sexta-feira, outubro 26, 2007

dois sucessos e um fiasco

Numa das vezes em que estive em SP ano passado a trabalho tive a boa idéia de pegar um vôo cedo para poder ver a exposição “Grande Sertão Veredas” que estava em cartaz no Museu da Língua Portuguesa. Foi uma experiência sensorial que sorvi aos poucos. Havia um imenso encantamento de todos que lá estavam. A mostra, linda, original e inusitada, era abrigada em salas pequenas, contíguas, que iam sendo descobertas no percurso. Ela se revelava aos poucos - e assim surpreendia. À parte uma ou outra interjeição dos visitantes e, ao final, a voz de Maria Bethânia lendo um trecho da obra, imperava um silêncio quase solene. Saí feliz e encantada. Ontem o acaso me levou a Casa França Brasil, onde está a exposição “180 Anos da Indústria Brasileira”, que ignorava totalmente. Também saí feliz, com um sorriso dos lábios. Há de tudo lá. Desde o Brasil Colônia até agora, passando pelo Brasil Império, início da República etc. Há originais dos artefatos, de toda espécie de inventiva, de indumentária, objetos pessoais, toda a sorte de produtos industrializados. Tudo está separado por épocas e a partir delas está caracterizado um ator ou uma atriz que ali ficam integrando o lugar e o seu espírito. Uma graça. É um programa para todas as idades, para mentes curiosas. O fiasco? A montagem de “Grande Sertão Veredas” que no sábado passado casualmente vi no MAM, onde tinha ido para assistir a exposição “Marilyn, um Mito”. Não tem a menor graça, a sensação de mistério que tinha a montagem paulista ali ficou esvaziada. Instalada numa grande parte do mezanino, ficou tudo reto, sem contorno, sem descoberta. Além disso, havia um evento de arte para crianças no andar de baixo, o que transformava o lugar num enorme centro de algaravia. Ou seja, uma mostra linda que perdeu o encanto original. Então, é o seguinte: vale correr para ver esta exposição que está na Casa França Brasil. Uma mostra boa é uma conjunção de muitos fatores e nesta estão todos lá.

quarta-feira, outubro 17, 2007

o efeito-chimpanzé


Em nada me admirou saber que 98% de minha informação genética coincidem com a de um chimpanzé. Ora, se coincidem em 80% com a de um porco, nada mais justo. Fico divagando em quanto será a coincidência com uma vaca, visto sentir-me assim amiúde uma vez por mês. Parece que não importa, somos todos mamíferos e a minha experiência com cães já demonstrou que há um denominador comum em termos de mazelas dos seres viventes sobre a Terra. O meu cão, por exemplo, é epilético, cardiopata e recentemente ficou diabético por causa da idade (tem doze anos), o que o levou à catarata, da qual se operou de uma vista e voltou a enxergar. Como nos humanos, uma coisa puxa a outra. Depois me ocorreu essa história de Mônica Veloso, a jornalista que se deitou com Renan Calheiros (tem gosto para tudo) e que, deste leito, gerou uma filha. Pensei furiosamente no efeito-chimpanzé e nos descobri sendo todos reféns deste determinismo genético. Não é um conceito difícil de apreender. As mães ensinam as filhas; os pais, os filhos; as amigas e colegas da escola, umas as outras; os professores aos alunos e etc. Não há criança que queira ser diferente da outra; antes, se querem rigorosamente iguais, em tudo e por tudo, o que uma tem a outra vai querer também. Isso é idêntico no comportamento mais sutil, o que revela que uma atitude é mais do que fruto do “compre isso, consuma aquilo”. Este efeito-chimpanzé explica até o fenômeno da moda e como é fácil aos marqueteiros ganharem a vida. Não é complicado induzir alguém a se comportar como outrem, basta o simples argumento de que alguém já se comportou de tal maneira antes. Nestas sutilezas sobre a moda, aliás, observei que há modismos a grassar em ambientes mais recolhidos, em sub-grupos. Já vi no foro, num dia de chuva, umas duas dúzias de pares de botas parecidíssimas calçadas por advogadas e estagiárias, o que diferia um pouco em termos de estatística com o resto da cidade – botas não eram o último grito naquele outono, mas parecia que ali, naquele reduto, o eram. Ah, sim, a peladona do momento e o efeito-chimpanzé. Deve o desnudar-se de uma jornalista algo valorosa ter sido por ele causado. Virou moda, qualquer pessoa que tenha ganho notoriedade, não importa o porquê, interessa a este específico segmento do mercado editorial, há uma imensa curiosidade em ver nua a mulher-potin do momento. Não me surpreende, um amigo muito sábio e já bem veterano nesta vida uma vez me disse, embalado pela sabedoria que duas doses de destilado lhe conferem, que “tarado é alguém normal pego em flagrante”. Vai ver que sequer de sua autoria é a frase, mas que é sábia, lá isso é. Enfim, é tão-somente uma macaquice capturada pelo mercado. Dizer assim seria um reducionismo impróprio? É possível. Porém, é redentor. Qualquer coisa idiota que um dia venha a fazer, estarei sob o manto do efeito-chimpanzé, do qual dificilmente algum mortal escapa. Mas que não me entendam mal: certamente não interessaria às revistas masculinas nua. Se bem que para este “específico segmento editorial” até que eu poderia escrever umas historinhas interessantes...

terça-feira, outubro 02, 2007

Piaf, Única e comum


Imagine alguém nascido pobre, abandonado pela mãe e depois pelo pai, criada pela avó dona de um bordel, e que, ainda bem criança, fica cega e recupera a visão quase que por milagre. Imagine alguém que se vicia em heroína para aliviar a dor que sente em decorrência de um quase-fatal acidente de carro, e que perde o amor de sua vida num acidente de avião. Imagine que este alguém, nascido sob o pálio da tragédia, é uma mulher e que se chama Edith Piaf, dita “La Môme Piaf (“o pequeno pardal”), magnificamente bem retratada no filme de Olivier Dahan. “La Môme” ou, em português, “Piaf – Um Hino Ao Amor” é um tributo tardio, mas não por isso menos valoroso. É um filmaço.
O roteiro, também de Dahan, gira em torno de três eixos, Piaf criança e em início de carreira, Piaf no auge de sua fama e forma, e Piaf alquebrada pela doença, um pouco antes de sua prematura morte aos 46 anos de vida. Estes três eixos se intercomunicam ao longo do filme inteiro e faz ver como cada condição, cada fase da vida, informa a outra. Em nenhum momento a história se perde; ao contrário, cada vez ganha mais sentido a personagem. É um senhor roteiro.
A atriz que faz a retratada não poderia estar melhor. Nunca ouvira falar em Marion Cotillard, nunca mais a esquecerei. O mis-en-corps, a voz, a expressão vocal, tudo remete à Piaf, à sua essência. Marion Cotillard é uma intérprete rara.
E Piaf dispensa qualquer comentário - morta há mais de quarenta anos, não há quem desconheça sua versão de “La vie en rose” e “Je ne regrette rien”, não há quem não identifique imediatamente sua voz ao primeiro timbre. E, no entanto, era apenas uma mulher como qualquer outra, que apenas queria amar e ser amada.
p.s. este texto foi publicado na página do Jornal "O Globo" na Internet.

sexta-feira, setembro 14, 2007

de volta ao batente

Estive fora, e este fora pode ter vários significados. Estive fora de serviço, de pensamento, de élan, de vontade de escrever. Fora deste blog e de outros muitos de que gosto também, embora tenha maltraçado umas linhas no meu outro blog, o “na blogosfera”. Nada muito digno de nota, não estivesse esta ausência coincidido com a perda de um amigo.
É verdade, eu perdi um amigo.
É algo imensamente triste perder algum afeto, seja em convivência, seja em confiança, seja em bem-querer. Não ver mais, não mais saber, não ouvir falar, não ter sua voz, sua presença. Não importa o motivo, e mesmo que seja um alívio, é triste perder um amigo.
Eu perdi um amigo virtual, alguém que nunca vi. Perdi por uma razão tola, por ciúme de sua mulher que cismou que flertávamos um com o outro. Isso nunca aconteceu e não sei exatamente o que pode tê-la levado a esta idéia. O fato é que, tal qual paranoicos que passam a vida a urdir contra si teorias conspiratórias, agarrou-se furiosamente a esta ideia a ponto de me mandar mensagens desaforadas. Eu não me desaforei, aquilo nem de leve me atingiu, salvo pelo fato de ter ficado impossibilitada de ter por aqui a presença de meu amigo virtual.
Mas passou. E estou de volta.

quinta-feira, agosto 02, 2007

o dia em que fiz uma entrevista

Agora foi minha vez de entrevistar e está no meu outro blog - "na blogosfera" - link ao lado.
A entrevistada é minha amiga Ana Luiza, de quem já falei abaixo, e ficou bem divertida.

quinta-feira, julho 05, 2007

queixa

Não entendo bem o que estou fazendo aqui. Quer dizer, entendo, mas não me conformo. Gostaria mesmo é de estar , cercada por quem aprecia o que eu aprecio, sentindo a maresia no ar e comendo moqueca.
Mas cá estou a teclar, diante deste monitor que parece ser meu irmão siamês – às vezes sinto falta dele e digo que parece que fomos separados no berço.
Enfim, estou contrariada, será mais uma edição a passar. Podia até ficar lá na Joana. Fazer o quê? Ganhar a vida. Mas mês que vem vou dar uma escapadinha, se Deus quiser. E com as bênçãos de Maria, minha mãe.

quinta-feira, junho 28, 2007

o dia em que dei uma entrevista

Muito divertido. Ana Simples Assim, doce criatura da blogosfera, resolveu que deveria me entrevistar para o seu blog. Ela escreve uma coluna sobre Internet, blogs, comportamento e é dedicadíssima, toda semana tem mil novidades, fico sabendo de tudo por ela.
Aliás, a Ana Luiza é uma comunicadora nata, ela é um link, um amálgama, um neurônio, uma sinapse. Nasceu para ligar as pessoas às coisas, as coisas às pessoas, as pessoas às pessoas. É uma simpatia.
Valeu, Ana! Como te disse, a sensação é como a de fazer teatro na escola, misto de nervosismo e acanhamento. Tempos que não me divertia assim.
A entrevista está no blog da Ana Luiza - "Simples Assim, em 'beta' - no link ao lado.

quarta-feira, junho 27, 2007

famiglia

A Maria me ligou ontem à noite dizendo que sua mãe é mesmo uma índia, como ela desconfiava. Disse que se queixou de uma “dorzinha” na altura dos rins, foi ao médico, fez uns exames e descobriu que tem uma pedra enorme, do tamanho de uma pedra pome, algo inimaginável. O médico ficou estarrecido e não compreendeu como poderia aquela senhora falar, se mexer, e não estar em estado de total catatonia com uma pedra daquele tamanho dentro dela.
É que ele não conhece a família da Maria.
Outro dia a avó, à mesa, fez um muxoxo e, enquanto mastigava, tirou uma coisa da boca; discretamente, a colocou ao lado do prato. Perguntada sobre o que era, disse: “meu molar, o último que me restava, vou fazer uma simpatia”. Continuou comendo como se nada se passasse. Não tem nem um dente na boca, mastiga com as gengivas.
O curioso é que, se nesta família são estóicos para si, são sensíveis para os outros, de uma delicadeza de sentimentos raramente vista. Acontece de eu estar aborrecida e só assim me perceber através dos olhos da Maria. Nem percebo que estou contrariada, mas ela percebe. Muitas vezes é ela quem me comunica o que sinto.
Enfim, o fato é que a mãe da Maria, diagnosticada ontem, foi operada hoje pela manhã e está ótima, diz não sentir nada (não admira). Deve ir para casa amanhã, no máximo depois de amanhã. A Maria viu a pedra e me disse que era realmente enorme. Faço idéia.
Aposto um bombom como no sábado a mãe da Maria estará de pé na cozinha, fazendo o almoço da famiglia, dizendo “não foi nada, minha filha, era só uma pedrinha...”.

quarta-feira, junho 20, 2007

mas e o que vc respondeu?

