pouco. Agora não, agora todo mundo escreve e o e-mail é prova disso. É curioso porque realmente se escreve como se fala. Às vezes me parece até que, lendo um e-mail, estou vendo a pessoa falando na minha frente, seus trejeitos, entonação e gestos. Esta é uma das formas mais eficientes de aproximação de pessoas que já vi depois de um vinho à mesa.
A outra eu diria que foi não tirar do armário, mas da gaveta. Da gaveta para a virtualidade, é isso o que acontece. Esses blogs nada mais são do que a abertura dessas gavetas, aquelas a que se refere Virginia Woolf como o destino certo de uma idéia latente ou natimorta. Além do mais, aproximam pessoas pelas suas idéias ou as contrapõem também pela mesma razão.
Nunca pensaria ficar tão afeita a uma tecnologia, esta coisa tão recente. Assim como jamais poderia supor que ficaria tão vidrada em yoga, esta prática tão antiga.
sábado, março 17, 2007
sobre a hipocrisia
2 ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade. Ex.: ela veio com a habitual h., mas não me enganou
3 caráter daquilo que carece de sinceridade. Ex.: a h. das palavras
O Presidente da República andou falando a respeito, reclamando como de costume de seus pares políticos, outro dia ouvi um comentário sobre a necessidade da hipocrisia na vida social, sobre as múltiplas mentiras que se contam todos os dias (por volta de 60 diariamente, não pensei que falássemos tantas); enfim, o assunto, vira e mexe, vem à tona.
Talvez porque toda pessoa traga em si uma bela dose de hipocrisia.
O que chama a atenção é que ninguém admite tê-la, provavelmente o mesmo fenômeno que ocorre com a inveja, da qual todos se dizem objeto, jamais sujeito.
Não fosse a hipocrisia, porém, certas profissões ficariam altamente prejudicadas, ou mesmo seu exercício restasse totalmente impossibilitado (diplomatas, políticos, advogados, marqueteiros, publicitários, poetas, escritores, donas de casa, socialaites); talvez sem ela fosse o mundo mais beligerante do que já é.
Não faço a apologia da hipocrisia, claro que não. Confesso-me hipócrita, o que é bem diferente. Sim, é verdade, mas não sou hipócrita o tempo todo; aliás, o sou bem raramente. Em tempos mais iludidos, sofri mesmo as conseqüências de um certo excesso de sinceridade, mas isto não vem ao caso. Vivi, aprendi, não necessariamente evoluí. E confesso mais outra imperfeição: a de estar abaixo da média nesse quesito. Seja como for, é no ponto inverso que mora o perigo, é a livre manifestação do pensamento que move alguém de sua zona de conforto para a linha de tiro. Da sala de visita para o front.
Porque ninguém tem preconceito, não é mesmo? Oh, claro que não! Vá você expressar algum para receber, incontinenti, a enxurrada de censura dos politicamente corretos, os que, a exemplo dos invejosos, jamais comungam desta torpeza. Vá você confessar seu desconforto com alguma minoria, hoje alçada à condição de casta sacrossanta e intocável, e receba - de imediato - sua sentença à la carte: ser empalado vivo ou crucificado no hall dos elevadores, como queira.
É a vida. Seja a dos hipócritas militantes e declarados (raros), seja a dos confessadamente e por vezes hipócritas, seja a daqueles seres virtuosos que, ao se incomodarem com a sinceridade alheia e não perceberem que só se vê no outro o que se é, são duplamente hipócritas.
Mas sobre isso, evidente, não se fala.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
se
(se o despertador tocar)
se não pegar muito trânsito
se não chegar atrasada
se o dia não for muito apertado
se nada me aborrecer demasiado
se não cair nenhuma tempestade de verão
se não ficar presa em reunião até tarde
se à noite eu estiver sã e salva
eu juro pelo que há de mais sagrado:
o que restar de mim é teu.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
o carnaval é o povo
Jamais, em tempo algum, vi tanta gente feia, nunca vi tanta gente gorda. Mentira dizer-se que este é um país de famélicos – este é um país de gordos. Ou, então, mais este paradoxo: um país de famintos gordos. Famintos gordos que, aliás, passam o tempo todo a mastigar.
