domingo, maio 28, 2006
sexta-feira, maio 19, 2006
Almoço com Marcelo
Almoçar com um bom amigo é um refrigério e, mais ainda, se for com um amigo inteligente, gente boa e divertido, como é o Marcelo. Colega de profissão, contemporâneo de faculdade, trabalhou anos no maior escritório de contencioso do Rio de Janeiro e, recentemente, partiu para carreira solo. Elegante, queria que conhecesse seu novo cafofo antes do almoço e lá fui eu, bem feliz por testemunhar sua conquista e também pela promessa de um bom papo. Seu escritório está lindo, novinho em folha, nada sobra, nada falta, e seu sorriso na recepção foi a melhor forma de boas-vindas que eu poderia ter. Simpatia é algo insubstituível. Simpatia é a sua marca.
Por sugestão minha, seguimos, após o tour do escritório, para um restôzinho ali perto bem simpático, comida ótima, ambiente agradável, sem maiores sofisticações ou pretensões. Uma casa honesta. Ele não conhecia e adorou.
Advogados adoram falar de advogados. Não são muitos os colegas (que palavra!) divertidos, mas eles se reconhecem no meio. Nós nos encontramos por acaso, assim nos identificamos, e sempre que estamos juntos nos divertimos.
Advogados são vaidosos. Quer dizer, muitos o são, em especial os que não têm senso de ridículo, os de rala auto-crítica e os que menosprezam a inteligência alheia. Junte dois causídicos com um pouco de verve e mais um tanto de peçonha e - voilà! - está feito o caldo saboroso da maledicência inocente, ou o que quer que isso possa ser.
Entre divagações sobre a vaidade, ele me conta um caso impagável e que, em essência, reproduz uma antiga piada cujo protagonista é o Frank Sinatra. A piada não vem ao caso, mas a história é a seguinte: o dono do escritório em que trabalhou, quando conselheiro da OAB, estava numa daquelas chatíssimas plenárias e recebeu de um colega (que palavra!), aqui chamado de Doutor V, um pedido bizarro, que veio precedido de uma vasta e auto-lisonjeira introdução: “Estive na Bolívia, como você sabe, representando a Ordem, participei disso e daquilo, e hoje vou reportar tudo. Lá ganhei uma medalha, a maior que é dada a um advogado visitante, a "Simon Bolívar Pacificador das Américas", mas acho muito cabotino eu mesmo informar isso. Pergunto se você poderia mencionar o fato ao presidente depois da minha palestra, só para não passar em branco”. “Claro, V!”, disse o ex-patrão do Marcelo, “Mas claro!”. Doutor V reportou sua ida à Bolívia, esteve no congresso tal, proferiu palestra qual, aquilo tudo, e, ao terminar, passou à palavra ao presidente; antes, porém, que o presidente seguisse na pauta, interveio o ex-patrão do Marcelo, como combinado: “Senhor Presidente, pela ordem, e apenas para informar ao plenário, gostaria de dizer que o Doutor V foi agraciado na Bolívia, muito merecidamente, com a maior medalha que lá é concedida a um advogado estrangeiro, a “Simon Bolívar...” e, antes que terminasse a frase, foi interrompido pelo próprio Doutor V: “Isso é besteira...”.
Depois dessa, tive que lhe perguntar se ele próprio não tinha uma historinha de “escada”. Não é que tinha? Ou quase. É a seguinte: ajudando um tio seu que é artista plástico num caso não jurídico, tinha constantes contatos com um ícone da arquitetura brasileira. Certo dia, em reunião com portentosos e potenciais clientes, o ex-patrão junto e tudo o mais, é interrompido no viva voz por sua secretária, que, constrangida, informava que o arquiteto estava ao telefone, que reclamara de sua indisponibilidade momentânea e que queria lhe falar com urgência. Reage então o Marcelo - pedindo licença para atender o telefone, meneia a cabeça com ar de enfado e fala baixinho, como se pensasse alto: “Oscar me enche o saco”.