A pergunta fiz aos outros, que aqui muito disseram.
Agora eu me pergunto, pergunto eu a mim mesma – escrever por quê?
Para dialogar comigo mesma, para preencher este espaço que existe entre aquilo que percebo e o que intuo; escrevo, o pouco que escrevo, para conversar com meu inconsciente estando bem acordada, diferente de quando durmo e sonho, talvez palavras sejam feitas de uma matéria quase onírica; escrevo porque me reinvento e me exponho, porque ouso, porque nunca sinto medo quando escrevo. Escrevo para o ar, para quem conheço e para quem não conheço, para conversar com quem nunca encontrei, mas com quem, ainda assim, acabo por ter um encontro.
Escrevo porque fiz uma pergunta e pessoas que nunca vi me responderam.

segunda-feira, junho 18, 2007

por que escrever?

Sempre ouço esta pergunta (naturalmente não dirigida a mim) e as respostas são mais ou menos as mesmas. Escrevem, os que escrevem, para extravasar as neuroses, por precisar, querer e gostar, para salvar a vida, para inventar outra, para fabular, para organizar um turbilhão que lhes roda dentro, para desorganizar este raio de turbilhão que lhes roda dentro, para morrer um pouco, reviver outro tanto, para se servir das palavras e estar perto delas, para comunicar, embora não raro se descomunique, para ganhar a vida, por pura diversão, por salvação, por danação, não sabe.
Mas e o que se sabe nesta vida?

segunda-feira, maio 21, 2007

about us

I would have loved tou dearly, honey.

As a matter of fact, I did loved you
but you just took me for granted,
made a terrible mistake
(a sort of misunderstood)
gave up the two of us
just like that…

I have to tell you again
you would have loved me
you could have permitted yourself a little bit of crazyness
but instead
you just gave up
turned the page so easily
and left me so helpless
- so helpless -

I’m still lost, babe

quinta-feira, maio 10, 2007

sobre a saudade

É estranho sentir saudade, mais ainda saber que esta palavra, no seu sentido preciso, não existe em outras línguas.
Tenho saudade de tudo, todos e de coisas bizarras, coisas que, em geral, não são propriamente objeto da saudade de ninguém.
Saudade da faculdade, de ter estudado na PUC no tempo da ditadura. Saudade dos pilotis, do intervalo nos pilotis. Saudade de fazer ginástica num tempo em que ninguém fazia e tinha meia dúzia de dois ou três gatos pingados em sala. Saudade do meu primeiro emprego, aquela exploração. Saudade da amiga que me traiu antes da traição, de ovo frito com feijão que nunca mais comi, daquela vegetação rasteira que havia na areia da praia de Ipanema que fazia cócegas na sola do pé. De uns chinelinhos de couro malcheirosos que se usava quando eu era adolescente. De ser adolescente, claro, este deve ser o ponto g da minha saudade. De não viajar a trabalho, de escrever a mão, de ir a cinema na orla (Rian e Miramar). Pode ser manjado, mas tenho saudade. De ficar espantada com peça de teatro, tanto quanto fiquei com “Trate-me Leão”, e de ler Clarice Lispector e Lillian Hellman pela primeira vez. De falar horas ao telefone com o namorado.
É assim: passou, tenho saudade.
Dizem que se sente saudade do que ainda existe mas que está longe, e nostalgia do que não existe mais. Não sei.
Sei que sinto.

domingo, maio 06, 2007

Dommage... (ou Vive la France!)


Torci vivamente por Ségolène Royal nestas eleições, não apenas porque sempre torço pelos socialistas na França, e faz três eleições que nada levam, mas porque seus adversários são cada vez mais seres rancorosos, como me parece ser Sarkozy. Não faz muito tempo e Le Pen foi alçado ao segundo turno em 2002, quando Jacques Chirac, impressionado, teve que rebolar e conclamar o povo a ir às urnas. Sim, os franceses, embora politizados, andavam blasés em relação a política, talvez solapados por tantos impostos e sem uma única janela aberta para um porvir mais promissor.
Agora, porém, não foi necessário: o povo acorreu maciçamente às urnas e, embora alguns veículos da mídia francesa falem em vitória acachapante de Sarkozy, o próprio iniciou seu discurso, logo após declarado vencedor, com loas à sua adversária e àqueles que nela votaram. Ele, que não é bobo nem nada, sabe que democracia não é ditadura da maioria, e sabe também que não são desprezíveis, em número ou qualidade, os votos angariados por sua adversária.
Acho realmente uma pena que a candidata dos socialistas não tenha ganho, uma pena que os socialistas não tenham conseguido sair do imobilismo em que imergiram diante das novas necessidades da sociedade francesa, ou que não tenham sabido comunicar a alternativa que acreditaram, à última hora, possível.
Uma pena.
Não, contudo, ver a sociedade francesa novamente mobilizada, os ideais e valores da república agitados com tanto fervor, o amor que nessas horas é declarado à França por seus compatriotas. É interessante ver um jornalista iniciar uma entrevista com o presidente da república por “boa noite, fulano de tal”, dispensando tratamentos formais, ou de que valeria o conceiro republicano de igualdade?
E é emocionante ver o discurso da candidata derrotada, com uma cara nada derrotada, aos seus militantes, terminar em “vive la France”, tal qual termina o discurso do candidato vencedor; o hino francês, ao fundo, cantado a capela pelos militantes.
Só me resta fazer coro: "vive la France!".


(foto capturada do site www.lemonde.fr)

segunda-feira, abril 23, 2007

Salve, São Jorge!



Salve, São Jorge, santo guerreiro, co-padroeiro da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro!

quarta-feira, abril 18, 2007

coisas que meu psi não explica

o esporte nacional da maledicência e da malquerença; a mobilização de forças em pequenezas; a omissão em questões verdadeiramente importantes; o gosto por "babados"; a cultura do "babado forte"; o disse-me-disse; a falta de ética nas relações pessoais.
E mais alguns etc etc etc.

sexta-feira, abril 13, 2007

tão longe, tão perto


honey:

Há tempos não nos vemos, da última vez que falamos você tinha queixas de morar longe daqui e da hostilidade que andava enfrentando de pessoas próximas. Eu te compreendo perfeitamente, conheço essas pessoas, e críticas de quem se acha uma tela plana, de alta resolução, estando longe disso, costumam incomodar.
Mas saiba que o vento muda o sopro, mudou súbito para mim, e neste mundo bizarro, de tantas contrariedades e antagonismos tolos, neste mundo em que se descarta a gentileza e a leveza com tanta facilidade, e que o julgamento tem sempre primazia sobre a afeição e sua natural perenidade, estranhamente não tenho tido do que reclamar.
Sinto-me em paz.
E pessoas andam me sorrindo na rua, pasme você.
beijos mil,
D.

quinta-feira, abril 12, 2007

terça-feira, abril 03, 2007

sábado, março 31, 2007

lá que outra

coisa que não entendo
é presença obrigatória
sorry,
sou episódica

as chaves perdidas e a mesma pergunta

As chaves perdidas no fundo da bolsa
o vôo atrasado
a semana acabou e acabou comigo
(toda sexta penso sobre a velocidade do tempo).
Cheguei.
E diante da porta, antes de abri-la,
retenho-me um pouco e sinto um alívio
sabendo-me tua.
Quase vinte anos e a mesma pergunta:
será isso o amor?

quarta-feira, março 28, 2007

O que a Internet mudou na sua vida?

Para mim algumas coisas mudaram. A mais importante certamente foi contar com uma valiosa ferramenta de consulta para o trabalho, e não saberia dizer como vivi até aqui sem ela. Parece banal, mas é muita coisa poder acompanhar um processo judicial “à distância”. Poupa-me o potássio que perco quando transpiro, o dinheiro do táxi, minha rala paciência nos cartórios, uma ou outra sola de sapato. É bem verdade que roubou o rasante no meio da tarde, mas rasante obrigatório não tem graça.
Outra coisa foi ver um certo triunfo da palavra escrita. Sempre se falou muito, sempre se escreveu pouco. Agora não, agora todo mundo escreve e o e-mail é prova disso. É curioso porque realmente se escreve como se fala. Às vezes me parece até que, lendo um e-mail, estou vendo a pessoa falando na minha frente, seus trejeitos, entonação e gestos. Esta é uma das formas mais eficientes de aproximação de pessoas que já vi depois de um vinho à mesa.
A outra eu diria que foi não tirar do armário, mas da gaveta. Da gaveta para a virtualidade, é isso o que acontece. Esses blogs nada mais são do que a abertura dessas gavetas, aquelas a que se refere Virginia Woolf como o destino certo de uma idéia latente ou natimorta. Além do mais, aproximam pessoas pelas suas idéias ou as contrapõem também pela mesma razão.
Nunca pensaria ficar tão afeita a uma tecnologia, esta coisa tão recente. Assim como jamais poderia supor que ficaria tão vidrada em yoga, esta prática tão antiga.

sábado, março 17, 2007

sobre a hipocrisia

característica do que é hipócrita; falsidade, dissimulação. Ex.: com a h. que lhe é peculiar, pôs-se a adular a sogra
2 ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade. Ex.: ela veio com a habitual h., mas não me enganou
3 caráter daquilo que carece de sinceridade. Ex.: a h. das palavras
Dicionário Houaiss