E que gordura feia. Deparei-me com os mais variados tipos de bundas e barrigas e coxas e peitos. E braços e costas e... Diante de tal quantidade e feiúra, algumas perguntas me ocorreram.
Por que tantas varizes? Eu não tenho varizes, minhas amigas não têm varizes, e a esta altura já poderíamos tê-las. Tampouco as tem minha mãe e a mãe de minha mãe também nunca se queixou desta mazela. Alguma informação genética? Alguma outra predisposição?
E por que brotoejas pretas na bunda? Fiquei especialmente intrigada com a possível causa das tais brotoejas, copiosas em alguns casos. Será algum tipo de dermatite de contato advinda do fio sintético usado na confecção de peças íntimas de baixa qualidade? O fato é que nunca, jamais, alguém de minhas relações apareceu à praia com a bunda toda coroada de brotoejas, o que me leva a supor que nunca tiveram brotoejas. Brotoejas pretas, bem entendido. Pontos de negror gritante.
Além de brotoejas e varizes, a gordura. Um verdadeiro carnaval (desculpe o trocadilho) de barrigas dos mais inusitados feitios. Pequenas mas flácidas, grandes mas duras, caídas de um lado, com várias dobras, em alguns casos mais dramáticos um verdadeiro simulacro de gravidez. Sim, pareciam mulheres grávidas de gestações múltiplas. Barrigas abusadas, destas a começar nas costas e a se expandir para além do espaço que poderiam, já com bastante generosidade, ocupar.
Bundas. Céus, as bundas. Aqui eu poderia poupar minha meia dúzia de dois ou três leitores, mas não resisto, tenho que falar. Porque não eram bundas de pessoas físicas, eram bundas de pessoas jurídicas. Bundas sociedades anônimas de capital aberto, com ações negociadas na bolsa de valores. Bundas commodities. Bundas safras recordes. Nunca vi nada parecido.
Fiquei estupefata e que não se venha com o argumento que tem o lado bom, porque diante deste quadro qualquer uma se acharia ótima etc e tal. Assim não vale.
Não que eu seja elitista.
domingo, fevereiro 11, 2007
A Contribuição de Carlo Ponti para o Mito da Vagaba Perfeita
Dizem alguns, até, que uma vagaba ‘a vera’ tem um espírito de vagabunda, algo que precede a sua militância.
Eu a conheci bem cedo e foi por acaso. Não era especialmente bonita, mas bonitinha. Com uma harmonia de traços e um bom corpo, sabia quem era, não tinha a ousadia de se sentir mais do que seus atributos lhe conferiam em termos físicos, como tampouco queria ser mais bonita. Era o que era e ponto. E nem precisava de mais beleza, pois tinha a perfeita noção de seu magnetismo e de sua ascendência sobre os homens.
Era séria, não de muitos sorrisos. Devia comunicar, com esta pseudo-seriedade, que se resguardava para seus eleitos - e talvez fosse isso mesmo. Vestia-se simplesmente, não havia produções maiores. Com os vestidos da época, ‘chemisiers’ que hoje vestiriam a mais pudica das donas de casa, não chamava a atenção. Mais uma de suas sutilezas furta-cor.
O fato é que era uma liberada mesmo. Como um capitalista que quer maximizar seus lucros, ela queria mais. Mais homens, mais amantes (de preferência provedores), mais sedução. Mais diversão, mais novidade. A bisavó do atual conceito de diversidade. E os abandonava, um após o outro, após o outro, após o outro. Antes que o homem pudesse imaginar um rompimento, ela o anunciava no auge da paixão e do apego. It’s over, c’est fini, finito. Punto e basta.