Por sugestão minha, seguimos, após o tour do escritório, para um restôzinho ali perto bem simpático, comida ótima, ambiente agradável, sem maiores sofisticações ou pretensões. Uma casa honesta. Ele não conhecia e adorou.
Advogados adoram falar de advogados. Não são muitos os colegas (que palavra!) divertidos, mas eles se reconhecem no meio. Nós nos encontramos por acaso, assim nos identificamos, e sempre que estamos juntos nos divertimos.
Advogados são vaidosos. Quer dizer, muitos o são, em especial os que não têm senso de ridículo, os de rala auto-crítica e os que menosprezam a inteligência alheia. Junte dois causídicos com um pouco de verve e mais um tanto de peçonha e - voilà! - está feito o caldo saboroso da maledicência inocente, ou o que quer que isso possa ser.
Entre divagações sobre a vaidade, ele me conta um caso impagável e que, em essência, reproduz uma antiga piada cujo protagonista é o Frank Sinatra. A piada não vem ao caso, mas a história é a seguinte: o dono do escritório em que trabalhou, quando conselheiro da OAB, estava numa daquelas chatíssimas plenárias e recebeu de um colega (que palavra!), aqui chamado de Doutor V, um pedido bizarro, que veio precedido de uma vasta e auto-lisonjeira introdução: “Estive na Bolívia, como você sabe, representando a Ordem, participei disso e daquilo, e hoje vou reportar tudo. Lá ganhei uma medalha, a maior que é dada a um advogado visitante, a "Simon Bolívar Pacificador das Américas", mas acho muito cabotino eu mesmo informar isso. Pergunto se você poderia mencionar o fato ao presidente depois da minha palestra, só para não passar em branco”. “Claro, V!”, disse o ex-patrão do Marcelo, “Mas claro!”. Doutor V reportou sua ida à Bolívia, esteve no congresso tal, proferiu palestra qual, aquilo tudo, e, ao terminar, passou à palavra ao presidente; antes, porém, que o presidente seguisse na pauta, interveio o ex-patrão do Marcelo, como combinado: “Senhor Presidente, pela ordem, e apenas para informar ao plenário, gostaria de dizer que o Doutor V foi agraciado na Bolívia, muito merecidamente, com a maior medalha que lá é concedida a um advogado estrangeiro, a “Simon Bolívar...” e, antes que terminasse a frase, foi interrompido pelo próprio Doutor V: “Isso é besteira...”.
Depois dessa, tive que lhe perguntar se ele próprio não tinha uma historinha de “escada”. Não é que tinha? Ou quase. É a seguinte: ajudando um tio seu que é artista plástico num caso não jurídico, tinha constantes contatos com um ícone da arquitetura brasileira. Certo dia, em reunião com portentosos e potenciais clientes, o ex-patrão junto e tudo o mais, é interrompido no viva voz por sua secretária, que, constrangida, informava que o arquiteto estava ao telefone, que reclamara de sua indisponibilidade momentânea e que queria lhe falar com urgência. Reage então o Marcelo - pedindo licença para atender o telefone, meneia a cabeça com ar de enfado e fala baixinho, como se pensasse alto: “Oscar me enche o saco”.
Marcelinho, que agora está solito pero contento, meu fraternal abraço. E muito, muito sucesso!
terça-feira, maio 02, 2006
A Greve
Muito barulho por nada, muito peido e pouca bosta (como gosta de dizer meu pai em dias desbocados), muita discussão, muita comoção. Prós e contras. O potin do momento. O esposo (agora é esposo e esposa, não sei dizer o porquê de o elegante tratamento de marido e mulher ter sido legado ao esquecimento) da suposta governadora deste combalido Estado do Rio de Janeiro resolveu fazer greve de fome. E, estranhamente - bem estranhamente -, este fato não me arrancou um fiapo de compaixão. Ou de raiva. Ou de retórica. Nada. Nada mesmo.
Francamente, I don’t give a damm shit.