O Presidente da República andou falando a respeito, reclamando como de costume de seus pares políticos, outro dia ouvi um comentário sobre a necessidade da hipocrisia na vida social, sobre as múltiplas mentiras que se contam todos os dias (por volta de 60 diariamente, não pensei que falássemos tantas); enfim, o assunto, vira e mexe, vem à tona.
Talvez porque toda pessoa traga em si uma bela dose de hipocrisia.
O que chama a atenção é que ninguém admite tê-la, provavelmente o mesmo fenômeno que ocorre com a inveja, da qual todos se dizem objeto, jamais sujeito.
Não fosse a hipocrisia, porém, certas profissões ficariam altamente prejudicadas, ou mesmo seu exercício restasse totalmente impossibilitado (diplomatas, políticos, advogados, marqueteiros, publicitários, poetas, escritores, donas de casa, socialaites); talvez sem ela fosse o mundo mais beligerante do que já é.
Não faço a apologia da hipocrisia, claro que não. Confesso-me hipócrita, o que é bem diferente. Sim, é verdade, mas não sou hipócrita o tempo todo; aliás, o sou bem raramente. Em tempos mais iludidos, sofri mesmo as conseqüências de um certo excesso de sinceridade, mas isto não vem ao caso. Vivi, aprendi, não necessariamente evoluí. E confesso mais outra imperfeição: a de estar abaixo da média nesse quesito. Seja como for, é no ponto inverso que mora o perigo, é a livre manifestação do pensamento que move alguém de sua zona de conforto para a linha de tiro. Da sala de visita para o front.
Porque ninguém tem preconceito, não é mesmo? Oh, claro que não! Vá você expressar algum para receber, incontinenti, a enxurrada de censura dos politicamente corretos, os que, a exemplo dos invejosos, jamais comungam desta torpeza. Vá você confessar seu desconforto com alguma minoria, hoje alçada à condição de casta sacrossanta e intocável, e receba - de imediato - sua sentença à la carte: ser empalado vivo ou crucificado no hall dos elevadores, como queira.
É a vida. Seja a dos hipócritas militantes e declarados (raros), seja a dos confessadamente e por vezes hipócritas, seja a daqueles seres virtuosos que, ao se incomodarem com a sinceridade alheia e não perceberem que só se vê no outro o que se é, são duplamente hipócritas.

Mas sobre isso, evidente, não se fala.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

se

se eu acordar na hora
(se o despertador tocar)
se não pegar muito trânsito
se não chegar atrasada
se o dia não for muito apertado
se nada me aborrecer demasiado
se não cair nenhuma tempestade de verão
se não ficar presa em reunião até tarde
se à noite eu estiver sã e salva
eu juro pelo que há de mais sagrado:
o que restar de mim é teu.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

o carnaval é o povo

Não que eu seja elitista. Não que eu não goste da diversidade. Não que eu seja a tal ponto exclusivista que não possa dividir um canto da areia da “minha” Ipanema com outras pessoas. Mas o que vi neste carnaval em termos de freqüência foi praticamente uma visão do inferno. O Congo é aqui e não me lembro de ter feito reserva na Air-Congo para este carnaval.
Jamais, em tempo algum, vi tanta gente feia, nunca vi tanta gente gorda. Mentira dizer-se que este é um país de famélicos – este é um país de gordos. Ou, então, mais este paradoxo: um país de famintos gordos. Famintos gordos que, aliás, passam o tempo todo a mastigar.
E que gordura feia. Deparei-me com os mais variados tipos de bundas e barrigas e coxas e peitos. E braços e costas e... Diante de tal quantidade e feiúra, algumas perguntas me ocorreram.
Por que tantas varizes? Eu não tenho varizes, minhas amigas não têm varizes, e a esta altura já poderíamos tê-las. Tampouco as tem minha mãe e a mãe de minha mãe também nunca se queixou desta mazela. Alguma informação genética? Alguma outra predisposição?
E por que brotoejas pretas na bunda? Fiquei especialmente intrigada com a possível causa das tais brotoejas, copiosas em alguns casos. Será algum tipo de dermatite de contato advinda do fio sintético usado na confecção de peças íntimas de baixa qualidade? O fato é que nunca, jamais, alguém de minhas relações apareceu à praia com a bunda toda coroada de brotoejas, o que me leva a supor que nunca tiveram brotoejas. Brotoejas pretas, bem entendido. Pontos de negror gritante.
Além de brotoejas e varizes, a gordura. Um verdadeiro carnaval (desculpe o trocadilho) de barrigas dos mais inusitados feitios. Pequenas mas flácidas, grandes mas duras, caídas de um lado, com várias dobras, em alguns casos mais dramáticos um verdadeiro simulacro de gravidez. Sim, pareciam mulheres grávidas de gestações múltiplas. Barrigas abusadas, destas a começar nas costas e a se expandir para além do espaço que poderiam, já com bastante generosidade, ocupar.
Bundas. Céus, as bundas. Aqui eu poderia poupar minha meia dúzia de dois ou três leitores, mas não resisto, tenho que falar. Porque não eram bundas de pessoas físicas, eram bundas de pessoas jurídicas. Bundas sociedades anônimas de capital aberto, com ações negociadas na bolsa de valores. Bundas commodities. Bundas safras recordes. Nunca vi nada parecido.
Fiquei estupefata e que não se venha com o argumento que tem o lado bom, porque diante deste quadro qualquer uma se acharia ótima etc e tal. Assim não vale.
Não que eu seja elitista.

domingo, fevereiro 11, 2007

A Contribuição de Carlo Ponti para o Mito da Vagaba Perfeita

Não basta ser vagaba, tem que ser com estilo. É das mais deslavadas mentiras uma mulher dizer-se liberada ou vadia ou o que seja, porque são raras as que conseguem chegar no limite da perfeição, na radicalidade do conceito da vagabunda perfeita. E este é o sonho de muita mulher, sejamos francos.
Dizem alguns, até, que uma vagaba ‘a vera’ tem um espírito de vagabunda, algo que precede a sua militância.
Eu a conheci bem cedo e foi por acaso. Não era especialmente bonita, mas bonitinha. Com uma harmonia de traços e um bom corpo, sabia quem era, não tinha a ousadia de se sentir mais do que seus atributos lhe conferiam em termos físicos, como tampouco queria ser mais bonita. Era o que era e ponto. E nem precisava de mais beleza, pois tinha a perfeita noção de seu magnetismo e de sua ascendência sobre os homens.
Era séria, não de muitos sorrisos. Devia comunicar, com esta pseudo-seriedade, que se resguardava para seus eleitos - e talvez fosse isso mesmo. Vestia-se simplesmente, não havia produções maiores. Com os vestidos da época, ‘chemisiers’ que hoje vestiriam a mais pudica das donas de casa, não chamava a atenção. Mais uma de suas sutilezas furta-cor.
O fato é que era uma liberada mesmo. Como um capitalista que quer maximizar seus lucros, ela queria mais. Mais homens, mais amantes (de preferência provedores), mais sedução. Mais diversão, mais novidade. A bisavó do atual conceito de diversidade. E os abandonava, um após o outro, após o outro, após o outro. Antes que o homem pudesse imaginar um rompimento, ela o anunciava no auge da paixão e do apego. It’s over, c’est fini, finito. Punto e basta.
Eles ficavam loucos. Um deles, artista plástico rico e desajustado, cobriu-a, literalmente, de dinheiro, ela morta de rir nua deitada na cama da mãe dele, uma mansão em Roma. Pois nem dinheiro e nem jóias a seguraram. Dias depois, ele a vê, com seu vestidinho de sempre, descer uma daquelas escadarias comuns em cidades italianas feliz da vida com seu novo par. Ele enlouquece, a procura mil vezes em vão, promete-lhe mundos e fundos, ela nada. O pobre homem se consome, nunca mais pinta um quadro e é por isto que o filme se chama “Telas Vazias”, uma produção bem antiga de Carlo Ponti que eu, com os olhos estatelados na micro telinha da TV preto e branco do meu quarto (era então uma grande coisa ter TV no quarto), assisti, com onze anos de idade, na Sessão Coruja de um sábado.
Se eu tivesse talento para ser uma vagaba, teria recebido, bem precocemente, o roteiro da dita perfeitíssima das mãos de ninguém menos do que Carlo Ponti.
Ele morreu outro dia e me lembrei deste filme, do qual, na verdade, nunca esqueci.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

querido leminski

com leminski aprendi
que tudo se desaprende
que distraída, vencerei
a dor
que o poeta deveras sente

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

... e a resposta para encerrar em definitivo o insólito frisson

(a pergunta é: teria o episódio tanta importância para causar tamanha celeuma? ou, por outra: que mistério esconde a psiquê humana para se comprazer com coisa deste tipo?)

"Não que isso seja um 'mea culpa', que um 'mea maxima culpa' não é. Não há nada, miseravelmente nada que possa ser considerado insultuoso na tal mensagem, o potin do momento a grassar copiosamente na 'turma' (segundo me disseram), imagino que à míngua de melhores potins (cá entre nós, que miséria, heim?). Nenhum adjetivo malsão, nenhum comentário ofensivo tipo “o cara é um chato” ou similar. Há, sim, uma confissão de uma amiga para outra de que o comportamento de alguém, uma pessoa a quem se queria ter na pura conta da amizade, a constrangeu.
Sim, a tal mensagem foi, por distração minha, mal endereçada, isso já deve ter sido percebido. Penitencio-me. De fato, peço desculpas, do fundo do meu coração, com toda franqueza d’alma, por não ter usado meus neurônios de forma mais eficiente ao teclar o comando “enviar”. E por esta tão-só razão é que a mensagem aqui segue copiada para quem aquela primeira, a famigerada, foi equivocadamente transmitida.
Quanto ao conteúdo, sinto dizer que dele não poderia me escusar por uma razão muito simples: não estaria sendo sincera contigo. Eu não aprendi a mentir, em que pese minha quase provecta idade. Desculpe, mas fiquei constrangida com aquele comportamento seu, digamos, ‘intimex’. Fiquei tão embaraçada que perdi o elán, e estava adorando dançar ali no meio do povo naquela festa dos trinta anos; sentei-me e não voltei à pista. Excesso de suscetibilidade? Não creio, não costumo ser especialmente suscetível em assuntos de amigo-amiga.
Eu perdi a naturalidade com você e isso é muito chato quando acontece com um amigo homem. Eu tenho amigos homens, nunca deixei de tê-los nestes quase vinte anos de casada, amigos apenas meus, é uma coisa minha gostar de trocar idéias com eles (às vezes até mais com eles do que com elas), meu marido sabe disso e não me censura. Por exemplo, adoro conversar com o "X" (estamos querendo marcar um chopp com um amigo comum há séculos) e também com o "Y" e com o "Z" (conversei horas outro dia com o "Z" na casa da "C", uma delícia). Adorei reencontrá-los, tenho o maior carinho por todos vocês rapazes. Aliás, quando vc apareceu fiquei muito contente, tanto que te escrevi uma mensagem de boas-vindas. Então logo contigo, uma pessoa em quem semprei achei a maior graça, não poderia conversar naturalmente? Muito chato. Quer dizer ainda que não poderia te dar um poeminha de presente de aniversário como dei pro "B" outro dia? Que teria que ficar na retranca? Que miséria. Saiba que ficaria realmente triste.
E mais triste ainda fiquei ao saber que você não havia entendido o que eu dissera.
Mas espero que agora saiba, sobretudo que perceba que não houve intenção de te ofender. E que a mensagem de fato não te ofende, apenas relata um fato. E que, ali, igualmente não há nada que um pouco de leveza e humor não possam sublimar.
Esperemos que um potin mais divertido distraia os corações e mentes da 'turma'.
E que, enfim, possamos nós dois trocar de bem.
Desculpe algum mau jeito.
Da amiga que te quer amigo,
Denise
p.s. peço encarecidamente a todos que não façam reply desta mensagem,não haverá caixa postal que agüente."

a famigerada mensagem endereçada a quem não de direito

(esta mensagem caiu na caixa errada e causou frisson na "turma". A minha pergunta é: o que há de insultuoso nela?)