Eles ficavam loucos. Um deles, artista plástico rico e desajustado, cobriu-a, literalmente, de dinheiro, ela morta de rir nua deitada na cama da mãe dele, uma mansão em Roma. Pois nem dinheiro e nem jóias a seguraram. Dias depois, ele a vê, com seu vestidinho de sempre, descer uma daquelas escadarias comuns em cidades italianas feliz da vida com seu novo par. Ele enlouquece, a procura mil vezes em vão, promete-lhe mundos e fundos, ela nada. O pobre homem se consome, nunca mais pinta um quadro e é por isto que o filme se chama “Telas Vazias”, uma produção bem antiga de Carlo Ponti que eu, com os olhos estatelados na micro telinha da TV preto e branco do meu quarto (era então uma grande coisa ter TV no quarto), assisti, com onze anos de idade, na Sessão Coruja de um sábado.
Se eu tivesse talento para ser uma vagaba, teria recebido, bem precocemente, o roteiro da dita perfeitíssima das mãos de ninguém menos do que Carlo Ponti.
Ele morreu outro dia e me lembrei deste filme, do qual, na verdade, nunca esqueci.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
querido leminski
que tudo se desaprende
que distraída, vencerei
a dor
que o poeta deveras sente
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
... e a resposta para encerrar em definitivo o insólito frisson
Sim, a tal mensagem foi, por distração minha, mal endereçada, isso já deve ter sido percebido. Penitencio-me. De fato, peço desculpas, do fundo do meu coração, com toda franqueza d’alma, por não ter usado meus neurônios de forma mais eficiente ao teclar o comando “enviar”. E por esta tão-só razão é que a mensagem aqui segue copiada para quem aquela primeira, a famigerada, foi equivocadamente transmitida.
Quanto ao conteúdo, sinto dizer que dele não poderia me escusar por uma razão muito simples: não estaria sendo sincera contigo. Eu não aprendi a mentir, em que pese minha quase provecta idade. Desculpe, mas fiquei constrangida com aquele comportamento seu, digamos, ‘intimex’. Fiquei tão embaraçada que perdi o elán, e estava adorando dançar ali no meio do povo naquela festa dos trinta anos; sentei-me e não voltei à pista. Excesso de suscetibilidade? Não creio, não costumo ser especialmente suscetível em assuntos de amigo-amiga.
Eu perdi a naturalidade com você e isso é muito chato quando acontece com um amigo homem. Eu tenho amigos homens, nunca deixei de tê-los nestes quase vinte anos de casada, amigos apenas meus, é uma coisa minha gostar de trocar idéias com eles (às vezes até mais com eles do que com elas), meu marido sabe disso e não me censura. Por exemplo, adoro conversar com o "X" (estamos querendo marcar um chopp com um amigo comum há séculos) e também com o "Y" e com o "Z" (conversei horas outro dia com o "Z" na casa da "C", uma delícia). Adorei reencontrá-los, tenho o maior carinho por todos vocês rapazes. Aliás, quando vc apareceu fiquei muito contente, tanto que te escrevi uma mensagem de boas-vindas. Então logo contigo, uma pessoa em quem semprei achei a maior graça, não poderia conversar naturalmente? Muito chato. Quer dizer ainda que não poderia te dar um poeminha de presente de aniversário como dei pro "B" outro dia? Que teria que ficar na retranca? Que miséria. Saiba que ficaria realmente triste.
E mais triste ainda fiquei ao saber que você não havia entendido o que eu dissera.
Mas espero que agora saiba, sobretudo que perceba que não houve intenção de te ofender. E que a mensagem de fato não te ofende, apenas relata um fato. E que, ali, igualmente não há nada que um pouco de leveza e humor não possam sublimar.
Esperemos que um potin mais divertido distraia os corações e mentes da 'turma'.