Aliás, estranhamente, não. Porque é verdade que por um desses tortuosos expedientes de que se vale a psique já faz um tempo que não acompanho mais o cenário político. Leio, não muito freqüentemente, aqui e acolá, alguma coisa, umas notas esparsas, um comentário ligeiro. Não discuto mais com ninguém sobre este assunto, e olha que teria assunto. Abstraio-me quando a discussão é esta. Parece que fui tomada por uma repulsa, uma aversão a tudo o que diz respeito a partidos políticos, a políticos, a câmaras, a assembléias, a colegiados. Melhor dizendo: a pessoas neste estado gregário. Nem mais o temor que uns ou outros se arroguem no poder me move.
Honestamente, je m’en fiche carrément.
E não sei o que aconteceu. Quer dizer, sei, mas não quero saber do que sei. Quero, apenas, me dar o auxílio luxuoso do esquecimento - e do silêncio. Não quero mais constatar a triste realidade que são estes os nossos políticos, que são estes os que elegemos, que ninguém se interessa em fazer política partidária, que é este o retrato da sociedade brasileira. Quero ignorar que não alcançamos, em pleno século XXI, um nível razoável de organização.
Sinceramente, pouco se me dá.
E pensar que ainda tem a propaganda política gratuita pela frente.
Francamente, I don’t give a damm shit.
Aliás, estranhamente, não. Porque é verdade que por um desses tortuosos expedientes de que se vale a psique já faz um tempo que não acompanho mais o cenário político. Leio, não muito freqüentemente, aqui e acolá, alguma coisa, umas notas esparsas, um comentário ligeiro. Não discuto mais com ninguém sobre este assunto, e olha que teria assunto. Abstraio-me quando a discussão é esta. Parece que fui tomada por uma repulsa, uma aversão a tudo o que diz respeito a partidos políticos, a políticos, a câmaras, a assembléias, a colegiados. Melhor dizendo: a pessoas neste estado gregário. Nem mais o temor que uns ou outros se arroguem no poder me move.
Honestamente, je m’en fiche carrément.
E não sei o que aconteceu. Quer dizer, sei, mas não quero saber do que sei. Quero, apenas, me dar o auxílio luxuoso do esquecimento - e do silêncio. Não quero mais constatar a triste realidade que são estes os nossos políticos, que são estes os que elegemos, que ninguém se interessa em fazer política partidária, que é este o retrato da sociedade brasileira. Quero ignorar que não alcançamos, em pleno século XXI, um nível razoável de organização.
Sinceramente, pouco se me dá.
E pensar que ainda tem a propaganda política gratuita pela frente.
quarta-feira, abril 26, 2006
c'est la vie (shit happens)
Chegava com seu andarzinho malemolente, sua voz a anunciá-la à distância, uma voz metálica com que jactava seu enorme feito de ser ela mesma. Maravilhosa, perfeita, filhos e marido idem, um verdadeiro casal 20 pós-moderno, com direito a todo o consumo possível, férias para esquiar, carro tipo bunker, vários serviçais, casa reformada etc. Uma falta de imaginação única, mas, verdade seja dita, tudo no melhor estilo, tudo bem fake para ser o mais real possível. Incrível a mediocridade de tudo o que se cercava, e por sua própria opção. Lá vinha ela para receber a notícia que não esperava e que metade do mundo já sabia.
Quase ninguém, no fundo, sentiu pena. Um certo constrangimento de o saber de véspera; aliás, de o saber há muito tempo. Remanejamentos feitos, não lhe sobrara mais lugar no trabalho, outra o ocupou e da voz metálica ninguém sentiu falta. Nem do seu pontificar a respeito de restaurantes e afins, lugares in e out, o que se devia ou não vestir, sapatos e bolsas tais e quais e otras cositas más. Sempre haveria lugar no mundo para tudo aquilo, claro, parte da humanidade arrota grandeza, outra a esnoba e o resto a cobiça. Apenas parece que havia um certo cansaço dela, um cansaço do seu excesso. Quanta falta de autenticidade, quanta tolice tão primorosamente cultivada, quanta ignorância. Tivesse perdido mais tempo adquirindo cultura teria tido melhor sorte. Falaria línguas, saberia de outros mundos, de literatura, quem sabe até de poesia. Certamente artes plásticas seriam defendidas com unhas e dentes ou reduzidas a pó, porque pontificar para ela era um must. Triste geração criada com muita coisa e quase nada. Sem densidade, faltava-lhe utopia, faltava-lhe destemor, estava praticamente reduzida a ser um prêt-à-porter tamanho único. Uma prova de múltipla escolha. Um besteirol banal.