"eu até havia pensado em ir amanhã dar uma prestigiada nele, mas o caso é que toda vez que o encontro o cara fica me agarrando, me pegando, me chamando de gata, tomando umas intimidades que nunca lhe dei... muito, muito chato! então, num sei, acho que não vou, não. Mas keep cool, gata, já já essa turma rides again e vc vai reencontrar you know who. Ok?
take care, babe.
bjs e saudade"

quarta-feira, janeiro 17, 2007

um certo dia

não senti frio nem calor
não tive fome
não fiquei cansada
tampouco senti o tempo passar

foi um dia inócuo, insosso
não foi um dia como outro
foi um dia como nenhum.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

para a minha...

... tão dileta:

adorei teu cartão de natal, quase ninguém mais manda cartão de natal,
muito lindo.
Também amei tuas notícias
e de tua família
maior agora com a chegada de mais um baby.
Aqui vai-se indo
às vezes pra frente,
outras de lado, quando não se dá marcha à ré.
Redescobri o Circo
que tantas vezes fomos juntas
solteiras e lindas e loucas
e vi Caetano e Zélia Duncan,
esta que te escapa,
mas que te mando em breve em CD.
Quando aportas em Terras Cariocalis?
Lá em casa posso receber vocês todos.
Vem logo!
Precisamos nos dar de presente
um pouco do nosso presente.

imensa saudade,

D.

p.s. este poema aqui ficou meio parecido com um de Ledusha, poeta que adoro e que andei relendo.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

líbero

você assim tão paroxítono
tão pleno de palavras insólitas:
cornucópia, cúpida, híbrida,
cândida, cálida, lânguida,
vívido, cântico, sânscrito,
lépido, líquido, lírico.

você tão quântico e fálico,
eu cômica e súplica
você tão mediúnico,
eu mixórdia
você tão harmônico,
eu bobamente estúpida.

você tão tudo
eu
(...)
quase nada

quarta-feira, janeiro 10, 2007

este feeling que estou sentindo

Fazia tempo que ela não me escrevia, mas ontem recebi um e-mail seu longuíssimo. Fala de variados assuntos, desde digressões sobre as conseqüências de um falso cabelo louro até sua enorme dificuldade de conseguir emprego. Angustia-se por estar desempregada, o que não surpreende. Surpreende, sim, saber que um bloguinho vadio desses aqui pode provocar uma extremada confiança em sua dona. No caso, eu.
Bem, conta que foi a várias entrevistas, sendo que uma delas é descrita com riqueza de detalhes, que participou de inúmeras seleções e de dinâmicas de grupo. Ao fim e ao cabo, sempre a mesma coisa, um telefonema, telegrama ou mensagem dizendo: “obrigada por participar de nossa seleção, seu currículo estará em nossos arquivos para outras oportunidades etc”. Transcreve um dos diálogos e é para ele que ela pede minha atenção.
Falo de Mulata Assanhada.
Não sei bem como dizer-lhe que ela nadou, nadou e morreu na praia. Saiu-se bem, segundo posso supor do diálogo, não mentiu, não enganou, não quis parecer o que não é. Imagino que apreciaram sua redação, tem bossa, bom vocabulário; aliás, um vocabulário muito acima da média. Usa palavras incomuns com precisão, pontua corretamente, tem boa cadência. Mas não sabe falar inglês, e aí está o perigo.
Não o perigo de lhe ser demandado o manejo do inglês, nunca lhe pedem domínio, sequer noções, de língua estrangeira, mas o de empregar expressões em inglês erradamente.
Mulata, sendo breve: não se diz “este feeling que estou sentindo”, minha flor. De onde você tirou isso?

segunda-feira, janeiro 08, 2007

plúmbeo

a moça do bar me atendeu com um certo desespero
o rapaz que buscou meu carro tinha um ar triste
estava desalentado o porteiro, olhando o vento

e sequer é noite neste dia de chumbo.

domingo, dezembro 31, 2006

um punhado de coragem e as bençãos de Deus



É do que preciso em 2007.
Coragem porque percebi neste ano que hoje finda ter muito mais coragem do que pensava - e gostei disso. Tomei decisões, livrei-me do que há muito me incomodava, ousei. Renovei, na prática, minha idéia de não fazer concessões ao que repudio, como deselegância e falta de ética, por exemplo.
As bençãos porque sem elas não vivo. Nunca são demasiadas; quanto mais, melhor.
2006 foi um bom ano.
Que 2007 seja melhor ainda.
Feliz ano novo para todo mundo!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

lá em casa

aqueles pardais
a gralhar na janela,
a me acordar às cinco da manhã
e também as araras roucas
a ronronar como um gato
na outra janela, às duas da tarde
eu jurei ter visto um tucano
(tinha bico comprido de tucano)
pousado no fio de luz
defronte lá de casa
que fica no Jardim Botânico

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Cê!


para espantar este tempo grísio que se abateu sobre o Rio de Janeiro e sobre o País,
para ver um grande artista em cena, em ótima forma, com uma jovem e vibrante banda,
para ouvir seu novo recado para o mundo, sua dor, sua delícia,
enfim, para fechar o ano, abrir o verão e começar 2007 com o pé direito:

"Cê", de Caetano Veloso, no Circo Voador ontem!

segunda-feira, dezembro 18, 2006

duas ou três coisas que pensei para você

Querida, você se separou. Curioso, sempre achei que teria eu em minha biografia vários ex-maridos e vários filhos de vários ex-maridos. Suspeitava que esta seria minha vida. Suspeitava e temia, mas nada disso me aconteceu.
Aconteceu com você, mas nem tanto. Um par de ex-maridos não é demasiado, e já já acho que vou conhecer um marido seu, e um marido é sempre alguém potencialmente "ex". Infelizmente, não conheci nenhum deles. Nestes mais de vinte anos que não nos vimos aconteceram tantas coisas, dentre elas seus casamentos e o meu.
Você se diz meio aflita porque gosta da companhia masculina e não anda vendo muitas opções, o queixume das mulheres separadas que, dito por você, reconheço que ganha verossimilhança. Sim, nunca vi você estar em falta da companhia masculina, bem ao contrário.
É que o tempo caminhou, as exigências se avolumaram, não é qualquer currículo que pode ser apresentado a você com alguma chance. A vida às vezes se sofistica.
Então estive aqui matutando sobre este assunto, matutando, matutando... E me ocorreram alguns lugares, algumas situações em que você poderia encontrar candidatos a currículos. Como sempre, escrever organiza este caos que é a minha cabeça quando pensa vibrantemente.
Clubes de brigde, por exemplo. Duvido que alguma vez tenha ocorrido a você aprender este intrincado jogo de cartas que, a exemplo do golfe, não parece muito animador. Porém, como seus adeptos amam de paixão, deve ser muitíssimo interessante, e não se tem notícia de muitas jogadoras de brigde. Talvez uma lá que outra.
Aliás, o golf mesmo, com a vantagem de se caminhar naquela linda e verdejante relva, naturalmente debaixo de quilos de filtro solar. Suspeito que seja muito relaxante, sempre foi o esporte preferido de meu pai. Golfistas mulheres ainda são minoria.
Militância política. Nunca pensou, não é? Creia-me, é um universo eminentemente masculino. Há poucas mulheres neste ramo e são sempre muito bem-vindas. Outro dia estive num evento político-partidário e nunca havia visto tanto homem junto. Parecia a versão masculina do 'Shopping Vertical', lugar que me proporcionou a incrível visão de recorde de ajuntamento feminino por metro quadrado. Quanto ao partido, não sei, difícil escolher. A vantagem desta opção é ser baratinha: basta se inscrever e comparecer às reuniões, sobretudo às plenárias. Muitas, muitas chances.
Inscrever-se num curso de arbitragem de futebol. Acha apelativo? Não se você tiver verdadeiro interesse pelo esporte. Ontem ouvi uma prima minha argumentar com tanta desenvoltura sobre o desempenho de um jogador que fiquei pasma. Tem mulher que realmente gosta de futebol.
Coisas bizarras. "Real Gabinete Português de Leitura", piscinas de hotéis. Feiras de produtos orgânicos. Aeromodelismo. Trabalho voluntário. Observação de pássaros, coleção de relógios, clube de tiro. Viagens de navio. Namoros internacionais.
Começo a temer que este assunto vire uma obsessão minha. A última idéia por hoje, para não te cansar: reuniões de ex-colegas de escola, faculdade etc. Jovem também tem saudade e uma sessão flashback pode dar um caldo.
Honey, a gente se fala.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

esparrelas de fim de ano

- participar de todas as listas de Natal;
- freqüentar todos os bazares de Natal;
- gastar todo o 13º em inutilidades;
- não comprar sequer uma mísera inutilidade com o 13º;
- empanturrar-se com aquela comida mixórdia de Natal;
- tomar caipirinha na festa de fim de ano do trabalho e sorrir até os últimos molares;
- dançar na festa de fim de ano do trabalho após duas caipirinhas;
- fazer discurso de confraternização na festa de fim de ano do trabalho após três caipirinhas;
- comprar presente de última hora em shopping;
- saber que não vai haver festa de Natal após comprar todos os presentes;
- gratificar o lixeiro errado;
- fazer lista de resoluções;
- fazer lista de realizações;
- emocionar-se com jingle bells;
- esquecer o verdadeiro sentido do Natal.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

p.s.