E que, enfim, possamos nós dois trocar de bem.
Desculpe algum mau jeito.
Da amiga que te quer amigo,
Denise
p.s. peço encarecidamente a todos que não façam reply desta mensagem,não haverá caixa postal que agüente."
a famigerada mensagem endereçada a quem não de direito
"eu até havia pensado em ir amanhã dar uma prestigiada nele, mas o caso é que toda vez que o encontro o cara fica me agarrando, me pegando, me chamando de gata, tomando umas intimidades que nunca lhe dei... muito, muito chato! então, num sei, acho que não vou, não. Mas keep cool, gata, já já essa turma rides again e vc vai reencontrar you know who. Ok?
take care, babe.
bjs e saudade"
quarta-feira, janeiro 17, 2007
um certo dia
não tive fome
não fiquei cansada
tampouco senti o tempo passar
foi um dia inócuo, insosso
não foi um dia como outro
foi um dia como nenhum.
segunda-feira, janeiro 15, 2007
para a minha...
adorei teu cartão de natal, quase ninguém mais manda cartão de natal,
muito lindo.
Também amei tuas notícias
e de tua família
maior agora com a chegada de mais um baby.
Aqui vai-se indo
às vezes pra frente,
outras de lado, quando não se dá marcha à ré.
Redescobri o Circo
que tantas vezes fomos juntas
solteiras e lindas e loucas
e vi Caetano e Zélia Duncan,
esta que te escapa,
mas que te mando em breve em CD.
Quando aportas em Terras Cariocalis?
Lá em casa posso receber vocês todos.
Vem logo!
Precisamos nos dar de presente
um pouco do nosso presente.
imensa saudade,
D.
p.s. este poema aqui ficou meio parecido com um de Ledusha, poeta que adoro e que andei relendo.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
líbero
tão pleno de palavras insólitas:
cornucópia, cúpida, híbrida,
cândida, cálida, lânguida,
vívido, cântico, sânscrito,
lépido, líquido, lírico.
você tão quântico e fálico,
eu cômica e súplica
você tão mediúnico,
eu mixórdia
você tão harmônico,
eu bobamente estúpida.
você tão tudo
eu
(...)
quase nada
quarta-feira, janeiro 10, 2007
este feeling que estou sentindo
Bem, conta que foi a várias entrevistas, sendo que uma delas é descrita com riqueza de detalhes, que participou de inúmeras seleções e de dinâmicas de grupo. Ao fim e ao cabo, sempre a mesma coisa, um telefonema, telegrama ou mensagem dizendo: “obrigada por participar de nossa seleção, seu currículo estará em nossos arquivos para outras oportunidades etc”. Transcreve um dos diálogos e é para ele que ela pede minha atenção.
Falo de Mulata Assanhada.
Não sei bem como dizer-lhe que ela nadou, nadou e morreu na praia. Saiu-se bem, segundo posso supor do diálogo, não mentiu, não enganou, não quis parecer o que não é. Imagino que apreciaram sua redação, tem bossa, bom vocabulário; aliás, um vocabulário muito acima da média. Usa palavras incomuns com precisão, pontua corretamente, tem boa cadência. Mas não sabe falar inglês, e aí está o perigo.
Não o perigo de lhe ser demandado o manejo do inglês, nunca lhe pedem domínio, sequer noções, de língua estrangeira, mas o de empregar expressões em inglês erradamente.