A notícia foi dada por escrito, uma simples carta e mais nada. Discursos e agradecimentos foram dispensados porque era um salve-se quem puder. Cada um que livrasse o seu couro e já estava bom, para que perder tempo com alguém que anunciava que seu salário era só para seus alfinetes? Não havia sentido. Disseram que depois de ler a carta a engoliu como um apontador de jogo do bicho quando chega a polícia. Bobagem, lenda urbana. Maldade, até. Engoliu em seco, isso sim, esvaziou sua mesa e saiu tão rapidamente que não sobrou tempo para um até breve.
Parece que uma coluna social recentemente noticiara que estava passando uma temporada em Londres com os filhos, medo da violência urbana. Não era o fim do mundo para quem se viu numa situação de dispensa sem rodeios, choro ou vela. Talvez até uma recompensa por um trauma tão irreparável com que mimosamente lhe agraciou o marido dominado. É até possível que se arranje por lá em algum séquito, porque ainda deve haver algum último snob aspirante à nobreza.
Enfim, c'est la vie. Shit happens.
Quase ninguém, no fundo, sentiu pena. Um certo constrangimento de o saber de véspera; aliás, de o saber há muito tempo. Remanejamentos feitos, não lhe sobrara mais lugar no trabalho, outra o ocupou e da voz metálica ninguém sentiu falta. Nem do seu pontificar a respeito de restaurantes e afins, lugares in e out, o que se devia ou não vestir, sapatos e bolsas tais e quais e otras cositas más. Sempre haveria lugar no mundo para tudo aquilo, claro, parte da humanidade arrota grandeza, outra a esnoba e o resto a cobiça. Apenas parece que havia um certo cansaço dela, um cansaço do seu excesso. Quanta falta de autenticidade, quanta tolice tão primorosamente cultivada, quanta ignorância. Tivesse perdido mais tempo adquirindo cultura teria tido melhor sorte. Falaria línguas, saberia de outros mundos, de literatura, quem sabe até de poesia. Certamente artes plásticas seriam defendidas com unhas e dentes ou reduzidas a pó, porque pontificar para ela era um must. Triste geração criada com muita coisa e quase nada. Sem densidade, faltava-lhe utopia, faltava-lhe destemor, estava praticamente reduzida a ser um prêt-à-porter tamanho único. Uma prova de múltipla escolha. Um besteirol banal.
A notícia foi dada por escrito, uma simples carta e mais nada. Discursos e agradecimentos foram dispensados porque era um salve-se quem puder. Cada um que livrasse o seu couro e já estava bom, para que perder tempo com alguém que anunciava que seu salário era só para seus alfinetes? Não havia sentido. Disseram que depois de ler a carta a engoliu como um apontador de jogo do bicho quando chega a polícia. Bobagem, lenda urbana. Maldade, até. Engoliu em seco, isso sim, esvaziou sua mesa e saiu tão rapidamente que não sobrou tempo para um até breve.
Parece que uma coluna social recentemente noticiara que estava passando uma temporada em Londres com os filhos, medo da violência urbana. Não era o fim do mundo para quem se viu numa situação de dispensa sem rodeios, choro ou vela. Talvez até uma recompensa por um trauma tão irreparável com que mimosamente lhe agraciou o marido dominado. É até possível que se arranje por lá em algum séquito, porque ainda deve haver algum último snob aspirante à nobreza.