quero verter o mundo pelos meus olhos
para que ele se liquefaça em lágrimas
às vezes é preciso lavar a alma
ao ensejo do nada e sem drama

quero que vc entenda, sou assim mesmo
choro um tanto, silencio um pouco
não sinta culpa por meu excesso de sensibilidade:
é aquilo que em mim tanto admiram
mas que em nada valoram

nos olhos dos outros, é refresco

quarta-feira, novembro 08, 2006

incerto

pelo sim, pelo não
deixo a chave na porta:
vai que você volta
e te dou meu perdão?

quarta-feira

a cidade gira
a britadeira irrompe a manhã
a vistoria do carro, o táxi perdido, o horário
o estresse-pão de cada dia
o trabalho
o almoço, o drinque na Lapa
um porrezinho
o excesso de velocidade, a desculpa esfarrapada, a gafe

e o celular esquecido
e a confissão do amigo
e o travesseiro
e amanhã...

a cidade gira

sábado, novembro 04, 2006

aquela tua foto

Foi naquele dia que dormi de olho aberto, quer dizer, desde aquele dia. Comecei a ver um buraquinho, depois cresceu, cresceu, e era o encosto de palhinha da cadeira de balanço. Desde aquele dia que eu respirava sôfrega fazendo inalação para conseguir colocar algum ar em meus brônquios alquebrados. Desde então que penso como vocês são bonitos naquele momento instantaneamente eternizado.
Aquela foto, é dela que falo. Ficou tão bonita que não quis colocar num porta-retrato, tão bonita que não quis dependurar no painel, tão linda que fiquei vagando com ela nas mãos pela casa até ficar tarde e eu ficar cansada porque já não respirava mais. Foi desde aquela noite em que a música tocou até de manhã na casa do vizinho de trás e eu me embalei com aquelas canções de que gostei tanto.
Daquela carta tua que encontrei dobrada no canto da gaveta, é dela que falo. Vocês me mandaram a foto, nós todos tão bonitos e tolos, e depois de ler a carta e olhá-la, e olhá-la, é que fiquei naquele estado siderado, fora de órbita, dormindo de olho aberto, sentindo um não-tempo, presa num vácuo tépido e gostando daquilo.
Desde aquele dia que dormi de olho aberto que parece que não acordei até agora, porque fico pensando na foto e em nós naquele momento.
Vou fechar os olhos para ver se acordo um pouco.

terça-feira, outubro 31, 2006

quando?

na praça em que há um chafariz incrível
na esquina em que se ergue uma palmeira inóspita
ao lado do Edifício Argentina
perto daquela igreja gótica
em frente ao sinal onde a louca esbraveja intrépida
ali, no lugar em que eu estacionava o carro

tudo isso só pra te perguntar
(se é que ainda não deu pra perceber):

quando é que a gente se vê?

sábado, outubro 28, 2006

... e o jornalista não quis me conhecer

Não houve jeito, bem que eu tentei. Acreditava em afinidades descobertas de formas inusitadas, e como não havia jamais trafegado neste universo bloguiano, pensei why not? Afinidades encontram-se por si próprias, não precisam, necessariamente, de seus donos para identificarem-se. Como seres farejadores, teriam elas, à sua própria conta e sorte, se identificado. A nós, apenas restaria render-se a esta realidade para lhe concedermos uma chance de encontro, se é que têm mesmo vida própria.
Mas ele não quis, ainda que eu tenha tentado. Antes disso era engraçado, porque não raro eu pensava em algo e ele escrevia; observava uma novidade interessante ou inóspita, ele apontava; de tal forma essas coincidências se manifestavam que um ser rastejante freqüentador de seu blog, alguém que depois soube ser meu detrator, insinou que éramos a mesma pessoa. Ali naquele estranho universo, onde as identidades parecem se misturar.
E o cara é de 70, geração com quem, por razão que não me ocorre, tenho muitas coisas em comum. Oscilo entre ter nascido um pouco antes da época ou estar um pouco atrasada em minha, digamos, evolução. Não sei, tampouco quero saber, mas o certo é que os nascidos em 70 têm em mim uma admiradora e alma afim. Aliás, isso de ser ele mais novo me parecia muito bom: nunca olhei para alguém mais novo do que eu como alguém factível para um romance comigo, e não era nem de longe romance o que eu queria com ele, porque, de resto, estou muito bem como estou e com quem estou. Não era nada disso e ele sabia.
Ah, é verdade, o e-mail. Mandei-lhe um em que o convidava para um café e no qual reiterava a afinidade nossa, algo a que talvez não tivesse atinado. De um jeito meio atravessado, porém direto, esclareci que não pensasse haver qualquer flerte meu. Dele tive como resposta a informação de que andava atarefadíssimo, escrevia uma sinopse e que em seguida entraria de férias. Disse de forma amigável e simpática que eu aguardasse.
Eu aguardei e nada, o que me conduziu a um “e aí?”, forma carioca de perguntar ao interlocutor se está se lembrando daquele compromisso que ficou para quando e se. E aí me disse ele, deslavadamente, que a última coisa que queria na vida era um blind date intelectual, verdadeira porta de entrada para uma sessão de constrangimento e tortura. Sugeriu que se encerrasse a história ali mesmo. Quer dizer, isso não disse assim, mas desta forma foi compreendido. “Pena”, pensei. "Pena".
Porém, a sorte retorceu um pouco as coisas e, ao ler sua última crônica, percebi algo que não antevira antes: é dado a feudos, a "sub-máfia" como alcunhou o que antes se chamava "panelinha", a turma, talvez... séquito. Um abismo entre nós, que sou mais afeita a uma diversidade.
Quer saber? Tant pis.

segunda-feira, outubro 23, 2006

vênus

Sobreveio a hora da estrela
quando nasce Vênus
quando parece mágico o lusco-fusco
pulsam alertas as primeiras luzes da cidade
logo escurece a montanha adiante.

Então lembrei que me chamaram “moça”
num anoitecer exatamente como este
entre tantos prédios e pessoas e carros
me virei assustada
e era você.

Você.

sábado, outubro 14, 2006

a utopia de um tio-avô


Ele me fala das coisas de sua fazenda, achando graça em minha pergunta sobre quantos quilos um pé de café é capaz de produzir, mostra-me o que foi recentemente roçado, o barranco que caiu adiante, a reforma que fez na casa, os bezerros recém nascidos e seu melhor touro. Circunda toda a sua propriedade em seu fusquinha-branco-expresso, subindo e descendo aquelas montanhas lindas de doer. Que saúde.
Acende a iluminação do terreiro do café à noite e para lá me despacha, dizendo, com ligeiro sarcasmo, que não devo temer os cachorros, basta pedir a São Roque, que de mim os afastará. Seria um pecado perder aquela noite estrelada; portanto, que vá ao terreiro dar umas voltas e digerir o jantar. Logo.
Ama sua mulher e sua família com vigor e doçura. Não é sempre que se vê isto quando, sendo hóspede, se irrompe a intimidade dos anfitriões. E o silêncio não lhe pesa, como tampouco à minha tia; significa, apenas, um certo cansaço do dia que começou com a aurora.
Ouvi-lo me chamar “ô, menina!” é música para meus ouvidos. Não que eu não me sinta uma, antes muito pelo contrário - é assim que me sinto amiúde e me admira ser constantemente tratada por “senhora” - mas aquele “menina” é tão sincero que um dia, ao lhe revelar minha satisfação por receber um tratamento que considero tanto verdadeiro (oh, imodéstia!) quanto incomum, recebi em resposta uma reação sua lapidar: “ora, mas se você nasceu ontem de quem nasceu anteontem...”
A verdade é que isto só poderia mesmo vir de um tio-avô, de um tio-avô muito querido, que compartilha comigo a idéia de ser uma diletante nesta vida (o somos todos), porque só um tio-avô tão dileto poderia me explicar coisas que ignoro achando que é suposto que as ignore. Porque depois dos quarenta parece que de tudo e de todos se deve saber.
Sua generosidade, porém, faz ser verdade a utopia de que carrego e carregarei vida afora a criança que temporalmente fui um dia.
Afinal, eu nasci ontem e meu pai, anteontem.
A benção, Tio Zezé!

quarta-feira, outubro 11, 2006

queria ser uma mulher de Almódovar



Elas são sempre lindas, ainda que não no sentido tradicional da coisa: narizes grandes, feições irregulares, bocas escancaradas. Às vezes, mulheres que sequer são mulheres. Um tanto fakes, meio detonadas, bem histéricas.
Mas são lindas. Emocionam, cheias do que se costuma dizer feminilidade; carregam um drama triste, uma densidade que se atribui apenas às mulheres.
Ele consegue deixá-las acima do bem e do mal.
E pensar que fazia fotonovelas antes de virar cineasta e que escreveu um livro (“Fogo nas Entranhas”) completamente sem pé nem cabeça, cujo ponto central da trama é uma fábrica de absorventes íntimos que deixa as mulheres no cio. Madri ferve numa certa noite de lua cheia, há orientais envolvidos, uma mixórdia. Li este livro, prefaciado por Regina Casé, enquanto esperava o início de uma audiência. No foro de Niterói, valha-me Deus.
Falam sobre as mulheres de Fellini, do mistério das musas da Nouvelle Vague, das estrelas de Hollywood, mas permito-me confessar mais esta tolice: uma mulher de Almodóvar é o que eu queria ser.
Quando crescer, quem sabe?