Mulata, sendo breve: não se diz “este feeling que estou sentindo”, minha flor. De onde você tirou isso?
segunda-feira, janeiro 08, 2007
plúmbeo
o rapaz que buscou meu carro tinha um ar triste
estava desalentado o porteiro, olhando o vento
e sequer é noite neste dia de chumbo.
domingo, dezembro 31, 2006
um punhado de coragem e as bençãos de Deus

sexta-feira, dezembro 29, 2006
lá em casa
a gralhar na janela,
a me acordar às cinco da manhã
e também as araras roucas
a ronronar como um gato
na outra janela, às duas da tarde
eu jurei ter visto um tucano
(tinha bico comprido de tucano)
pousado no fio de luz
defronte lá de casa
que fica no Jardim Botânico
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Cê!
para espantar este tempo grísio que se abateu sobre o Rio de Janeiro e sobre o País,
para ver um grande artista em cena, em ótima forma, com uma jovem e vibrante banda,
para ouvir seu novo recado para o mundo, sua dor, sua delícia,
enfim, para fechar o ano, abrir o verão e começar 2007 com o pé direito:
"Cê", de Caetano Veloso, no Circo Voador ontem!
segunda-feira, dezembro 18, 2006
duas ou três coisas que pensei para você
Aconteceu com você, mas nem tanto. Um par de ex-maridos não é demasiado, e já já acho que vou conhecer um marido seu, e um marido é sempre alguém potencialmente "ex". Infelizmente, não conheci nenhum deles. Nestes mais de vinte anos que não nos vimos aconteceram tantas coisas, dentre elas seus casamentos e o meu.
Você se diz meio aflita porque gosta da companhia masculina e não anda vendo muitas opções, o queixume das mulheres separadas que, dito por você, reconheço que ganha verossimilhança. Sim, nunca vi você estar em falta da companhia masculina, bem ao contrário.
É que o tempo caminhou, as exigências se avolumaram, não é qualquer currículo que pode ser apresentado a você com alguma chance. A vida às vezes se sofistica.
Aliás, o golf mesmo, com a vantagem de se caminhar naquela linda e verdejante relva, naturalmente debaixo de quilos de filtro solar. Suspeito que seja muito relaxante, sempre foi o esporte preferido de meu pai. Golfistas mulheres ainda são minoria.
Militância política. Nunca pensou, não é? Creia-me, é um universo eminentemente masculino. Há poucas mulheres neste ramo e são sempre muito bem-vindas. Outro dia estive num evento político-partidário e nunca havia visto tanto homem junto. Parecia a versão masculina do 'Shopping Vertical', lugar que me proporcionou a incrível visão de recorde de ajuntamento feminino por metro quadrado. Quanto ao partido, não sei, difícil escolher. A vantagem desta opção é ser baratinha: basta se inscrever e comparecer às reuniões, sobretudo às plenárias. Muitas, muitas chances.
Inscrever-se num curso de arbitragem de futebol. Acha apelativo? Não se você tiver verdadeiro interesse pelo esporte. Ontem ouvi uma prima minha argumentar com tanta desenvoltura sobre o desempenho de um jogador que fiquei pasma. Tem mulher que realmente gosta de futebol.
Começo a temer que este assunto vire uma obsessão minha. A última idéia por hoje, para não te cansar: reuniões de ex-colegas de escola, faculdade etc. Jovem também tem saudade e uma sessão flashback pode dar um caldo.
Honey, a gente se fala.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
esparrelas de fim de ano
- freqüentar todos os bazares de Natal;
- gastar todo o 13º em inutilidades;
- não comprar sequer uma mísera inutilidade com o 13º;
- empanturrar-se com aquela comida mixórdia de Natal;
- tomar caipirinha na festa de fim de ano do trabalho e sorrir até os últimos molares;
- dançar na festa de fim de ano do trabalho após duas caipirinhas;
- fazer discurso de confraternização na festa de fim de ano do trabalho após três caipirinhas;
- comprar presente de última hora em shopping;
- saber que não vai haver festa de Natal após comprar todos os presentes;
- gratificar o lixeiro errado;
- fazer lista de resoluções;
- fazer lista de realizações;
- emocionar-se com jingle bells;
- esquecer o verdadeiro sentido do Natal.
quarta-feira, dezembro 06, 2006
p.s.