Enfim, c'est la vie. Shit happens.
segunda-feira, abril 24, 2006
Salve, Jorge!
quarta-feira, abril 19, 2006
quinta-feira, abril 13, 2006
Tentação
Lá vem ele se insinuando, aquele insidioso. Aproxima-se lentamente, me olha de esguelha, depois me encara. Fica assim um tempo: me olha como se não me conhecesse, como se quisesse decifrar um estranho, depois segue seu rumo. Não por muito tempo. Volta, flerta comigo com sua autoconfiança irritante, sabe-se um sedutor. Quer me vencer pelo cansaço e temo que consiga. Ai, como me cansa resistir, como me consome esta atitude de permanente guarda sempre que ele aparece. Quanto esgotamento. Perco o sossego, perco o foco, e tenho que me concentrar, tenho coisas para ler, tenho coisas em que pensar, tenho coisas para escrever. Estou ocupada, não percebe? Não posso vadiar. De mim, só quer uma coisa: me ter na cama. Apenas isso, nada além. Não me iludo. E me faz promessas, me abre possibilidades, ele e sua miríade de possibilidades. Safado. Ele e suas tantas oportunidades. Insolente! “Porque não?” diz, sorrindo de soslaio, virando o rosto para novamente me olhar, descansando a vista num ponto em mim que não descubro qual. Digo mais uma vez que não. Entende? É não e não. Preciso resistir. Eu vou resistir.
Mas agora, a essa hora... Ah, cansei, não agüento mais. Reconheço que não tenho mais forças para resistir. Rendo-me. Estou vencida, esgotada, exausta. Morta. Trabalhei muito hoje.
Vamos, Morfeu, vamos. Vamos à cama, já é tarde.
E amanhã acordo cedo.
sexta-feira, abril 07, 2006
Volta
há um certo prazer
em revelar a verdade
e logo a você, confesso
houve um quê de revanche
seu silêncio eloqüente
sua supresa contida
ah, se eu soubesse
diria tudo bem antes
em revelar a verdade
e logo a você, confesso
houve um quê de revanche
seu silêncio eloqüente
sua supresa contida
ah, se eu soubesse
diria tudo bem antes
quarta-feira, abril 05, 2006
Fudevú de Cassarolê
Estávamos eu e meu coleguíssima de repartição, LP, dando conta de nossos infindáveis prazos judiciais naquela manhã comum, como de resto em todos os nossos dias úteis, talvez também os inúteis, com a costumeira sensação de sermos uns gatos correndo atrás dos próprios rabos. Militantes há muito tempo – ele, de militância, tem quase a minha idade - teclávamos sem parar, cada um no seu ritmo, em silêncio, sentados um defronte ao outro. Cafezinhos, cigarrinhos e códigos legais eram a nossa vida. Nossos diálogos, econômicos, eram mais ou menos assim: “Sollamí, os declaratórios estão no 535?”. E eu: “Sim, e o cerceamento de defesa na constituição, é no 5º LV, não? Nunca lembro”. Seria uma manhã normal de um dia ordinário, não fosse o inesquecível 11 de setembro de 2001. Um pouco mais tarde, mas ainda pela manhã, nosso chefe, CH, entra na sala esbaforido: “Deu merda em Nova Iorque, um avião atingiu um prédio.” Acorremos ao Globo Online que já estampava a foto de uma das torres em chamas; a notícia, porém, era lacônica. “Que coisa, heim, LP? O que será que aconteceu?”, indaguei. “Sei lá”, disse ele, “mas vão ter muita poeira para limpar.” Não poderíamos imaginar quanta. Terminei um prazo, comecei outro e reapareceu CH, agora transtornado: “Meu filho me ligou dizendo que um avião caiu no Pentágono”. Paramos os dois, nos olhamos os três, e fez-se o vácuo do silêncio, a dúvida pairando no ar. Falei, meio desolada: “pô, LP, será que o mundo está acabando e a gente está aqui cumprindo prazo?" E já meio transtornada: "E agora?”, ao que me redargüiu ele, com sua costumeira fleuma, pronto para sair para o almoço, ajeitando a gravata no reflexo da janela: “Como diria aquele meu amigo que tomou posse no tribunal regional do trabalho ontem, aquele com quem eu tomo um uísque no Jockey às quartas, sabe?" E se virou para mim, categórico: "É fudevú de cassarolê, Sollamí. Fu-de-vú!”.