química

uma pílula, um comprimido,
uma drágea, umas gotas,
uma vacina, um emplastro
um ungüento:
algo que estanque
esta dor
aqui dentro

quinta-feira, outubro 05, 2006

O De-Tantra



Recebo um milhão de mensagens de auto-ajuda por e-mail. Não compreendo se me remetem porque acham que eu preciso de ajuda ou se é porque pensam que gosto de assuntos de auto-ajuda. Como quer que seja, é estranho, porque, perversamente movida pela curiosidade, eu tomo um tempo e leio essas mensagens. Quase todas.
São uma nova forma de oráculo. São oráculos pós-modernos, imediatistas e sem compromisso, como convêm aos oráculos. Nada de muito trabalho, de muita despesa, de muito tempo. Respostas rápidas para consultas cruéis e/ou banais (devo ou não trocar de emprego, marido, cidade, país, a cor do cabelo), com a vantagem de não precisarem do jogador do tarô ou do reprogramador cármico. Sem intermediários, você está sentado diante de seu computador, recebe a mensagem e a iluminação é imediata. Sem sofrimentos. Sem precisar exercer a autocrítica e perceber o que é desagradável a seu respeito.
Enfim, diante desta enxurrada de aconselhamentos (gratuitos), observei que tem conselho para todo o lado: ora você deve comer assim e assado, ora de nada deve se privar, ora deve entender o próximo, ora manifestar seu descontentamento com ele.
Recebi outro dia, pela enésima vez, um tal de "Tantra Totem", que não deveria permanecer em 'minha máquina' muito tempo. Porém, se eu o enviasse a "0 a 4 pessoas" minha vida melhoraria de alguma forma. Zero a quatro pessoas.
Pinçei alguns dos conselhos deste texto e escrevi o que acho que poderia ser outro Tantra. O De-Tantra, ou a Desconstrução do Tantra, que está em itálicos.
- Coma muito arroz integral
Não se prive de nada, mas tenha moderação em tudo. Se tiver que se privar, não o faça além de suas necessidades.
- Dê as pessoas mais do que esperam e faça-o com gosto.
Não dê as pessoas tudo o que elas esperam de você, mas apenas na medida de seu próprio amor e amizade. Você não é obrigado a atender as expectativas alheias o tempo todo.
- Não acredite em tudo o que escuta, não gaste tudo o que tens, nem durma o quanto quiseres.
Não despreze o que chega a seus ouvidos, o acaso é um instrumento divino. Desapegue-se de seus bens e acredite na Providência Divina. Lembre-se de dormir o quanto precisar, o sono é o melhor dos remédios.
- Jamais ignore os sonhos dos outros;
Não ignore seus próprios sonhos e anseios.
- Não julgue os demais pelos seus parentes;
Perceba a família de seu próximo, ela dirá muito sobre ele.
- Fale lentamente, mas pense com rapidez;
Pense com vagar, seus pensamentos serão mais claros e nítidos.
- Ligue para seu pai, para sua mãe. Se isto não é possível, ao menos pense neles;
Libere seus pais de suas demandas. Entenda que a vida é um ciclo e que eles querem se sentir recompensados por todo o trabalho que tiveram com você.
- Quando você perceber que errou, faça o que for necessário para consertar seu erro. Imediatamente.
Não sobrevalorize seus erros, os problemas tendem a se resolver por si só. Apenas peça desculpas se tiver ofendido alguém.
- Passe algum tempo em solidão.
Desfrute da companhia de quem vc gosta sempre que puder. Tente sempre estar cercado daqueles que você mais gosta.
- Viva uma boa e honesta vida. Assim, quando estiver velho e lembrar do passado, vai ver como o desfruta pela segunda vez.
Não pense no passado e tente forjar seus pensamentos para não viver das lembranças passadas. A vida é aqui e agora.
- Faça o possível para ter um lar tranqüilo e harmonioso.
Não se desespere perante as disputas domésticas. Dê lugar para o contraditório no seio de sua família. Conviva com as diferenças e ensina teu próximo a fazer o mesmo.
- Leia entre linhas.
Não tente compreender aquilo que não lhe foi comunicado diretamente. Saiba aguardar.
- Se ocupe de seus próprios assuntos.
Ocupe-se dos assuntos alheios e alguém se ocupará dos seus quando vc precisar de ajuda.
- Case-se com uma pessoa que goste de conversar, pois quando chegar à velhice, as habilidades de conversador vão ser mais importantes que qualquer outra.
Case-se com alguém que goste de conversar para estabelecer uma boa comunicação desde o início do casamento. A comunicação é algo que se constrói. Até lá, aproveite os prazeres da carne que apenas a juventude permite.
Espero que tenham todos tido uma imediata e profunda iluminação.

quarta-feira, outubro 04, 2006

domingo, outubro 01, 2006

Santa Teresinha


Hoje, 1° de outubro, é seu dia.

Viva Santa Teresinha do Menino Jesus, a santa da pequena via, padroeira dos missionários!
Burguesa e bonita, renunciou à sua vida de conforto e optou pela simplicidade da vida em reclusão.
Inteligente, dramaturga e poeta, formulou a doutrina da "Pequena Via", revolucionária, pela qual diz não ser preciso muito esforço para se estar próximo do Criador - Ele está em tudo, em toda criatura.
Moderna, percebeu que no Século XX a cada um competiria uma pequena parte para fazer esta grande máquina girar. Cada um que tomasse a sua, todas são necessárias.
Cômica, vivia rindo. Era pura alegria.
Ousada, foi a Roma pedir ao Papa para entrar no Carmelo com quinze anos. A permissão não lhe foi dada, mas ela entrou assim mesmo.
Santa Teresinha é muito próxima.
Viva Santa Teresinha!
p.s. já que falo de santos: gosto deles pela fé, pela santidade adquirida, pela capacidade de renúncia. Embora vez por outra eu seja alvo de algum sarcasmo por causa de minhas devoções ("você e seus santos"), ainda que muito raramente fale delas, estes mesmos sarcásticos vez por outra me pedem para orar por eles. Já observei que quem não tem fé gostaria de tê-la.

sexta-feira, setembro 29, 2006

São Miguel Arcanjo



Viva São Miguel, arcanjo de Deus!
Viva São Miguel, chefe da milícia celeste!
Livrai-nos de todo o mal e iluminai sempre os nossos caminhos.
Viva, viva, viva!

(29 de setembro, dia dos Arcanjos do Senhor)

terça-feira, setembro 26, 2006

abrigo

abrigue-me em teu silêncio
é nele que quero estar
e já não precisarei do mundo

guarda-me em tua calma
conforta-me em teu peito
aloja-me em teu repouso

o amor não precisa de muito

Síndrome do Concursado

Não é difícil deparar-se com alguém que enche a boca para dizer "sou concursado". Deve parecer-lhe que, em termos de colocação profissional, ostenta um plus em relação ao resto da torpe humanidade. Provavelmente se esquece que talvez este torpe resto da humanidade tenha feito esta opção deliberadamente. Que tenha preferido trabalhar na iniciativa privada. Que seja um empreendedor, um profissional liberal. Enfim, o certo é que o portador da síndrome certamente pensa que esta mesma humanidade é um bando de incompetentes que não passa no concurso em que, ele sim, conseguiu aprovação.
É claro que não são todos assim e é óbvio que não estou generalizando.
Recentemente, eu fui aprovada num concurso público com uma boa colocação. Não creio, porém, que vá ser chamada, mas isso não vem ao caso. Vem ao caso que, se não for convocada, não poderei, infelizmente, exibir a marra de dizer "sou concursada" e, assim, espalhar minha síndrome por aí, em expediente de humilhação à medíocre humanidade.
Mais recentemente ainda, soube de uma boa razão para fazer um concurso público cujas inscrições estão abertas: o salário inicial é de 21 mil reais. Já pensou? Poder dizer "sou concursada", ganhar bem, não ter horário...
Não admira tirem essa onda.

quinta-feira, setembro 21, 2006

o português, este destratado

ou " as pérolas atuais do vernáculo":

Na verdade...
(algumas pessoas iniciam 99% de suas frases com esta expressão);

Na verdade, o que que acontece...
(ligeiro acréscimo à expressão acima, empregado com a mesma intensidade da anterior);
O que que acontece...; e

A fulana, ela viajou...
(aqui eu me pergunto qual a razão desta sofisticação, já que separar o sujeito do predicado por vírgula, salvo em alguns casos, é errado. Nesta hipótese, ainda há a afetação do pronome após a vírgula. Agora me digam: para que serve a vírgula? e o pronome? seria "a fulana viajou" muito simplório?)

Não faz muito tempo vi uma atriz sendo entrevistada por uma pitonisa do jornalismo televisivo e, lamentavelmente, constatei que ela mal conseguia falar: seu vocabulário era de uma criança de 7 anos, no máximo.

E, vendo um programa popular da televisão norte-americana, observei que os entrevistados, pessoas comuns, não raro referidos como "povo ignorante" pelo resto da humanidade, manejam sua língua mil vezes melhor do que o faz a quintessência da elite brasileira.

Não me conformo. E não compreendo.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Rua do Acre

Nas raras vezes que eu não tenho nada para fazer na hora do almoço eu vou flanar na Rua do Acre. Não sei porque, mas eu adoro a Rua do Acre, embora ali tenha todo o caos que esta cidade oferece. Há sujeira, excesso de farmácias, bancos e restaurantes a quilo. Há uma Corte de Justiça e seus indefectíveis engravatados. Calçadas quase não existem. E há putas, putas velhas inclusive. Aliás, por lá transitam putas que levam seus filhos à uma escola pública nas imediações.
Estranhamente, na Rua do Acre existe uma farmácia aonde sempre há o shampoo que eu uso, meio difícil de achar. Aonde a máquina de cheque do banco nunca falha. E aonde eu consegui fazer uma cópia perfeita de uma chave que chaveiro nenhum no mundo conseguia fazer.
Na Rua do Acre eu vi a pessoa mais andrógina de toda a minha vida.
O mundo acontece na Rua do Acre, mas o mundo não sabe disso.

sexta-feira, setembro 08, 2006

está aberta...



... a temporada de ipês-rosas.

(outro dia li no jornal que, se o Brasil tivesse sido descoberto em setembro, teria se chamado Ipê.)

carta para uma tragédia

Sinto profundamente sua perda. A morte de um jovem é sempre algo trágico, fere a ordem natural das coisas, e faz com que se transpasse à categoria das pessoas que viveram uma desgraça. Porque só há duas categorias de pessoas nesta vasta humanidade: as que vivenciaram uma tragédia e as que não a vivenciaram, sendo que estas não fazem idéia do imenso esforço que é preciso para seguir vivendo com tanto pesar. Não é mesmo suposto que o saibam, não as culpo.
Tragédias não se comparam. Tragédias, não perdas naturais. E as nossas não são diferentes, são mesmo incomparáveis. Porém agora, com o coração forjado pela perda, pela perda trágica, talvez agora vc perceba a tristeza que nós vivemos quando a Bel partiu precocemente, depois de mais de ano de um tremendo sofrimento físico. Ela trabalhou contigo por um bom ano antes de adoecer, lembra-se? Por um ano vocês conviveram, ela colaborou com seu ganha-pão. Sua doença e morte, contudo, não ensejaram sequer uma manifestação de sua parte, foi como se nada se passasse.
Tenho muita compaixão da mãe deste rapaz, de seu pai, de seu padastro, de seus irmãos, de seus amigos e de vcs, familiares. Nunca mais a vida será a mesma. Mas Deus é grande, incomensurável a Sua bondade, e, certamente, receberão todos o afeto e o carinho de pessoas bondosas e compassivas.
Receba vc meus sinceros sentimentos. Eu realmente sinto muito.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Os Tristes-Vidas

Desde que a friaca se abateu (fora de época, como virou costume) sobre o Rio de Janeiro que tem sobre mim se abatido uma pena maior ainda daqueles tristes-vidas que ficam no meio da rua segurando um cartaz de propaganda política.
Não vou falar sobre política, há muito me abstraí deste tema.
Mas é que fico a pensar se os políticos imaginam que esta forma de exploração humana contribui para angariar-lhes votos. É muito atraso.
Ficam eles (os tristes-vidas) segurando aquelas cartazes, às vezes em pé, com uma cara de infelicidade mortal, índice zero de militância; outras vezes sentados, o olhar perdido, o tédio estampado.
Dia desses, na Av. Atlântica, me esbaldei: o cartaz de propaganda estava abandonado e, a dez metros dele, o triste-vida que deveria segurá-lo jogava cartas entusiasmadamente com outro triste-vida, o cartaz também no chão. Pensei: "bem feito!".
Afinal, um triste-vida tem direito a um momento de descontração.
Já esses candidatos... bem, deixa para lá.

segunda-feira, setembro 04, 2006

mania nacional

( se vc pensou numa certa parte do corpo feminino, enganou-se redondamente)


Ei-la!
Aí está a mania nacional!
Chova ou faça sol, a insuperável, a intangível, a imbatível: a sandália de plataforma!
Fashionistas, socorrei-me!
Valei-me, senhoras do estilo!
Polícia! Políticos! Mídia! Alguém!
Misericórdia!