para que ele se liquefaça em lágrimas
às vezes é preciso lavar a alma
ao ensejo do nada e sem drama
quero que vc entenda, sou assim mesmo
choro um tanto, silencio um pouco
não sinta culpa por meu excesso de sensibilidade:
é aquilo que em mim tanto admiram
mas que em nada valoram
nos olhos dos outros, é refresco
quarta-feira, novembro 08, 2006
quarta-feira
a britadeira irrompe a manhã
a vistoria do carro, o táxi perdido, o horário
o estresse-pão de cada dia
o trabalho
o almoço, o drinque na Lapa
um porrezinho
o excesso de velocidade, a desculpa esfarrapada, a gafe
e o celular esquecido
e a confissão do amigo
e o travesseiro
e amanhã...
a cidade gira
sábado, novembro 04, 2006
aquela tua foto
Aquela foto, é dela que falo. Ficou tão bonita que não quis colocar num porta-retrato, tão bonita que não quis dependurar no painel, tão linda que fiquei vagando com ela nas mãos pela casa até ficar tarde e eu ficar cansada porque já não respirava mais. Foi desde aquela noite em que a música tocou até de manhã na casa do vizinho de trás e eu me embalei com aquelas canções de que gostei tanto.
Daquela carta tua que encontrei dobrada no canto da gaveta, é dela que falo. Vocês me mandaram a foto, nós todos tão bonitos e tolos, e depois de ler a carta e olhá-la, e olhá-la, é que fiquei naquele estado siderado, fora de órbita, dormindo de olho aberto, sentindo um não-tempo, presa num vácuo tépido e gostando daquilo.
Desde aquele dia que dormi de olho aberto que parece que não acordei até agora, porque fico pensando na foto e em nós naquele momento.
Vou fechar os olhos para ver se acordo um pouco.
terça-feira, outubro 31, 2006
quando?
na esquina em que se ergue uma palmeira inóspita
ao lado do Edifício Argentina
perto daquela igreja gótica
em frente ao sinal onde a louca esbraveja intrépida
ali, no lugar em que eu estacionava o carro
tudo isso só pra te perguntar
(se é que ainda não deu pra perceber):
quando é que a gente se vê?
sábado, outubro 28, 2006
... e o jornalista não quis me conhecer
Mas ele não quis, ainda que eu tenha tentado. Antes disso era engraçado, porque não raro eu pensava em algo e ele escrevia; observava uma novidade interessante ou inóspita, ele apontava; de tal forma essas coincidências se manifestavam que um ser rastejante freqüentador de seu blog, alguém que depois soube ser meu detrator, insinou que éramos a mesma pessoa. Ali naquele estranho universo, onde as identidades parecem se misturar.
E o cara é de 70, geração com quem, por razão que não me ocorre, tenho muitas coisas em comum. Oscilo entre ter nascido um pouco antes da época ou estar um pouco atrasada em minha, digamos, evolução. Não sei, tampouco quero saber, mas o certo é que os nascidos em 70 têm em mim uma admiradora e alma afim. Aliás, isso de ser ele mais novo me parecia muito bom: nunca olhei para alguém mais novo do que eu como alguém factível para um romance comigo, e não era nem de longe romance o que eu queria com ele, porque, de resto, estou muito bem como estou e com quem estou. Não era nada disso e ele sabia.
Ah, é verdade, o e-mail. Mandei-lhe um em que o convidava para um café e no qual reiterava a afinidade nossa, algo a que talvez não tivesse atinado. De um jeito meio atravessado, porém direto, esclareci que não pensasse haver qualquer flerte meu. Dele tive como resposta a informação de que andava atarefadíssimo, escrevia uma sinopse e que em seguida entraria de férias. Disse de forma amigável e simpática que eu aguardasse.