Nunca me senti tão fudevú.
Nunca me senti tão fudevú.
domingo, abril 02, 2006
Coisas Redentoras
cirurgia corretiva de miopia, xixi da cerveja, parar de fumar, dormir na própria cama depois de um dia de trabalho, telefonema de amigo no dia do aniversário, zerar a fatura do cartão de crédito, perdoar, ser perdoado, banho de mar num dia quente de verão, feriado vadio no meio da semana, feriados em geral, tirar férias e se atirar para trás, exame de saúde ok, encher o tanque de gasolina, parceiro que sabe (e gosta de) cozinhar, o sim quando se espera o sim, o não quando se precisa do não.
Coisas Medonhas
fila de banco, fila de banco com alguém à frente que usa shampoo anti-caspa, homem baixinho com calça de prega, mulher de terninho 100% poliéster, gente que acorda de mau humor, gente que acorda falando sem parar, pessoas que não opinam, pontificam, gente excessivamente blasée, gente excessivamente animada, excessos em geral, restaurante a quilo, restaurante a quilo no domingo, telefone celular, toques de celular infames, empresas de telefonia celular, cerveja quente, vinho merlot, vinho de teor alcoólico 13º, problema de atitude, ego estridente, ego indômito, academia de ginástica, cheiro de academia de ginástica, professor de ginástica que grita, falso discurso de "carmelita descalça", livro ruim, música de bate estaca, tosse, exame de saúde, sala de espera para fazer exame de saúde, acampamento, acampamento dentro de casa, perfume muito doce, naftalina, tomada quebrada, falta de papel higiênico, elevador, ataque de riso dentro do elevador, gafes alheias, gafes próprias, gafe de padre, padre italiano velho que ninguém entende nada o que fala, prova de matemática, véspera de prova de matemática, pesadelo, insônia, cachorro doente.
p.s. esta listagem poderá ser atualizada, contanto que não vire obrigação. porque obrigação é outra coisa medonha e este blog aqui é só hobby, nada de compromisso.
p.s. esta listagem poderá ser atualizada, contanto que não vire obrigação. porque obrigação é outra coisa medonha e este blog aqui é só hobby, nada de compromisso.
sexta-feira, março 24, 2006
Aterro do Flamengo

Venha, meu bem, cole, cole bem nas minhas costas, mas cole mesmo, sem medo. Eu não vou me mexer nem um milímetro. Ultrapasse pela esquerda, ou pela direita, se preferir, mas ultrapasse mesmo, voando baixo nesse seu carrão, esse off-road totalmente injustificável para a lida urbana. Pise mais fundo que seus compromissos não podem esperar. Como alguém ousa te atrasar? Seus hedges, seus derivativos, suas reuniões tão agendadinhas... Todos à sua espera. Quanta premência. Que vida.
Eu vou devagar. Não que eu não tenha pressa, mas é que depois de passar por aquela Enseada tão caprichosamente recortada e de dar te cara com esta pedra lavada (choveu) brilhando sob o sol (feérica, esta manhã de outono, tão azul, tão azul) chamada Pão de Açúcar eu tive um verdadeiro spleen. Ignoro se as endorfinas se derramaram em meu cérebro, tal qual uma sinfonia orgiástica. Talvez efeito da caminhada, sei lá. Eu estou a setenta por hora e estou assim porque quero, simplesmente porque quero ver esta maravilha. Honey, eu estou até sorrindo ao dirigir, e faz tempo que eu não gosto mais de dirigir.