Marina Lima



Diminuta e com uma voz tão singular, entrou em cena um pouco tímida, modulando seu tom com uma letra que falava de “sol primordial” e um punhado de poesia. Musa dos anos oitenta, não há ninguém da minha geração que não tenha sido embalado por sua música, não há pessoa que tenha nascido nos early 60’s que não tenha nela antevisto a mudança esperada dos baianos e mineiros que povoavam a MPB naquele tempo. Com todo o respeito aos baianos e mineiros, uma mudança se impunha.
E aí esteve ela sumida, shows só em São Paulo. Ignoro o porquê, já que pertence ao Rio. E o Rio lhe pertence, sempre lhe pertencerá. Foi o que a platéia carioca ontem lhe mostrou, e ela percebeu, e agradeceu, e deu bis. Houve um trecho do show (“Cícero”) que calou fundo. Nada como a poesia musicada, nada como a poesia de Antonio Cícero.
Enfim, era Marina Lima em cena. E, se já não fosse muito rever sua música (grande banda!), ela ainda me mostrou que é possível chegar aos 50 bacana, bacana.

segunda-feira, agosto 21, 2006

sobre o básico

É curioso como há pouco esclarecimento sobre coisas tão singelas, enquanto se desbordam conhecimentos sobre assuntos tão sofisticados.
Sobre ter alguma religião, por exemplo. Há os que pensam que, agregado ao fato de alguém ter religião, vem um passaporte para a virtuose, quando é exatamente o contrário: antes de mais nada, alguém religioso se sabe um ser falho.
Então é assim: vc tem uma tia velha, pentelha, que nunca te deu a mínima, e que, aliás, sempre te quis bem longe dela, mas, de um dia para o outro, ocorre de convir aos familiares que vc seja caridoso com la vecchia. “Mas vc não é tão católica?” parecem querer perguntar com todo o cinismo do mundo, quando se esquecem - e aí entra o desconhecimento do básico – que, sim, é fato que qualquer pessoa que tenha uma religião, católicos inclusive, deva praticar a caridade, mas que, porém, deverá fazê-lo de forma sincera, e, portanto, com o que lhe tocar o coração. Não é esta a regra do livre arbítrio, aliada à da solidariedade? Tão básicas.
Outra hipótese: alguém te desafora. Uma, várias vezes, e vc sempre deixa para lá, até que cansa. Cansa, apenas, não sente raiva nem ressentimentos, mas... cansa. “Como, vc não vai relevar?” alguém perguntará, ao que vai acrescer, verbal ou mentalmente, a máxima: “e depois vai à missa todo domingo”. Ora, direi, tenho que perdoar quem me pede perdão, mas não tenho que passar a mão na cabeça de ninguém. Como se nada tivesse acontecido. Para, depois, o desaforado, ele, "deixar para lá". Acho graça.
Quando eu era criança, minha mãe me disse, eu nunca esqueci, que se alguém te pede perdão e vc não dá, é problema seu, mas se alguém te ofende e não te pede perdão, então é problema de quem não pediu.
Que se instruam.
E que não me amolem.

segunda-feira, julho 31, 2006

Das Delicadezas e de suas Estranhezas

Não atino bem a razão de me haver ocorrido só hoje pensar numa frase de Blanche Du Bois, personagem de “Um Bonde Chamado Desejo” de Tennessee Williams, depois reproduzida por Pedro Almodóvar na personagem vivida por Marisa Paredes em “Tudo Sobre Minha Mãe”: “sempre dependi da gentileza de estranhos”. E me ocorreu também que, das duas vezes que ouvi esta singela frase, dita por estas duas personagens em momentos tão oportunos, tive o sentimento de estar diante da genialidade daqueles dramaturgos, um por tê-la concebido, outro por tê-la relembrado. E também por estar diante de um fato da vida.
Porque é fato que as delicadezas nem sempre vêm de quem se espera.
E talvez porque, ao contrário do que se pensa, nem sempre a delicadeza é compreendida.
O caso é que por duas vezes fui tanto objeto quanto sujeito de inusitadas, porque inesperadas, delicadezas.
Uma delas aconteceu no Aeroporto de Congonhas, numa sexta-feira em que estava exasperada para voltar para casa, cansada do trabalho pesado de um longo dia, adensado em aridez por ter exigido deslocar-me pelo caos daquele trânsito paulistano várias vezes, louca por alcançar o vôo cujo último assento conseguira por um golpe do destino. Bem na hora de entregar o cartão de embarque, já ali no portão, cadê? Sumira. Assim, do nada, ele não estava mais no compartimento externo de minha bolsa, onde deveria esperar-me incólume. Desaparecera.
Ao que, de imediato, dei meia-volta, o coração já na boca, e, um pouco adiante, uma figura diminuta, um nissei, dirige-se a mim resoluto e, com o braço estendido, me oferece aquele passaporte para a redenção. Eu só olhava para o cartão desde que o avistara na mão daquele homem. E este homem, ao me entregá-lo, o retém um pouco, o suficiente para que eu o olhasse com mais vagar. A entrega do cartão não foi sua única oferta: ele me comunicou, eu percebi perfeitamente, que eu estava precisando de paz. E também percebeu que eu agradeci imensamente o recado, pois recebi o cartão de forma algo solene.
A outra foi dia desses, quando ajudei uma pessoa a atravessar a rua. Do nada, percebi, como se o vento me houvesse dito, que aquela hostilidade urbana humilhava de tal forma aquela pessoa que ela não conseguia atravessar a rua. Dei-me conta, esperei o sinal de novo, atravessei e simplesmente perguntei se queria ajuda, e queria, e muita. Foi bastante simples, não carecia de perguntas, tampouco de respostas, nem uma nem outra foi feita ou dita. Um simples atravessar de rua.
E o que mais me impressionou foi de saber precisamente o que angustiava aquele coração. E talvez ninguém próximo a esta pessoa tenha se atentado que ela não poderia estar naquele lugar desacompanhada; mas estava, e claramente sofria por estar.
Senti um certo conforto em pensar que sim, é deliciosamente estranha a delicadeza quando vem de um estranho. E um tanto de desconforto ao pensar que não, nem sempre é familiar a delicadeza quando vem de um próximo.

domingo, julho 30, 2006

"uma imagem vale mais do que mil palavras...


... mas sem palavras isso não seria dito."

pérola de Millôr Fernandes, dentre as muitíssimas suas que se ouve em "Millôr Impossível", de Eduardo Wotzik, em cartaz no Teatro Café Pequeno
(charge do próprio, ele por ele mesmo)

chuva

a chuva lava e livra
do impuro a atmosfera
e a nuvem se adensa,
espera
torna a precipitar.

esta chuva que lava
me livra
de tolices, quimeras
quem dera
do resto poder me livrar.

domingo, julho 23, 2006

o caos da sexta-feira de toda semana

Eu não consigo entender porque a cidade do Rio de Janeiro dá um nó às sextas-feiras. Não compreendo não haver um único guarda para organizar o trânisto que neste dia costuma ser mais caótico do que nos demais. Escapa-me a razão de o trânisto, além de caótico, ser tão hostil. De haver animais ao volante de vans e afins. De os motoristas de ônibus (em tese profissionais) desrespeitarem com especial prazer as regras básicas da condução - um sinal vermelho na Avenida Presidente Vargas, por exemplo. Em todos os lugares do mundo a hora do hush é alvo da atenção das autoridades. Não aqui. Aqui fica-se à própria sorte.
E porque as pessoas se esbarram nas ruas e não pedem desculpas? E qual a razão de não se entender um pedido de licença? E porque se joga lixo no chão? Céus, porque há pessoas que cospem nas ruas?
É muito atraso.
Muito terceiro mundo.
Tem horas que eu odeio morar no Rio.

quinta-feira, julho 20, 2006

A Verdadeira História das Tetas Cabeludas

(a pedidos e bem atrasadinha, aí está a verdadeira história das tetas cabeludas, singela tentativa de reprodução do relato de seu protagonista, e a solução do caso).