Eu aguardei e nada, o que me conduziu a um “e aí?”, forma carioca de perguntar ao interlocutor se está se lembrando daquele compromisso que ficou para quando e se. E aí me disse ele, deslavadamente, que a última coisa que queria na vida era um blind date intelectual, verdadeira porta de entrada para uma sessão de constrangimento e tortura. Sugeriu que se encerrasse a história ali mesmo. Quer dizer, isso não disse assim, mas desta forma foi compreendido. “Pena”, pensei. "Pena".
Quer saber? Tant pis.
segunda-feira, outubro 23, 2006
vênus
quando nasce Vênus
quando parece mágico o lusco-fusco
pulsam alertas as primeiras luzes da cidade
logo escurece a montanha adiante.
Então lembrei que me chamaram “moça”
num anoitecer exatamente como este
entre tantos prédios e pessoas e carros
me virei assustada
e era você.
Você.
sábado, outubro 14, 2006
a utopia de um tio-avô

Ele me fala das coisas de sua fazenda, achando graça em minha pergunta sobre quantos quilos um pé de café é capaz de produzir, mostra-me o que foi recentemente roçado, o barranco que caiu adiante, a reforma que fez na casa, os bezerros recém nascidos e seu melhor touro. Circunda toda a sua propriedade em seu fusquinha-branco-expresso, subindo e descendo aquelas montanhas lindas de doer. Que saúde.
Acende a iluminação do terreiro do café à noite e para lá me despacha, dizendo, com ligeiro sarcasmo, que não devo temer os cachorros, basta pedir a São Roque, que de mim os afastará. Seria um pecado perder aquela noite estrelada; portanto, que vá ao terreiro dar umas voltas e digerir o jantar. Logo.
Ama sua mulher e sua família com vigor e doçura. Não é sempre que se vê isto quando, sendo hóspede, se irrompe a intimidade dos anfitriões. E o silêncio não lhe pesa, como tampouco à minha tia; significa, apenas, um certo cansaço do dia que começou com a aurora.
A verdade é que isto só poderia mesmo vir de um tio-avô, de um tio-avô muito querido, que compartilha comigo a idéia de ser uma diletante nesta vida (o somos todos), porque só um tio-avô tão dileto poderia me explicar coisas que ignoro achando que é suposto que as ignore. Porque depois dos quarenta parece que de tudo e de todos se deve saber.
Sua generosidade, porém, faz ser verdade a utopia de que carrego e carregarei vida afora a criança que temporalmente fui um dia.
Afinal, eu nasci ontem e meu pai, anteontem.
A benção, Tio Zezé!
quarta-feira, outubro 11, 2006
queria ser uma mulher de Almódovar

Mas são lindas. Emocionam, cheias do que se costuma dizer feminilidade; carregam um drama triste, uma densidade que se atribui apenas às mulheres.
Ele consegue deixá-las acima do bem e do mal.
E pensar que fazia fotonovelas antes de virar cineasta e que escreveu um livro (“Fogo nas Entranhas”) completamente sem pé nem cabeça, cujo ponto central da trama é uma fábrica de absorventes íntimos que deixa as mulheres no cio. Madri ferve numa certa noite de lua cheia, há orientais envolvidos, uma mixórdia. Li este livro, prefaciado por Regina Casé, enquanto esperava o início de uma audiência. No foro de Niterói, valha-me Deus.
Falam sobre as mulheres de Fellini, do mistério das musas da Nouvelle Vague, das estrelas de Hollywood, mas permito-me confessar mais esta tolice: uma mulher de Almodóvar é o que eu queria ser.
química
uma drágea, umas gotas,
uma vacina, um emplastro
um ungüento:
algo que estanque
esta dor
aqui dentro
quinta-feira, outubro 05, 2006
O De-Tantra

Não se prive de nada, mas tenha moderação em tudo. Se tiver que se privar, não o faça além de suas necessidades.
Não dê as pessoas tudo o que elas esperam de você, mas apenas na medida de seu próprio amor e amizade. Você não é obrigado a atender as expectativas alheias o tempo todo.