Mas é que as quaresmeiras floriram, e nunca vi tanto carandá junto. Tem montinhos de palmeiras-de-macarthur à direita, aquelas árvores que parecem japonesas (na origem devem ser) adiante, à esquerda. E um tronco depois do outro, depois do outro, depois do outro, depois do outro. Nunca vi tanta árvore junta. Há milhares de árvores-do-viajante no fim do retão, todas enormes. Percebi hoje uma amhrestia nobilis perto do MAM.
Lamento, mas não vou jogar tudo fora no desvão da tua pressa, ainda me restam esses sete preciosos minutos antes de mais um dia. É pena que você os tenha perdido. Sinceramente, faço votos que os recupere em breve.
É que as cássias ameaçam uma inflorescência extemporânea. Percebe?
sexta-feira, março 03, 2006
Gainsbarre

Afirmada e reafirmada em minha petulância, digo que você só não se casou comigo porque não me conheceu: tivéssemos nos encontrado lá pelos meados dos anos 80, eu novinha, mignonzinha e brunette, do Riô de Janeirô e falando francês, seriam favas contadas. Mas ali quem estava era Bambou (antes teria sido muito cedo para mim) e reconheço que não sou tão doida quanto ela. Nem tão pervertida. E era das doidas e pervertidas que vc gostava.
Tampouco adianta Jane Birkin passar o resto da vida fazendo beicinho, se intitulando sua musa para sempre, você teria me preferido. Um olhar atento (o de Charlotte) revela que o casamento de vocês dois não te foi nada grato, você vendia pouco, sua produção era escassa, e a inspiração, quase nenhuma. Ser um casal querido da midia não te garantia o pão e não te garantia a arte. Você sofreu de tédio, reconheça. Prefiro Bambou, talvez porque era uma suicida inveterada, talvez por você tê-la salvo da morte e dela mesma muitas vezes, mas sobretudo por você ter lhe dado um filho. Caramba, Gains, você teve a coragem de fazer um filho naquela louca...
Ouso repetir, Serge, você teria se casado comigo, mas você partiu de vez um pouco antes de eu ter te descoberto. Quando ouvi "Le Zénith de Gainsbarre" pela primeira vez vibrou em mim uma revolução. Eu esperava exatamente o que lá estava e sequer sabia que esperava, mas, ao ouvir, reconheci imediatamente aquela espera, aquela espera por você, e tudo o que se seguiu naquela temporada vinha embalado para presente, você o embrulho. Eu estava pronta, Serge Gainsbourg.
Mas você se fora uns anos antes e agora, quinze anos depois de sua partida, novas homenagens. Gostei de saber que Charlotte passou o último par de anos enfurnada no escritório de sua casa abrindo pastas, lendo, catalogando. E que tudo vai virar livro. E que novas provocações suas virão. E que vou ter que aguentar o beicinho da vovó-Birkin, mas tudo bem.
Porque vou ver tudo de novo, todas as suas reprises, especiais de tevê, matérias nos jornais, muitas fotos. Ouvirei sua voz falando, cantando. Acho que reconheceria em mil anos a tua voz. Tudo de novo e ainda não será tudo, porque você é inesgotável. Nunca me cansa.
Creia-me, você teria se casado comigo, e nos esgarçaríamos as almas e nos cansaríamos os corpos. Conversaríamos horas, nos divertiríamos um com o outro. E você teria gostado bem, antes que virássemos apenas amigos. Aux armes, Serge. Etcetéra.
Eu juro a você que nunca entendi porque Nicô vive dizendo que eu deveria ter me casado com um intelectual de óculos.
quinta-feira, março 02, 2006
quieta...
... em meu canto, mas não tão quieta assim. Os quietos são bem menos quietos do que parecem ser, guardam muitos pensamentos, palavras, atos etc. Não se enganem com os quietos pensando que não pensam, que não falam, que não se encorajam. Guardam-se, ou não, aventuram-se, ou não, mas estão no mundo, existem, pensam. E muito. Não necessariamente nesta ordem.
E, depois de falar muito por aí em blogs alheios, aqui estou.
Oi!
E, depois de falar muito por aí em blogs alheios, aqui estou.
Oi!
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