Sinto uma mão me alcançar pela cintura e um bafejar no pescoço: “Bonequinha de Luxo”, o que me fez, de imediato, já tendo reconhecido a voz, girar e disparar “Abusado!”. Um amigo das antigas – a justificar, portanto, estes estranhos tratamentos - quanta saudade. Tantos anos sem nos ver, muita coisa para contar, não poderia imaginar que, entre as novidades, estivesse seu divórcio: para mim, seu casamento era daqueles vocacionados à eternidade, tamanha afinidade. Essas coisas, às vezes, me fazem perder um pouco da esperança.
Disse ele que não houve jeito e, a despeito de haver deixado para trás sua vida para acompanhá-la quando designada para servir no exterior, lhe foi impossível manter vivo o casamento. Foi-se, esvaiu-se, escorreu por entre os dedos. Chorou muito ao ler uma carta que havia escrito à sua mulher no dia do casamento chamada “compromisso dos dez respeitos”, porque o primeiro item, o mais importante segundo seu entendimento, já não existia mais, “o interesse pela vida do outro”. Ali percebera que o divórcio era inevitável, haviam se distanciado e não atinavam o porquê. Acontecera. Choraram muito ao resolverem se separar. E no dia da assinatura do divórcio resolveram que deveriam sair para dançar, e dançaram, e se embebedaram; bêbados, choraram de novo. Depois disso, nunca mais se viram. Aí seus olhos marejaram e os meus também.
Começou, então, a pensar na vida e percebeu, após algumas saídas com amigos, que não era de todo mau estar de novo solteiro e, principalmente, que era muito bom estar de volta ao Rio. Sentiu-se um pouco só no início, depois ciscou aqui e ali e acolá e logo percebeu que muita coisa havia mudado, não no mundo propriamente, porque o mundo não lhe tinha passado desapercebido naqueles últimos tempos em que estivera fora, mas nas mulheres, porque as hondurenhas não lhe despertaram muito interesse. E tinha convivido apenas com hondurenhas por bons seis anos.
Percebeu que as mulheres haviam se tomado de um “ar” e davam uma importância demasiada a si mesmas. Havia nelas também uma empáfia, além de estarem todas muito cabotinas. Percebeu também uma mudança física tremenda, muito magras, muito fake. Mutantes. Sim, mutantes e aí é que entram as “tetas cabeludas”.
Tudo começou com uma jovem senhora (ele diz jovem senhora) que conhecera no prédio em que trabalha. Vai daqui, vai dali, encontros casuais no elevador, tal e coisa, um convite para almoçar, outro para jantar, vai indo, quase evoluindo para um fim de semana juntos até que um dia, sentado defronte a ela num jantar, percebe que sua boca havia mudado. De um dia para o outro aquela boca de lábios finos e levemente nervosos cedera lugar a lábios carnudos, densos. Lentos. O quase-caso termina rápido ali mesmo: ela vai ao banheiro ao fim do jantar e, ao voltar, o encontra de cabeça baixa, o olhar fixo à mesa. Recebe um "não" à sua pergunta se estava tudo bem com ele e a informação de que ele precisava ir imediatamente embora, não se sentia bem. Partiu sozinho. “Nunca mais a procurou?” perguntei, “Não”, disse ele, “Por causa da boca nova?” indaguei, com estranhamento, “Sim”, afirmou, “Aquilo me afligiu, não poderia mais beijá-la. Fiquei desolado, gostava dela, mas não pude evitar”.
A este se seguiram casos similares. Uma outra jovem senhora que subitamente perdera parte de sua expressão (parece que em decorrência de algo que se injetara, uma toxina, não se lembrava bem do nome, algo que soube depois ser muito popular, mas não conseguira ouvir toda a explicação e quase desfalecera enquanto ela, com riqueza de detalhes, falava daquela maravilha da medicina moderna) também não foi mais procurada, assim como igualmente não o foi aquela que, num belo dia, apareceu com as maçãs do rosto salientes, fruto de algo também injetável, duas pirâmides perfeitas a apontar para o céu. O quarto caso da série fake aconteceu com a irmã de uma amiga sua com quem estava saindo, mas neste caso quem levou o fora foi ele. Perguntou se ela cortara o cabelo e ela havia colocado cabelo.
Ficou com medo das mulheres e, sobretudo, das coisas a que consensualmente se submetiam.
Quando já estava bem desanimado conheceu Bela, uma mulher fora do comum. Grisalha, com uma cabeleira hirsuta e uma leve imperfeição no lábio, bronzeada porque ainda se permitindo o vício do sol, perfumada, inteligente, divertida. Linda. Já separada e em vias de formalizar o divórcio, como ele também se readaptando ao Rio, pareceu-lhe simplesmente perfeita. Dizia coisas que nunca lhe ocorrera pensar, muito original. Reiteradas vezes afirmou que queria se livrar de tudo, tudo o que lhe incomodava, tendo este processo se iniciado dois meses antes com a decisão de se separar.
Era só conversa e cinema e chopp e jantar e teatro até que um dia a coisa pegou fogo na casa dela. Ora, normal. Ela hesitou um pouco, ele insistiu, ela cedeu. Beijos ardentes, uma maravilha, evoluíram para as preliminares. Etc. Etc. Ele interrompe seu relato e me olha com uma expressão marota. “E aí?”, pergunto eu, odiando o fato de ser geminiana e ter esta curiosidade incontrolável. Aí ele diz que, já na cama, sentiu uma coisa estranha nos lábios, como cócegas. Algo aflitivo. “É, é?”, falei, arquejando a sombrancelha. “Eu estava beijando seus seios”, disse ele, sabendo que matava minha curiosidade. “E o que você fez então?”, disparei. Contou que então se levantou e foi ao banheiro para depois ter um ensejo de acender a luz. E eis que ele se deparou com as tais tetas cabeludas. “Como cabeludas?” perguntei, já iniciando aquele inevitável frouxo de riso que se apodera de mim quando sinto constrangimento no lugar dos outros. “Totalmente cabeludas”, disse ele com ar contrito, “Você não faz idéia. Pelos imensos, finos, super longos, nos dois mamilos. Eram tantos que os cobriam totalmente. Pelos pretos em contraste com a pele branca dos seios. Nunca havia visto nada igual”. Falava com uma expressão de horror e como se buscasse em mim (logo em mim) alguma explicação para o tal fenômeno. Saí dizendo que nunca havia visto nada semelhante nos seios, mas que existiam métodos muito eficazes de depilação. Esta hora foi um horror, porque tive um frouxo de riso mortal, que o contaminou. Retomado o fôlego, disse ele: “Aí está o problema. Resolvi sugerir que ela buscasse alguma solução, uma porra de uma toxina, um injetável, um troço laser, e ela me respondeu que passou anos se mortificando com a pinça, pois bastava apontar um ponto preto nos mamilos para ter que imediatamente o retirar, seu ex-marido tinha horror daquilo. Aliás, não admira que tivesse... (aqui eu ri de novo, mas logo me controlei). E por tudo isso é que tinha se separado e que agora era uma grisalha feliz, que tomava sol à vontade, comia carne, falava merda, gargalhava e que queria se livrar do que a incomodava e do ranço opressor que a subjugara anos a fio e blá blá blá. Um discurso com o qual concordei inteiramente”. “Bem”, disse eu, “se é assim, você vai ter que se acostumar com as tais tetas”. “Jamais!”, exclamou. “Então, é um impasse, “Pois é, pois é...”, disse pesaroso, “é um impasse, porque ainda estamos juntos e eu gosto muito dela. Nunca uma mulher me divertiu tanto”.
Cinco dias depois, ele me liga meio na correria dizendo que agradecia imensamente meu presente e que sua vida estava ótima, pois havia resolvido o problema das tetas cabeludas que o tornara um insone há dias. Eu havia lhe mandado um super soutien gorge preto da Victoria's Secret para que ele a presenteasse, algo que me pareceu óbvio para o caso. Já na hora do quando a gente se vê de novo e tal ele me faz lembrar o porquê daquele apelido que lhe dei anos atrás: “herr, hã, vem cá, eu preciso te perguntar... você é 100% orgânica?”.
Se isso é pergunta.

A Terra Vista do Céu



Não deve haver nada mais lindo.

(à esquerda a Sicília e à direita a península italiana. Foto: Agência Espacial Européia)

domingo, julho 16, 2006

45º do Segundo Tempo

Nunca o tinha visto tão quieto por tanto tempo. Se antes esboçava algumas palavras e formava frases vagas, agora era raro até mesmo ouvir algum ruído seu. Sua expressão também estava absorta em algum lugar, perdido o pensamento em algum ponto que jamais se saberia qual. Havia o flagrado algumas vezes sentado em sua cadeira de rodas com o olhar levemente ascendente, como se procurasse alguma lembrança, como se tentasse fazer com que lhe viesse à tona algum fato que o ligasse ao homem que fora um dia.
Meu pai. Nem tão idoso assim, mas desde que acometido pela doença da abstração, como eu chamava aquele odioso mal de alzheimer, era como se estivesse morto. Sim, eu sepultara meu pai naquele preciso momento em que recebi, naquele tarde, naquele consultório médico, o diagnóstico de sua doença. Tudo o que veio depois foi outra pessoa e nunca mais tive sua presença na minha vida. Tive que aprender a amar outro homem, em muito distante daquele alegre e forte por que chamava de pai. E confesso que, para mim, foi difícil ter que amar diferente a mesma pessoa. Mais ainda porque meu pai virara meu filho.
Meu filho. Tão diferente de mim e de seu pai, que às vezes eu me perguntava se tinha mesmo saído de dentro de mim. Mas sim, aquele garoto comprido de cabelo black-power era meu e, até onde eu pudesse supor, filho de seu pai declarado - sempre tive boa memória e não me esqueceria de um homem com que me houvesse deitado. E ele, que sempre achara graça naquela distração do avô, naquela infância extemporânea, até ele andava meio alarmado com tanto silêncio. Junto com a avó às vezes cochichava pelos cantos, gentil tentativa de não me preocupar mais ainda.
Minha mãe. Sábia, ela. Sofreu um tempo, emagreceu, secou mesmo, depois se abstraiu do problema e foi cuidar da vida, o que incluía algumas viagens em excursão. Voltava alegre e contando as novidades, sabendo que de tudo eu me ocuparia e que, se houvesse algum problema mais sério, a mandaria buscar. Achava bom que ela cultivasse sua leveza, sempre nos foi um refrigério.
Naquele domingo, porém, notei que a expressão de meu pai mudara, e nada tinha daqueles esgares estranhos, tampouco daquela indiferença. Ele sorria. Esticando o pescoço em direção à janela, ele sorria. Ele se alegrava. Não tardou e percebi que ouvia o jogo transmitido pelo rádio de um vizinho. Um jogo de futebol entreouvido pelo rádio, ora veja. Falei com meu filho, que se informou sobre o campeonato e ali decidi que levaria meu pai à final no Maracanã. Ninguém se admirou e, como num pacto silencioso, a “operação maraca” foi minimamente planejada.
O barulho da turba em dia de final de campeonato estadual, num clássico Fla-Flu, não era brincadeira, era de se arrepiar até a alma. Empurrando uma cadeira de rodas, então, cercada de pessoas selecionadas para a empreitada – porteiros, vizinhos, acompanhante e folguista – foi inusitado. Nunca fomos convencionais mesmo.
Meu pai de início se assustou, depois começou a sorrir e enrubesceu algumas vezes com as tentativas de gol de ambos os times. Quando um deles marcou um gol, ele entendeu que se tratava do time adversário e fez uma expressão contrariada. Ele estava se dando conta. Em cinco anos, nunca o tinha visto assim. E quando, finalmente, seu time, o eterno Flamengo, virou o jogo, ele vibrou. Ele vibrou por duas vezes e, por duas vezes, gritou “gol!” com todo o seu vigor de outrora.
Ao final do jogo, antes um pouco de irmos embora, a trupe toda, ele me fez um sinal e abaixei para ouvi-lo dizer: “O seguinte: Garcia, Tomires, Pavão, Jadir, Dequinha, Jordan, Joel, Rubens, Índio, Esquerdinha ou Babá e... e... Evaristo? É Evaristo mesmo? Ando tão ruim da memória...”, ao que indaguei, sem entender nada: “O quê, pai?”, e ele me respondeu: “Esse time aí não está com nada. Esse é que era o time. Campeonato de 53. Você sabe, sou rubro-negro-roxo.”
Eu sempre soube que ele espantaria seu fastio. No 45º minuto do segundo tempo, ele finalmente conseguiu.