Não despreze o que chega a seus ouvidos, o acaso é um instrumento divino. Desapegue-se de seus bens e acredite na Providência Divina. Lembre-se de dormir o quanto precisar, o sono é o melhor dos remédios.
Não ignore seus próprios sonhos e anseios.
Perceba a família de seu próximo, ela dirá muito sobre ele.
Pense com vagar, seus pensamentos serão mais claros e nítidos.
Libere seus pais de suas demandas. Entenda que a vida é um ciclo e que eles querem se sentir recompensados por todo o trabalho que tiveram com você.
Não sobrevalorize seus erros, os problemas tendem a se resolver por si só. Apenas peça desculpas se tiver ofendido alguém.
Desfrute da companhia de quem vc gosta sempre que puder. Tente sempre estar cercado daqueles que você mais gosta.
Não pense no passado e tente forjar seus pensamentos para não viver das lembranças passadas. A vida é aqui e agora.
Não se desespere perante as disputas domésticas. Dê lugar para o contraditório no seio de sua família. Conviva com as diferenças e ensina teu próximo a fazer o mesmo.
Não tente compreender aquilo que não lhe foi comunicado diretamente. Saiba aguardar.
Case-se com alguém que goste de conversar para estabelecer uma boa comunicação desde o início do casamento. A comunicação é algo que se constrói. Até lá, aproveite os prazeres da carne que apenas a juventude permite.
quarta-feira, outubro 04, 2006
domingo, outubro 01, 2006
Santa Teresinha

Hoje, 1° de outubro, é seu dia.
sexta-feira, setembro 29, 2006
São Miguel Arcanjo
terça-feira, setembro 26, 2006
abrigo
é nele que quero estar
e já não precisarei do mundo
guarda-me em tua calma
conforta-me em teu peito
aloja-me em teu repouso
o amor não precisa de muito
Síndrome do Concursado
quinta-feira, setembro 21, 2006
o português, este destratado
(algumas pessoas iniciam 99% de suas frases com esta expressão);
Na verdade, o que que acontece...
(ligeiro acréscimo à expressão acima, empregado com a mesma intensidade da anterior);
A fulana, ela viajou...
(aqui eu me pergunto qual a razão desta sofisticação, já que separar o sujeito do predicado por vírgula, salvo em alguns casos, é errado. Nesta hipótese, ainda há a afetação do pronome após a vírgula. Agora me digam: para que serve a vírgula? e o pronome? seria "a fulana viajou" muito simplório?)
Não faz muito tempo vi uma atriz sendo entrevistada por uma pitonisa do jornalismo televisivo e, lamentavelmente, constatei que ela mal conseguia falar: seu vocabulário era de uma criança de 7 anos, no máximo.
E, vendo um programa popular da televisão norte-americana, observei que os entrevistados, pessoas comuns, não raro referidos como "povo ignorante" pelo resto da humanidade, manejam sua língua mil vezes melhor do que o faz a quintessência da elite brasileira.
sábado, setembro 16, 2006
segunda-feira, setembro 11, 2006
Rua do Acre
sexta-feira, setembro 08, 2006
está aberta...
carta para uma tragédia
quinta-feira, setembro 07, 2006
Os Tristes-Vidas
segunda-feira, setembro 04, 2006
mania nacional
Marina Lima

E aí esteve ela sumida, shows só em São Paulo. Ignoro o porquê, já que pertence ao Rio. E o Rio lhe pertence, sempre lhe pertencerá. Foi o que a platéia carioca ontem lhe mostrou, e ela percebeu, e agradeceu, e deu bis. Houve um trecho do show (“Cícero”) que calou fundo. Nada como a poesia musicada, nada como a poesia de Antonio Cícero.
Enfim, era Marina Lima em cena. E, se já não fosse muito rever sua música (grande banda!), ela ainda me mostrou que é possível chegar aos 50 bacana, bacana.











